VESTES BRANCAS

Peça teatral alegórica que retrata a espera da Noiva pelo Noivo, simbolizando a Igreja aguardando a volta de Cristo.
Enquanto o Noivo tarda em chegar, surgem dúvidas, críticas, falsas promessas e tentativas de desviar a Noiva de sua fidelidade.
Em meio à pressão do mundo e aos conflitos espirituais, ela permanece firme, sustentada pela esperança e pelas promessas recebidas.
Com uma mensagem evangelística e de exortação, a peça convida o público à vigilância, perseverança e preparação para o retorno do Senhor.


História
Após um estudo sobre apocalipse, ,me veio a ideia de fazer uma peça teatral utilizando um pouco das simbologias. Óbvio que teria que fazer (como costumo fazer) uma pesquisa sobre alguns assuntos, entre eles a cultura da época de Jesus, relacionada aos Judeus e aos casamentos.
A noiva (igreja) preparasse para se casar com o noivo (Jesus) e os dois formarem uma só carne.
As dez virgens (as duas madrinha do noivo) uma madrinha representa as tolas e a outra a prudente. Assim como a cultura da época que teriam que ficar presentes juntos aos noivos com suas lâmpadas acesas.
Já os padrinhos da noiva, representa a meretriz divididos em três pessoas, um deles fazendo o papel das seitas, o outro do poder governamental e a outra, da mídia.
A irmã da noiva que não aceitou Jesus simboliza os Judeus.

Ato único

10 personagens mais um CRIANÇA: A noiva – a igreja
Cleuza – mãe da NOIVA: Dimas – Pai da NOIVA: Raquel – Irmã da noiva – os judeus
Silas – Padrinho do noivo – pastores
Edna – Madrinha do noivo – virgem prudente
Léia – Madrinha do noivo – virgem tola
Fausto – Padrinho da noiva – poder governamental
Bento – Padrinho da noiva – as seitas
Geiza Abel – Madrinha da noiva – a mídia
CRIANÇA: – duração de 45 minutos


A peça
VESTES BRANCAS
ATO ÚNICO
Cena 1 – (Léia, Edna, Silas, Fausto, Bento, Geiza, Cleuza e Raquel)
Local – Na igreja. A frente estão: do lado direito, Léia, Edna e Silas; do lado esquerdo, Fausto, Bento, Geiza e Cleuza.
Depois de uma breve espera, com D. Cleuza prendendo o choro, a marcha nupcial é tocada. D. Cleuza pausa seu choro e fica atônita, vendo a entrada da noiva acompanhada pelo Sr. Dimas, que caminham lentamente até chegarem ao altar. Ficando parados sem saber o que fazer. D. Cleuza sai da sua posição e se encaminha até os dois, que começam a cochichar. Fausto faz o mesmo, e retorna para comentar algo com Geiza e Bento. Do outro lado, Silas e Edna ficam em paz conversando sorridentes, sem se preocupar com o que acontece. Léia, porém, fica atenta. A Noiva fica normal. Depois Geiza e Fausto vão ao encontro da família. Fausto se encaminha em direção a saída da igreja. Silas vai ao encontro da família, procurando de alguma forma ser útil e tenta acalmar a todos. Raquel se levanta e vai a frente, conversar com os pais. Os diálogos aos poucos começam a aumentar de volume. Silas volta para conversar com Edna e Léia. Fausto retorna.
FAUSTO: Nada! Nenhum indício do noivo.
CLEUZA: Mas isso é um absurdo! Que vergonha.
DIMAS: Calma, meu bem. Calma.
CLEUZA: Como calma? Como calma? Eu nunca vi um negócio desses, a noiva ter que esperar o noivo.
NOIVA: Mãe, fique tranqüila, está tudo bem.
CLEUZA: Como tudo bem? Como tudo bem?
NOIVA: Mãe, ele vai vir. Daqui a pouco ele chega.
GEÍZA: O noivo não chegou a entrar em contato? Pode ter acontecido alguma coisa, não pode?!
CLEUZA: Esse noivo… eu não sei não…
NOIVA: Ele já está chegando! Ele deu a palavra dele.
CLEUZA: Como você pode saber que ele já está chegando?
NOIVA: Ah, mãe. Quando estou na praça, na rua, na praia… quando olho a vida aí fora, eu o vejo vir. Em cada lugar, em cada gesto, em cada olhar eu o vejo vir até mim…
GEÍZA: Não há nada comparável a uma mulher tremendamente apaixonada.
CLEUZA: Minha filha, olha a realidade. Seu noivo não está aqui. É o dia do seu casamento.
GEÍZA: E ele está bem atrasado por sinal.
SILAS: Me desculpe, mas… o noivo não se atrasa.
GEÍZA: E quando ele não vem na hora significa o que, hein?
SILAS: Significa que estamos querendo que ele venha logo! Mas fiquem tranqüilos, esse casamento irá acontecer.
NOIVA: É isso mesmo, o Silas tem razão. Pela nossa vontade, ele até já teria vindo. Mas o relógio dele é diferente do nosso.
FAUSTO: Como assim? porventura ele seria um estrangeiro? Está em outro fuso horário?
BENTO: E quem irá realizar a cerimônia?
CLEUZA: É outra coisa! Nem o noivo veio e nem o padre! Quem irá fazer esse casamento? Isso é um desastre. É vergonhoso!
GEÍZA: Não seja por isso, bem. Se não tiver ninguém para fazer o casamento, eu acho que o Bento pode muito bem realizar a cerimônia, não é Bento?
BENTO: Sim. Posso muito bem abençoar a união deste casal, se eles concordarem, é claro.
CLEUZA: É claro que eles concordam! Obrigada, Bento. Pelo menos um problema já está resolvido.
FAUSTO: O único detalhe que está faltando agora, é o noivo aparecer.
CLEUZA: Se aparecer, né?! Sabe o que eu acho? Acho que esse sujeito não vai aparecer, que foi tudo história dele. Pois nem os pais deles estão aqui. E quer saber? Achei muito estranho não ter havido sequer uma cerimônia de noivado.
GEÍZA: É mesmo? Hiiii…
NOIVA: Mãe, os pais dele já faleceram.
CLEUZA: Ele é órfão?
NOIVA: Bom, na verdade, não. Seu pai verdadeiro está vivo. Os que morreram foram sua mãe e seu pai adotivo.
CLEUZA: Já vi que ele é de uma família totalmente desestruturada.
GEÍZA: E o pai biológico dele, não vai vir? Ou será que eles não se entendem muito bem?
SILAS: Muito pelo contrário. Os dois se entendem tão bem, que pensam da mesma forma.
CLEUZA: Os dois pensam da mesma forma? Era só o que faltava… Dimas, como você pôde escolher… permitir… esse noivo para a nossa filha?
NOIVA: Mamãe, não foi o papai quem o escolheu pra mim.
CLEUZA: Como não??
NOIVA: Não. Foi o meu sogro quem me escolheu.
RAQUEL: Isso é o que você diz, maninha.
NOIVA: Eu sei o que eu digo, Raquel.
Fausto para GEÍZA: Isso não está parecendo um daqueles dramalhões mexicanos? É um absurdo, nos tempos de hoje, o pai do noivo escolher a esposa para o filho.
GEÍZA: E você aceitou uma coisa dessas, fôfa?
NOIVA: Imediatamente!
CLEUZA: Dimas, estou me sentindo ridícula e envergonhada diante de todos os convidados aqui.
DIMAS: Calma, bem. Tudo vai se resolver no final.
Cleuza a parte com DIMAS: Eu nem ao menos conheço esse… esse… rapaz. E como ele é, Dimas?
DIMAS: Não sei. Só ouvi falar dele.
CLEUZA: O que?? Você também não o conhece?! Como você permitiu esse casamento?? Você é um irresponsável. Você é um… um… deixa pra lá.
NOIVA: Mãe, pare com isso!
RAQUEL: Esse casamento já começou todo errado. Não houve cerimônia de noivado, não houve preparação nenhuma…
NOIVA: Como não houve nenhuma preparação? Desde que conheci o noivo, estou me preparando para esse dia. Fiz o máximo para estar impecável para esse momento.
Geiza (para a noiva)
E me diga uma coisa, menina. Esse seu vestido, foi o noivo que te deu?
NOIVA: Foi sim. Não é lindo? Quero estar maravilhosa para o meu amor.
RAQUEL: Outra coisa errada. Você devia ter feito o seu vestido. Aí sim você estaria sendo impecável, mostrando a sua dedicação.
SILAS: O vestido foi um presente do noivo, ele a ama tanto que quis poupar qualquer tipo de sacrifício por parte dela.
NOIVA: A única coisa que eu quero é manter o meu vestido da forma que ele me deu, lindo, deslumbrante, sem nenhuma dobra ou mancha.
SILAS: E está corretíssima.
GEÍZA: É, mas pelo jeito que está indo, esse casamento me parece que não vai acontecer.
SILAS: Eu duvido muito disso. Eu conheço o noivo, e se ele prometeu, ele vai cumprir.
FAUSTO: Você é bem convicto no que diz, meu rapaz. O que te deixa tão seguro em relação a isso?
SILAS: Ele é o meu melhor amigo, e eu confio nele.
GEÍZA: Escute, rapaz…qual o seu nome?
SILAS: Silas.
GEÍZA: Meu caro Silas, sempre há a primeira vez para os amigos frustrarem a gente.
EDNA: Ô xente! Não o noivo!
BENTO: Um amigo insincero e mau é mais temível que um animal selvagem; a fera pode ferir-lhe o corpo, mas o mau amigo pode lhe ferir a mente.
NOIVA: Não o meu noivo, Bento!
BENTO: Devemos ter sempre no coração o afeto por alguém. Isso é que contribui para uma eternidade tranqüila, na luz.
RAQUEL: Minha irmã, você se precipitou em aceitar esse rapaz como seu marido. Devia fazer como eu: aguardar o marido certo, aquela pessoa que vai realizar os seus sonhos, os desejos do teu coração, e não causar essa confusão na família. Você é uma tola mesma. Esse noivo é uma farsa, você não vê?
NOIVA: Farsa? Deixa de ser recalcada. Você não se lembra que ele a procurou primeiro e você o recusou?!
BENTO: A perda só será uma bebida amarga se concordarmos em tragá-la.
CLEUZA: Raquel, minha filha, você também o conhece?
GEÍZA: Hiii… E a novela mexicana continua…
RAQUEL: Sim, mas ele veio com uma conversinha mole pro meu lado, tentando se passar por alguém que não era, e eu não quis saber dele.
NOIVA: E ele te deu tantas provas de amor, tantos sinais que ele nascera pra você. E você simplesmente o ignorou. E está dizendo que ele é uma farsa? Ora, faça-me um favor, né?!
RAQUEL: O verdadeiro marido pra mim, que espero tanto, virá, e todos verão quem é que tinha razão.
NOIVA: Você é cega, ou não quer ver? Ele é o único filho do meu sogro, não há outro.
RAQUEL: Isso é o que você diz, minha irmãzinha.
GEÍZA: E devemos esperar ele aparecer por quanto tempo?
NOIVA: O tempo que for preciso, Geiza.
CLEUZA: Estou me sentindo uma idiota! Um lixo! Um zero a esquerda nessa família. Eu é que tinha que dar a última palavra lá em casa, e não… seu pai.
NOIVA: Por favor, mamãe. Não começa. O papai que é o cabeça de casa.
CLEUZA: Cabeça oca…
NOIVA: Mamãe…
DIMAS: Deixa minha filha, deixa. Sua mãe é assim mesmo. Ela está nervosa.
BENTO: A humildade é a força para a sustentação da alma por esta vida. Aquele que perdoa renasce para a vida eterna.
CLEUZA: Sabe de uma coisa? Isso é um absurdo tão grande que eu vou embora e declaro que não haverá mais casamento aqui.
NOIVA: Mamãe, é o meu casamento, e… eu não acho uma boa idéia a senhora cancelar.
CLEUZA: E por que não?
NOIVA: Muito simples. O meu noivo deixou um dote, dando a certeza de que viria me buscar.
CLEUZA, GEÍZA, BENTO e FAUSTO: Dote? E que dote?
BENTO: Precaução e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
NOIVA: Vocês não poderiam ter percebido mesmo. Ele deixou vinho.
CLEUZA, GEÍZA, BENTO e FAUSTO: Vinho??
NOIVA: Sim. Muito vinho. E do bom, hein!
GEÍZA: Dote, meu docinho? Mas isso é coisa da era medieval! E… não era ao contrário, o dote quem tinha que receber não era a família do noivo?
FAUSTO: Ele seria proprietário de uma vinícola? Bom, caso seja, eu dobro o valor do vinho ou a quantidade para cancelar esse casamento. E só faço isso em consideração a você Cleuza. Você sabe que a tenho em alta estima e que também possuo muitas riquezas, influência, além de ter muito prestigio nos altos círculos sociais.
CLEUZA: Fausto, eu sei que sempre posso confiar em você.
FAUSTO: Cara Cleuza. Você não merece estar passando por essa situação vexatória. Eu estarei sempre ao seu dispor, sempre que se fizer necessário.
CLEUZA: Eu sei, seu sei, meu grande amigo.
EDNA: Hiiii… Num vai adiantá. Mermo com a dinheirama que o senhor tem, eu acho mui difici, não sabe?
FAUSTO: Muito difícil o que?
EDNA: Esse vinho vale muito mais do que nós pode imaginar. E o senhor num conhece o pai do noivo. Ele é o dono de toda prata e de todo o ouro do mundo todo.
FAUSTO: Todo o ouro e de toda a prata?
GEÍZA: (para o Fausto) E eu que pensava que o noivo planejava dar o golpe do baú…e é a noiva quem está dando.“Menina esperta”.
BENTO: Quem conhece os outros é um sábio. Quem conhece a si mesmo é um iluminado.
FAUSTO: Dono de todo o ouro e de toda a prata?
NOIVA: Por isso, eu aconselho a não cancelarem o meu casamento. Vocês sabem que um pouco da tradição ainda se mantém entre nós. Se você mamãe, cancelar, deverá pagar o dobro do dote que ele deixou.
SILAS: E aqui entre nós, esse vinho é tão precioso que não tem preço que cubra.
EDNA: E tem mais uma coisa. A noiva o ama e ele ama a noiva, visse?
GEÍZA: Não quero me meter, mas, pra mim, esse tal vinho enviado pelo pai do noivo deve ser uma farsa.
SILAS: Por favor minha senhora. Se a senhora quiser falar mal do noivo ou o pai do noivo, pode falar. Mas nunca fale mal do vinho dado pelo sogro.
EDNA: Vígi! Você num imagina o quanto aperreada você vai ficar.
RAQUEL: Mamãe, papai, vocês vão me desculpar, mas eu não concordo com nada aqui. E vou é embora! (Saindo)
NOIVA: Mãna, Mesmo você não o aceitando, saiba de uma coisa, ele gosta muito de você, ele quer ser teu amigo. É só você querer.
CLEUZA: Mas minha filha?!… volte aqui!…
RAQUEL: Tenho mais o que fazer, tchau! (Sai)
GEÍZA: Viu só o que fizeram?! E ainda estão apelando, ameaçando! Cleuza?!
CLEUZA: Esses amigos do noivo… era de se esperar isso de gente assim.
BENTO: As más companhias são como um mercado de peixes; acaba-se acostumando com o mau cheiro.
EDNA: Arre égua! De gente assim como, hein?! Está mangando de mim, é?
SILAS: Calma, Edna. Lembre-se do que o noivo nos ensinou. Basta sermos amigos do noivo para eles não gostarem da gente.
CLEUZA: Não é nada disso! Você estão distorcendo tudo!
DIMAS: Calma, minha gente! Isso aqui é para ser um momento de alegria, e não de discussão. Calma!
(Momento de silêncio)
GEÍZA: Não quero ser negativa, não. Mas… se ele nem ao menos ligou, é porque alguma coisa deve ter ocorrido, vocês não concordam?
CLEUZA: Certamente. Uma pessoa responsável, o mínimo que faria era dar ao menos um telefonema.
Sinceramente, Acho que o noivo desistiu.
FAUSTO: E se o noivo desistir, isso implicará na violação de uma cláusula contratual, portanto ele perderá o dote tão valioso que deu como garantia do casamento. Não é isso?
GEÍZA: É… você, menina, se deixou levar por um lindo conto de fadas.
NOIVA: Isso não é apenas uma história, é um fato. Ele vai vir.
SILAS: Isso mesmo! Fique firme! Eu sou testemunha da fidelidade e do compromisso do noivo.
EDNA: Eu também! É que vocês num conhece ele. Se conhecesse, não estavam assim criando este fuzuê todo. Não sabe?.
LÉIA: Mas ele vai vir, não vai?
CLEUZA: Mas, me diga, minha filha, e aonde vocês irão morar? Você não me falou nada a esse respeito.
NOIVA: Mamãe?! É claro que eu sempre falei, a senhora é que nunca quis escutar. Sempre tinha uma desculpa para não ouvir o que eu tinha a dizer.
CLEUZA: Que absurdo, minha filha. Você falando isso, ou outros irão pensar o que?
BENTO: O homem só terá a sua residência garantida, se a construir com as suas ações.
GEÍZA: Eu sei o seguinte: Se for morar com o sogro ou sogra, isso nunca dá certo.
A NOIVA: O meu sogro tem muitas casas.
GEÍZA: Ainda não é sogro, Fôfa.
NOIVA: E tem mais, lá na casa, aonde iremos, é bem diferente de tudo o que vocês já viram por aqui.
FAUSTO: Imagino o valor deste imóvel. Já que o proprietário tem tantas riquezas.
GEÍZA: Mas Fausto, você também é muito rico, e possui belas mansões, lindos carros, todo o conforto do mundo, tudo muito luxuoso. Pode ir para onde quiser, seja de jatinho, iate, ou navio. Pode dar as maiores festas da sociedade. Eu prefiro muito mais confiar no que é maravilhoso, e que eu já conheço, do que apostar no que pode ser… quem sabe… bom.
BENTO: Quem trocaria o certo pelo duvidoso?
CLEUZA: A Geiza está certa. Aposto que nem ao menos você foi lá conhecer essa casa. Minha filha eu estou muito triste com tudo isso.
BENTO: Mãe que não faz seu filho chorar depois chora por ele.
NOIVA: Bento!? Mamãe, por favor, pare com isso, logo hoje que estou muito feliz.
DIMAS: Calma minha filha. É compreensível a sua mãe estar assim. Ela se preocupa com você, e quer o melhor para você. E Cleuza, procure também se acalmar. Pois, se os padrinhos do noivo dizem que ele é um rapaz de palavra, responsável, digno, é porque ele virá. E mesmo se ele não vier, o que perderemos?
CLEUZA: E a vergonha?
DIMAS: Quem deveria estar mais envergonhada seria a noiva, e ela não está.
CLEUZA: Pra você, Dimas, é tudo tão fácil, tudo tão simples. Você não está vendo o ridículo que estamos passando diante dos nossos convidados? Você não tem senso de ridículo, não é?!
NOIVA: Mamãe.
BENTO: Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.
FAUSTO: Procure se tranqüilizar, Cleuza.
GEÍZA: Eu acho melhor alguém falar alguma coisa para os convidados. Eles precisam de uma satisfação.
CLEUZA: Eu não tenho coragem de falar nada… eu não tenho coragem.
EDNA: Deixa que eu falo. (ao público) Convidados e convidadas, boa noite. Como vocês podem ter se apercebido, o noivo ainda não veio, mas vai vir! Para ser realizado esse lindo matrimônio, e acabar de vez com esse balaio de gato. Peço pra vocês, um pouco mais de… de… paciência. Ô xente, o noivo deu a palavra que viria e ele vai vir! E ele é uma pessoa muito boa, tem um coração lindo, não sabe? Ele é maravilhoso, sincero, verdadeiro, tem palavra, não é que nem os cabras de hoje em dia, que é um bando de abilolado, com idéias de jerico. O noivo honra os seus compromissos. Não se aperreie, não. Vocês irão conhecer o noivo. Espera um cadinho só, que ele chega, talkei?!
CLEUZA: Mas quem te mandou falar pela família?
EDNA: Mas eu só quis ajudar. Vocês fazem um bicho de sete cabeças. Víge… Rico é tudo igual, cheio de frescurada.
CLEUZA: Olha só sua…
NOIVA: Mamãe, ela só quis ajudar, por favor.
CLEUZA: Gente sem educação. Por isso que escolhi vocês para serem os padrinhos da minha filha.
NOIVA: E sem me consultar…
BENTO: Um mamão lava o outro e os dois descascam o abacaxi.
EDNA: Que léro-léro é esse? Não precisamos da amizade de vocês, não. Preferimos nossa vidinha, mesmo com pouco dinheiro, mas com muita dignidade. Somos pobre mas somos limpinhos, tá?!
CLEUZA: Essa menina é muito atrevida mesmo!
SILAS: Por favor, vamos esfriar os ânimos. Afinal de contas, estamos em um casamento de uma pessoa muito querida de todos nós. E casamento é o dia mais festivo que os demais!
DIMAS: O senhor tem razão. E vou até pegar uma água para todos nós, está muito calor aqui. Com licença. (sai)
Leia (fala pra si mesma)
Tô morrendo de fome…
EDNA: Ô xente, menina, você não comeu nada não, é?
Leia
Não. Deixei para comer na hora da festa. Não pensei que fosse demorar tanto.
EDNA: Mas você tinha que ter comido pelo menos alguma coisa.
LÉIA: Pois é… fazer o que, né?!
GEÍZA: (para Léia) Você é muito bonita, as grandes modelos também passam por isso.
LÉIA: Fica esperando o noivo?
GEÍZA: Não. Não comem quase nada. Por isso mantém seus corpos sempre atraentes.
LÉIA: Se eu comesse quase nada, estaria bom demais. Mas eu não comi foi nada mesmo!
GEÍZA: Você já pensou em ser uma modelo ou atriz?
LÉIA: Modelo ou atriz? Claro, é o que eu mais queria ser.
GEÍZA: Ainda há tempo. Vou ver o que posso fazer por você. Afinal, a aparência hoje em dia é fundamental.
EDNA: Arre égua! O que vale a aparência se não há coração?
GEÍZA: Isso é fantasia. Desde que mundo é mundo, a beleza sempre foi fundamental. Quem casaria com uma mulher feia? O mundo gira ao redor das belas mulheres. (Para Léia) E você pode ser uma dessas.
LÉIA: Eu?
GEÍZA: Claro!
BENTO: Perguntaram a uma árvore cheia de frutos: Por que tu não fazes nenhum barulho? Ela respondeu: Os frutos que eu carrego são minha melhor propaganda.
GEÍZA: Isso mesmo, Bento. Ela é quietinha mas… eu vejo que você tem talento, se eu a colocar na mídia, você aparecerá em revistas, na tv, poderá fazer cinema, ir nas rádios, desfilar. Ficará famosa e consequentemente rica. Todos os homens estarão aos seus pés, basta escolher um poderoso. E não precisa casar, só ter um filho dele e seu futuro estará garantido.
LÉIA: Sério?
BENTO: Pobres são aqueles que não têm talentos; fracos os que não têm aspirações.
SILAS: Léia, não troque o caráter pelo talento. os meios não justificam os fins. Geíza, você é muito… muito… misteriosa.
BENTO: Só atiram pedra nas árvores frutíferas.
FAUSTO: Os fins justificam os meios! O poder é que interessa. Se você não tem nada, não é nada! Estou errado? A vida é uma troca de interesses, sempre foi assim e sempre será!
SILAS: Não, não, não, não. O mundo segue na contra mão. O que interessa ganhar o mundo inteiro e não ser aceito pelo noivo.
FAUSTO: E eu lá preciso ser aceito por esse rapaz?!
SILAS: Devemos ter em nossas mente tudo o que é bom, o que é verdadeiro, digno, justo, puro, agradável e honesto.
GEÍZA: E por que? Temos que correr atrás de nossos sonhos. Cada um faz a sua própria história, é o autor e o ator principal. O resto é balela.
BENTO: A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte.
LÉIA: Ah… eu sempre quis ser uma atriz famosa…
EDNA: Vigi! E por que não estudou pra isso então? Pensou que caísse do céu, é, bisonha?
BENTO: Grandes realizações são possíveis quando se dá importância aos pequenos começos.
O que somos hoje e o que seremos amanhã depende de nossos pensamentos e ações.
LÉIA: Bem que a minha vizinha, Dona Carol, disse essa revelação, lá na casa dela…
BENTO: A experiência espiritual vale mais do que a palavra, minha filha. Então, façamos desta casa um santuário.
GEÍZA: Querida, se você é bela, famosa, passa a ser desejada, e tudo pode acontecer. Poderá ser e ter o que quiser no mundo. É só colocar um silicone aquí, outro alí, usar umas roupinhas mais “sexys”…
LÉIA: Nossa! E eu desejo tantas coisas no mundo…
Silas (para Léia)
Léia, o teu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.
BENTO: A árvore quando está sendo cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira.
FAUSTO: Temos que aproveitar as oportunidades, pois não sabemos como será o dia do amanhã. Então comamos e bebamos porque amanhã morreremos.
LÉIA: É mesmo… se todo mundo faz isso…
BENTO: O importante é ser feliz!
SILAS: Cuidado, Léia, todos os valores estão trocados, as pessoas passam a amar as coisas e usam as pessoas. Léia, que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo o que o noivo disse pra gente, lembra?
GEÍZA: Mas que tradição? Mas que tradição? O mundo está mudando a cada dia, isso é inevitável.
EDNA: Mudando pra pior!
SILAS: Vocês vendem ilusões, prometendo felicidade baseada em dinheiro, sexo, status, saúde, beleza, poder etc. Léia, seja paciente, Porque daqui a pouco o noivo estará aqui.
CLEUZA: Ora, façam-me um favor. Parem com essa discussão, nós estamos em uma igreja, e não em outro lugar. E esse noivo ainda não deu sinal de vida?!
Cena 2 – (Léia, Edna, Silas, Fausto, Bento, Geiza e Cleuza)
Volta Sr. Dimas com copos de água.
DIMAS: Aproveitei para trazer alguns copos de água. (distribui, porém a D. Cleuza e nem Geíza aceitam.)
NOIVA: Obrigado pai. (demonstrando um certo cansaço)
DIMAS: Minha filha, deixe-me pegar uma cadeira para você sentar um pouco.
GEÍZA: Nossa, essa espera pelo noivo está te deixando muito abatida, linda. Nessa altura já deve estar com fome, também. Por que não pede para o seu pai comprar pão?
DIMAS: Você quer minha filha?
NOIVA: Não. Meu sogro uma vez me disse, que nem só de pão eu viveria, mas das palavras que ele me dizia.
BENTO: Minha filha, você confia muito no noivo e no pai desse rapaz. Então eles devem confiar em você também. Sugiro que vá para casa, pois na vinda do noivo, os mensageiros do teu sogro irão te avisar, e você poderá voltar para se casar. Certamente o seu sogro ordenará aos mensageiros que cuidem de ti.
CLEUZA: É, minha filha.
NOIVA: Meu sogro também me disse que não deveria colocá-lo a prova.
FAUSTO: Eu vou te oferecer algo irresistível. Te ofereço a metade dos meus bens espalhados pelo mundo todo…
CLEUZA: Fausto?…
FAUSTO: … Você terá todo o poder que eu tenho para mandar e desmandar no momento que bem entender. Te ofereço tudo isso se você desistir desse casamento e aceitar ser o meu braço direito.
CLEUZA: Minha filha, uma oferta como esta não aparece todo dia.
NOIVA: Fausto, cala a boca! Porque somente ao meu sogro eu devo atenção e gratidão.
FAUSTO: Ok, já não está mais aqui que falou. (Sai de perto da noiva)
CLEUZA: Minha filha?! Oh… eu não mereço isso! Eu não mereço isso. Ele só queria ajudar.
Nesse instante, entra uma criança. Vai diretamente a noiva e lhe oferece algo para comer.
CRIANÇA: Moça, o teu sogro me mandou entregar isso a você.
NOIVA: Obrigado. Viu? Ele sabe. O meu noivo virá.
SILAS: Claro! E é por isso que devemos esperar firmes até a sua chegada, procurando guardar tudo que nos ensinou, para que não sejamos confundidos até a sua vinda.
EDNA: E a sua vinda será de uma hora para outra, não sabe?! Quando menos nós esperar, ele vai chegar, e bem arretado!
Silas (para a noiva)
Vamos permanecer como escolhidos e amados do pai do noivo. Com o coração compassivo, cheio de benignidade, humildade, mansidão e longanimidade.
GEÍZA: Mas você não precisa se casar. Pode apenas “ficar”, se juntar ao homem que você ama. Hoje em dia isso é normal.
SILAS: O teu sogro nos disse para gente não se conformar com este mundo, mas para nos transformarmos pela renovação da nossa mente, para que a gente experimente qual seja a boa, agradável e perfeita vontade dele.
NOIVA: Isso mesmo! Com o casamento seremos uma só carne, um só espírito.
CLEUZA: Essa menina colocou isso na cabeça, agora ninguém mais tira.
GEÍZA: Você é muito novinha, deveria aproveitar a sua vida ainda, depois casava com ele.
NOIVA: Não. Eu terei um só homem. E a ele serei esposa, virgem e pura. E ponto final!
Momentos de silêncio
LÉIA: Bem que poderiam adiar este casamento… Fiquei numa expectativa tão grande, me preparei toda…acabei nem comendo …
EDNA: Você tá assim porque tá com a barriga vazia, mulhé.
LÉIA: Tudo bem, eu me descuidei nisso, mas …está demorando tanto, hein… já estou ficando até com sono.
EDNA: Ô xenti! É porque você não comeu nada até agora. Por isso está assim, jururu. Você está fraca. Daqui a pouco vai Ter um piripaco aqui.
SILAS: (para Léia) Ei, não vai cochilar, né?! Você tem que ficar alerta.
LÉIA: Puxa, Silas, o que eu posso fazer? Mas tá difícil, viu?! Se eu tivesse uma vida melhor, não estaria nessa situação aqui.
SILAS: Como assim?
LÉIA: Nunca tive oportunidade nessa vida. Minha vida sempre foi uma droga! O pai do noivo nunca ligou pra mim de verdade.
EDNA: Arre égua! Isso não é verdade. Não fique colocando a culpa nele. Você é que fica nessa leseira aí.
SILAS: Nós somos convidados. Eu, você e a Edna. Fomos escolhidos, por isso estamos aqui, para sermos as testemunhas da noiva.. Mas isso só não basta, temos que trabalhar, nos alimentar direito, dar aos outros o que recebemos de graça. Lembre-se: o importante não é a quantidade do que ele nos dá e sim a qualidade daquilo que fazemos com o que o pai do noivo nos deu.
LÉIA: Mas quando será que ele virá?
EDNA: Você não sabe?! O importante não é saber quando ele virá, mas saber como você vai estar na sua vinda. Minha filha, Primeiro você tem que estar vigilante, com as butucas bem abertas. Toma tenência, mulhé!
LÉIA: Puxa, Edna, se você tivesse alguma coisa pra comer aí…
EDNA: E mesmo que tivesse. Eu não repartiria contigo. A responsabilidade é individual, esqueceu?
O pai do noivo nos enviou cestas de café da manhã. E você nem tocou na sua, prá vim encher a barriga na festa, não foi?
LÉIA: É verdade, mas…sabe de uma coisa? Enquanto o noivo não vem, eu vou dar um pulinho em algum lugar aqui perto pra comer alguma coisinha.
EDNA: Mas… Léia, você vai arrudiar aonde?!
LÉIA: Volto já já!
EDNA: Não vai não, mulhé, volte aqui, volte.
LÉIA: Volto num instante!
Léia sai.
EDNA: Lá se foi a abestada !
DIMAS: Aonde ela vai?
SILAS: Disse que ia comer alguma coisa.
DIMAS: Mas e se o noivo chegar?
CLEUZA: Ele não vai chegar, Dimas!
SILAS: Todo aquele que não estiver preparado para a sua chegada, simplesmente o noivo excluirá de sua vida.
GEÍZA: Grande coisa!
BENTO: Melhor ser cético do que muito crédulo.
CLEUZA: Só eu para querer esse homem em minha vida…
NOIVA: Mamãe?! Por favor!!
Dinas
Tudo bem, minha filha. Por mais que a sua mãe fale mal de mim, eu sempre desejo tudo de bom pra ela, e quero sempre faze-la feliz.
SILAS: O senhor é um bom homem, senhor Dimas.
DIMAS: Obrigado. Mas, por que o noivo não me aceitaria em sua vida, já que, como o senhor falou, sou um bom homem? Também, não bebo, nem fumo, nunca matei na minha vida. Quero o bem pras pessoas… não entendo…Talvez se ele me conhecesse…
EDNA: O negócio, não é ele conhecer você, e sim, o senhor conhecer a ele.
DIMAS: Como assim?
SILAS: O sogro da sua filha é uma pessoa muito especial para todos nós. Muitos acham que, só porque ele é o dono de todo ouro e de toda prata, fica sendo inacessível. É um grande erro.
Ele não é orgulhoso como nós, ele não é nem rancoroso e nem vingativo. Muito pelo contrario. Ele é uma pessoa que sempre estende a mão quando alguém assim pedir. Ele e o noivo, são pessoas muito amorosas.
DIMAS: Olhe, senhor Silas. Eu não conheço nenhum dos dois. Mas tenho tremenda simpatia por eles, só em ouvir falar.
SILAS: Lamento, mas isso não basta senhor Dimas.
EDNA: Vígi! Só assim jamais poderá entrar no palácio deles.
CLEUZA: Quanta bobagem.
GEÍZA: E quem precisa disso?
EDNA: Ói! Ói! Vocês ouviram? É a voz do noivo! Ele está vindo!
CLEUZA: Virou vidente, agora…
SILAS: Eu também ouvi.
NOIVA: É!…
GEÍZA: Que ele venha!
CLEUZA: Já não era sem tempo.
SILAS: Quem suportará a sua chegada?
FAUSTO: Ele não virá! E se vier estaremos pronto para lhe falar poucas e boas!!
GEÍZA: Através da mídia escrita e falada, afundarei a honra dos dois.
FAUSTO: Já que ele é o dono de todo o ouro e de toda a prata, tenho poder para influenciar na economia do mundo. As bolsas de valores despencarão, a inflação irá a pico. O mercado internacional ficará inoperante.
GEÍZA: E ainda tem mais. Eu não me chamo Geíza Abel, se eu não colocar a sociedade contra todos que são a favor desse casamento.
CLEUZA: Eu já sou a primeira!
DIMAS: Cleuza, não diga isso!
SILAS: Isso já era de se esperar, senhor Dimas.
BENTO: Geiza e Fausto, Nós temos o poder sobre este mundo!
GEÍZA: Cleuza, você que me perdoe, mas a sua filha não casará hoje, e nem existirá mais padrinhos da noiva aqui.
FAUSTO: Vamos acabar com a raça de vocês de uma vez por todas.
BENTO: Será o sacrifício perfeito aos deuses desse mundo.
DIMAS: Vocês não podem fazer isso! Não podem fazer isso com a minha filha!
Bento pega uma dinamite, Geíza uma faca e Fausto um revolver. Cleuza fica assustada com o inesperado.
CLEUZA: Gente! O que é isso?!
BENTO: Creio poder afirmar, sem arrogância e com a devida humildade, que a minha mensagem e os meus métodos são válidos, em sua essência, para todo o mundo.
SILAS: Vamos agüentar firmes! Vamos agüentar firmes até a vinda do noivo!
DIMAS: Eles vão nos matar!! Ele vão nos matar!!
EDNA: Vamos proteger a noiva desses tinhosos! Eu entrego a minha vida por ela! Fique atrás de mim!
BENTO: Aqui se faz, aqui se paga!
NOIVA: O meu noivo!! O meu noivo!!
Todos olham para a entrada da igreja.
NOIVA: O noivo está chegando!
DIMAS: Por favor, seu Silas, como o que devo fazer para ser aceito por ele. Diga logo.
SILAS: Aceite-o, senhor Dimas. Confesse com sua boca que ele é o seu senhor.
EDNA: Desembuche homem! Desembuche!
DIMAS: Sim! Eu o aceito em minha vida, para que ele me aceite na dele.
NOIVA: Ele está entrando!!
Uma grande luz, entra pela porta. Bento, Geíza, Fausto e Cleuza ficam aterrorizados, Silas, Edna, a noiva e Dimas ficam radiantes. E de repente tudo fica escuro. E em meio ao escuro, surge uma batida na porta.
LÉIA: Deixe-me entrar! Por favor, deixe-me entrar!! Não me deixe de fora!
Fim
e-mail: mcs.braga@hotmail.com

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