NAVEGANDO REDE

Uma mulher em um casamento infeliz procura por um amor na Internet.

A modernidade, as facilidades, os riscos, quem realmente estará do outro lado?
A peça não apresenta um final feliz(nem trágico), apenas expõe uma realidade... Deixa um espaço pra debates sobre traição, confiança, casamento...

 
Personagens
Willian (Um contador)
Estela (Sua esposa, uma consultora de Relações Públicas)
Karina (Amiga de Estela)
Script
(Cena: A sala de uma casa, com um sofá e um computador conectado à Internet. Willian está usando o computador, enquanto Estela entra carregando alguns relatórios do trabalho).
WILLIAN: (Olhando para Estela) Eu pensei que você iria sair esta noite?
ESTELA: O encontro já terminou. O cliente desligou a tomada da campanha.
WILLIAN: E para que essa papelada?
ESTELA: Eu pensei em rever tudo para descobrir onde erramos.
WILLIAN: Posso ajudar?
ESTELA: O que um contador pode dizer para uma consultora de Relações Públicas sobre a natureza humana? Isso é um negócio dirigido às pessoas.
WILLIAN: E eu sou uma pessoa.
ESTELA: Não vamos começar de novo, Willian. Quando falamos de nossas profissões, seu modo de ver as coisas e o meu não combinam. Quando você está lidando com pessoas, você simplesmente não pode levar tudo ao pé da letra.
WILLIAN: Eu sei disso. Mas se o seu cliente não pode pagar as grandes ideias que você propôs para ele, você não está fazendo seu serviço mesmo. Sonhos não são baratos.
ESTELA: É por isso que você nunca fez um sonho se tornar realidade? Você nunca conseguiu pagar nem um centavo? Nunca houve um momento em sua vida que você esteve preparado para voar com o vento? Para experimentar o risco de perder tudo por uma ideia louca sem se preocupar com o custo?
WILLIAN: (Sádico) Desde quando você se preocupa com o que eu sonho, Estela? Eu sei onde minhas fantasias pessoais terminam e a realidade do bolso dos meus clientes começam.
ESTELA: Está vendo. Eu disse que não havia motivos para essa discussão. Mudei de ideia Eu vou sair.
WILLIAN: Não, não se incomode. Eu ia voltar pro escritório mesmo. Tem umas horas em que o dinheiro realmente fala, e eu consigo entendê-los melhor do que a você. (Levanta-se e sai)
ESTELA: (Senta-se no sofá) Dinheiro fala! Desde quanto uma nota tem alma? (Ela vai até o computador e conecta-se na internet) Mas que droga de conexão lenta. Todos devem estar navegando agora. (Ela continua falando enquanto digita) Ah, um bate-papo. Será que o Ricardo está on-line a esta hora? Normalmente não conversamos antes das 11, quando Willian está fora e eu posso usar essa máquina sem ninguém ver. (Suspira e sorri) Ele está me esperando.
(A campainha toca)
ESTELA: (Em pânico) O quê? Willian já voltou? Deve ter esquecido alguma coisa, e a chave. Tenho que sair. Ela não pode saber do Ricardo. (A campainha toca de novo) Que droga, essa porcaria travou. Vou ter que puxar a tomada. Não tenho tempo de apagar o histórico. (Toca a campainha de novo). Já vou, já vou! (Estela atende a porta, é Karina)
KARINA: Se é uma hora ruim eu vou embora.
ESTELA: Sim... Quero dizer, não... é... (olha para Karina e para o computador em desespero) Eu não sei mais o que quero dizer. (E começa a chorar)
KARINA: (Abraça Estela e a leva até o sofá) Vem, sente-se aqui. Diga para a Tia Karina o que está acontecendo.
ESTELA: Eu não sei o que fazer, Karina. Está tudo uma bagunça!
KARINA: Bem... nós temos trocado algumas mensagens há algum tempo. Qual é o problema?
ESTELA: Desta vez é diferente.
KARINA: É sobre você e Willian, não é?
ESTELA: É... quero dizer, não... Eu não sei!!
KARINA: Isso está ficando repetitivo, para não dizer confuso.
ESTELA: Eu estou confusa.
KARINA: Então comece pelo começo. Você e Willian estão com problemas, certo?
ESTELA: Sim, mas é mais do que isso. É todo um negócio de comunicação. Parece que vivemos em mundos totalmente separados ultimamente. O seu mundo é dominado por dinheiro... E eu vivo em um mundo de ideias, imagens. Nós quase não nos falamos, e quando fazemos isso, simplesmente nos afastamos mais. Essa casa está virando um ringue, um depósito de munição. O mais estranho é que, de algum modo, nós fazemos a munição para que o outro use.
KARINA: Você não era assim. Eu nunca conheci ninguém tão apaixonado como vocês dois, como se estivessem em um mundo só de vocês.
ESTELA: Só nosso, eu não sei. Eu deveria ter compartilhado mais esse mundo. Antes ele me segurava nos meus voos, sem considerar na balança o que fazíamos. Mas ultimamente ele ficou tão sério, tão grudado no chão. Toda a imaginação se foi do nosso relacionamento. Ele passa mais tempo no computador do que comigo.
KARINA: Uma vez você me disse que amava Willian porque ele era a âncora de realidade que você se segurava quando voava demais.
ESTELA: Mas agora eu me sinto amarrada na terra o tempo todo. Ele não voa mais, enquanto Ricardo compartilha comigo seus pensamentos e...
KARINA: Ricardo?
ESTELA: Ai, não...
KARINA: Estela, você está saindo com outro homem?
ESTELA: Sim... quero dizer, não... Bem, não de verdade. Ainda.
KARINA: Agora eu estou confusa.
ESTELA: Só na Internet. Sabe, você pode falar com pessoas do mundo todo nesses bate-papos. Sobre qualquer coisa. É tão viciante. E o melhor é que pode ser totalmente anônimo, Ninguém sabe quem você é, ou como você é, se você não quiser. Você pode até fingir ser do sexo oposto. Já fiz isso algumas vezes, é divertido. Normalmente eu uso meu nome do meio.
KARINA: E? Ricardo!?
ESTELA: Eu estava conversando sobre ética na propaganda, e alguém chamado Ricardo fez alguns comentários realmente inteligentes. Alguma coisa que eu disse deve ter impressionado ele também, porque desde então nós nos encontramos em um bate-papo privado e conversamos por horas. As coisas se desenvolveram daí. Começamos a conversar duas, três vezes por semana, então passamos a nos falar todos os dias. Agora eu não consigo passar um dia sem compartilhar alguma coisa em ele. Eu estava para começar a conversar com ele quando você chegou.
KARINA: E vocês só conversaram?
ESTELA: Só conversamos! Você não entendeu. Ricardo não lê apenas poesia, ele tem a alma de um poeta. Ele é inteligente e carinhoso, totalmente oposto ao Willian... Só de estar com ele eu sinto meu espírito voando.
KARINA: Estar com ele?
ESTELA: É uma das melhores coisas da Internet. Você pode ter conversas íntimas com completos estranhos... dizer a eles coisas que você nunca diria ao seu marido. Você pode fazer tudo sem nenhuma intimidade física real. Mas este é o meu dilema. Ricardo agora quer me conhecer.
KARINA: E se ele viver do outro lado do mundo, como vai ser?
ESTELA: Isso é que é incrível. Ele vive aqui na cidade.
KARINA: E você sabe se ele é realmente ele? E se ele for uma mulher? Já pensou nisso, você só sabe dele o que ele quis que você acreditasse. Você realmente quer conhecê-lo? Isso é esperto? E quanto a Willian?
ESTELA: Eu não sei. Uma parte de mim reconhece o risco. A outra grita para tocar o que pode ser real na minha mente. Eu não sei o que fazer!
(Willian entra. Estela fica estática)
KARINA: (Tentando recuperar os dois) Oi, Willian. Estela me disse que você foi até o escritório.
ESTELA: Eu não esperava você tão cedo.
WILLIAN: (Distraído) Eu terminei antes do que esperava. A rede caiu e não tinha mais porque ficar lá. (Larga uma pilha de papéis na mesa) Não vá embora por minha causa, Karina. Eu vou tomar um banho e vou para a cama.
ESTELA: (Sentindo-se culpada) Quer beber alguma coisa?
WILLIAN: Se você insiste.
ESTELA: Vou esquentar a chaleira. (Sai)
(Enquanto ela está fora, Karina vê um pequeno livro entre os papéis de Willian. Ela o pega e folheia rapidamente)
ESTELA: (Entra, agitada) Vou fazer um café para nós. Karina, você não vai dizer nada!
KARINA: Estela, qual é o nome do meio do Willian?
ESTELA: Ricardo, por quê?
KARINA: Talvez você deva dar uma olhada nesse livro de poesias que achei nos papéis dele.
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