O DRAMA DE TONHÃO

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A divulgação do índice de criminalidade na imprensa. Uma coreografia mostrando parte da história dos personagens. Um assalto a uma menina cristã, no desespero ela faz uma promessa “fazer de tudo para evangelizar o assaltante”. Conseguiu escapar, como muita gente depois NÃO quer cumprir a promessa. Acaba no meio de uma briga interna de traficantes

A divulgação do índice de criminalidade na imprensa.
Uma coreografia mostrando parte da história dos personagens.
Um assalto a uma menina cristã, no desespero ela faz uma promessa “fazer de tudo para evangelizar o assaltante”. Conseguiu escapar, como muita gente depois NÃO quer cumprir a promessa.
Acaba no meio de uma briga interna de traficantes


VOZ DO JORNAL NACIONAL:  Em setembro/2000 Olinda foi considerada pela UNICEF uma das cidades mais violentas do Brasil.
Tal título dá-se o fato dos altos índices de criminalidade, tráfico de drogas, alcoolismo, principalmente entre os mais jovens. Aproximadamente duzentos jovens com idade entre 14 e 25 anos foram mortos por gangues, assalto e até por grupos de extermínio oriundos da própria polícia. Isso sem contar com aqueles que se encontram cumprindo penas na penitenciaria.
Foi exatamente por esse motivo que o Projeto Criança Esperança/UNICEF veio a Rio Doce. Ele que é o mais violento dos bairros da cidade.

(Coreografia envolve todos os personagens. Durante a música os personagens exibirão através de dança a sua história .
Xica é violentada pelo pai, JF é aliciada por uma sapatão, Tonhão é espancado pelos pais, Negão é mimado pelos pais. O Cara entra no final e dá um tiro.  Todos caem no chão e saem se arrastando
FABÍOLA: (Está numa parada de ônibus esquisita quando para seu alívio chega um casal...) Que bom que apareceram vocês aqui. Está tão esquisito... há horas que não passa um ônibus sequer.
NEGÃO:  Realmente aqui é muito esquisito, quase um deserto há noite e os ônibus demoram a passar. Mas há quanto tempo está aqui?
FABÍOLA: (observa JF acendendo um cigarro e fica um pouco nervosa)Estou aqui a uns trinta minutos e não apareceu nenhum ônibus para Encruzilhada. Já estava até com medo de ser assaltada.
NEGÃO:  Mas você ainda pode ser assaltada.
FABÍOLA: (coração dispara) Como assim?
JF: Ora, ora, você pode ser assaltada por qualquer pessoa.
NEGÃO:  Por exemplo, por alguém que você conhece ou ainda vai conhecer, ou conheceu a alguns dias, algumas horas...
(Fabíola se espreme no muro da para de ônibus)
JF: Ou por alguém que você conheceu a alguns minutos
NEGÃO:  Ou por alguém que você acabou de conhecer. (mostra um canivete para Fabíola)
(Fabíola tenta fugir mas JF segura-a pelos cabelos)
JF: Para onde você pensa que vai mocinha, passa tudo. (puxa a bolsa, relógio, celular e arremessa para Negão.
FABÍOLA: (desesperada) Por favor, não faça nada comigo. Pode levar tudo.
JF: Olha a princesinha, a meiguinha, a bonequinha está com medo?
FABÍOLA: Por favor não me mate! Meu Deus, por favor livra-me dessa situação, faz alguma coisa, eu te prometo que...
JF: Cala a boca! Está pensando que eu vou me comover com essa choradeira? Ajoelha! Abaixa  a cabeça! Agora você vai choramingar no inferno...
NEGÃO:  Não! Você enlouqueceu brother? O lance é outro!
JF: Que calma que nada! Eu sempre sonhei com esse lance (visivelmente drogada)
NEGÃO:  (preocupado com qualquer pessoa se aproximar e vê-los ali) Mas o Tonhão não vai gostar disso cara. É só grana JF!
JF: Que Tonhão que nada! Está vendo algum Tonhão aqui? (solta os cabelos de Fabíola e aponta a arma para Negão) Sua marica, eu estouro teus miolos babaca.
(Fabíola aproveita a discussão e foge)
NEGÃO:  Calma brother! Eu to contigo. Afasta isso...
(JF grita e dá um tiro para cima e cai de joelhos – apaga as luzes – cenário 02)
JF: Tonhão! Aquela marica foi sopa, bolsa, relógio, pulseira, celular e se mais tivesse...
(Tonhão não presta atenção)
NEGÃO:  Que é que ta pegando? Agente chega com grana e tu nem aí...
TONHÃO:  Fiz besteira pô! Matei Charles cara!
NEGÃO:  Tu endoidou foi?
TONHÃO:  Eu tava alucinado (JF fica como hipnotizada e de cabeça baixa), doidão, tinha cheirado demais. Ele me afrontou e aí deu no que deu.
NEGÃO:  Bicho, Charles é aviãozinho do Cara. Ele vai ficar irado.
TONHÃO:  Que nada! Ele já tava marcado para morrer mesmo, se não por mim, mas por eles mesmo.
NEGÃO:  Sei não meu! Acho que tu pisou na bola. (Pega a bolsa sem os utensílios e fala) Isso aqui eu vou dar para a minha princesa Xica.
TONHÃO:  (mais irritado) Nem se escale que quem mergulha nessa praia sou eu!
NEGÃO:  Calma! Tudo bem! Agora, se eu fosse você observaria mais as pessoas que estão perto de você...
TONHÃO:  Que é que tu quer dizer com isso?
JF: (se levanta em direção a Negão) É isso mesmo, que é que tu quer dizer com isso ein? Babaca. Poeta de baixo de ponte...
TONHÃO:  Negão, tu ta muito cheio de teretetê. Deixa de enrolar e vai pegar o “troço” lá com Xica.
JF: É isso mesmo! Não ta ouvindo o Tonhão falar não?
(Negão paga a bolsa com as coisas de Fabíola e leva para xica, em troca de drogas) 
Música: Tema de Xica
NEGÃO:  Xica, lindona! Quando é que vai rolar aquele lance entre nós dois? (entrega a bolsa e dinheiro para ela)
XICA:  Olha a liberdade Negão! Tu não sebe com quem eu to namorando, maluco! Tô ficando com o Cara.
NEGÃO:  O Cara! Você ficou maluca? Quando ele cansar de pegar você, te mata. Tás ligada?
XICA:  Que nada! O Cara ta na minha.
NEGÃO:  Mas e o lance com o Tonhão?
XICA:  Tonhão é coisa do passado. O Cara não me quer só pra cama não. Ele me ama, me dá presentes dos melhores. Sabe que ele me colocou responsável pelos colégios de Rio Doce e Jardim Atlântico? Agora aqui quem manda é Xica, entendeu?
NEGÃO:  Pois é, o Cara mandou ver...
XICA:  (Tira da bolsa uma Bíblia) Negão, que livro é esse aqui? Desde quando eu vendo livro doido? Tonhão ta delirando, assaltando livraria é?
NEGÃO:  Deixa eu levar isso de volta. Agora me dá logo o troço aí!
(Xica entrega um pacote com drogas para Negão)
(Fabíola e Adélia)
ADÉLIA:  Eu não acredito que isso pôde acontecer com você. Porque Deus não te livrou.
FABÍOLA: Também ainda não consegui entender os propósitos de Deus. Mas desde o acontecido estou incomodada.
ADÉLIA:  Você deve ter ficado muito nervosa, eu teria um troço na hora, morria de susto.
FABÍOLA: E como fiquei nervosa. Você já se imaginou uma arma na cabeça e uma doida prestes a estourar teus miolos? Jamais eu quero voltar a ver aquele casal na minha frente.
ADÉLIA:  Mas e a sua promessa?
FABÍOLA: Que promessa?
ADÉLIA:  Você esqueceu? Não vai cumprir?
FABÍOLA: Você ta ficando maluca! Eu é que não vou querer uma arma apontada novamente para a minha cabeça.
ADÉLIA:  Mas essa sua promessa, sua história me deu uma grande ideia.
FABÍOLA: Eu não estou interessada em nenhuma de suas grandes ideias. Prefiro ir para a África a evangelizar maconheiro. 
ADÉLIA:  Mas você me falou que durante o assalto teria prometido a Deus que faria qualquer coisa por aquele pessoal se Ele a livrasse daquela situação?
FABÍOLA: Foi isso mesmo!
ADÉLIA:  E agora chegou a hora de você cumprir a sua promessa.
FABÍOLA: Você está falando assim porque não foi com você.
ADÉLIA:  Nós poderemos fazer alguma coisa por esse pessoal. Não é possível que a igreja enxergue os índios, os africanos, os orientais, e não consiga visualizar os meninos que estão viciados e acorrentados nesse mundo.
FABÍOLA: Mas o que você está querendo dizer com isso?
ADÉLIA:  Exatamente o que você entendeu.
FABÍOLA: Você está ficando maluca. Aqueles marginais precisam de cadeia.
ADÉLIA:  Aí é que você se engana. Eles precisam muito de nossa ajuda.
FABÍOLA: E como nós duas, mulheres indefesas, vamos fazer algo?
ADÉLIA:  Fabíola! O mesmo Deus que te livrou do assalto continua conosco. Nós não estamos sozinhas. E então, você vai ou não?
FABÍOLA: Vou!
(Música)
ADÉLIA:  Você tem certeza que o lugar é este aqui?
FABÍOLA: Tenho sim. Como poderia esquecer uma coisa dessa.
ADÉLIA:  Realmente Fabíola, este lugar é muito esquisito.
FABÍOLA: Eu não te falei que era esquisito, vamos embora...
ADÉLIA:  Espera! Tem alguém ali.
FABÍOLA: Ai meu Deus! Eu não quero nem olhar.
ADÉLIA:  Fabíola, olha! Vê se é algum deles.
FABÍOLA: Não! Não é esse não.
ADÉLIA:  Também ele está tão bem vestido.
FABÍOLA: Pois é. Mas os que me assaltaram ontem estavam muito bem vestido.
ADÉLIA:  Eu vou lá!
FABÍOLA: Não Adélia! 
ADÉLIA:  Boa Tarde!
TONHÃO:  Boa tarde.
ADÉLIA:  É que eu e minha amiga estamos procurando um casal que achamos que anda por essas bandas.
TONHÃO:  E como é que eles são?
ADÉLIA:  Um usa...
FABÍOLA: Chapéu...
ADÉLIA:  e a outra...
FABÍOLA: Uma luva...
TONHÃO:  Acho que conheço sim. Mas o que vocês querem com eles? Eles fizeram algo errado?
ADÉLIA:  Não! De jeito nenhum.
TONHÃO:  Então vocês devem querer alguma coisinha com eles (faz gesto de fumo, mas elas nem reparam nisso)
ADÉLIA:  É isso mesmo. Temos uma coisinha para resolver com eles, não é Fabíola?
FABÍOLA: É sim (desconfiada)
TONHÃO:  E essa coisinha é pouca ou muita coisa?
ADÉLIA:  É muita coisa.
TONHÃO:  Mas vocês tem cara de marinheiro de primeira viagem. Cuidado para não se envolver em encrenca.
ADÉLIA:  Nós não temos medo disso não. Temos um protetor muito forte.
TONHÃO:  Então vocês devem conhecer o Cara lá de cima. (falando do Cara do Diabo)
ADÉLIA:  Tem gente que chama ele assim. Nós chamamos pelo nome dele mesmo.
TONHÃO:  Vocês sabem o nome do Cara?
ADÉLIA e FABÍOLA: Claro!
TONHÃO:  E o Cara dá limpeza mesmo? Ele dá cobertura para vocês?
FABÍOLA: E como dá. Ontem mesmo, nessa parada ele me protegeu totalmente.
TONHÃO:  E o Cara esteve aqui ontem?
FABÍOLA: (Falando de Deus) Mas Ele está em todo lugar... (observa Negão se aproximando e desmaia)
ADÉLIA:  Fabíola! O que aconteceu?
TONHÃO:  Meu irmão, você assustou a menina com essa tua cara feia.
NEGÃO:  Será que ela morreu.
TONHÃO:  Não, ela ta respirando.
ADÉLIA:  Meu Deus! Bem que ela me falou que não queria vir aqui e eu insisti. E agora?
NEGÃO:  Meu irmão, eu to conhecendo essa mina. É aquela da parada de ontem Tonhão.
ADÉLIA:  (levanta e vai em direção a Negão) Então foi você? Nós estamos aqui justamente para falar com você...
NEGÃO:  Mas eu não tenho nada para falar com vocês não (se retira)
ADÉLIA:  Espera!
TONHÃO: Ei morena, chega aqui que tua amiga está acordando...
ADÉLIA:  Fabíola, você está bem?
TONHÃO:  Qual é a de vocês ein? Que papo doido é esse?
ADÉLIA:  Você está bem mesmo (enquanto Fabíola vai se sentando)
TONHÃO:  Eu já estou ficando nervoso.
ADÉLIA:  E você (com Tonhão) vai ficar parado aí? Faça alguma coisa, chama a polícia...
TONHÃO:  Que polícia que nada minha irmã! Qual é a tua morena? Que papo é esse?
ADÉLIA:  Nós viemos aqui para ajudar vocês e olha só no que deu!
TONHÃO:  Que nada! Eu sou Tonhão e não preciso de ajuda de ninguém não!
ADÉLIA:  Aí é que você se engana, Tonhão. Você precisa muito de ajuda.
FABÍOLA: (tem uma crise histérica) Adélia! Você viu Adélia! Ele estava aqui.
TONHÃO:  Se acalma menina. Ninguém aqui vai mexer com vocês não.
ADÉLIA:  E você Tonhão! Não tem família, não tem ninguém?
TONHÃO:  Meus pais já morreram. Mas nunca quiseram saber de mim não. Morreram de tanta cachaça. Tenho uma irmã mas ela não está nem aí. Ninguém se importa comigo não.
ADÉLIA:  Mas nós estamos aqui justamente porque nos importamos com você.
TONHÃO:  Como é isso? Nem se quer me conhece. Que história é essa de se importar comigo?
ADÉLIA:  Deus se importa com você! 
(mudança de cena – Xica e o Cara)
(Música)
XICA:  Oi Cara! Eu vim te ver.
CARA:  Estou vendo que você ganhou um presentinho?
XICA:  Não é nada! É só um presente...
CARA:  De quem?
XICA:  De alguém sem importância...
CARA:  Do Tonhão, por exemplo?
XICA:  Claro que não!
CARA:  (grita) E se fosse do Tonhão?
XICA:  Mas não foi... a gente não tem mais nada, faz tempo.
CARA:  Então não foi do Tonhão! E porque ficou tão assustada? Ficou com medo do seu príncipe foi?
XICA:  (apenas balança a cabeça que está abaixada)
CARA:  (empurra) Sai!
XICA:  Não! Você sabe que eu não faria nada contra você, não é? Você sabe que eu te amo!
CARA:  Me ama mesmo?
XICA:  Sim.
CARA:  Então vai ter que me provar que me ama.
XICA:  Eu faço qualquer coisa.
CARA:  Qualquer coisa mesmo?
XICA:  É...
CARA:  Sua vadia! (empurra Xica com toda força)
XICA:  Ai!
CARA:  Quero dar uma liçãozinha no Tonhão.
XICA:  Mas porque?
CARA:  Porque ele matou meu amigo...
XICA:  Mas...
CARA:  As oito da noite na fábrica abandonada, próximo a garagem de ônibus. O Resto pode deixar que é comigo.
XICA:  Está bem (no chão enquanto o Cara espalha cocaína no chão e se retira. Ela cheira e fica doidona)
XICA:  Oi Tonhão! Quanto tempo.
TONHÃO:  Xica! Está mais bonita. Soube que está saindo com o Cara.
XICA:  Pois é! Mas ele não chega nem aos teus pés. Você é mais inteligente...
TONHÃO:  Não precisa exagerar não. Um dia eu chego lá. Mas o que é que o cara quer de mim?
XICA:  (Nervosa) O Cara mandou eu falar contigo. Ele está interessado que você faça um serviço para ele.
TONHÃO:  Engraçado... ele com tanta gente ao seu redor, porque iria confiar justamente em mim?
XICA:  (arrependida) Se não quiser é só dizer que eu mando ele arrumar outra pessoa. Amizade é a mesma.
TONHÃO:  Espera! Explica isso direito.
XICA:  (suspira) É porque você não entende nada dos negócios. É coisa nova e quando tem novidade tem que ser discreto para não deixar rastro. Ele sabe que tu é de outra galera. Por isso mesmo é interessante. Além do mais todos os que trabalham para ele já estão marcados pela polícia.
TONHÃO:  Eu não sei porque mas alguma coisa está me dizendo que é sujeira.
XICA:  É como já disse. Diga que não quer o serviço e pronto. Agora se aceitar eles vão te dar total cobertura.
TONHÃO:  Tudo bem, eu topo! O que é que tenho que fazer mesmo?
XICA:  É assim que se fala Tonhão. Hoje às oito da noite na fábrica abandonada perto da garagem de ônibus. Quem sabe o Cara resolve pensar direitinho na sua coragem e te coloque como braço direito dele?
TONHÃO:  Meu irmão! Eu posso ser o segundo depois do Cara. Todo esse tempo eu esperei por uma oportunidade como essa! De forma alguma eu irei marcar bobeira. Pode dizer a ele que de 7:59 eu to lá.
XICA:  (enquanto Tonhão dá as costas) Tonhão!
TONHÃO:  Fala Xica!
XICA:  Eu vou estar na praça doze de março. Se você decidir não ir agente se encontra lá?
TONHÃO:  Depois do lance eu vejo. (se retira, ela se senta e chora.)
(mudança de cena JF, Tonhão e Negão)
JF: Isso é ridículo, Tonhão! Você enlouqueceu? Onde já se viu trazer duas pessoas que nem conhecemos direito. Você está nos expondo.
TONHÃO:  Calma JF! Deixa de bobagem. Eu sei com quem conversei e sei que elas não vão trazer problemas não.
NEGÃO:  Cara, que viagem! Esse livro é um barato (com a Bíblia).
JF: (se volta para Negão) E você ta querendo o quê?
NEGÃO:  Nunca pensei que esse livro tivesse tanta história. É um livro viajado.
JF: Viajado é? Pois tu vai ver o que é viagem agora (Pega a Bíblia e rasga na frente de Negão)
NEGÃO:  Ei JF! Dessa vez você foi longe demais.
JF: Longe demais uma droga! Enquanto você fica aí como uma marica, Tonhão apunhala agente pelas costas.
TONHÃO:  Deixa de babaquice JF! Eu já expliquei que elas não são “tiras”. Só vem falar caretice e vão embora.
JF: Caretice? Então vocês fiquem com elas que eu tenho mais o que fazer. (se retira)
TONHÃO:  Espera JF! JF volta aqui.
NEGÃO:  (Vai apanhando as páginas rasgadas da Bíblia) Então Zaqueu  subiu numa árvore porque era baixinho e queria ver o mestre.
TONHÃO:  Onde já se viu isso, a JF enlouqueceu...
NEGÃO:  Filho meu, guarda os ensinamentos da tua mãe e a disciplina do teu pai...
TONHÃO:  Meu irmão tu já encheu o saco demais por hoje. (pega a bíblia e vai jogar fora quando dá de cara com Fabíola e Adélia. Ele devolve o livro rasgado para Negão.)
ADÉLIA:  Oi Tonhão, como prometemos aqui estamos nós.
TONHÃO:  Estou vendo que são pontuais mesmo.
ADÉLIA:  Qual o nome do seu amigo ali?
NEGÃO:  (Fabíola fica tensa) Meu nome é Negão! Negão poeta, por favor.
ADÉLIA:  Você é poeta? Faz poesias?
NEGÃO:  às vezes, quando eu to inspirado. Agora me desculpa por aquele dia. A minha amiga tava lombrada. Mas eu não ia deixar ela te fazer mal.
TONHÃO:  Sim, mas a conversa está boa mas eu vou ter de dar uma saidinha. Tenho que resolver um probleminha.
FABÍOLA: Você deveria nos escutar ao menos alguns minutos.
TONHÃO:  (fingindo não estar interessado) Escutar o quê?
ADÉLIA:  Vocês sabiam que há caminhos que parecem ser legais mais no seu final pode nos levar a morte?
NEGÃO:  Mas um dia todo mundo vai morrer.
FABÍOLA: Nem por causa disso agente precisa antecipar esse dia.
TONHÃO:  Antecipar o quê? A pessoa só morre no dia que tem que morrer mesmo.
ADÉLIA:  Deus disse que não deveríamos ser loucos demais para não morrermos antes do tempo.
NEGÃO:  Legal!
TONHÃO:  Legal o quê? Tá variando é Negão? Bom, a conversa está boa mas eu vou ter que sair agora.
ADÉLIA:  Cuidado Tonhão! Lembre-se do que nós falamos. Se precisarem de amigos verdadeiros saibam que Deus é o único amigo que se importa com vocês.
(mudança de cena)
CARA:  Tonhão!
TONHÃO:  Sou eu!
CARA:  Está sozinho?
TONHÃO:  Estou só e desarmado. Pode me revistar se quiser. Mas cadê o Cara?
CARA:  Calma... Relaxe! Ele vai chegar... Tá nervoso? (faz menção de tirar algo do bolso, Tonhão pensa que ele vai tirar o revolver, mas é apenas um cigarro.)
TONHÃO:  Ele marcou comigo às oito.
CARA:  É a primeira vez que faz um lance como esse?
TONHÃO:  Não! Já fiz vários outros...
CARA:  Pois é! Inclusive o último que você fez não se deu muito bem, não é?
TONHÃO:  Que história é essa? Quem te contou isso?
CARA:  Calma Tonhão! Você sabe que no nosso meio não há segredos. As coisas correm rápidas demais.
TONHÃO: Pelo jeito as notícias correm mais rápidas que eu imaginava.
CARA:  Mas quem se deu mal mesmo foi o Charles.
TONHÃO:  A polícia me acochou e eu tive que fazer aquilo.
CARA:  Você só se esqueceu de um detalhe.
TONHÃO:  Detalhe? Que detalhe?
CARA:  (atira em sua perna) o detalhe de que Charles era meu amigo, o detalhe que eu to me lixando para a polícia porque eles comem na minha mão, o detalhe de ser tão ingenuo ao ponto de pensar que eu precisaria de um imbecil como você, traidor.
TONHÃO:  Eu não tinha outra escolha, vamos conversar.
CARA:  Conversar? Nesse jogo detalhes podem ser fatais.
TONHÃO:  Pelo amor de Deus, não me mate!
CARA:  Quem meche com um amigo é mesmo que estar mexendo comigo. (Atira na cabeça de Tonhão, dispara várias vezes)
(Música)
 

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