BARRABÁS: O PROCESSO CONTINUA!

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Sala do juri - BARRABÁS

[Provavelmente] o primeiro homem que entendeu que Cristo morreu em seu lugar foi o delinquente Barrabás’(Tirado de O Mensageiro 2003).
A peça: O Processo conta a suposta história de Barrabás após sua libertação.
Depois de colocado em liberdade, Barrabás foge noite adentro e vaga pelo mundo por séculos e milênios e, mesmo estando livre, não encontra a liberdade.
O processo de Barrabás é o processo do ser humano que não quer aceitar a graça.
Ele, o primeiro dos absolvidos por Cristo, está no lugar de todos nós.
Como ele, nós fomos anistiados de modo inacreditável.
Por isso, a sua dúvida é a nossa dúvida, a sua inquietação é a nossa inquietação, a sua obstinação, a sua cegueira, o seu arrependimento – tudo é nosso.
Em um ponto, porém, o Barrabás da peça está à nossa frente: ele sofre tanto com a sua culpa que não procura somente o agraciador, mas também o acusador.
Ele se submete ao julgamento.
E qual vai ser a sentença?
Você vai decidir!

BARRABÁS:  O PROCESSO CONTINUA!
[‘Der Prozess Geth Weiter’ – Rudolf Otto Wiemer]

 
ENTENDA A PEÇA: Uns dias antes da morte de Cristo, os soldados de Jerusalém prenderam um marginal chamado Barrabás. O delinquente foi julgado e condenado a morte. Deveria morrer cravado na cruz. Uma morte cruel.
A morte por crucificação é lenta e cruel...
Às vezes, o crucificado ficava cravado na cruz por dois ou três dias, até morrer. O sol durante o dia e o frio durante a noite, a fome, a sede, a perda de sangue, as dores musculares e cãibras, pouco a pouco vão acabando com a vida do crucificado.
‘... por ocasião da festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, escolhido pelo povo.
Nesta Páscoa, propôs soltar um dos dois, Cristo [também condenado a morte] ou Barrabás.
A multidão pediu que soltasse Barrabás e consequentemente deixasse que Cristo fosse levado à cruz.
Barrabás [o assassino], estava livre.
[Provavelmente] o primeiro homem que entendeu que Cristo morreu em seu lugar foi o delinquente Barrabás’(Tirado de O Mensageiro 2003).
BARRABÁS:  O PROCESSO CONTINUA! [‘Der Prozess Geth Weiter’ – Rudolf Otto Wiemer]

Orientação: O processo de Barrabás é o processo do ser humano que não quer aceitar a graça. Ele, o primeiro dos absolvidos por Cristo, está no lugar de todos nós.

Em um ponto, porém, o Barrabás da peça está à nossa frente: ele sofre tanto com a sua culpa que não procura somente o agraciador, mas também o acusador.
Ele se submete ao julgamento.
Por isso também ele consegue encontrar o seu direito: o direito de aceitar a graça.
O caso de Barrabás está incluído em uma sessão real, como se fosse uma visão.
Os magistrados percebem imediatamente que os acontecimentos da sexta-feira santa se repetem em cada processo humano: isso também ocorre no caso de pessoas com o nome comum ‘Silva’.
O processo quanto à culpa e graça realizado no tribunal de Pilatos não se esgotou definitivamente: o processo continua.
A qualquer momento podemos estar envolvidos nele, pois somos nós que estamos sentados no banco dos réus ou à mesa do juiz – isso não faz tanta diferença.
Este tipo de pano de fundo não é novidade na peça amadora.
Ele exige sobriedade e domínios dos meios.
O descobrimento do cenário não deve ser acentuado por técnicas espantosas, mas deve ser aceito com naturalidade, mesmo a aparição do anjo.
O cenário deve se restringir a alusões.
Uma mesa larga para o juiz; um banquinho para o réu; uma prateleira com livros; várias pastas; uma Bíblia e um calendário com algarismos grandes são necessários.
Além disso, um foco de luz que ilumine a figura do anjo.
É desejável que a intensidade da luz sobre o palco possa ser controlada.
O vestuário deve ser usado com cuidado.
O juiz, o promotor e o advogado não devem se preocupar com realismo.
Uma capa preta é suficiente para caracterizá-los como personagens da justiça; não se deve usar o barrete.
O escrevente se apresenta sem uniforme.
Não é a economia e sim o exagero na verossimilhança que prejudica o efeito interno.
O anjo se apresenta com calças de agasalho amarradas abaixo do joelho por faixas claras cruzadas, um blusão verde-escuro, cinzento ou amarelo claro (e não preto) preso com um cinto; os braços nus ou mangas curtas. Naturalmente o anjo será representado por um ator do sexo masculino.
Barrabás se apresentará com calças curtas, blusão comprido por cima, as pernas nuas e sandálias nos pés.
A mãe vestirá uma saia comprida e escura, com xale escuro.
Deve-se cuidar para que os três representantes da justiça se diferenciem na linguagem e nos gestos.
O promotor deve ser arguto e cético; o juiz, humano e benevolente; o advogado de defesa, pensativo e o mais disposto a ceder.
O anjo deverá falar completamente sem emoção: ele é apenas um mensageiro.
Barrabás começa recluso, num silêncio obstinado.
No decorrer da peça ele se inflama em explosões violentas; no final está outra vez quieto, mas não mais fechado e desesperado; a sua atitude deverá demonstrar que a mudança o tocou.
A mãe, severa, calma, muito precisa nas suas afirmações.
Os momentos de silêncio não devem ser prolongados exageradamente. Os expectadores devem ser envolvidos claramente na ação.
Duração da peça: 45 minutos.
Naturalmente a peça pode ser apresentada também em outras épocas do ano além da Páscoa, pois sexta feira santa é sempre.
 

PERSONAGENS:
Barrabás:
Juiz:
Promotor:
Anjo:
Advogado de defesa:
Mãe:
Escrevente:
(No tribunal. No fundo a mesa do juiz; à direita, o banco dos réus. Do outro lado, uma prateleira com pastas, etc. Na parede, um calendário grande. A plateia ainda está iluminada. )

ESCREVENTE:   (Traz uma pasta e a coloca sobre a mesa do juiz): Caso Silva. Parece que esse Silva tem muitos conhecidos (volta-se para o público), já que todos as senhoras e os senhores estão aqui. Ou será que vieram por curiosidade? Isso seria muito pouco. Pensem, afinal o réu também é um ser humano – bem deixem isso pra lá. Eu recomendo que as senhoras e os senhores se mantenham atentos e em silêncio perante o tribunal.
Se não, poderemos ter dificuldades desnecessárias.
Como? (Aponta para uma pessoa) O senhor disse alguma coisa?
Os senhores são expectadores e nada mais.
E está bem assim, não está?
Afinal de contas, não é fácil ser réu de morte.
Ser juiz também não é (Apaga-se a luz da plateia).
Ótimo. Fiquem aí no escuro.
As senhoras e os senhores não são importantes.
Aqui a única coisa que importa é o processo.
Processo Silva.
E se o homem é realmente culpado... ou quem é o culpado...
PROMOTOR:   Não há dúvida quanto à culpa. Acho que hoje a sentença será decidida.
JUIZ:  Ele já confessou?
PROMOTOR:   Isso é secundário. Os indícios são esmagadores.
ADVOGADO:   Mesmo assim deveríamos dar uma oportunidade ao réu para aliviar a sua consciência com uma confissão.
PROMOTOR:   Consciência? E o senhor acha que um assassino tem isso?
ADVOGADO:   Todo mundo tem consciência. Mesmo a pessoa mais decaída.
PROMOTOR:   Então o senhor não o considera um caso perdido, esse Silva?
ADVOGADO:   Não.
PROMOTOR:   Por que não?
ADVOGADO:   (Agora ao lado do calendário, arranca a folha e mostra ao promotor) Que dia é hoje?
PROMOTOR:   (Com espanto): Quinta-feira. Dia de sessão. Como sempre.
ADVOGADO:   Quinta feira antes da Páscoa. Portanto amanhã é...
PROMOTOR:   Sexta feira Santa.
ADVOGADO:   O senhor sabe porque eu não considero esse indivíduo aí (aponta para a pasta) um caso perdido?
PROMOTOR:   Não seja ridículo. Hoje em dia ninguém se importa mais com isso.
JUIZ:  Sem brigas, meus senhores. (Mais baixo) Não se esqueçam que hoje o tribunal está aberto ao público. (Eles sentam). Guarda! Introduza o réu.
ESCREVENTE:     (Vai até a porta e chama) Guarda! (A luz se apaga completamente) Guarda! (Ecoando lá fora) Guarda! (Subitamente aparece o anjo num facho de luz)
JUIZ:  Quem é o senhor? ANJO:   O guarda.
JUIZ:  Mas então eu deveria conhecê-lo.
ANJO:   Muitos não me conhecem.
JUIZ:  Estranho. Normalmente eu tenho uma ótima memória para fisionomias.
ANJO:   O senhor conhece Pilatos?
JUIZ:  Pilatos? (Ri meio sem graça) É claro que conheço. Quero dizer, pessoalmente ainda não tive a honra. O senhor o conhece?
ANJO:   Eu era o guarda no seu palácio.
JUIZ:  (Pasmo) Como? O senhor era o guarda de Pilatos? Antigamente, há dois mil anos? O senhor está querendo zombar de mim?
ANJO:   Estou falando sério.
JUIZ:  Não diga bobagens! De brincadeira eu ainda aceitaria, mas a sério? O senhor sabe onde está? ANJO:   No tribunal.
JUIZ:  Exatamente. Então o senhor está a par da situação. Além disso, hoje há uma sessão importante. Trata-se...
ANJO:   Do homem.
JUIZ:  Exato. Daquele Silva. Não podemos perder tempo. A sentença deverá ser decidida ainda antes das festas. E amanhã já é...
ANJO:   Sexta-feira Santa. Como daquela vez.
JUIZ:  (Cada vez mais espantado) O senhor está se referindo àquela única Sexta-feira Santa, há dois mil anos?
ANJO:   Sim, é dela que eu estou falando.
JUIZ:  E o que nós temos a ver com isso?
ANJO:   Lá também foi pronunciada uma sentença.
JUIZ:  O senhor está se referindo outra vez a Pilatos. O senhor tem algo a ver com ele. Ele não lhe dá sossego. Mas, Deus do céu, será que o processo não foi definitivamente esclarecido naquela ocasião?
ANJO:   Não, não foi definitivamente esclarecido. O processo continua.
JUIZ:  (Olha admirado para o anjo e então diz) Pois, então introduza o réu.
ANJO:   Aí está ele. (Aponta para o banco dos réus. A luz aumenta um pouco. Vê-se Barrabás sentado ali).
JUIZ:  Seu nome?
BARRABÁS:  Barrabás.
JUIZ:  (Ergue os olhos espantado) Não é Silva?
BARRABÁS:  (Barrabás fica em silêncio).
JUIZ:  (Volta-se para o anjo) Como é que o senhor vai introduzindo esse indivíduo assim?
ANJO:   Ordens.
JUIZ:  Ordens? De quem?
ANJO:   De meu superior.
JUIZ:  Há outro superior aqui além de mim?
ANJO:   Sim. Pois ele vai julgar todas as obras. Tudo o que estiver oculto, seja bom ou mau.
JUIZ:  (Relutante) Então é isso que o senhor quer dizer. Estranho. Mas agora estou percebendo quem o senhor é.
PROMOTOR:   (Ergue-se rapidamente) Eu protesto. Não quer ter nada a ver com o caso Barrabás.
ANJO:   Todos são Barrabás.
PROMOTOR:   Além disso nós não somos responsáveis. Por favor, senhores. São dois mil anos!
ANJO:   Mil anos são como um dia.
ADVOGADO:   (Pensativo) Como um dia no calendário. A minha mão tremeu quando arranquei a folha. Assim desaparece um dia atrás do outro. A gente mal percebe e diz: ‘Que diferença faz?’ E isso continua, ano após ano – as folhas caem inevitavelmente – caem e caem – e aí de repente, aparece alguém e diz...
ANJO:   Sexta-feira Santa!
(Silêncio. O promotor senta-se novamente).
JUIZ:  A sessão está aberta. Processo contra Barrabás. Qual é a acusação? (Promotor encolhe os ombros).
ANJO:   (Busca a Bíblia da prateleira e entrega ao juiz).
JUIZ:  (Folheia) Mas.. isso são os autos?
ANJO:   Sim.
JUIZ:  A Bíblia?
ANJO:   Sim.
JUIZ:  Ah é mesmo. É aqui que está a história desse homem. Mas onde é mesmo que ela está escrita?
ANJO:   João 18 versículos 38 a 40.
JUIZ:  (Abre e lê) ‘O que é a verdade? – perguntou Pilatos. Então Pilatos saiu outra vez para falar com os judeus e disse: Não vejo nenhum motivo para condenar esse homem. Mas, de acordo com o costume de vocês, eu sempre solto um prisioneiro na ocasião da Páscoa. Vocês querem que eu solte o rei dos judeus? Todos começaram a gritar: Não, ele não! Nós queremos Barrabás. Ora, esse Barrabás era um assassino’.
PROMOTOR:   Aí está. Preto no branco. Um assassino.
JUIZ:  (Abaixa a Bíblia) O caso está resolvido.
PROMOTOR:   A sentença então deveria ser mais clara ainda.
ADVOGADO:   Não. Barrabás não foi condenado. Barrabás foi anistiado.
PROMOTOR:   Onde está isso?
ADVOGADO:   Eu me lembro muito bem de ter lido isso (Pega a Bíblia).
ANJO:   Mateus, capítulo 27, versículo 26.
ADVOGADO:   (Lê) ‘Então Pilatos soltou Barrabás para eles’. (Volta-se para o promotor) O senhor ouviu?
PROMOTOR:   (Pega a Bíblia. Lê também) Incrível!
JUIZ:  Os senhores não acham que esta é uma decisão fundamental?
ADVOGADO:   Sem dúvida.
PROMOTOR:   Eu não entendo como este homem pôde ser anistiado.
JUIZ:  Vamos ao assunto!
ADVOGADO:   Com base no perdão concedido naquela época, exijo que o meu cliente seja libertado imediatamente.
JUIZ:  (Volta-se para Barrabás) O senhor ouviu, réu? O senhor concorda?
BARRABÁS:  (Depois de uma pausa) Não.
JUIZ:  Como? O senhor não quer ser libertado?
BARRABÁS:  Não.
ADVOGADO:   Mas escute, Barrabás.
Tenha juízo.
Será que o senhor não entendeu que deveria ter sido condenado? E a sua pena seria de morte!
A sua culpa não foi pequena. Assassinato é assassinato.
E de acordo com as leis da sua época, isso significaria olho por olho, dente por dente. O senhor sabe disso?
BARRABÁS:  (Baixinho) Sim.
JUIZ:  E o senhor sabe também que na sua terra assassinos comuns são pregados na cruz? O senhor sabe que morte é essa, a morte de madeiro? Terrível... (Interrompe a si mesmo). Mas, o senhor está voltando a razão, não está? O senhor se superestimou quando protestou contra a libertação. O senhor não pensou que dessa vez a coisa poderia ficar séria. (Barrabás faz um movimento como se quisesse se afastar).
JUIZ:  (Benevolente). Bem, agora o senhor está ficando mais razoável. É tudo bobagem, Barrabás. (Depois de uma pausa) O que mais o senhor quer? Temos prazer em ajudá-lo. (Barrabás permanece em silêncio).
JUIZ:  (Sacode a cabeça) O senhor está aí como se estivesse sido pregado. Ouviu? Pregado. Isso tudo ainda pode acontecer. Mas isso vai fundo Barrabás. É diferente de um arranhão de um espinho. Isso rasga e queima. Como fogo. E a gente perde o fôlego.
BARRABÁS:  (Arrepiando-se) Como fogo...
JUIZ:  Além da sede insuportável. Sem falar a vergonha e daquilo que os carrascos fazem: zombarias, torturas e outras crueldades piores. Mas porque estou dizendo isto? O senhor sabe disso melhor do que eu. O senhor conhece as práticas e costumes de seus compatriotas. E mesmo assim o senhor não quer ser agraciado? BARRABÁS:  (Em voz baixa) Não.
JUIZ:  (Impaciente) Mas então, o que é que o senhor quer? (Barrabás permanece em silêncio).
ADVOGADO:   Fale réu. Trata-se de sua vida.
BARRABÁS:  (Relutante) Eu... Não quero misericórdia. Eu quero... os meus direitos!
ADVOGADO:   (Tentando convencê-lo) Direitos? O senhor deveria dar graças por não estarem seguindo a lei ao pé da letra. O senhor estaria perdido com os seus direitos! Nós já tentamos lhe explicar o que o espera se o senhor recusar a sua sentença de libertação. Mas a execução da pena é mais terrível ainda. O senhor sabe que houve assassinos que ficaram entre 12 e 20 horas pendurados na cruz, gritando tanto que a cidade inteira os ouvia? Que a sua língua inchava, ficava preta e saia da boca? Que o seu corpo também inchava e os tendões dos pés se rompiam? Que bandos de moscas cobriam as feridas, mas nenhum soldado espantava uma só dessas milhares de moscas? Uma tortura terrível! Acredite! (Solta um riso forçado). Mas tudo isso é bobagem. Ou será que alguém está mesmo acreditando que o meu cliente seria tão idiota assim para recusar o perdão? Como os senhores iriam pensar numa coisa dessas? Pensem que não só não o torturaram, mas também o cobriram com presentes, cujo valor só alguém que ressuscitou da morte sabe avaliar. Deram-lhe relva a beira do caminho, a ave no céu, raios de sol, a escuridão da noite, pão para a sua fome e uma taça de vinho extasiante. Quantas dessas taças foram dadas a ele! Além disso também casa e cama, a volta para a mulher e os filhos. Cessou a fuga de seus perseguidores incansáveis. Dormir, sim, finalmente poderia dormir sem pesadelos, sem a espada da justiça pendendo sobre seus olhos! Será que um só desses presentes não seria suficiente para querer a libertação como um milagre sobrenatural? Réu! Barrabás! Homem! Será que os seus direitos valem mais do que esta liberdade? (Barrabás permanece calado).
PROMOTOR:   (Zombeteiramente) Que direitos são esses? Direitos de um assassino?
BARRABÁS:  (Após longa pausa) O direito de receber a condenação.
PROMOTOR:   (Espantado) Então é isso que o senhor quer dizer? O senhor quer o castigo? Isso realmente eu não esperava.
JUIZ:  Com toda consideração pela sua pessoa, réu, mas será que o senhor poderia nos dizer o que o senhor quer com esse castigo?
 BARRABÁS:  (Aos poucos) Eu... não posso... mais viver assim...
JUIZ:  Explique-se melhor. O que o senhor quer dizer com não poder mais viver ‘assim’?
BARRABÁS:  Sem que... alguma coisa... mude.
JUIZ:  O que deve mudar?
BARRABÁS:  Eu...
ADVOGADO:   Eu entendo isso muito bem. Ele é um assassino. Naturalmente isso não é agradável. Principalmente diante das pessoas. Elas são impiedosas. Elas apontam o dedo para a gente: ‘Ai vem o Barrabás! Não cheguem perto dele!’ É por isso que ele quer se reabilitar... (Barrabás quer dizer alguma coisa).
ADVOGADO:   Deixe-me terminar o que estou dizendo. O senhor vai se espantar, mas o senhor já está reabilitado. A sua libertação é equivalente a uma anistia. Assim a sua honra foi reconstituída perante o tribunal. Inclusive perante o mundo. Ninguém pode acusá-lo. Ninguém pode chegar perto demais do senhor. (Barrabás sacode a cabeça) O senhor acha que não? Mas então diga quem está pondo obstáculos ao senhor? Eu vou tirar satisfações com ele imediatamente. Vamos lá, quem é?
BARRABÁS:  Ele...
ADVOGADO:   Ele? Quem o senhor quer dizer?
BARRABÁS:  O que foi... a cruz... no meu lugar.
ADVOGADO:   (Mais retraído) Ah, sei. É dele que o senhor está falando. E ele não o deixa em paz...
BARRABÁS:  Não. Ele não me deixa... em paz.
ADVOGADO:   Mas o senhor o conhecia? O senhor já tinha ouvido falar nele? (Barrabás sacode negativamente a cabeça com força).
ADVOGADO:   O senhor realmente o viu? Diante do tribunal? (Barrabás assente com a cabeça).
ADVOGADO:   O senhor realmente o viu? Quero dizer, o senhor olhou para ele? Ou ele... para o senhor?
BARRABÁS:  Não. Daquela vez eu não o vi. Daquela vez eu só tinha medo. Um medo terrível que me cegava. Porque eu tinha estado no cárcere. Será que alguém aqui sabe como é escuro lá dentro? Nenhuma janela. Nenhuma brecha na parede. Eu estava lá e tremia. Quando a água pingava do teto no meu rosto, eu me assustava e gritava. Eu também gritava quando os ratos corriam sobre a minha cabeça e quando as correntes das minhas mãos tilintavam. De medo eu gritava. De medo do escuro. E de que pudessem me esquecer. Simplesmente me esquecer lá embaixo. Aí eu batia na pedra com os meus punhos. ‘Ei, tem mais alguém aqui que vocês esqueceram. Um assassino! (Grita) Um assassino!’
JUIZ:  Acalme-se. Não o esqueceram.
ADVOGADO:   O senhor não está mais na prisão, Barrabás.
BARRABÁS:  (Ergue-se sobressaltado) Não estou mais? Quem ame soltou?
ADVOGADO:   Pilatos. O Supremo juiz.
BARRABÁS:  (Fora de si) Não! (Aponta para o público) /Foram eles aqui. Eu me lembro deles. Daquela vez eles também estão lá, como eles sempre vêm para as sessões nos tribunais. Como espectadores. O que vocês querem, hein? Vocês querem depor contra o assassino e dizer: ‘Olhem, aí está um malfeitor. Condenem-no; mas nós não temos culpa do que ele fez’. Será que vocês são inocentes mesmo? Será que vocês nunca sujaram suas bocas com uma mentira? Nunca amaldiçoaram o seu vizinho? Nunca rejeitaram sua irmã? Seus hipócritas! O que significa a sua gritaria? Ou não foram vocês que gritaram: ‘Fora com ele. Crucifica! Queremos a sua morte! Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!’ (Para, esgotado).
PROMOTOR:   Mas, por favor, réu. As pessoas não fizeram isso. Muito pelo contrário. Eles pediram a sua libertação. O senhor não ouviu quando eles gritaram: ‘Barrabás! Barrabás!’ o tempo todo?
BARRABÁS:  (Assusta-se, recorda) Eu... ouvi, sim. ‘Barrabás! Barrabás!’ E depois: ‘Crucifica-o! Crucifica-o!’ Oh, essa gritaria horrível! Esses uivos das bocas espumantes! Esse ódio embriagante! A saliva nos lábios! Os punhos estendidos! E para quem era tudo aquilo? Como é que eles podiam exigir outra coisa que não fosse a minha morte? Uma sentença cem vezes merecida.
PROMOTOR:   Mas eles não estavam falando de você, homem!
BARRABÁS:  Como não estariam falando de mim, já que sou um assassino? E eu não tinha esperado outra coisa. Eu tremia pelo corpo todo. Os meus dentes batiam. Será que eu sabia o que estava acontecendo? Será que hoje eu sei? ‘Crucifica-o! Crucifica-o!’, eu ouvia. ‘Crucifica-o!’ – e depois uma voz perto do meu ouvido. Uma voz fria e indiferente: ‘Você está livre!’ – e mais uma vez: ‘Livre! Vá logo!’. Eu vacilei. Era como uma espada. Como se o mundo se partisse em dois. É, foi assim mesmo. (Volta a meditação).
ADVOGADO:   O senhor ainda não entendeu?
BARRABÁS:  Eu... me recuso a entender
ADVOGADO:   (Em voz baixa) Não seja idiota, Barrabás. Aceita os fatos de uma vez por todas.
BARRABÁS:  (Grita) Não! (Mais baixo) Não!
ADVOGADO:   Mas porque não?
BARRABÁS:  (Não diz nada. Quer falar alguma coisa, mas cala-se de novo).
ADVOGADO:   Diga. Diga de uma vez o que há de tão – inaceitável!
BARRABÁS:  (Aos poucos) Se a gritaria... não era para mim, não era pela minha morte,... então eles... eles devem ter condenado o outro, não é, o outro... (?).
ADVOGADO:   Sim, o outro foi condenado.
BARRABÁS:  (Ergue-se e explode) Mas o outro era inocente!
ADVOGADO:   Como o senhor sabe disso?
BARRABÁS:  Eu o vi – morrendo.
ADVOGADO:   O senhor acompanhou o cortejo até o lugar da execução?
BARRABÁS:  Eu cheguei quando tudo já havia acabado. De repente eu estava sozinho no campo vazio. Caí no chão. Quando ergui a cabeça, ouvi batidas de martelo. Nitidamente. Um martelo batendo no ferro. Isso se ouve de longe não é? Naquela vez eu pensei que o mundo todo estivesse ouvindo; e o chão debaixo de mim tremia. Eu me levantei. Senti como os meus olhos se abriam. Pela primeira vez desde a prisão eles se abriam de verdade. E agora eles viam... (olha fixamente para a frente).
ADVOGADO:   O que os seus olhos viam, Barrabás?
BARRABÁS:  Viam que ele era inocente.
ADVOGADO:   Como o senhor chegou a esta conclusão?
BARRABÁS:  Eu vi.
ADVOGADO:   O senhor não pode dizer mais nada sobre isso?
BARRABÁS:  Não. Só que os outros dois, dois culpados, estavam nas cruzes do lado dele. Dois assassinos. Um deles blasfemava. E esse um... teria sido eu.
PROMOTOR:   Não confunda os fatos. Se o senhor, Barrabás, tivesse sido crucificado, então ele – refiro-me ao do meio – não teria sido condenado. Ele ou o senhor – não havia outra alternativa.
BARRABÁS:  Ele... ou eu...
PROMOTOR:   O senhor entende isso?
BARRABÁS:  (Sacode a cabeça) Um mistério terrível.
PROMOTOR:   Porque terrível?
BARRABÁS:  (Olha longamente) Como é que o senhor iria saber o quanto é terrível quando nos são abertos os olhos? O senhor não é um assassino. O senhor não soube o que significa ser culpado.
JUIZ:  Todo mundo tem alguma coisa da qual se arrepende. Até eu, o juiz.
BARRABÁS:  Arrepender-se? É assim que o senhor chama isso?
JUIZ:  Como então? O peso da sua ação de repente lhe ficou claro. Face a este sofrimento inocente, o senhor resolveu...
BARRABÁS:  (Interrompe veementemente) Não! Nada disso! Eu só sentia um peso enorme sobre os meus ombros. E a escuridão, da qual eu acabara de escapar, voltou ainda mais cruel.
PROMOTOR:   Então o senhor voltou a ter medo?
BARRABÁS:  Não medo, meus senhores. De que eu iria ter medo? Eu havia sido libertado. Todos me felicitavam: ‘Saúde, meu irmão! Você nasceu sob um alto astral!’ (Pausa) Como eu odeio esse astral!
PROMOTOR:   Eu não o entendo, Barrabás. As pessoas tinham razão.
BARRABÁS:  Assim como têm razão as crianças que não sabem o que fazem. Por acaso elas têm sangue do irmão grudado em suas mãos? Será que ouvem dia e noite a agonia da vítima? Será que vêm os olhos dele se fechando e a cabeça rachada? Como é que elas iriam entender que eu tenho medo da sua alegria? Que eu amaldiçoo a jarra de vinho, e que na casa de minha mulher fico sentado, calado como um idiota? ‘Você está ouvindo’, eu pergunto pra ela, ‘está ouvindo as marteladas’? A mulher sacode a cabeça e seca o suor da minha testa. ‘Não é nada’, ela diz. Mas eu vejo as três cruzes, eu as vejo em pé e no meio vejo a ele, com a cabeça coroada de espinhos.
PROMOTOR:   A morte do crucificado não está sendo discutida aqui. Além do mais, o senhor não tem culpa dela.
BARRABÁS:  (Cada vez mais excitado) Eu, eu não tenho culpa da morte desse crucificado? Eu, que fui agraciado em seu lugar? Que saí livre na mesma hora em que o chicotearam e puseram a cruz sobre seus ombros fracos? Ah, se eu pudesse ter carregado aquela cruz! Eu não teria desfalecido com o peso como ele, que não matou ninguém nem fez qualquer mal nem qualquer coisa ruim. Eu só teria recebido aquilo que minhas ações merecem: mentira, inveja, ira, e finalmente o sangue que clamava contra mim. E eu sou inocente? Eu mereci cem vezes a morte que ele sofreu! Eu! Eu! É por isso que ele não me deixa em paz. Ele me persegue. Ele se coloca no meu caminho. Se eu pego uma corda para eu me pendurar nela, ele a arranca da minha mão. Se me atiro na água, ele me traz a salvo para outra margem. Até a faca que ergo contra o meu peito, perde o corte. E é sempre ele, que me olha com esses olhos terríveis e com a acusação ardente: ‘Você sabe o que eu fiz por você?’ (Em voz alta) Sim, eu sei! Mas eu não entendo! Por quê? Porque ele fez isso? Isso era necessário – por mim? Que homem é esse, esse crucificado – que morre no lugar de um assassino?
ADVOGADO:   Defendo os interesses do meu cliente. Peço que a sessão seja interrompida.
BARRABÁS:  (Exalta-se) Não! Nem um segundo mais! Eu não aguento mais. Eu quero... Eu quero...
JUIZ:  (Asperamente) O que é que o senhor quer?
BARRABÁS:  Eu quero que me condenem. Eu quero morrer, ouviram? Morrer como ele, na cruz, de acordo com a lei. Eu não quero aceitar o sacrifício dele! Eu quero apagar esses olhos ardentes. Eu não quero misericórdia! Eu quero ser livre. Finalmente livre.
PROMOTOR:   Livre? Mas isso o senhor já está há muito tempo
BARRABÁS:  Será que se liberta um assassino, soltando-o? De que adianta livrá-lo das algemas e não da culpa? JUIZ:  (De má vontade) Cale-se, réu. Não podemos fazer nada além de aceitar a decisão tomada naquela ocasião. Se não, teríamos que inocentar o crucificado a posteriori.
BARRABÁS:  E porque o senhor não faz isso?
JUIZ:  (Lentamente) Talvez porque todos nós precisamos dele – lá na cruz. Portanto, pode ir.
BARRABÁS:  Eu... ir? Nunca!
JUIZ:  Não podemos decidir outra coisa!
BARRABÁS:  Então que a vítima venha me acusar! Onde está você, irmão Abel? Porque você não vem depor contra mim? JUIZ:  Os mortos são mudos.
BARRABÁS:  Ele não tem uma mãe que fale por ele? Porque ela não aparece? Porque ela não vem e diz que Barrabás deve ser condenado? (Volta-se para a plateia) Chamem! Chamem, para que o seu grito atravesse os séculos até o dia em que lhe trouxeram o morto para sua casa! Chamem, mães do mundo inteiro (Grita) Aqui está o assassino! O assassino do filho! E agora ele vai... (Para subitamente. A mãe atravessa o público em direção a Barrabás. Silêncio. A mãe para diante do juiz).
ANJO:   A mãe.
PROMOTOR:   Não me consta desta testemunha. Quem a convidou?
ANJO:   O filho.
PROMOTOR:   Ele é o acusador?
ANJO:   Acusador, defensor e juiz.
PROMOTOR:   Ela deve ser ouvida?
ANJO:   Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. (Silêncio. O promotor senta-se).
JUIZ:  A senhora é...
MÃE:   Eu sou a mãe do rapaz que Barrabás matou.
JUIZ:  (Com voz contida) E a senhora não esqueceu nada, quero dizer, nada do que aconteceu daquela vez? MÃE:   Nada.
JUIZ:  A senhora concordou com a libertação de Barrabás?
MÃE:   (Lentamente) Não. Eu amaldiçoei o assassino, o desgraçado. (Dirige-se a Barrabás) Eu amaldiçoei você, Barrabás.
BARRABÁS:  (Depois de uma longa pausa) Sou eu; o assassino de seu filho. Eu estava esperando atrás do espinheiro quando ele desceu cantando pela montanha. Ele estava cantando, ouviu? Outra pessoa talvez teria se assustado com essa canção.
MÃE:   E você não?
BARRABÁS:  Mesmo assim eu ergui a minha mão
MÃE:   Você o odiava?
BARRABÁS:  Sim, porque ele era do outro bando.
MÃE:   E isso foi o suficiente para o seu intento assassino?
BARRABÁS:  Foi.
MÃE:   (Afasta-se de Barrabás) Por isso amaldiçoei a Deus pela segunda vez, quando anunciaram pelas ruas a libertação de Barrabás. Lancei fora o meu luto como se lança uma bengala que se tornou inútil. Dali em diante o meu ódio me manteve em pé. Fui ao tribunal. Ajoelhei-me no pó diante de Pilatos. ‘Você é o juiz’ – eu disse – ‘porque você não julga?’. Ele encolheu os ombros ‘O povo já decidiu’. Corri para o mercado. Gritei para o povo. ‘Devolvam meu filho, ou condenem Barrabás!’. Aí todos riram. ‘Barrabás está livre, e você vá falar com os escribas. Eles sabem porque tudo isso aconteceu’. Ai eu fui falar com os escribas. Mas eles não tinham tempo. ‘Você não está vendo que temos que ir ao Gólgota?’. Então perguntei: ‘Mas o que querem lá, já que Barrabás não está na cruz? Quem vocês querem ver morrer?’. ‘Ele, que tem mais culpa que todos nós’ – responderam. E então... então...
JUIZ:  O que aconteceu então?
MÃE:   Então eu também fui ao Gólgota. E o vi. E o acusei. ‘Porque você está fazendo isto?’ – perguntei na minha obstinação. ‘Porque você está morrendo no lugar de um culpado? O juiz Pilatos não sabe. O povo, que pediu a sua morte, não sabe. Os escribas também não sabem. Então você precisa dizer-me!’. O homem torturado ficou em silêncio. Ele viu que o ódio devorava minha a alma. Mas o ódio cega e ensurdece.
JUIZ:  Cega e ensurdece.
MÃE:   Esperei debaixo da cruz. De repente ouvi a voz.
JUIZ:  A sua voz?
MÃE:   A voz de um moribundo. Mas uma voz que atravessa sepulturas e escuridão. Também a escuridão do meu ódio. Foi como se eu acordasse de uma longa surdez e pela primeira vez ouvisse alguém falar.
JUIZ:  O que foi que ele disse?
MÃE:   As suas palavras não se referem a mim. Depois percebi que se dirigiam àquelas pessoas que estavam mais perto de sua cruz. Mas aquelas mesmas palavras me atravessaram como espada – e ainda assim, como uma espada de luz. Mas, será que as suas palavras não foram ditas para todos nós?
JUIZ:  Para nós?
MÃE:   Para você – para mim. Para cada um a palavra que precisa. (Cala-se e então diz em voz baixa, porém firme) ‘Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe...’. (Cala-se novamente e então continua no mesmo tom). Eu me virei, e aí estava – Barrabás – atrás de mim.
JUIZ:  O assassino?
MÃE:   Sim. E eu,..., eu o perdoei. (Barrabás cobre o rosto com as mãos).
MÃE:   Ele cobriu o rosto com as mãos, como agora. Como se a luz da cruz o cegasse. Fui em sua direção. E ele fugiu noite adentro. Como um perdido. Mas eu sabia que o encontraria. ‘Procurei você pelo mundo todo’ (ela fala em direção a Barrabás) ‘Até que enfim eu o encontrei, Barrabás’.
BARRABÁS:  (Abaixa lentamente as mãos) Eu, eu matei o seu filho.
MÃE:   Todos nós matamos o Filho.
BARRABÁS:  Eu sou culpado.
MÃE:   Todos nós somos culpados.
BARRABÁS:  Eu... eu fui condenado.
MÃE:   Todos nós fomos condenados, e todos nós fomos libertados.
BARRABÁS:  Eu... eu também?
MÃE:   Você também, meu filho Barrabás.
BARRABÁS:  Então não foi o povo que me libertou? Não foi o sumo sacerdote? Nem Pilatos daquela vez diante do tribunal?
MÃE:   Não, Barrabás. Você não estava livre, até este momento, em que você é perdoado no nome dele.
BARRABÁS:  Perdoado...
MÃE:   Ninguém é livre, se ele não o libertar antes. Você não procurava os seus direitos, Barrabás?
BARRABÁS:  Procurava.
MÃE:   E agora você os achou. O direito de aceitar a misericórdia. Como eu. E todos nós. Vá, Barrabás.
BARRABÁS:  Mas para onde devo ir... mãe?
MÃE:   Para ele. Venha, eu vou acompanhar você. (Ela o conduz pela lateral. O anjo os segue, enquanto a luz diminui).
VOZ DO ESCREVENTE:   (Fora, ecoando alto, em completa escuridão) Guarda! (Aproximando-se) Guarda! Guarda! (A claridade aumenta aos poucos, como no início. Vêm-se apenas os três magistrados).
ESCREVENTE:   (Entra) O réu está pronto.
JUIZ:  (Como se estivesse acordando) Que réu?
ESCREVENTE:   Caso Silva!
JUIZ:  (Espantado, depois de uma longa pausa) Que dia é hoje?
PROMOTOR:   (Levanta a página do calendário) Quinta feira. Dia de sessão. Como sempre.
JUIZ:  Quinta feira antes da Páscoa. Portanto, amanhã é...
ADVOGADO:   Sexta feira santa. (Silêncio).
JUIZ:  (Ergue a Bíblia, diz para o escrevente) Coloque o livro no lugar de novo.
(Quando o escrevente quer pegar a Bíblia...)
JUIZ:  Não! Ele deve ficar aqui.
(Recoloca a Bíblia sobre a mesa. Silêncio. Depois, numa decisão repentina).
JUIZ:  Introduza o réu. O processo continua! (Enquanto o escrevente vai até a porta, a luz vai diminuindo).

Fonte WEB Cantinho da alma  (Redigitada por Rev. Emiliano – janeiro de 2007.)

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