UM NATAL EM FAMÍLIA

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Família na ceia de Natal

Levemente baseado em Lucas 15:25-32, esta peça nos dá um vislumbre da vida de Gil, uma versão moderna do irmão mais velho do “Filho Pródigo”, alguns anos depois da conversão de seu irmão Cláudio a Cristo. Gil é um “Scrooge às avessas”, ostentando sua própria generosidade enquanto acusa os outros de usar a mesma generosidade para “comprar o amor das pessoas”. Mas é ele mesmo que tenta em vão agradar os outros e comprá-los. Por causa de dores escondidas, ele se torna mais concentrado em manter suas preciosas heranças de família intactas do que consertar relacionamentos quebrados com sua própria família.

Todas as cenas se passam na sala. A esposa de Gil, Sônia, está recebendo sua família, como sempre, para a ceia de Natal. Gil, é claro, fez de tudo para comprar os presentes certos, cortar a árvore e tentar se mostrar como é uma boa pessoa. Mas nenhum de seus esforços é apreciado. E para complicar mais, seu celular fica tocando nas piores horas. Gil simplesmente não consegue fazer todos felizes. Será que este acabará sendo o pior Natal de todos?

Personagens:
GIL: O homem que trabalha duro e tem uma “barriga de Papai Noel”.
SÔNIA: Esposa de Gil, que ama receber e entreter visitas. Ela também é muito protetora para Gil e tenta suavizar as situações entre ele e sua família.
ALINA: Mãe de Sônia, um verdadeiro estereótipo da temida sogra, até com suas contradições hipócritas.
KÁTIA: Irmã de Sônia, uma hipocondríaca pronta para voar para o hospital mais próximo com suas filhas ao primeiro sinal de doença.
ROGÉRIO: Marido de Kátia, um homem prestativo que sempre tem um lenço, um remédio ou qualquer coisa que ajude a resolver um pequeno problema médico.
SAMARA: Filha mais velha de Kátia e Rogério. Atrevida e adora insultar.
PRISCILA: Filha mais nova de Kátia e Rogério. Chorona e sempre querendo alguma coisa.
LUCAS: Irmão se Sônia, um piadista e brincalhão.
SIMONE: Esposa de Lucas, que chora até por uma folha caindo da árvore.
GUSTAVO: Filho de Lucas e Simone, muito ágil com as mãos. Também muito bom para provocar acidentes. Recentemente, aprendeu a arrombar fechaduras.
CLÁUDIO: Irmão de Gil, que nós só vemos ao final da peça. Uma pessoa muito extrovertida e simpática.

 

CENA 1

 

(É manhã da véspera de Natal. Gil está dormindo no sofá. Sua esposa Sônia está tentando acordá-lo)

SÔNIA: Terra para Gil! Acorde! Vamos logo!

GIL: (Lentamente e meio grogue) Ohhhh... Minha cabeça... Me deixem em paz! Chega disso!

(Sônia o chacoalha. Ele acorda com o sonho ainda vívido na memória)

GIL: Não, não deixe eles me pegarem! Ah, é você, Sônia. Mas que pesadelo eu tive... Já é Natal? O peru ainda está a venda no açougue?

SÔNIA: Acalme-se, querido. Você só teve um pesadelo.

GIL: Cara, foi tão real... Eu sonhei que estava em um celeiro cheio de galinhas porque eu fui um mau peru durante o ano e por isso eu deveria ver o fantasma do Natal Presente antes de eu ser assado no Natal Futuro... E aí todas elas começaram a jogar ovos em mim... E agora minha cabeça está latejando como se tivessem usado ela para jogar pingue-pongue. O que você fez comigo? Me bateu com uma marreta?

SÔNIA: Não, não bati. Você só está de ressaca depois de todo aquele champanhe da festa de ontem à noite. Você estava tão chapado que eu tive que dirigir de volta para casa. E quando chegamos, você simplesmente desabou no sofá e dormiu... De novo! Doze festas em um mês é meio excessivo, até mesmo para você, se quer saber. (Ela o ajuda a se levantar, ele sente a dor de cabeça aumentar)

GIL: Por quê? Eu não mereço me divertir um pouco? Eu trabalho feito um escravo o ano todo fazendo aqueles cartões para todas as festas do ano e tudo o mais que você puder imaginar. Eu acho que eu mereço um pequeno descanso na época do Natal... Ai minha cabeça! Que dia é hoje?

SÔNIA: Véspera de Natal, amor. E à noite você vai interpretar o seu papel favorito.

GIL: Não. Papai Noel de novo! Isso é uma tortura!

SÔNIA: Eu acho que você consegue.

GIL: E por que o seu irmão não pode bancar o Papai Noel? 

SÔNIA: Porque ele não é tão talentoso como você.

GIL: (Bancando o mártir) O que foi que eu fiz para merecer uma família como a sua?

SÔNIA: Faz parte do pacote, amor.

GIL: Certo. Eu tenho que amar os caipiras. Especialmente o tal de Rogério, com seu chapéu coco e óleo de cobra medicinal.

SÔNIA: Ah, por favor, Gil! Caipiras, por favor! Só porque Rogério usa aquelas calças largas não é razão para você o chamar de caipira. Ele é só um homem prático que gosta de ter os remédios à mão.

GIL: Não sei que raios de remédios ele tem ali. Eu ainda fiquei gripado depois do último Natal, e não quero ficar gripado de novo. Não é que eu tenha algo contra seus parentes, Sônia. Mas é melhor ter cuidado caso eles espirrem.

SÔNIA: Por favor, Gil. Não os culpe por você ter ficado gripado. Você sabe muito bem que você só ficou doente dois dias depois do Natal, e pegou de dois de seus colegas de trabalho, que você insistiu para que fossem trabalhar com você, mesmo eles estando doentes e a loja fechada.

GIL: É por isso mesmo. Não importa o quanto eu trabalhe feito um escravo para prover saúde e bem-estar nesta casa, alguém sempre me faz ficar doente ou quebra alguma coisa. Eu não tenho como vencer!

SÔNIA: Você não consegue esquecer-se do ano passado quando o Gustavo quebrou aquela sua miniatura da Estátua da Liberdade, não é?

GIL: E como poderia? Era uma relíquia de família! Nada teria quebrado se o seu irmão e a esposa dele não deixassem o garoto correr a solta pela casa feito um doido. Aliás, me faça um favor: guarde o meu vaso chinês no compartimento secreto do armário, naquela parte da casa aonde ninguém nunca vai. Aquele é o tesouro mais valioso que tenho, uma relíquia de família inestimável que eu ganhei da minha avó Luísa. 

SÔNIA: Não se preocupe. Seu grande tesouro ficará são e salvo.

GIL: E outra coisa: tente fazer eles se comportarem este ano.

SÔNIA: Como se eu pudesse controlar minha família! Assuma Gil, se você não quer vê-los, ligue para eles e mande pedirem pizza e nós vamos visitá-los outro dia.

GIL: Isso é ridículo! Ninguém pede pizza no Natal.

SÔNIA: E por que você não convida o seu irmão Cláudio?

GIL: Não, tudo bem, você venceu, como sempre.

SÔNIA: (Reprovando) Você acordou do avesso hoje, hein? Melhor você se arrumar. Pegue o machado e vá buscar uma árvore. E por favor, pegue uma grande e bonita desta vez.

GIL: Grande e bonita. Entendi.

SÔNIA: E se você não se importa de podá-la também, eu agradeceria muito. Com tudo o que eu ainda tenho para cozinhar para hoje à noite, eu não sei nem se teria tempo.

GIL: Eu tenho que podar a árvore também?

SÔNIA: Por favor?

GIL: Tá certo, vou fazer o que puder. Vou pegar uma árvore grande e podá-la.

SÔNIA: Muito obrigada! Agora me deixe ir trabalhar.

(Sônia sai, depois de um tempo, Gil pega um machado e sai)

 

 

CENA 2

 

(Uma hora depois, Gil volta todo sujo e suado, carregando uma árvore do tamanho de um bonsai)

GIL: Cara, que trabalheira! Estou suando como um porco, mas aqui está! A obra-prima que ganha de todas as obras-primas! Só espero que eles apreciem todo o trabalho que eu tive para conseguir isso.

(Ele não percebe Sônia entrando, que quando vê a árvore quase desmaia, chocada)

SÔNIA: Mas o que aconteceu? (Gil está tão entretido que se assusta e dá um pulo) Eu pensei que você ia pegar a maior árvore que pudesse encontrar.

GIL: E eu peguei. Ela tinha uns 3 metros de altura, uma beleza. Então eu a podei, como você me pediu. Você queria que eu a podasse, não queria?

SÔNIA: Sim, eu pedi. Mas o que eu quis dizer foi que...

GIL: Você escondeu o meu vaso chinês?

SÔNIA: Sim, você não precisa se preocupar com aquela coisa. Vamos ter um lindo Natal em família este ano. Assim que eu trocar essa árvore...

GIL: Assim que o quê?

SÔNIA: Assim que estiver tudo pronto, Gil.

GIL: Tudo bem então. Vamos nos preparar para um lindo Natal em família.

 

 

CENA 3

 

(Gil e Sônia estão perto da porta, esperando os convidados) 

SÔNIA: (Olhando pela janela) Eles chegaram! E lembre-se: seja educado, por mim.

GIL: E desde quando eu não sou educado?

(Sônia dá “aquela olhada” nele)

GIL: Eu prometo que vou fazer o possível.

SÔNIA: Obrigada.

(Entram Aline, Kátia e Rogério – usando calças largas com vários bolsos cheios de todo o tipo de remédio e equipamentos de emergência – e suas filhas Samara (parecendo até o Coringa, com tanta maquiagem) e Priscila, que está jogando alguma coisa no celular. Sônia e Gil os cumprimentam um por um)

SÔNIA: Mãe! Feliz Natal. Que bom te ver!

Aline: Feliz Natal para você também, querida. E Feliz Natal, Gilmar...

GIL: Oi, Aline.

Aline: Feliz Natal, Gilmar... E então? Você não vai me desejar um Feliz Natal?

GIL: Eu já te mandei um cartão.

Aline: Mas não é a mesma coisa. Você deve... Meu Deus! O que é essa sujeira no chão? Vocês precisam mesmo contratar uma empregada. Kátia e Rogério têm uma, sabem. Ela deixa a casa um brinco.

GIL: E custa muito dinheiro também.

SÔNIA: Kátia! Feliz natal! Rogério, Feliz Natal!

(Rogério concorda, sussurra um “Feliz Natal” que ninguém consegue ouvir. Gil dá uma olhada nas calças de Rogério e já solta o comentário)

GIL: Vejam só, se não é Bilbo Bolseiro...

SÔNIA: Gil… 

KÁTIA: Feliz Natal, Sônia. Feliz Natal, Gil. Eu não sei quanto tempo vou poder ficar. Parece que a Priscila vai pegar um resfriado.

SAMARA: Ela está bem, mãe.

GIL: Tudo bem, não se preocupe caso tenha que ir embora.

PRISCILA: Mãe, eu estou com fome. Quando vamos comer?

KÁTIA: Daqui a pouco, Priscila. Seja paciente.

PRISCILA: Eu sou paciente. Eu só quero saber quando vamos comer.

KÁTIA: Depois de você desejar Feliz Natal aos seus tios.

PRISCILA: Feliz Natal. Quando vamos comer?

GIL: Olhe aqui, mocinha, deu muito trabalho para...

SÔNIA: (Interrompendo) Em meia-hora, querida. Sinta-se e casa.

KÁTIA: Meu Deus! Eu acho que vi um mosquito. Pegue um jornal, Rogério.

(Rogério tira de um bolso um jornal já enrolado e se prepara para bater)

GIL: Ele carrega um jornal no bolso?

KÁTIA: O tempo todo.

GIL: Quando eu penso que já vi de tudo...

SÔNIA: (Para Gil) Pare com isso!

SAMARA: Feliz Natal, Gil. E que belo trabalho com a árvore. Você sabe mesmo como matar um produtor de oxigênio.

GIL: Obrigado, Samara. E eu posso ver que você já conseguiu algum (hesita, ele quer dizer “sarcasmo”)... Tamanho.

SAMARA: Obrigada. E eu vejo que você ganhou algum peso.

GIL: (Para Rogério) Lave a boca dela com sabão, pode ser?

(Imediatamente, Rogério tira uma barra de sabão do bolso) 

SAMARA: O quê? Você quer lavar minha boca com sabão? Eu nunca fui tão insultada na minha vida! (Chora lágrimas de crocodilo. Rogério pega um lenço de outro bolso e entrega para Samara, que o recusa) Ninguém me ama!

GIL: Ah, pelo amor de...

KÁTIA: (Abre os braços para dar espaço para ela) Deem espaço para ela, todos vocês. (Abraça Samara, que a empurra) Ela precisa de um tempo para se acalmar depois do seu tio a insultar.

SAMARA: Por que eu ainda venho aqui para começar? Por que não ficamos em casa e pedimos pizza?

PRISCILA: Mãe, a Samara está me deixando com fome!

KÁTIA: Jogue o seu joguinho.

PRISCILA: Mas eu estou cansada dele! (Começa a se irritar)

(Gil lança um olhar de “Eu te disse” para Sônia, que olha de volta e lança um olhar de “Seja gentil”. Gil começa a “dançar” impaciente, murmurando “Essa família é inacreditável!” Aline olha para ele como se fosse louco. Enquanto isso, Rogério tira do bolso um frasco de remédio vazio. Kátia vê e balança a cabeça)

KÁTIA: (Para Rogério) Você está me dizendo que o remédio acabou... De novo? É a única coisa que a deixa feliz, você sabe disso... Você tem algum chocolate, aspirina, qualquer coisa para acalmar ela? (Ele tira um jogo de cartas e entrega para Priscila) Isso vai servir. (Priscila senta-se no sofá e começa a jogar)

SAMARA: Isso é inacreditável! Eu não acredito que todos correm para agradar a Priscila enquanto ninguém presta atenção em mim. Eu acho melhor ir embora!

GIL: E por que não vai?

SAMARA: (Boquiaberta) Você, por favor, quer parar de me tratar como se eu fosse uma criança? Primeiro quer lavar minha boca com sabão, agora quer usar psicologia reversa só para me fazer ficar. Para sua informação, eu sou a irmã mais velha, não a mais nova, e já está na hora de as pessoas me tratarem seriamente! Seriamente! Eu não sou um bebezinho que só precisa de um biscoito para se sentir melhor. (Cruza os braços e fica olhando em volta, como se desafiasse alguém a vir confortá-la)

Aline: (Abraçando Samara) Aqui, querida. Seu tio Gilmar não tem um filtro entre o cérebro e a boca, por isso ele fala assim com você. Ao contrário do seu tio Lucas. Ele sim é divertido. E agora, por que não vamos só nós duas até a cozinha e preparar alguns biscoitos? Eu deixo você lamber a tigela.

SAMARA: Claro! Por que não?

GIL: Isso mesmo. Dê para ela tudo o que ela quer. Igual ao tio Lucas. (Sussurra para Sônia) Me lembre de dar um pedaço de carvão para ela da próxima vez.

(Assim que Aline e Samara saem, alguém bate na porta)

SÔNIA: Feliz Natal! Que bom te ver, Lucas.

GIL: (Sarcástico, para o público) E por falar no “anjo”...

(Lucas entra sorrindo, seguido por Gustavo. Simone vem “tropeçando” logo atrás)

LUCAS: Feliz natal para todos! Sônia, Sônia, Sônia! Você não mudou nada!

SÔNIA: Sempre o mesmo galanteador. E que bom te ver de novo, Simone.

SIMONE: (Suspirando) Oi.

SÔNIA: E como vai você?

SIMONE: Estou bem, eu acho. Eu iria trazer uma torta, mas ela caiu no chão então tivemos que dá-la ao cachorro. Foi tão triste.

SÔNIA: Tudo bem, nós temos muita comida.

GIL: (Apontando para ele mesmo) Porque você sabe quem pagou por ela!

PRISCILA: Alguém disse comida?

SÔNIA: Eu vou lá dar uma olhada. (Sai para a cozinha)

GUSTAVO: (Se aproximando de Gil) Parece que você ganhou peso. Muito bem! Você faz um ótimo Papai Noel falso.

GIL: Obrigado. E você faz um ótimo pequeno...

LUCAS: Ei, Gil. Eu gostei da sua árvore. Eu mesmo não faria melhor.

GUSTAVO: Tem alguma coisa legal aí para brincar, igual àquela estátua do ano passado?

GIL: Não, não tenho. Eu realmente não ligo de ter outra relíquia destruída, se é que me entende.

LUCAS: Oh, dá um tempo pro garoto, Gil. Ele é só um garoto, igual ao pai.

(Sônia volta para a sala)

SÔNIA: Eu só quero informar a todos que a ceia vai sair no horário.

LUCAS: E aí, Gustavo, por que não vamos lá fora bater uma bola?

GUSTAVO: Ótima ideia.

SIMONE: Mas e se...?

LUCAS: Não se preocupe. Vamos ter cuidado.

SIMONE: Foi o que você disse logo antes de jogar aquela banana podre no para-brisa daquela viatura policial.

LUCAS: Foi um acidente. Eu prometo que nada vai acontecer desta vez. E se acontecer, eu pago o estrago. (Lucas, Gustavo e Rogério saem para jogar)

GIL: Espero que tenha trazido bastante dinheiro.

SÔNIA: Ei, meninas, por que não vamos até a sala de jantar? Podemos sentar à mesa, comer uns biscoitos e resolver os problemas do mundo. E já que você está tão preocupado com as janelas, Gil, você pode ir jogar bola com eles.

GIL: (Sarcástico) Viva!

Kátia, Priscila, SIMONE: Ótima ideia!

(Todas saem, Gil fica sozinho)

GIL: Já estou até vendo: “Bang, Crash”, lá se vai outra janela. Eu trabalho feito um escravo o ano todo e o que eu ganho? (O celular de Gil toca, ele atende) O que você quer?... Quem é?... Ah, oi... Sim... Hoje não, estou com visitas... Você não precisa ligar depois... Para você também, tchau. (Desliga o telefone) É, Gil... Parece que os fantasmas dos Natais passado, presente e futuro estão vindo assombrar você... O que foi que você fez para merecer isso?

 

(Neste ponto recomenda-se um pequeno “intervalo”, com alguns hinos ou cânticos ou até mesmo uma pequena palavra)

 

 

CENA 4

 

(Todos já comeram e Gil já distribuiu os presentes e está sentado no sofá, exausto. Aline e Sônia estão sentadas ao lado dele. Os outros adultos estão sentados em cadeiras ou em pé. As crianças estão sentadas no chão, brincando com o que ganharam)

SÔNIA: Obrigada, Gil, por entregar os presentes.

Simone, Aline, KÁTIA: Obrigada, Gil.

Gustavo, PRISCILA: Valeu tio Gil.

SAMARA: Que seja!

PRISCILA: Podemos ir agora? (Rogério balança a cabeça fazendo “não” e ela se acalma)

LUCAS: Obrigado, Gil. Aliás, aqui está o dinheiro para consertar a janela. (Pega o dinheiro no bolso)

GIL: (Com os dentes cerrados) Tudo bem. Fique com o dinheiro. (“Sussurrando” alto para Sônia) Se você quer saber, você deveria manter o seu filho sob controle ao invés de tentar me subornar depois do ocorrido.

SÔNIA: Gil!

LUCAS: Se é assim que você se sente... (Guarda o dinheiro)

GIL: Mas já que você teve todo esse trabalho, eu aceito. Afinal, não sou eu quem vai atrapalhar suas chances de seguir meus passos.

Aline: E qualquer sujeira que tenha neles.

GIL: (Pega as notas e guarda) Eu estava falando da minha propensão à generosidade extravagante. (Ri como se estivesse brincando, mas não está)

GUSTAVO: Não sei não... Eu acho que você está escondendo alguma coisa debaixo dessa roupa de Papai-noel.

GIL: Como é?

GUSTAVO: Isso mesmo. Olha só, você está estufado demais para ser só peru e maionese. O que você tem aí? Um travesseiro cheio de doces para distribuir?

SIMONE: Já chega, Gustavo! Peça desculpas ao seu tio agora mesmo por chamá-lo de trapaceiro. Ele não está escondendo nada.

Aline: Isso mesmo, jovenzinho. Você deve respeitar os mais velhos. Só porque o seu tio Gil está gordo, não é motivo para insultá-lo desse jeito. Nenhum motivo! Isso não significa que ele não poderia perder alguns quilos, é claro. Mas eu estou preocupada com sua saúde, e você também deveria estar, afinal, depois de comer tanto eu fiquei com medo de que ele terminasse em um pronto-socorro esta noite, eu faria algo mais construtivo para ajudá-lo, como manter os biscoitos fora do seu alcance, ou ajudá-lo a distribuir os presentes.

KÁTIA: Mãe! Pare com isso! Você também não está sendo justa com ele. Como se fosse culpa dele ter que carregar aquele saco pesado cheio de presentes sem ajuda. É claro que tinha coisa muito boa ali. Rogério e eu compramos algumas coisas no supermercado que nós sabíamos que todos gostariam, mas Sônia e Gil com certeza tentaram nos agradar. Eles devem ter gasto uma fortuna.

SÔNIA: Nada além do melhor para nossa família!

Aline: Tem razão, Sônia. É o pensamento por trás do presente que conta. Por exemplo, veja estes abridores de carta. Eu comprei para todos. Simples, prático, e ótimo para abrir cartões de Natal, assim como os que Gil faz.

GIL: Me parece um presente com uma mensagem. E eu acho que todos gostaram dos presentes, não foi?

SÔNIA: Com certeza... (Todos ficam em silêncio. Logo ela fica nervosa e embaraçada) Digam alguma coisa... Lucas?

LUCAS: Sim, claro... Obrigado pela TV. É uma coisa ótima para transformar um garoto ativo em um saco de batatas. Deve ter custado muito.

SÔNIA: Lucas, você é tão brincalhão.

LUCAS: Quem está brincando?

SÔNIA: Você está! E todos o amamos por isso.

GIL: E então... (Sarcástico) Mais algum comentário positivo?

Aline: Não leve a mal, Gilmar, porque é apenas crítica construtiva dada com amor. Mas francamente, seus presentes são muito – como posso dizer – muito ostentosos. Você poderia fazer tudo muito mais simples. Veja Lucas, por exemplo. Ele é um homem que sabe como escolher um presente. Eu simplesmente amei o chapéu que ele me deu. Onde foi mesmo que você o comprou? 

LUCAS: Eu encontrei em uma lata de lixo e tive que brigar com um quati por ele. Tivemos uma bela luta, mas valeu a pena.

Aline: Viu, Gilmar, está aí um homem que sabe como conseguir um bom presente sem zerar a conta bancária. Você deveria tentar isso algum dia. Não precisa dar nada tão caro. Só simples lembranças para gente simples como nós. Sem alarde, sem agitação... Oh não! Aquilo é uma teia de aranha?

SÔNIA: Sim, mas não tem aranha morando nela.

SIMONE: Podemos falar de outra coisa?

(Gil rapidamente pega um álbum de fotos. Quando ele começa a falar, todos começam a sufocar bocejos)

GIL: Olha só, pessoal, vamos ver algumas fotos. Tem uma fotos realmente boas de mim aqui. Esta foi a primeira casa que eu comprei. Com meu trabalho, é claro. Não precisei nem mesmo de financiamento para ela.

(Assim que ele termina de falar, seu celular toca. Ele corre para atender, como se tivesse medo que alguém atenda antes e descubra quem está do outro lado. Enquanto ele fala, todos prestam atenção e ficam imaginando com quem ele poderia estar falando. Conforme ele vai saindo do palco, todos o seguem, interessados em saber o que ele não está contando a eles, mas assim que ele se vira para voltar, todos voltam a que estavam fazendo, como se não estivessem ouvindo)

GIL: Alô?... Você já ligou hoje... É, mas eu estou ocupado agora... É Natal, pelo amor de Deus! Não... Sim, tenho certeza (ele soa exatamente o oposto de “certeza”)... Eu já disse que estou com visitas... Eu tenho que desligar... Sim, sim. Feliz qualquer coisa. Tchau. (Desliga o telefone ao mesmo tempo em que todos voltam aos seus lugares)

Aline: Quem era?

GIL: Ninguém importante.

GUSTAVO: É claro! Aposto que era um elfo.

PRISCILA: Ou o entregador e pizza!

SAMARA: Não acredito que você ainda está com fome.

LUCAS: Vai ver era algum fiscal do Imposto de Renda.

KÁTIA: Ou do hospital.

Aline: então, quem era? Um elfo, o entregador, o hospital ou o fiscal? 

GIL: Nenhum destes. Era só... O Exército da Salvação querendo que eu doe alguma coisa, como sempre.

Aline: Exército da Salvação? Que estranho...

GIL: Vamos ver as fotos! Eu tenho algumas bem especiais aqui.

(Todos bocejam. Rogério entrega uma bexiga para Lucas, que começa a enchê-la)

GIL: Essa foto é de quando eu tinha uns 18 anos, mais ou menos, logo depois de eu ganhar mei primento...

(Lucas estoura a bexiga, assustando Gil. Isso faz com que todos na sala comecem a rir. Somente Gil não vê graça. Assim que recupera o fôlego, ele volta para as fotos)

GIL: (Tentando falar mais alto que os risos) Querem ver uma coisa engraçada? Eu mostro o que é engraçado, vejam só esse cara sendo arrastado por uma onda. E não é parente meu... E essa é uma foto minha pilotando um Jet Ski. E eu quero que todos vocês saibam – não querendo me gabar – mas esta foto é de quando eu...

(Assim que ele diz “quando”, Priscila espirra. Kátia entra em pânico)

KÁTIA: Eu sabia! Eu sabia que ela iria ficar resfriada.

GIL: Você pode espirrar no quintal, sabia?

KÁTIA: E pegar uma pneumonia e morrer? Oh, Rogério, eu espero que ela fique bem. (Ela coloca a mão na testa de Priscila, Rogério tira um termômetro do bolso)

(Nesse momento o celular toca novamente. E novamente Gil atende enquanto todos observam, e novamente ele sai da sala. Todos o seguem. E quando ele retorna, todos voltam correndo aos seus lugares, como se nem tivessem percebido que ele saiu)

Kátia (Para Priscila): Acho que você está bem. Deve ser só alguma alergia.

SAMARA: Mãe! Por favor, ela está bem.

LUCAS: E quem era dessa vez, Gil?

GIL: O Exército da Salvação de novo. Esse pessoal é insistente.

Aline: Dizem que o ano está fraco para doações. Seus estoques devem estar vazios, por assim dizer.

SAMARA: Ou talvez esse “Exército da Salvação” seja só o irmão do tio Gil – aquele que nós nunca vimos.

KÁTIA: Como é o nome dele? Carlos? César?

Aline: Cláudio.  

GIL: Caesar Salad? Que ótima ideia!

PRISCILA: Eu não quero uma salada. Eu quero um cookie!

KÁTIA: Alguém dê um cookie para essa menina! 

(Rogério tira um cookie do bolso e entrega para Priscila, assim que ela pega, Gil reclama) 

GIL: Isso mesmo! Dê para ela tudo o que ela quer. Se você me perguntar, eu diria que ela deveria ter comido a ceia. (Isso faz Priscila chorar, e Simone começa a chorar junto)

Aline: Mas que exagero, Gilmar! (Para Priscila) Coma lá na cozinha, querida, para não espalhar farelo no sofá.

GIL: Aproveita e come logo toda a jarra de biscoitos!

LUCAS: Eu tive uma ideia. Eu digo para deixarmos a Samara olhando as crianças enquanto os adultos passam um tempo juntos.

SAMARA: Ah não. Por que eu?

LUCAS: (Tirando tudo o que tem na carteira) Porque paga bem.

SAMARA: Fechado! (Ela pega o dinheiro e começa a olhar as crianças – literalmente. Priscila vai até a cozinha enquanto Gustavo fica inquieto)

GIL: E lá vamos nós de novo. Dê tudo o que eles querem para que saiam de perto. Nunca lhes dê disciplina!

LUCAS: E o que você sabe, Gil? Você é um homem muito amargo. Por que você não pode simplesmente curtir a vida e para de se preocupar com os outros?

Aline: Ele tem razão, Gil. Você precisa se soltar.

GIL: E ser igual ao Lucas? E ser processado por um policial porque uma pegadinha saiu errada?

(Este comentário faz Simone chorar. Rogério lhe entrega um lenço)

Aline: Viu o que você fez agora?

GIL: O que eu fiz? Ah, qual é! Parem de se preocupar com as crianças e vamos olhar as fotos.

(Assim que Gil mostra a próxima foto, Gustavo começa a fazer um zumbido irritante imitando um avião)

GIL: Ahhh, aqui uma foto minha quando eu voei para... (zumbido)... colegas, e uma foto do Ricardo totalmente perdido com... (zumbido)... de golfe e eu conseguindo um... (zumbido)... “hole in one”. Eu ganhei o... (zumbido)... naquele dia. E aqui uma foto do Márcio Soares tentando... (zumbido)... do banco de areia. E aqui ele está até o pescoço de (mais zumbidos. Gil abaixa o álbum) Eu pensei que você estava olhando ele, Samara.

SAMARA: Eu estou. Estou olhando ele incomodar você.

GIL: Lucas te pagou para você entreter ele.

SAMARA: Não. Eu concordei em olhar ele, não em entreter ele. Mas eu posso ser persuadida a afazer mais. Pelo preço certo.

GIL: (Pegando a carteira) Quanto você quer? A maior parte desse dinheiro é o pagamento da janela que o seu tio quebrou hoje. Mas se isso for preciso... Nunca diga que eu não sou o seu tio mais generoso. E se alguém quiser biscoitos, temor muitos na jarra. (ele dá ainda mais dinheiro do que Lucas deu. Ela e Gustavo começam a brincar de esconde-esconde)

Aline: Qualquer coisa para tirá-los de perto, hein, Gilmar?

GIL: Por que não voltamos às fotos?

LUCAS: É claro. Mas francamente, Gil, essas não são muito interessantes.

SÔNIA: Eu tenho uma ideia. (Ela pega o seu álbum de casamento, eles estão casados há apenas quatro anos. Todos se reúnem ao redor. ISSO realmente interessa) Eu acabei de pegar com o fotógrafo há alguns meses.

Aline: Que lindo! Eu amo fotos de casamento de apenas alguns anos! Esta é linda, Sônia! Você do lado deste palhaço com um enorme pedaço de bolo que não cabe na boca.

SÔNIA: Acontece que este “palhaço” é o Gil!

Aline: Verdade? Nem notei...

GIL: Vamos fazer outra coisa. Um jogo de charadas? Ou quem sabe, vamos dormir?

Aline: Você com certeza é a alma da festa, Gilmar. Sempre querendo ir embora quando os outros querem ficar e se divertir. Porque eu acho que o que estamos fazendo agora é ótimo. Estas fotos são lindas, são memórias felizes. Como esta aqui, mostrando todos nós reunidos na festa do casamento: Sônia, eu, Lucas, Simone, Kátia, Rogério, seu pai e sua mãe, e claro você e o seu irmão Cláudio. E por falar no Cláudio, por que você nunca o convida para vir aqui? Nós nunca mais o vimos.

GIL: Longa história.

Aline: Ótimo. Nós temos muito tempo e somos todo ouvidos. (Todos se aproximam de Gil, ansiosos para ouvir a história).

GIL: (Tentando esconder sua raiva e medo) É que... Ele não se dá bem com encontros familiares, se você entende o que quero dizer.

Aline: Gilmar, você não deveria excluí-lo só porque ele não pode comprar um terno e gravata. Nem todos são tão afortunados como você. Como eu sempre digo, nós somos gente simples, não somos exigentes... Sônia, tem uma mancha na sua cortina?!? Eu sempre te digo para contratar uma empregada.

GIL: (Bocejando) Cara, olha só a hora!

Aline: Aliás, Gilmar, por que você nunca convida seus pais para o Natal? Nós também nunca mais os vimos.

GIL: Eles vivem em outro estado. É um longo caminho. E na idade deles, bem, exigiria muito deles.

Aline: Bobagem! Isso ainda não é motivo para não convidá-los, e nós todos sermos uma família grande e feliz.

(Neste momento, Priscila volta da cozinha, gemendo)

SÔNIA: Está tudo bem?

PRISCILA: Estou passando mal.

GIL: Provavelmente por causa de todos os biscoitos que comeu.

Aline: E quem a deixou comer toda a jarra?

KÁTIA: Não entre em pânico, Priscila. Eu ligo para o médico. Alguém me dê um telefone! (Gil entrega o celular exatamente no momento em que ele toca, ele não tem escolha a não ser atender) Diga para o Exército da Salvação para esperar. Isto é uma emergência!

GIL: Alô... Olha eu não posso falar...

KÁTIA: (Arrancando o telefone da mão dele) É uma emergência! É uma emergência! Preciso ligar para 190 agora!

PRISCILA: Quando eu disse que estava mal, eu só quis dizer que quero ir para casa.

KÁTIA: Oh. (Devolve o telefone).

(Neste momento, Samara e Gustavo voltam correndo)

SÔNIA: Meu Deus, o que aconteceu, Samara?

SAMARA: Er... Eu creio que tivemos um pequeno acidente. Alguma coisa de um certo valor se quebrou.

GIL: (Respirando fundo) Por acaso não foi algo feito na China, foi?

SAMARA: Er... Sim, foi.

GUSTAVO: Eu tentei pegar antes de cair, eu tentei mesmo, mas...

GIL: (Atordoado) Eu pensei que você estava de olho nele.

SAMARA: Eu estava. Estávamos brincando de esconde-esconde. Eu pensei que seria uma brincadeira segura. Eu não sei como...

GUSTAVO: Eu fui para esta parte da casa aonde ninguém nunca vai, e lá tinha este armário muito legal. Eu pensei que seria um ótimo lugar para me esconder. Então eu arrombei a fechadura. Foi aí que eu vi o vaso lá dentro e... Bem, ele parecia tão... “tocável”.

SIMONE: (Chorando) É minha culpa. Eu deveria ter avisado que ele sabe arrombar fechaduras.

GIL: Não é possível! Eu não acredito nessa família. Simplesmente não acredito!

SAMARA: Nem eu.

ROGÉRIO: Melhor encerrarmos a noite.

(Todos ficam em choque. Rogério realmente falou algo alto o bastante para todos ouvirem)

LUCAS: (Dando tapinhas nas costas de Rogério) Isso precisou de muita coragem. Eu não sei quanto a vocês, mas eu acho que o Rogério aqui tem razão. Melhor irmos embora. Aliás, Gil, eu realmente sinto muito que o garoto tenha quebrado o vaso. Quanto ele custou?

GUSTAVO: (Para Lucas) Você não vai vender o meu presente de Natal para pagar por isso, vai? Da última vez você vendeu o meu...

LUCAS: Já chega, filho.

GIL: Esqueça. Só... Esqueça. Era só uma herança insubstituível.

SIMONE: O que isso quer dizer?

GIL: Isso quer dizer que vou trabalhar feito um camelo até comprar outro vaso que venha a ocupar o lugar deste que morreu prematuramente. Mas que nunca vai realmente substituí-lo.

SIMONE: Isso explica tudo. Você vai ter que montá-lo de volta, Gustavo. (Rogério entrega um tubo de cola) Vamos, eu te ajudo.

GIL: Não! Não. De verdade, eu só estava brincando. É só um vaso. Eu ficarei bem.

LUCAS: Você tem certeza?

GIL: Sim, tenho. Agora podem ir. Vão. Vejo vocês no ano que vem.

SÔNIA: Até mais. Foi divertido.

Gustavo, Simone e LUCAS: Até mais.

GUSTAVO: E se vale de alguma coisa, você faz um ótimo Papai Noel.

LUCAS: E obrigado pela “Lanterna dos Idiotas”. (Sai com a família)

GIL: Nem me fale...

Aline: Você está levando isso como um soldado, Gilmar. Se eu fosse você, eu teria arrancado tudo o que ele tem. Não é muito, mas isso ensinaria uma bela lição a ele. Te vejo no ano que vem. (Para Sônia) Tchau, querida.

SÔNIA: Tchau mãe. No vemos em breve.

GIL: Feliz Natal.

KÁTIA: Tchau Gil, tchau Sônia, e obrigada por nos receber.

SÔNIA: Vocês são sempre bem-vindos.

GIL: Foi um prazer.

SAMARA: É, sei. Ei, eu achei legal você não arrancar a cabeça do Gustavo. Mas seu eu fosse você, eu o teria feito meu escravo até que ele conseguisse pagar todo o valor daquele vaso.

GIL: Obrigado, Samara. Foi a coisa mais legal que você me disse a noite toda.

SAMARA: Ei, mãe! Você ouviu isso? Eu fiz bem. Agora podemos ir para casa e pedir pizza?

PRISCILA: Ótimo!

(Rogério dá um adeus silencioso e todos saem. Gil e Sônia ficam sozinhos)

GIL: Eu não acredito que ele quebrou meu vaso chinês! Meu objeto preferido em todo o mundo!

SÔNIA: Eu... Eu sinto muito, Gil.

GIL: Isso significa muito para mim! E ninguém liga! Olhe para eles, saindo numa boa pela noite sem nenhuma preocupação, enquanto o meu Natal está arruinado! (Começa a chorar)

SÔNIA: Ora vamos, Gil. Eu sei que esse vaso valia muito para você, mas era só um vaso. Você mesmo disse.

GIL: Eu só disse o que todos esperavam que eu dissesse. Eu não falei a sério. Oh, como eu vou superar isso, Sônia? A única coisa que eu queria neste Natal, e está quebrada, e sem conserto! Por que eu, Sônia? Por que eu? Deus está bravo comigo ou o quê? Eu já vejo as galinhas prontas para atirar ovos em mim. Eu sabia que isso iria acontecer!

(Alguém bate na porta. Gil imediatamente limpa o rosto e atende, esperando que fosse algum parente de Sônia)

GIL: Ei, está tudo bem, de verdade. Não precisam se preocupar... Cláudio?

CLÁUDIO: Oi Gil! Eu posso entrar?

GIL: É... Claro. Mas que surpresa.

CLÁUDIO: (Para Sônia) Oi Sônia! Bem te ver depois de todo esse tempo.

SÔNIA: Oi Cláudio! Você parece bem.

CLÁUDIO: É porque tudo vai bem comigo. Sou mais abençoado do que posso dizer... Eu não quero perturbar você, mas eu estava na vizinhança e pensei em dar uma passada para ver onde vocês estavam morando. Eu liguei mais cedo, mas Gil disse que vocês tinham visitas. (Dá uma olhada rápida ao redor) Belo lugar vocês têm aqui. (Para Sônia) Tem espaço o bastante para vocês?

SÔNIA: É... Um bocado.

CLÁUDIO: Olha, eu não quero perturbar, mês eu estava pensando se vocês gostariam de passar lá em casa para uma sobremesa.

SÔNIA: Mas isso é muito gentil de sua parte, Cláudio.

GIL: Talvez outra hora, Cláudio. Eu não quero que se incomode.

CLÁUDIO: Mas não seria incômodo algum.

GIL: Não, obrigado.

CLÁUDIO: Tem certeza?

GIL: Sim, eu tenho. Houve uma morte na família. Muito triste.

CLÁUDIO: Oh, sinto muito em ouvir isso. Quem foi?

GIL: Alguém muito chegado.

CLÁUDIO: Oh... Bem, se você quiser desabafar, você sabe como me achar. Me ligue quando puder. Tchau.

Gil e SÔNIA: Tchau.

SÔNIA: Volte sempre. (Cláudio sai. Sônia fica encarando Gil em silêncio) Você vai mesmo levar essa coisa do vaso ao extremo. Uma morte na família? Qual é, Gil. Você está agindo como se ninguém mais importasse para você.

GIL: Mas foi uma morte, de certa forma. Uma morte do sentimentalismo. Adeus, minha antiguidade querida...

SÔNIA: Sai dessa, Gil, e pare de se esconder num mundo de sonhos! Tem mais gente para se pensar no Natal além de você mesmo. Como o Cláudio. E por falar nele, ele disse que ligou mais cedo. Quando foi isso?

GIL: Hoje, mais cedo.

SÔNIA: E por que você não me disse nada?

GIL: Porque não me pareceu importante. Qual o problema?

SÔNIA: Ele não era o tal “Exército da Salvação”, era?

GIL: Existem alguns mistérios na vida que simplesmente não precisam ser compartilhados com todos.

SÔNIA: Era ele?

GIL: Bem... Veja... É que... Quero dizer... Sssssssim, era ele.

SÔNIA: E por que você mentiu?

GIL: Porque eu não iria suportar vê-lo em um estado tão triste.

SÔNIA: Triste? Do que você está falando?

GIL: Você o viu! Toda a ingratidão... Olhe para ele! Vestido todo chique, nos convidando para a sua festa. Como se ele fosse tudo isso. Hah!

SÔNIA: Parece que você está com inveja.

GIL: Hmmmph! Eu, com inveja dele? A ovelha negra da família? Não seja ridícula!

SÔNIA: Você está com inveja!

GIL: Não, não estou.

SÔNIA: Sim, você está. Mas eu não entendo o porquê. Ele é o seu irmão, pelo amor de Deus! E você não vê e nem fala com ele há anos! Ou tem falado e eu não estou sabendo?

GIL: O que você está dizendo? Você está me acusando, o seu próprio marido, de sair me esgueirando pelas suas costas, tendo conversas ao telefone com o meu irmão? Eu pensei que você confiava em mim.

SÔNIA: É claro que eu confio em você. Mas eu também sei o que é ter um irmão mais novo. E uma irmã. As brigas que nós tínhamos! Houve horas em que eu pensei que nunca mais nos veríamos de novo. Às vezes coisas assim acontecem. Afinal, somos humanos.

GIL: Bem...

SÔNIA: Pode falar comigo, Gil. O que foi?

GIL: É só que... Eu tento tanto fazer as pessoas felizes, mas nunca é o bastante. Cláudio, por outro lado, é tão feliz que me faz sentir culpado. Não costumava ser assim, sabe. Ele costumava ser um verdadeiro idiota, e eu estava sempre o tirando de problemas, sempre salvando o pescoço dele. Mas ele alguma vez agradeceu? Não. Mas eu o ajudava assim mesmo, com toda a bondade do meu coração. Sem um único “obrigado”. Nem uma vez... E então, há uns três anos algo terrível aconteceu, algo que eu realmente não quero te contar, porque é muito ruim.

SÔNIA: Mas o que foi que aconteceu?

GIL: Ele disse que “encontrou Jesus” e que “foi salvo”. Depois eu só ouvi meus pais dizendo que amavam o “novo Cláudio”, como era maravilhoso como ele finalmente conseguiu se levantar. Eles não podiam esperar para ouvir o que ele tinha para dizer. Ninguém mais me ouvia. Oh não! Ao invés disso, eles começaram a falar “Por que você não pode ser mais igual ao Cláudio, Gilmar?” É, claro, Cláudio! O Exército da Salvação de um homem. O que foi que aconteceu com o Cláudio que eu conhecia? Que sempre estragava tudo?

(Sônia fica um tempo só olhando para Gil)

SÔNIA: E por que você escondeu tudo isso de mim?

GIL: Desculpe Sônia. É que... Na hora eu pensei que você não entenderia. Quero dizer, eu trabalho feito um escravo e ninguém me dá o valor. Eu gasto meu suado dinheiro em presentes caros e sua família age como se não fosse nada. Eles nem mesmo respeitam minhas inestimáveis heranças. E então vem o Cláudio, que desperdiçou metade de sua vida em festas e veja só: TODOS O AMAM! Não por causa de algo que ele tenha feito para merecer isso. Ele nem mesmo faz questão disso, mas todos o amam, só por ser o Cláudio.

SÔNIA: E é isso que está te incomodando?

GIL: Sim, isto é o que está me incomodando!

SÔNIA: Desculpe, Gilmar, mas eu e minha família apreciamos muito tudo o que você faz por nós, mesmo que não cheguemos até você para dizermos isso. Sabemos que você trabalha duro e faz muitos sacrifícios para nos fazer felizes. Mas é que às vezes – por favor, não leve isso para o lado errado – eu acho que você trabalha um pouco demais. Você precisa tirar um tempo para relaxar, para apreciar o presente do Natal – o presente grátis do Natal, que é Deus vindo a este mundo para pagar nossas dívidas de pecados, e nos dar o presente da Sua Graça, não importa o quão idiotas possamos ser. Ele veio para nos mostrar que as melhores coisas na vida são as coisas que você não precisa trabalhar por elas.

GIL: Eu nunca pensei dessa maneira.

SÔNIA: E é por isso que você está tão chateado por causa de um vaso quebrado, Gil. E o que é isso comparado com um ser humano? Veja bem, Deus se importa em consertar vidas partidas. É por isso que Ele veio a este mundo como um homem, para Ele consertar o nosso relacionamento com ele.

GIL: Quer dizer que o natal é só isso?

SÔNIA: Sim. (Toca a campainha) Deixa que eu atendo. (Ela abre a porta, e Cláudio está de volta)

CLÁUDIO: Ei, Gil, eu não quero ser um incômodo, mas eu realmente gostaria que você e Sônia fossem até a minha casa. Eu sei que você está de luto, mas...

SÔNIA: Não é tão ruim quanto parece.

GIL: Olha, Cláudio, eu não sei...

SÔNIA: Nós adoraríamos. (Dá uma cotovelada em Gil) Gil?

CLÁUDIO: E então, Gil?

GIL: Bem... Talvez se...

CLÁUDIO: Eu não vou aceitar um “não” como resposta.

GIL: Não vai?

CLÁUDIO: Não. Não vou. E faço questão que você vá, e estou entregando isso (Entrega um cartão de Natal) no caso de você querer um convite formal – Eu te conheço Gil...

GIL: Este é o primeiro que você me dá. Eu te mandei tantos estes anos todos... Mas você nunca respondeu.

CLÁUDIO: Eu liguei.

GIL: Mas não é a mesma coisa. Você sabe.

CLÁUDIO: Eu sei. Desculpe. Eu não sou muito bom em escrever. Eu tentei fazer esta a mão, mas tive que usar o computador.

SÔNIA: Mas que lindo de sua parte. E criativo também.

GIL: (Olhando o cartão) Vejo que você se esforçou bastante nisso.

CLÁUDIO: Vamos lá, leia!

GIL: OK. Lá vai...

CLÁUDIO: Para o meu irmãozão...

GIL: Calma. Já vou chegar lá. Para meu irmãozão Gil...

CLÁUDIO: O melhor irmão em todo o mundo...

GIL: Que me livrou...

CLÁUDIO: Inúmeras vezes de problemas sem que eu merecesse.

GIL: (Engasgando) Ele é o melhor...

CLÁUDIO: Ele é o melhor irmãos mais velho que um cara poderia ter.

GIL: Você realmente achou tempo para escrever isso? Eu não sabia que você sabia digitar.

CLÁUDIO: Na verdade, eu ditei para a minha secretária. Mas são as minhas palavras.

GIL: É... É muito...

SÔNIA: Muito genuíno. E muito profundo também.

GIL: Isso.

CLÁUDIO: Escute, Gil. Eu sei que não foi fácil viver comigo todos estes anos. Mas você realmente vale muito para mim. (Para Sônia) Ele pagou a minha fiança na cadeia mais vezes do que eu consigo me lembrar. Elem sempre esteve lá quando precisei dele.

SÔNIA: Me disseram que sim.

CLÁUDIO: E então, Gil? Depois de tudo o que você fez por mim, eu meio que gostaria de te recompensar. Por favor, reconsidere e venha até a minha casa.

GIL: Bem... Você tem cerveja?

CLÁUDIO: Sem álcool. Se está bom para você.

SÔNIA: Está ótimo.

GIL: Eu, é...

CLÁUDIO: Mamãe e papai estarão lá também.

SÔNIA: Mas que ótimo!

CLÁUDIO: Será ótimo! Vamos adorar rever vocês. Quanto mais, melhor. Vamos lá e traga a família inteira se quiser!

SÔNIA: Gil?

GIL: (Realmente tocado) E por que não? Reúna-os todos e vamos lá! Este vai ser o melhor Natal em família de todos! E o melhor de tudo é que eu não fiz nada para merecer!

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