SANSÃO

Dedicado a Deus desde o ventre para libertar Israel da opressão filisteia, Sansão cresce com uma força sobrenatural depositada em seus cabelos.
No entanto, sua trajetória é marcada por um temperamento explosivo e paixões perigosas por mulheres inimigas.
Após uma série de vinganças e prodígios militares, ele se entrega ao amor por Dalila, que o trai ao revelar o segredo de sua força aos filisteus.
Capturado e cegado, Sansão encontra em seu último sacrifício a redenção: clama a Deus por uma última dose de poder e derruba o templo sobre seus opressores, selando seu destino como um herói trágico que governou seu povo por vinte anos.


PERSONAGENS:
Narrador (Sansão) –
Anjo –
Mãe de Sansão –
Manoá (Pai de Sansão) –
Sansão –
Irmãos de Sansão – 1 –
2 –
3 –
Homens de Judá – 1 –
2 –
3 –
4 –
Sogro –
Dalila –
Governadores das 5 cidades – 1 –
2 –
3 –
4 –
5 –
Chefe dos Filisteus –
Povo Filisteu –
NARRADOR: Meu tempo na terra já passou.

Foi a mais de mil anos antes de Cristo. E agora de longe insisto em dizer:
Foi duro viver! Uma guerra sem fim.
Matei, apanhei, ganhei, perdi. Nem sabia bem de mim.
A história da minha vida eu conto em partes, assim:
Minha mãe já estava desistindo de ter filhos. Ela bem que tentava mas eles nunca vinham.
Até que um dia apareceu um anjo de Deus e deu a boa notícia.
ANJO: Você não podia ter filhos, por isso nunca foi mãe.
Mas agora você ficará grávida e terá um filho.
Não tome vinho, nem bebida forte e não coma nenhuma comida proibida, porque você ficará grávida e dará a luz a um filho.
Não corte nunca o cabelo dele, pois ele será consagrado a Deus como Narizeu desde o dia de seu nascimento.
Ele vai começar a livrar o povo de Israel do poder dos filisteus.
NARRADOR: Os filisteus tinham vindo de longe e queriam mandar, a ferro e a fogo, sobre todas as tribos de Israel, que eram doze.
Desde o ventre de minha mãe eu estava sendo chamado para guerrear contra eles, que dominavam o meu povo. Mamãe, feliz da vida, foi correndo contar a meu pai.
MÃE DE SANSÃO: Manoá, Manoá…
Um homem de Deus falou comigo.
Ele parecia um anjo e isso me deixou apavorada.
Eu não perguntei de onde ele vinha, e ele não me disse como se chamava.
Mas prometeu que eu ficarei grávida e terei um filho.
E mandou que eu não bebesse vinho e nem bebida forte e não coma nenhuma comida proibida, pois o menino será dedicado a Deus como Narizeu por toda a vida.
NARRADOR: Meu pai era um dos homens mais desconfiados da nossa tribo, chamada tribo de Dã.
Achava que minha mãe sonhava demais. Então rezou com força.
MANOÁ: Ó Deus Eterno, peço que mandes de volta o homem que enviaste, para ele nos dizer o que devemos fazer com a criança quando nascer.
NARRADOR: O anjo apareceu outra vez. Mas de novo mostrou-se só para minha mãe. Ela estava trabalhando a terra e foi correndo avisar meu pai. E ele voou para o campo! O anjo ainda estava lá, sentado calmamente numa pedra. Meu pai encheu-o de perguntas.
MANOÁ: Você é o homem que falou com a minha mulher?
ANJO: Sim, eu mesmo.
MANOÁ: Quando acontecer o que você falou, como é que o menino deverá agir?
O que deverá fazer?
ANJO: A sua mulher deve fazer tudo o que eu já disse a ela.
Não vai comer nada que seja feito de uvas, nem vinho, nem bebida forte, nem coma o que for proibido e nem corte o cabelo do menino.
Ela deverá fazer tudo isso.
MANOÁ: Por favor, não vá embora ainda.
Espere, que nós vamos cozinhar um cabrito para você.
ANJO: Se eu ficar, não comerei sua comida.
Mas se você quiser prepará-la, então a queime como oferta ao Deus Eterno.
MANOÁ: Qual é o seu nome?
Nós precisamos saber para podermos prestar-lhe uma homenagem quando acontecer o que você disse.
ANJO: Por que você quer saber o meu nome?
O meu nome é um mistério.
NARRADOR: A noite chegara.
Meu pai, então, assou o cabrito e fez um sacrifício a Javé-Deus, ali mesmo na pedra onde o anjo estava sentado.
Quando a fumaça subia ao céu, o anjo também subiu, junto com a chama mais alta que brilhava na escuridão.
Papai ficou com muito medo.
MANOÁ: Nós vamos morrer porque vimos a Deus!
MÃE DE SANSÃO: Se o eterno nos quisesse matar, não teria aceitado nossas ofertas.
Ele não nos teria mostrado tudo isso, nem falado todas essas coisas.
NARRADOR: Então, depois de nove meses, minha mãe deu à luz.
Ganhei esse nome: Sansão.
Cresci feliz no acampamento, vendo os meus pais trabalharem a terra.
Eu ajudava nas colheitas, e aprendi a ter raiva dos filisteus, que mandavam e desmandavam no meu povo.
Meus cabelos cresciam em caracóis e muita gente dizia:
Sansão, você é ainda um aprendiz, mas logo será nosso chefe, nosso juiz!
E assim fui ficando adulto.
Um rapaz agitado, meio da “pá virada”, virada mesmo.
Não é que fui me apaixonar por uma filisteia?
Vi a moça linda, na cidadezinha de Tanna.
E aprendi que o coração tem razões que a razão desconhece:
Como fui gostar de uma inimiga, filha do povo que nos atrapalhava a vida?
Meus pais vendo o meu jeitão estranho, distante, perceberam que alguma coisa estava acontecendo comigo.
Eu abri o jogo, contei que meu coração quase saía pela boca quando vi a moça.
Eles não gostaram.
SANSÃO: Eu vi em Tanna uma jovem filisteia.
Estou apaixonado.
Peçam essa moça para mim.
Porque eu quero casar com ela.
MANOÁ: Por que é que você foi procurar mulher no meio dos filisteus?
Aquela gente que não pratica a circuncisão?
MÃE DE SANSÃO: Será que você não podia achar mulher no meio de nossos parentes ou entre o nosso povo?
SANSÃO: É aquela moça que eu quero. É dela que eu gosto.
NARRADOR: A situação me confundiu, embaralhou meus pensamentos.
E quando isso acontecia eu perdia o controle.
Ia sempre a Tanna, para ver minha amada.
Certa vez estava perto da cidade, numa montanha cheia de vinhedos, quando um leão surgiu na estrada.
E veio rugindo em minha direção!
Foi aí que eu senti a força das minhas mãos.
Despedacei o bicho como se fosse um franguinho… “ Nada vai impedir esse amor…” pensei.
Pensei e agi: Casei-me com ela.
É claro que dei uma grande festa, para comemorar como era de costume.
Um banquete! Antes dessa festança numa das vezes que percorria o caminho até a casa dela, saí da estrada para ver o leão morto.
Na sua carcaça encontrei um enxame de abelhas!
E o mel, o mais doce que já havia provado. “Da minha força também vem doçura.” No banquete a imagem do leão e do mel não saía da minha cabeça. Então, provoquei alguns convidados com uma adivinhação:
SANSÃO: Eu tenho uma adivinhação para vocês.
Aposto 30 túnicas de linho puro e 30 roupas finas que antes de se passarem os sete dias da festa de casamento, vocês não me darão a resposta.
Filisteus (convidados): Diga então. Qual é a adivinhação, Sansão?
SANSÃO: “Do que come saiu comida e do forte saiu doçura.”
NARRADOR: Três dias depois eles ainda não tinham encontrado a reposta para a adivinhação.
No quarto dia disseram a minha mulher.
FILISTEUS: Dê um jeito de fazer o seu marido dar-lhe a resposta da adivinhação.
Se você não fizer isso, nós vamos por fogo na casa de seus pais, e vamos queimar você junto. Vocês só nos convidaram para poder roubar-nos, não foi?
Mulher: (à Sansão) Você não me ama! Você me odeia! Você deu uma adivinhação a meus amigos e não me contou a resposta!
SANSÃO: Eu não contei nem a meu pai e nem à minha mãe. Por que acha que iria contar a você?
NARRADOR: O riso virou pranto! Ela chorava no meu ombro toda hora, dia após dia.
Queria saber a resposta da charada. Uma curiosidade exagerada, esquisita. Os jovens filisteus insistiam com ela, e ela me implorava. A festa estava ficando chata. Até que no sétimo dia eu não aguentei e contei para ela.
FILISTEUS: Que coisa é mais doce que o mel? E que é mais forte que o leão?
SANSÃO: Se vocês não tivessem conversado com a minha mulher, não saberiam a resposta.
NARRADOR: Fiquei uma fera e fui até a cidade de Ascalon, também tomada pelos filisteus.
Fora de mim, matei 30 homens e roubei suas roupas e dei para os que tinham acertado a resposta da charada.
E voltei para Dã, para meus pais, para a minha tribo. Perdi a cabeça e minha mulher.
Um tempo depois, na época da colheita de trigo, bateu uma saudade forte e resolvi voltar a Tanna.
Levei um cabrito para comemorar o reencontro com minha mulher.
SANSÃO: Quero entrar no quarto de minha mulher.
SOGRO: Eu pensei que você a odiava, por isso a dei em casamento ao seu amigo. Mas a irmã menor é ainda mais bonita. Se você quiser pode ficar com ela.
SANSÃO: Desta vez não serei responsável pelo que eu fizer com os filisteus.
NARRADOR: Guerra é guerra.
Olhei para os trigais, tão bonitos e não pensei duas vezes.
Juntei trezentas raposas, amarrei tochas de fogo nos seus rabos e soltei pelas plantações dos filisteus.
Foi um arraso! Destruí os campos, os feixes de trigo já colhido, as vinhas e oliveiras.
Semeei a fome entre os filisteus! Eles ficaram loucos.
E, com medo da minha força, trataram de desforrar em cima do pobre sogro e da minha ex-mulher.
Pagaram na mesma moeda: Atearam fogo na casa deles, e, com isso, incendiaram ainda mais o meu coração revoltado.
SANSÃO: Desgraçados! Pois eu juro que não descansarei até que paguem por isto!
NARRADOR: Pulei sobre alguns deles, bati, apanhei, matei, mas não morri:
Fugi, fiquei escondido numa gruta, na caverna da rocha de Etã.
A região estava em pé de guerra. As tribos de Judá ficaram encurraladas pelos filisteus, e o culpado era eu.
HOMENS DE JUDÁ: Por que vocês nos atacaram?
FILISTEUS: Viemos aqui para prender Sansão e fazer com ele o mesmo que ele fez com a gente.
HOMENS DE JUDÁ: (à Sansão) Você não sabe que os filisteus mandam em nós? Por que você foi fazer aquilo?
SANSÃO: Eu fiz com eles o que eles fizeram comigo.
HOMENS DE JUDÁ: Os filisteus estão atrás de você. Nós vamos entregá-lo, pois se não fizermos isso eles se vingarão em todos nós.
SANSÃO: Então prometam que vocês não me matarão, e eu não permitirei que eles lhe façam mal.
HOMENS DE JUDÁ: Nós vamos somente amarrar você e entregar aos filisteus, não vamos matá-lo.
NARRADOR: E fui entregue. Mas espírito do Deus Eterno, mais uma vez entrou em mim. As cordas pareciam barbante fino, e logo livrei minhas mãos. Perto de mim estava uma queixada de jumento, que transformei em arma de luta. Vitorioso cantei.
SANSÃO: “ Com uma queixada de burro eu os amontoei,
com uma queixada de burro, mil homens matei.”
NARRADOR: Fui até a cidade de Gaza, sem medo dos filisteus. E logo uma mulher me atraiu. Fui para o aconchego de seu quarto. Todo mundo viu o repouso do guerreiro… Os filisteus não iam perder essa chance!
FILISTEUS: Pela manhã o mataremos!
NARRADOR: Mas eu não era tão desligado assim. Sabia do risco que corria.
À meia-noite me levantei, e, enfurecido arranquei a porta da casa.
A facilidade com que fiz isso, me fez lembrar do leão de Tanna… o bando que me cercava ao redor da casa levou um susto! Saí da cidade e fui até o alto do monte Hebron. Dessa vez nenhum filisteu quis me enfrentar.
Ah, o amor…
Ele entrava dentro de mim da mesma maneira que o ódio: com muita facilidade.
E não fazia diferença de pessoa, nem criava barreira, nem respeitava fronteira.
Foi então que apareceu Dalila. Eu a vi pela primeira vez no vale de Soreque.
Ela tinha a beleza da terra palestina, pele cor de cobre e cabelos muito pretos.
Os olhos brilhantes como o sol da manhã.
O que eu não sabia é que logo que perceberam o meu interesse por ela, os chefes filisteus a conquistaram antes.
Não por amor, mas por dinheiro!
Governadores das cinco cidades:
Arrume uma maneira de descobrir a fonte da força de Sansão, e como poderemos dominá-lo, e deixá-lo sem defesa.
Se você fizer isso, cada um de nós lhe dará doze quilos e meio de prata.
NARRADOR: Sem saber, foi com Dalila que travei a batalha mais dura de minha vida.
Apaixonado e desconfiado, ouvia todo o dia a mesma pergunta, em meio a beijos e abraços.
DALILA: Por favor, me conte o segredo de sua grande força. Se alguém quiser amarrar-lhe e deixá-lo sem defesa, o que deve ser feito?
SANSÃO: Se me amarrar com sete cordas novas, que não secaram ainda, eu ficarei fraco e serei como qualquer outro ser humano.
NARRADOR: Dalila arrumou as cordas, e me amarrou bem firme. Mas estranho foi ela gritar logo a seguir:
DALILA: Sansão querido, os filisteus vão pegar você!
(Sansão liberta-se num pulo)
DALILA: Até agora você mentiu e caçoou de mim. Por favor, meu querido, me diga como alguém pode amarrar-lhe.
NARRADOR: Mesmo um tanto cego pela paixão, eu percebia alguma coisa esquisita.
E inventei outra história.
Falei para ela me amarrar não com sete, mas com setenta e sete cordas novas.
E minha namorada, toda animada, o fez. Eu vi a pressa dela em me amarrar e a força que ela colocava para dar os nós…
SANSÃO: Que estranho casal somos nós.
NARRADOR: Eu não sabia de seu trato com os chefes dos filisteus. Aliás eu não sabia também do pior: Ela antes de me amarrar, colocava alguns homens escondidos em nosso quarto, para que me pegassem na hora certa. E a senha era aquela:
DALILA: Sansão querido, os filisteus vão pegar você!
(Sansão arrebenta as cordas)
DALILA: Declara-me Sansão, por duas vezes já o meu amor traíste e zombaste, estou intranquila, pois quem ama não mente! Declara-me como posso prendê-lo.
SANSÃO: Se você amarrar com um tear as minhas sete tranças e prendê-las no alto com um pino, ficarei fraco como um pássaro.
DALILA: Sansão querido, os filisteus vão pegar você!
(Sansão solta-se novamente)
DALILA: Por que você diz que me ama se isso não é verdade?
Você me fez de boba três vezes e até agora não me contou o porquê é tão forte.
Você não confia em mim, vive me enganando, é por isso que vou lhe deixar.
SANSÃO: Não me deixe, eu lhe peço.
A navalha nunca passou sobre minha cabeça, pois sou consagrado a Deus, desde o seio de minha mãe.
Se cortarem meu cabelo, perderei minha força e certamente serei igual aos demais no físico de argila.
NARRADOR: Dalila podia ser tudo, menos boba. Sentiu que agora era verdade. E tratou de garantir o seu.
Chamou o chefe dos filisteus e foi bem clara.
DALILA: Primeiro a minha prata!
Vocês prometeram.
Agora vai dar certo, eu garanto.
NARRADOR: Depois de receber o pagamento, preço da minha vida, que entreguei por paixão, começou a opressão.
Ela me fez dormir em seu colo, do jeitinho que eu mais gostava, e chamou um dos guerreiros filisteus para cortar as minhas sete tranças: tremi, com o grito:
DALILA: Sansão querido, os filisteus vão pegar você.
NARRADOR: Só que agora é pra valer.
Não consegui reagir.
Nunca me senti tão fraco!
Eles me agarraram, e tomados por ódio, furaram os meus olhos.
Não tinha mais as tranças que me davam força e nem mais, e nem mais a luz dos meus olhos que iluminavam a vida.
A dor de não ver mais o mundo nem Dalila, permanecer na escuridão de minha desobediência, na dor da traição de meu amor.
Em troca de todo amor que havia lhe dado, recebi cinismo, cadeia e escuridão.
Dalila foi a guerreira mais cruel que encontrei.
Foi a batalha que perdi.
Fiquei prezo em Gaza por duas correntes de bronze.
E trabalhando girava a pedra do moinho.
Minha força , agora igual a dos outros homens, virava pó, farinha. Mas o filisteus, orgulhosos da sua vitória, não percebia que meu cabelo, teimoso, ia crescendo de novo.
Eu era uma atração, a força que virou fraqueza, o vencido que só fazia triturar milho e trigo.
O cego que girava, rodava, caminhava dando voltas como um burro de carga.
CHEFE DOS FILISTEUS: Nosso deus Dagon , entregou o nosso maior inimigo. Deus Dagon derrotou esse que devastou nossas terras e multiplicou nossos mortos.
(Neste momento o povo canta e dança)
CHEFE DOS FILISTEUS: Chame Sansão para ele nos divertir.
SANSÃO: Deixe-me tocar as colunas que sustentam o templo para que eu possa me encostar nelas.
Senhor Eterno, lembra-te de mim.
Esquece os meus tantos erros, os meus muitos crimes, e concede-me a força hercúlia do gigante uma última vez, para que eu me vingue dos filisteus com um só golpe e que paguem com a morte por terem zombado de ti e adorado ao deus Dagon.
(Sansão empurra as colunas do templo)
Que eu morra junto com os filisteus!
NARRADOR: Isso tudo aconteceu amais de mil anos antes de Cristo.
Era um tempo de guerra sem fim, ai de mim.
Ai de tantos que só conheciam o caminho da força para resolver seus problemas.
Contei minha vida assim, de memória, para vocês que escutam agora, possam fazer uma outra história.
Onde a conversa substitua toda atitude perversa.
Onde o coração seja amigo da razão, e a Dalila de Sansão…
E assim governei o povo de Israel por vinte anos.

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