Em Belém, na noite do nascimento de Jesus, o bar da estalagem está cheio, e Levi só quer manter seu negócio funcionando.
Quando um casal desesperado pede abrigo e, depois, pastores chegam procurando um bebê anunciado pelos anjos, a rotina do lugar é quebrada — e também as certezas de quem está ali.
Com diálogos que misturam humor, debate e reflexão, “O Refúgio de Belém” apresenta o nascimento de Jesus a partir do olhar de pessoas comuns.
Sem colocar José e Maria em cena, a peça revela como uma noite aparentemente comum pode transformar corações e mostrar que sempre deve haver espaço para acolher.
Uma montagem envolvente para grupos de teatro cristão, com uma mensagem profunda sobre compaixão, misericórdia, esperança e o verdadeiro sentido do nascimento de Cristo.
São quatro personagens: o dono do bar (um Judeu pragmático), seu jovem assistente, um Judeu dogmático, e seu quase inebriado freguês.
José e Maria não aparecem no palco, mas sua presença é notada durante a peça.
A ação se passa em três cenas: As primeiras impressões com a chegada do casal, a segunda com a chegada dos pastores e a terceira onde todos revelam o impacto do nascimento de Jesus.
Personagens:
LEVI: o dono
JOSUÉ: Trabalha para Levi
JONAS: Simpatizante da religião/instituição Herodiana
ELIAS: Bebe um pouco demais.
Outros fregueses (4-6) não falam nada.
Cenário: O bar da estalagem em Belém.
CENA 1
(Josué está limpando os copos)
LEVI: (Entra agitado, chateado, começa a gritar assim que passa pela porta) Não é problema meu! Eu te disse, não temos mais quartos. Olha a placa, sabe ler? Ela diz: “NÃO HÁ VAGAS”. Se você quer reclamar, vá reclamar com os Romanos! Meu hotel está CHEIO! (Levi se vira para os fregueses) Qual o problema dessa gente hoje em dia? Tá legal, eu sou um IDIOTA! É assim que dirijo meu negócio: eu tenho um monte de quartos vazios, mas coloco uma placa nas três línguas oficiais dizendo “Não há vagas”.
JONAS: Não é culpa deles, Levi. Simplesmente não há espaço para dormir. Este é o problema.
LEVI: O problema é que eu não coloquei Hebreu antigo na placa. Eu devia saber, essa é a única língua que esse pessoal sabe ler.
JOSUÉ: Viu. Eu disse que você tinha que se esforçar melhor nas aulas de Hebreu.
(Levi pega um garrafão de vinho e começa a servir os fregueses)
LEVI: (Ignorando Josué) Você devia vê-los! (Fazendo mímicas) “Somos descendentes de Davi da sinagoga de Alexandria e viajamos por três dias. A Lei de Moisés diz que você deve providenciar refúgio aos seus irmãos em necessidade. Nós insistimos que você cumpra a sua obrigação”.
JOSUÉ: Você fez muito bem, talvez eles o deixem entrar no clube.
JONAS: Mas você sabe que eles estão certos! Todo Judeu tem a obrigação de dar abrigo para um irmão em necessidade.
JOSUÉ: O que no mundo poderia trazer toda essa gente para uma cidadezinha “esquecida por Deus” como esta?
ELIAS: Como assim, esquecida por Deus? Esta é uma cidade muito famosa. É a cidade natal do Rei Davi. Aqueles que são (floreando) da linhagem de Davi devem vir para serem contados.
(Alguém bate na porta, Josué vai atender)
LEVI: (Para Elias) Então você e toda essa gente acham que são descendentes do Rei Davi?
JONAS: (Para Elias) Davi estaria muito feliz de ter uma descendência tãããão vasta!
ELIAS: (Fazendo uma pose bem pomposa) Podem rir, mas eu te digo: o maior Filho de Davi está para nascer aqui em Belém.
LEVI: De acordo com os “estudiosos”, é em Jerusalém…
ELIAS: Não, não é! Isto é uma promessa de Deus. Foram os Profetas…
LEVI: Profetas? Elias, por que você acredita em tudo o que te dizem? Ninguém sabe o que está naqueles velhos pergaminhos! Os assim chamados experts e os estudiosos, eles simplesmente dizem o que lhes dá vontade… E gente igual a você, como ovelhinhas bobas, simplesmente engole tudo.
ELIAS: Ei! Eu não estou dizendo que acredito em tudo o que dizem. Mas, algum dia Deus vai fazer alguma coisa pela sua gente.
LEVI: É melhor que faça mesmo! Porque esses montes de líderes que temos por aqui certamente não fazem nada!
JONAS: Lá vamos nós de novo. Para você a culpa é sempre dos líderes! Por quê? Eles fazem o melhor para dar uma vida melhor ao povo Judeu.
LEVI: Pelo povo Judeu? Esses líderes passam todo o tempo lutando entre eles sobre os poucos privilégios que os Romanos jogam para eles… Eles são como falcões, pilhando sua própria gente para o benefício dos Romanos.
JONAS: Os Babilônios, os Gregos, os Romanos. Grandes nações sempre são ferramentas nas mãos de Deus para o nosso próprio bem. Olhe a nossa história!
LEVI: Ah sim, vamos ver a nossa gloriosa história. Veja como nós moldamos e fizemos parecer que o mundo gira em torno de nós! Nossa história é sermos domesticados, como todas essas ovelhas lá nos campos. (Josué voltou e está olhando fixamente para Levi) Você devia estar olhando para o nosso FUTURO, mas você e todos esses Rabinos não querem olhar para o futuro, porque não têm a menor ideia do que fazer com ele! O futuro assusta vocês, porque vocês sabem que não podem domesticar o futuro. É por isso que inventaram um Messias que virá e o domará para vocês. (Para Josué) Qual o problema?
JOSUÉ: É um homem e sua esposa, Levi. Eles parecem meio desesperados. Precisam de um lugar para dormir.
LEVI: Todos estão desesperados hoje em dia, Josué. Eu já disse: não temos quartos!
JOSUÉ: Levi, ela está grávida! Eu acho que eles precisam de ajuda.
LEVI: Tem um monte de mulher que fica grávida. Você pode dar um jeito nisso. Seja firme, Josué. Diga: “Leia meus lábios: SINTO MUITO, SEM QUARTOS!” OK?
JOSUÉ: Eu não posso, Levi. Por favor, faça isso você.
LEVI: Tá legal, eu vou! (E sai)
CENA 2
(Levi acaba de voltar)
JOSUÉ: Então, Levi, aquele casal, eu aposto que você os mandou embora com a sua sutileza habitual?
LEVI: Bem… Ela estava um pouco mais grávida do que pensei que estivesse…
JOSUÉ: Mas isso não foi problema para você: “Sem quartos… Leia meus lábios…” Certo?
LEVI: Às vezes, Josué, eu fico surpreso com a sua falta de compaixão. Você não pode simplesmente tratar pessoas como animais. Não pode jogá-las no relento. (Josué olha incrédulo para os outros)
JOSUÉ: Que sermão impressionante, Rabi, então, você ofereceu para eles a sua cama?
LEVI: Eu… Deixei… Que eles ficassem no estábulo esta noite.
JOSUÉ: No estábulo?? Você colocou uma mulher grávida no estábulo no meio dos cavalos e camelos? E fala de compaixão? Mas que benevolência! Que sacrifício!
LEVI: Eu sei que não é o melhor lugar para uma mulher no estado dela. Mas eles insistiram que estava ótimo. E eles ficaram muito gratos. Amanhã vamos encontrar um lugar decente para eles. É só por uma noite. Vai ficar tudo bem… Vá fechar o portão, Josué! (Josué sai) Senhores, é hora de nos recolhermos!
ELIAS: Mais um pouco, Levi. Eu tenho uma estrada longa pela frente…
JONAS: As escrituras dizem: Quem é o tolo? Quem tem pena? Quem tem os olhos vermelhos? Aqueles bebem grandes garrafas de vinho.
ELIAS: E diz isso também: Aquele que não tem sabedoria despreza seu vizinho; mas um homem compreensivo retém sua paz.
JOSUÉ: Levi, é melhor você ir lá fora!
LEVI: Lá fora? O que foi agora?
JOSUÉ: Tem uma multidão aqui! Pastores dos campos!
LEVI: Pastores? O que eles estão fazendo aqui?
JONAS: Eles não costumam vir para a cidade à noite! Tenha cuidado! Eles podem nos roubar! Melhor se livrar deles!
LEVI: O que eles querem?
JOSUÉ: Eu não consegui entender direito… Eu acho que estão procurando por alguém.
ELIAS: Você consegue entendê-los? Eles falam tão estranho!
LEVI: Descubra o que eles querem, Josué, mas tome cuidado com eles.
JOSUÉ: Eles estão indo até o estábulo…
LEVI: O estábulo… Mas aquela mulher está lá! (Todos ficam espantados) Fique de olho no bar, Josué! E vocês, fiquem aqui! (Levi sai correndo)
ELIAS: Josué, que tal mais uma rodada, vamos chamar de saideira… (Josué vai pegar o garrafão)
JONAS: Ele já bebeu o bastante, Josué… (Josué para)
ELIAS: Por que você não cuida da sua própria vida? Este é o seu problema, você está sempre tentando fazer todo mundo viver como você. Andando por aí o tempo todo, perseguindo seu próprio dedo!
JONAS: Pelo menos eu consigo andar.
ELIAS: Qual o problema com o “viva e deixe viver”? (soluço) Mas isso não é o bastante para você. Você não está satisfeito até que todos no mundo sejam miseráveis, como você!
JONAS: Miserável? Quer saber o que é miserável? Veremos como você se sente amanhã cedo!
JOSUÉ: Vamos, vocês dois! Chega disso! Levi está lá fora tentando negociar com a multidão e vocês estão brigando sobre uma dor de cabeça…
ELIAS: Nah… Levi vai ficar bem. Ele sabe se cuidar.
JONAS: É fácil para você falar! A essa hora eles já devem ter batido e roubado ele!
ELIAS: (Exasperado) Ah, para com isso. Esse pessoal é indefectivo… digo… inofensivo.
JONAS: Você não pode confiar neles! Josué, é melhor você dar uma olhada no Levi.
JOSUÉ: Olha, sinto muito, mas eu não posso deixar o bar.
ELIAS: Não se preocupe, Josué, sem problema. Eu vou lá e vejo. (Começa a se levantar)
JONAS: Você? (Puxando-o de volta) Você tropeçaria na sua própria sombra. Um homem nas suas condições não pode ser enviado a esse tipo de trabalho. Melhor eu ir.
ELIAS: (Aplaudindo) Isso! Vai lá! Salve a cidade de Belém dos pastores dos campos judeus sedentos de sangue! Josué, porque você não traz esse garrafão até aqui e me serve outra rodada?
CENA 3
(Elias sentado. Josué limpando o balcão. Levi e Jonas entram, devagar, atordoados. Jonas se senta.)
JOSUÉ: Finalmente! Vocês voltaram! Vocês saíram há um tempão, o que aconteceu?
(Levi anda até o balcão, pega um copo, coloca alguma bebida e fica olhando fixamente para ela)
ELIAS: Então? Conte-nos. O que aconteceu lá fora?
JOSUÉ: Descobriram o que eles estavam procurando?
JONAS: Acredite se quiser: eles estavam procurando por um bebê.
JOSUÉ: Um bebê? Toda uma multidão de pastores veio dos campos direto para o nosso quintal, procurando por um bebê?
ELIAS: É verdade Levi? Você está tendo um bebê?
JOSUÉ: Espera um pouco… Um bebê? Mas aquela mulher não estava… (Silêncio)
LEVI: (Pensativo, balançando a cabeça) Sim, Josué, ela teve o bebê.
ELIAS: (Para Josué) E o que tem de tão estranho uma mulher ter um bebê?
JOSUÉ: Eu nunca vi um bebê nascer antes. Como é?
JONAS: Sabe, Levi, ela já devia estar em trabalho de parto quando você os enviou ao estábulo.
ELIAS: O que está acontecendo? Por que vocês dois estão agindo tão estranho?
LEVI: (Balançando a cabeça, espantado) Ela sabia o que estava acontecendo… E não disse uma palavra.
ELIAS: O que é isso, algum tipo de charada? O que tem a ver os pastores com o bebê?
JOSUÉ: É, e como eles sabiam do bebê? Nós estamos aqui, há 50 metros e nem sequer desconfiamos. Então, o que os pastores estão fazendo aqui?
LEVI: Parece que eles tiveram um tipo de visão: anjos cantando e dizendo a eles para virem até a cidade e encontrar o bebê em um celeiro. Alguma coisa assim.
JONAS: Eles disseram exatamente isso.
LEVI: E parece que acreditaram. Seja o que for, alguma coisa aconteceu com eles. Quem sabe? De qualquer jeito, eles vieram para a cidade…
JONAS: Isso! E quando chegaram, vieram direto para cá! Como se estivessem em um tipo de transe. Eu nunca vi nada assim.
LEVI: Eles não estavam em transe, Jonas. Eles só perguntaram por aí sobre o bebê! Mas eles me pareciam espantados, como que surpresos…
JOSUÉ: Assim como você está agora! Vocês tiveram alguma visão também?
JONAS: Eu não! Talvez Levi…
JOSUÉ: Você teve, Levi?
LEVI: Não. Eu… Eu só vi pessoas que obviamente experimentaram alguma coisa… Eu não sei o que estava acontecendo ali, mas pareceu ser alguma coisa muito especial, quase sagrada.
JONAS: Sagrada??? Olha o que você está falando, Levi! Um bando de pastores se ajoelhando em torno de um bebê!
JOSUÉ: Se ajoelhando? Por que eles fariam isso?
JONAS: Quem sabe, Josué? São todos pagãos!
LEVI: Não tenho certeza… Eles continuaram falando de anjos: “O anjo nos disse para vir aqui… E o anjo disse isso… e o anjo disse aquilo… E os anjos cantaram…”
JONAS: Esse tipo de gente sempre está imaginando coisas. Eles são ignorantes e iletrados! O que eles saberiam sobre anjos?
ELIAS: Então, o que você sabe sobre anjos? Se anjos só visitam pessoas perfeitas, por que eles visitaram Ló em Sodoma?
JOSUÉ: É incrível como os pais permitam que as pessoas façam isso!
JONAS: Esse é o ponto! Que tipo de pais permitem esse que tipo de blasfêmia continue? Essa coisa toda está errada. Totalmente errada! Eles devem parar! Que tipo de pai permite isso? E você, Levi, o que vai fazer?
LEVI: Eu disse que os tiraria todos daqui, mas o pai disse que estava tudo bem. De fato, isso me pareceu… Bem… Parece que eles esperavam por isso.
ELIAS: Isso é muito estranho! Ele nem se importou de ficar em um lugar cheio de gente estranha?
LEVI: Isso é o mais incrível! Todas essas pobres, iletradas pessoas… Mas tão alegres, seus olhos cheios de lágrimas, sorrindo e cantando.
JOSUÉ: E por que estariam tão alegres?
LEVI: Eu não tenho certeza, Josué. Talvez por que eles viram que esse bebê era… (ele exita) Um bebê especial…
JOSUÉ: Quer dizer, especial como…
JONAS: Ôa! Agora é um tipo especial de bebê… Pare de bobagens Levi! Uma coisa é criticar os líderes, mas começar a acreditar nisso… Isto é blasfêmia!
LEVI: Eu não estou “acreditando” em nada, Jonas!
JONAS: Olha, você pode dizer o que bem quiser. É o seu negócio! Eu não sei o que está acontecendo lá fora, mas se o lugar fosse meu, eu chutaria todos daqui num instante.
JOSUÉ: Por que você os deixou ficarem lá fora, Levi?
LEVI: (Faz um momento de silêncio) Quando eu era garoto, minha mãe costumava me levar para Jerusalém todo ano, para o Templo. E eu me lembro de ver o Sumo Sacerdote, vestido em seus robes, com todas aquelas joias, aquele lindo turbante na cabeça. Eu ficava totalmente maravilhado! Eu lembro de perguntar à minha mãe: “Mamãe, quando o Messias vier, ele estará vestido assim, como o Sumo Sacerdote?” Uma vez, eu lembro de tentar me aproximar dele, me espremendo entre a multidão, só para tocar suas vestes, para olhar em sua face. Mas um dos guardas me viu e me colocou para fora. Eu nunca vou me esquecer de como fiquei desapontado. Eu sentei no portão do Templo e chorei… E enquanto eu estava sentado e chorando, os guardas jogaram mais alguém para fora dos portões. Ele estava sujo e vestido de retalhos, e eles o batiam com um pau, como se fosse um cachorro. Quando perguntei para minha mãe, mais tarde, ela disse que ele era leproso e que não era permitido ficar dentro do Templo. Então eu pensei: “Quando o Messias vier, ele vai lançar as pessoas para fora?”
JONAS: Eles só estavam fazendo o seu trabalho, Levi. A Lei é bastante clara! Nenhuma coisa imunda pode entrar no Templo!
LEVI: Não era uma coisa, Jonas, era uma pessoa! Além do mais, onde você queria que eles prestassem adoração? Ou… Você acha que Deus não quer que eles O adorem?
JONAS: É claro que quer. Mas as Escrituras dizem que eles devem se purificar primeiro.
LEVI: Isso foi o que a minha mãe me disse também. De qualquer jeito, na manhã seguinte eu me levantei e disse: “Mamãe, quando o Messias vier, ele não lançará os leprosos para fora, ele fará como o Profeta Elizeu, Ele vai limpá-los.”
JOSUÉ: Foi aí que você deixou de ir ao Templo, Levi?
LEVI: (Com uma larga risada) Não, eu só tinha 8 ou 9 anos, era um garoto. Mas você sabe, eu nunca mais olhei para o Sumo Sacerdote do mesmo jeito de novo… Mas quando vi os pastores esta noite, todos cansados e sujos, como cães que sabem muito bem o que é apanhar. Então tudo isso me voltou à memória, aquele leproso no Templo, e os guardas. Eu lembrei do medo, do nojo, dos gritos, da vergonha e da dor em seus olhos. Mas esta noite, quando eu estava no estábulo. Quando eu vi a alegria naquelas faces e os ouvi cantando, eu percebi: Essas pessoas também vieram de longe procurando algo. E talvez eles tenham encontrado…
JOSUÉ: …e ninguém os lançará para fora.
LEVI: Sim, Josué. Ninguém os lançará para fora.





