NA REDE

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UM ATOR, CINCO REDES. A rede de dormir; A Rede de pescar; A Rede do gol; A Rede www...

UM ATOR, CINCO REDES.

A rede de dormir;

A Rede de pescar;

A Rede do gol;

A Rede www...

 

 

 

Cena 1
Na rede (de dormir)
O ator está deitado na rede. Medita por uns instantes, se balançando.
Ator – Já disseram que o ócio permite uma melhor reflexão. Já disseram que é preciso que uma casta de pensadores esteja sempre em constante meditação para as soluções dos problemas do mundo. Será um mero eufemismo para legalizar ou justificar a vagabundagem? Será mesmo que a natureza precisa ser fiscalizada? Mesmo que eu não obtenha resposta, assim de imediato, sigo a filosofia “baiânica”. Não olho a natureza, assim como quem olha um outdoor ou um carro bonito. Olho para ela como quem contempla um quadro, aliás, como quem frui uma obra de arte. Preciso de tempo. Ah, o tempo. É nesse momento que o faço ele. Não vou deixar que ele me enleie. Vejo, não tão longe, a vida daquele que dizem ser meu próximo. Esse alguém é que não pára. Não repousa! Quer trabalhar mais do que o relógio, girando, girando, labutando, labutando, mas não chega a algum lugar. Por eu ter chegado a algum lugar que parei. Mas...será que parei no tempo? Ou não deixei o tempo me parar? Bom, eu na rede me permito momentos de higiene mental. Eu na rede, posso sim calcular o porquê de existirem porquês? O porquê de existirem questionamentos? Ah, posso até mesmo inventar alguns questionamentos, como esse que eu inventei. É, mas não vejo que há alguma utilidade nisso tudo. Se bem que dizem que arte é justamente arte por não precisar ter uma utilidade. Se viver é uma arte, estou vivendo. Mas existe a arte de pintores como a de Van Gogh, buliçosa... a de Palatinik, bem cinética...Bom, não seja por isso. Eu dou uma balançada na rede e pronto! (fica um tempo balançando até que a rede pára) Só que tem uma hora que tudo pára. Nada é um moto contínuo! Tudo tem fim. Por isso que é necessário que eu saia dessa rede. Não quero ficar restrito. Quero trasvalorar seu conceito. Senão ela será pra mim cilada ou armadilha!.
Cena 2
Na rede (de pescar)
Sonoplastia de marulho. O ator vem com uma rede de pesca.
Ator – Ah, agora sim! Que a rede seja o laço que me arraste para outro pólo mais ativo, diferente do outro lado da vida, no qual nada é vivo, tudo é passivo. Entretanto, devo ter o cuidado para ser apenas ativo, sem cair no ativismo. E nada mais ativo que os peixes. Ao divisar um cardume, noto de modo claro a explicação não etimológica, apenas lógica, do vocábulo sinergia: união dos órgãos em função do corpo. Vejam só! Um bando de peixinhos nadando juntos, se é que os ladrões me permitem pegar emprestado o seu coletivo. Sim, um bando. Uma cambada. Uma galera, pra ser mais contemporâneo. As pessoas pensam que é a calmaria do mar o verdadeiro convite que a natureza faz para os humanos virem pescar. Eu penso diferente. O verdadeiro chamariz é os peixes, os autênticos artistas. O mar, apenas o cenário. Opto por ser o coadjuvante, ou quem sabe, o antagonista, com meu objeto cênico chamado rede de pesca. É...parece que sou o vilão dessa história. Jogo a rede e acabo com o projeto de vida de vários arenques, robalos, namorados. Dou termo aos artistas do mar, dando início a uma história que começa com a morte deles e termina numa mesa de jantar. Ah, que besteira me lamentar pela morte de seres irracionais que, de tão tolos, caem na rede. Creio que me difiro deles por jamais ter caído nela. Por isso que sou supremo, sou graúdo, em comparação a esses miúdos peixes. Nem para agonizar eles servem. Não ouço nada quando eu os capturo. Antes de mim, ainda há um bando, uma cambada, uma galera de classes à sua frente para prevalecer. Répteis, aves, anfíbios e, claro, nós mamíferos. Todos podemos respirar aqui fora! Todos nós, classes superiores a de reles peixes! Ah, mas eu daria tudo para dar uma só respiradinha aí dentro desse mar. Gostaria de chegar ao nível mais abissal do mar e ver aquelas horrendas criaturas que lá existem. Quem sabe, uma espiada no Leviatã. Iria suportar com mais conformidade as feiúras tão brandas aqui da superfície, mas que me impressionam tanto. Sabe...Eu até que admiro a classe dos peixes. Entretanto, permiti-me que a admiração crescesse em mim de forma exagerada, transformando-se em inveja. Se eu não posso chegar aos níveis abissais como alguns deles, trarei alguns representantes dessa classe para a nossa superfície. Verão com seus próprios olhos arregalados e esbugalhados a fealdade desse nível de vida! E para isso...(pega a rede de pesca) Usarei a rede!
 
Cena 3
Na rede (é gol)
Atrás do autor, uma baliza de futebol, com uma rede. Ele está vestido com um uniforme de goleiro.
Autor – Um ciclo que se fecha, outro que se abre. Largo os mares para tentar outros ares. Esporte, quem sabe seja a minha praia. Chega de redes na minha frente! Só não pensei que ia ter que conviver com uma bem atrás de mim. E daí! Agora sim tenho-na como companheira, pois antes, a usufruía para fins de puro interesse egoísta. Agora, não a exploro. Eu agora não apenas convivo, coexisto, como também me identifico com ela. Somos a prova de vida (no que concerne a mim) ou prova de existência (no que concerne a ela) de puro altruísmo. Está complicado de entender? Ora, evito o gol. E ela, evita o além gol! Embora as funções possam parecer distintas, têm o mesmo teor: evitar a tristeza de alguns dando alegria para outros. Claro que ela não pode evitar a minha solidão! Mas ninguém pode evitar. Se você opta por ser goleiro, não só terá que resolver sozinho alguns lances da partida como também ficar só, enquanto todos os jogadores estão lá na frente tentando complicar a vida de meu adverso colega de trabalho. No máximo, você pode se comunicar com aqueles dois zagueiros, mas que nem seus caracteres não se comparam ao caráter da rede que, enfim, teve a humildade de se posicionar atrás. Eles estão sempre à frente. Confio nela. As bolas que eu não posso pegar, ela pega. Volta e meia ela simula está furada para que os juízes venham a se confundir. Será que foi gol ou foi pra fora? Será que essa rede é apenas companhia ou cúmplice? Nem uma coisa nem outra! Ela é minha companheira. Só espero que ela possa sempre estar, em relação a mim, na frente ou atrás, mas jamais à frente ou por detrás!
 
Cena 4
Na world wide web
O ator diante de um computador.
Ator – (teclando, desesperado, dialoga com o computador, aludindo o papear com a www) Não! Não! Não me venha com esse papo de teia de alcance mundial. Você me garantiu que não iria ficar à frente. Você me garantiu que, no máximo, serviria para enlear, envolver, abarcar e capturar corpos físicos, e não pensamentos. Não se contenta com o pouco! Sempre defendi a sua humildade, a sua integridade, agora tenho que justificar o porquê de ter se tornado tão, tão...Tão cibernética! Tão iconográfica! É óbvio que eu fui o culpado. Agente dá oportunidade para os neófitos não acreditando que o sucesso deles, no futuro, possam vir a nos incomodar tanto. Deve está se jactando à toa! Era uma substância tão inofensiva. Não oferecia perigo nenhum. Agora é a rede! Era apenas um conceito solto no campo platônico das idéias. Agora, forma opiniões. Faz da necessidade coletiva um anseio por informação, e não por conhecimento. (escabreado) Todavia eu a conheço! E conheço bem! Sei de suas limitações! Sei que pode ser à frente, mas de uma coisa eu tenho certeza! Jamais estará por detrás! Jamais será teia inconsútil! Jamais me capturará por completo!
Por detrás do ciclorama, dois contra-regras, com uma enorme rede, envolvem o ator, simulando uma enorme onda que o envolve. Nela, ele grita.
Ator – Socorro! Socorro! Fui pescado! Socorro! Socorro!
O ator fica fora de cena por uns instantes.
Voz em off – Não fique nervoso. Pesquei você, mas devolvê-lo-ei já, já.
Ator – (fora de cena) Como assim me pescou? E eu lá sou peixe para ser pescado.
Voz em off – Mas você vem caindo freqüentemente em várias redes. Hoje, você caiu na minha,que é uma rede que não aprisiona, mas transforma o que foi pescado. E eu o devolvendo ao imenso mar chamado mundo para transformá-lo, e não para poluí-lo. Vá, e faça o mesmo. Seja pescador de homens. Mostre para eles tomarem cuidado para não caírem nas redes que enleiam, mas na rede que liberta, que é a rede do sumo pescador.
 
O ator é devolvido à cena, jogado ao palco. Ele vem com uma rede na mão. Pára uns instantes, reflete, olha para o público e, num “insight”, joga a rede no público, como se estivesse pescando homens.
 
Fim
Glória a Deus
 
TEXTO REGISTRADO no Escritório de Direito Autoral
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