UM PRESENTE DE NATAL PARA PAPAI

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Drama de uma família. Os filhos ainda pequenos, o pai alcolatra. Há amor nesta família, mas o vício do pai preocupa a mãe, perturba os filhos...

 

 

Personagens

Helena (uma menina de 10 anos;

Eduardo ( irmão de Helena de 8 anos);

Mamãe;

Papai;

Antônio (um amigo do pai).

CENÁRIO:  Uma sala modesta onde Helena recorta figuras. Eduardo folheia um livro. Mamãe faz algum trabalho. Um cofrinho sobre a mesa, livros e tesoura. Na sala tudo indica ser véspera de Natal.

Helena: (lendo a Bíblia) - Aqui na Bíblia está escrito: “Disse o tolo no seu coração: Não há Deus...” (pensando)  Mamãe, que quer dizer ‘tolo’?

Mamãe: - Uma pessoa tola é uma pessoa que não pensa com sabedoria; e não pensando com sabedoria não age também de uma maneira certa.

Helena: - Então papai é um tolo, não é mamãe?

Mamãe: - O quê? Helena, o que você quer dizer com isso? Naturalmente...

Helena: - Bem, mamãe...( ansiosa) - Você sabe, ele às vezes,  se torna um tolo...

Eduardo: - (interrompendo) - Sim, ele se parece com um tolo justamente quando toma muita bebida de álcool. Ontem mesmo, meu amigo, Carlos , me disse que seu pai também, gosta de tomar bebida de álcool; e quando ele bebe demais, fica assim, meio esquisito, meio bobo. Acho que, quando Carlos e eu crescermos, vamos aprender a beber sem nos tornarmos tolos...     

Mamãe: - Espero,  Eduardo, que vocês nunca aprendam a tomar bebida alcoólica!  (afasta-se chorosa)

Helena: - Mamãe saiu chorando. Vi nos seus olhos cheios de lágrimas... por que será que ela chorou?

Eduardo: - Acho que é por causa do papai. Cada vez que ele bebe muito fica assim meio esquisito e mamãe vai para o quarto e chora. Eu também não gosto de ver papai assim...

Helena: - Apesar de tudo, ele é tão bom e  como nos quer bem! É um pai adorável! Se ele não bebesse mais...

Eduardo: - (abrindo o cofrinho; conta as moedas) - Olhe, Helena, não é hora de pensar em coisas tristes!

Helena: - Tem razão, o natal está aí! (vendo Eduardo contar as moedas) - Sobrou-lhe algum dinheiro das compras! Eu fiquei sem um centavo. Conte-me o que você comprou.

Eduardo: - Para Carlos comprei uma bola, a dele furou e não tem mais conserto. O que acha?

Helena: - Ótimo! E eu comprei para Lenita uma caminha para sua boneca. Não é legal?

Eduardo: - Sim, e  agora precisamos fazer os pacotes da mamãe e do papai. Vamos?

Helena: - Vamos, traremos logo os pacotes e os deixaremos ao pé da árvore de Natal. (os dois saem).

 

Cenário: (Apaga-se as luzes, as crianças saem de um lado e entram pelo outro lado trazendo os enfeites da árvore de Natal. Também entra a mãe e começam a enfeitá-la)

 

Helena: - Mamãe, não estou com sono, mas eu sei que só à meia noite é que poderemos ver os presentes, teremos que dormir mesmo agora?

Eduardo: - Eu já estou crescidinho! Deixe-me ficar acordado? (olhando os pacotes) Quantos pacotes! Acho que no meio daqueles está o meu!

Mamãe: - Filhinhos, não tem graça ficarem acordados até a hora de abrir os presentes. Vão dormir. À meia noite vocês despertarão com o sino tocando, então sim, vocês terão oportunidade de ver os presentes.

Helena e Eduardo: -Boa Noite mamãe! Durma... ( ouve-se a campainha, as crianças correm para atender, pensando que fosse papai. Abrem a porta)

Antônio: - Boa Noite, crianças! Feliz Natal! Feliz Natal!

Todos: - Feliz Natal!

Antônio: - Oh, vejo que a árvore já está arrumada! E como está linda! Papai não está em casa?

Mamãe: - Ele ainda não chegou!

Antônio: - (entregando-lhe um embrulho) - Bem, aqui está um presente para ser colocado ao pé da árvore , é para ele. Nada como uma garrafa como presente de Natal, hein!?!?

Mamãe: - (colocando o embrulho ao pé da árvore) - Sr. Antônio, não penso como o senhor, mas de qualquer maneira, muito obrigada, muito obrigada pela lembrança!

Antônio: - Oh! Não seja por isso, os amigos tem de se manifestar em todas as ocasiões especiais. E como somos amigos, seu marido e eu, a senhora nem faz idéia!!! Boa Noite, minha senhora, boa noite, crianças!

Mamãe: - ( tristonha) - Boa Noite, Sr. Antônio!

Eduardo e Helena: - Boa Noite! Feliz Natal, Sr. Antônio!!

Eduardo: -  Mamãe!  É uma garrafa de vinho!

Mamãe: -  Sim, e eu tenho que deixá-la aqui ao pé da árvore, pois é presente de um amigo. ( sai chorosa)

Helena: - ( dirigindo-se a Eduardo) - Se papai tomar esse vinho, ele se transformará em um tolo, não acha?

Eduardo: - Talvez isso vá perturbar o Natal de mamãe. Não viu como seus olhos estavam tristes ao receber o embrulho com a garrafa?

Helena: - Sim, eu percebi, mas como é que Sr. Antônio disse, que não há presente de Natal melhor do que uma garrafa? Será que não importa o que há lá dentro da garrafa?

Eduardo: - Importa, sim, Helena! O que tem naquela garrafa é vinho! E vinho embebeda  e o bêbado se torna um tolo, um bobo.

Helena: - Coitado do papai! Será que ele não vê isso? Vamos Eduardo, vamos dormir. (pausa) Espere!  Vamos levar a garrafa para o quarto?

Eduardo: - Vamos, vamos! E pensemos em descobrir um jeito de ajudar papai.

 

CENÁRIO: ( a cena torna-se silenciosa por uns minutos. Entra o papai, cambaleante, atravessa a sala e sai pela porta dos fundos. Entram Eduardo e Helena com dois pacotes prontos, a garrafa embrulhada)

Eduardo: - Você pensou no assunto?

Helena: - Sim, veja a garrafa! Eu a esvaziei. Tirei todo o vinho e a enchi de água pura.

Eduardo: - Você é legal.

Helena: - Você faz  o pacote. ( Eduardo toma a garrafa e começa a embrulhá-la. Isabel entrega-lhe a fita que prendia o seu cabelo para amarrar o pacote)

Eduardo: - Pronto, e que lindo pacote! Vamos deixá-lo ao lado dos presentes com o nome do papai. ( deixam os pacotes e a garrafa ao pé da árvore)

Helena: - Estou curiosa! No meio destes pacotes deve estar o meu. Que acha, Eduardo?

Eduardo: - Claro! E o meu também! Vamos voltar para o quarto e esperar a hora de receber os presentes. Que sorte a nossa, a mamãe não aparecer aqui. O papai não viria mesmo!

Helena: - Que tristeza! Você viu como ele entrou tropeçando? Deus permita que nosso plano dê certo!

Eduardo:- Sim! Deus permita! (saem os dois juntos. A cena permanece em silêncio por alguns instantes. Entra a mãe agitando um sininho)

Eduardo e Helena: - ( entram correndo)  Feliz Natal!  Feliz Natal!

Papai: - ( olhando a garrafa com o seu nome escrito) - Que é isso, um presente para mim?

Mamãe: - ( admirada e sem entender) - O Sr. Antônio trouxe para você.

Papai: - Oba! Uma garrafa! ( tirando o papel, deixa a fita no gargalo da garrafa) Vejamos o que vem aí. ( desenrola e cheira) -  Mas... Que é isto? (fechando a cara) -  Um primeiro de abril?

Helena: - Não papai! ( com medo) -  É justamente água pura e fresquinha. Eu joguei fora o vinho, para que você não se tornasse um tolo de coração.

Mamãe: - (olhando atônita e emocionada) -  Helena, minha filha!

Helena: - (suportando o olhar duro do pai) - Mamãe explicou o que é uma pessoa tola: é uma pessoa que não pensa com sabedoria. (aflita) -  Assim nós não queremos que você se torne tolo...

Eduardo: - Não queremos isso, papai! O senhor é tão bom! Tão querido! Tão nosso! Como se tornar um tolo?

Helena: - (chorando, atira-se nos braços do pai) -  Ele simplesmente disse que era uma garrafa! (soluçando)  - Papai, eu amarrei nela a minha melhor fita...

Eduardo: - ( assustado) -  Papai, não fique...

Mamãe: - (interrogando)  -  Meus filhos...

Papai: - (sério, aperta a filha nos braços e a ergue como fazia , quando era nenê.) - Urra!!! Minha filha!!! Este foi o melhor presente de Natal que tenho recebido até hoje! Uma garrafa é um ótimo objeto, se dentro dela trouxer alguma coisa boa. Daqui por diante teremos aqui em casa as garrafas cheias de água boa e fresquinha!

Helena: - (alegre) -  De verdade, papai?

Papai: - ( sério) -  É uma tentativa, vocês têm a minha palavra.

Helena: - (correndo) para a mãe, abraça-a) -  Mamãe, isto é Natal!

Eduardo: - (correndo para o papai, abraça-o) -  Papai, isto é Natal!

CENÁRIO: (Aí a cena congela,  fica muda e ouve-se o narrador dizer:)

 Narrador: - Certamente a mudança naquela família não aconteceu como que num passe de mágica. Mas naquele Natal ocorreu o início de uma mudança para toda a família, começando pelo pai. Ele aceitou o fato de que era dependente da bebida. Reconhecer que necessitasse de ajuda foi um sinal claro que naquele lar se viveria um novo tempo, uma vida em que se sabe, agora,  o que é ser feliz.

Datas: 
Diversos: