Marta ou MARIA: quem vai ficar com a melhor parte?

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Duas mulheres no ringue - Marta ou MARIA

Nesta comédia, ou autor leva a briga entre as irmãs para o ringue.
O mediador do combate é um gringo, escritor e vendedor de livros, no estilo dos que fazem aqueles comerciais de infindáveis da TV.
O feminismo e a participação da mulher no mercado de trabalho são enfocados.

Dramatis Personae
    • Marta
    • Maria
    • Apresentador da luta de Boxe
    • Janfrei (juiz e vendedor de livros de auto-ajuda)
    • Auxiliar (e marido) de Maria
Objetos Cênicos: Gongo (ou sonoplastia do mesmo), mala repleta de livros, cordas para compor o ringue e três cadeiras.
Cenário: Ringue de Boxe

 

CENA 1

Cenário: Ringue de Boxe
(O apresentador anuncia “a luta” entre Marta e Maria, vestindo traje a rigor, sem paletó, com gravata borboleta.)
APRESENTADOR:    Senhoras e Senhores. Chegou o grande dia da grande luta sobre o grande dilema. Hoje, vamos ver se é uma boa solução as mulheres se emanciparem dos homens. Hoje, veremos se as donas de casa se acomodaram ao insistir em permanecer como tal. Hoje, veremos a grande luta dois perfis da mulher dos tempos de hoje. Do meu lado direito, aquela que tem um cartel extraordinário por sua regularidade. A campeã de lavar boxe: Maaaaaaariiiiiiaaaaaa!
[Maria entra com seu auxiliar. Ao chegar no ringue, dá início a seu aquecimento (alongamentos físicos bem delicados).]
MARIA:    Amor. Gostei da iluminação à meia luz na minha apresentação. Você foi bem sensível.
AUXILIAR DE MARIA:   Maria, ninguém precisa ficar sabendo que nós somos marido e mulher. Mas fico feliz em saber que você gostou. Agora se concentre para a luta.
APRESENTADOR:    E do meu lado esquerdo, ela que é campeã de luta de Boxe mesmo, mas não só de Boxe como também de Jiu Jitsu, Judô, Sumô, “Divorciô”, “Movimento Feministô” e outras coisas mais agressivas e masculinas, sem alusões ao lesbianismo, mas com muitas alusões à autosuficiência...Maaaaaaarrrrrrrtaaaaaaaaaaaaa!
Marta entra em cena, em meio a focos estroboscópicos, com aquecimentos agressivos, como um verdadeiro lutador de Boxe.
APRESENTADOR:    Ué? Cadê o seu cut man (se lê “cótmen”)
MARTA:    O que é isso?
APRESENTADOR:    Ora, seu auxiliar, para cuidar dos seus cortes e feridas...
MARTA:    Olha aqui, seu apresentador. Eu não preciso de nenhum homem me auxiliando. Já tentei várias vezes ter um auxiliar, mas eles não se adaptam ao meu estilo, além de alegarem que é impossível trabalhar comigo, uma vez que eu almejo igualdade entre homem e mulher. Eles vêm com um papo de que (imita voz de homem) “é impossível homens e mulheres serem idênticos, pois a questão genética impede. Só é possível a igualdade de direitos, nada mais do que isso” (volta a falar normalmente) Mas eu quero ir além. (dá socos no ar)
APRESENTADOR:    Tudo bem, tudo bem! (em voz alta) E agora, senhoras e senhores, para ser o juiz desse combate, chamamos ele. O homem que entende as mulheres emancipadas e auto-suficientes como ninguém. Ele, que já escreveu vários livros de auto-ajuda, convidado especialmente para esse combate. O sensacional ...Janfrei Killen Smith!!
Janfrei é um sujeito aparentemente simpático e bonachão. Entra em cena acenando para a torcida e jogando vários exemplares da sua mais nova obra literária: “A feminilidade dos homens e a masculinidade das mulheres”.
JANFREI:    (como sotaque inglês) Olá, olá! Meus queridos amigas! Vamos ver quem vai ser o vencedora dessa combate! Vamos ver, vamos ver!
MARIA:    (ao “auxiliar’) Querido! Eu não gosto muito desse sujeito não.
AUXILIAR DE MARIA:    Por que, meu amor!
MARIA:    Ele é famoso por escrever livros incentivando às mulheres a tomarem o lugar dos homens e convencer aos homens a, de vez em quando, agirem como mulheres.
AUXILIAR DE MARIA:   Ih, estou vendo então que essa luta é carta marcada.
JANFREI:    ‘Please, please’, silência por favor. Já que eu fui convidado para conduzir essa combate, aproveito o oportunidade para distribuir exemplares de minha livro novo, cujo o título é “A feminilidade dos homens e a masculinidade das mulheres”.
MARTA:    Vamos logo com isso, Janfrei. Eu gosto de sua obra, mas esse não é o momento apropriado para fazer publicidade.
JANFREI:    Calma, meu querida. É até bom, para nós influenciarmos o opinião pública.
MARTA:    Não preciso disso não, Janfrei. Só preciso é colocar em prática a prova da evolução feminina para acabar com essa letargia.
MARIA:    Olha aqui! Antes de começarmos o combate, lembre-se que assinamos um contrato de não agressão mútua. O combate será apenas oral.
JANFREI e MARTA:    Oral???
MARIA:    Não se faça de desentendida, Marta. (ao “auxiliar’) Amor, leia por favor o contrato”.
AUXILIAR DE MARIA:   Sim, querida. A cláusula 32 diz que “em virtude de as mulheres terem no cérebro duas áreas específicas responsáveis pela fala, uma maior, na parte frontal do hemisfério esquerdo, e outra menor, no hemisfério direito, elas falam mais que os homens. Logo essa luta deve ser uma oportunidade para que elas ponham em prática aquilo que elas fazem melhor, deixando os socos para alguns homens que só sabem resolver as coisas na violência”.
JANFREI:    Esses homens aí que resolvem os coisas no bordoada são aqueles que não leram as minhas livros! (à Marta) Oh, my god! Quem elaborou essa contrato deve ser aquela autor concorrente minha em literatura para casais.
MARTA:    Deixa para lá, Janfrei! A gente assina tanta coisa antes de lutas como essa que até esquece de determinados detalhes. Não tem problema! Ainda estou no meu exercício regular de direito! Vou partir para cima, ainda que oralmente! Mas vou direto ao ponto, sem fazer rodeios! Para determinadas atividades, temos que nos masculinizar.
AUXILIAR DE MARIA:   (à Maria) Vá, querida! Se posicione ao centro.
MARIA:    Não, meu amor! Não soou o gongo!
AUXILIAR DE MARIA:   Mas o juiz vai dar as últimas recomendações!
(Maria vai até o centro, um pouco inconformada com a ordem do “auxiliar”.)
MARIA:    Você sempre com essa mania de saber tudo!
(Janfrei no centro, Maria à direita e Marta, à esquerda. Ambas se encaram. Marta com um semblante masculino, furioso. Maria, com estojo de maquiagem, retocando a maquiagem.)
JANFREI:    Olha aqui, meninas! Eu não quero ver golpe baixo. Principalmente de você, Maria. Vai que a Marta teve excessa de hormônia masculina emitida nela enquanto ainda estava no ventre de seu mãe Vai que a Marta tem as dois sexos.
(Marta aplica um golpe em Janfrei.)
JANFREI:    Aiii!
MARTA:    Já disse que não sou lésbica, nem hermafrodita, nem transexual. Apenas me comporto como homem em atividades que requerem imposição ou agressividade.
MARIA:    Concordo com ela, seu juiz. É questão de opção da mulher agir assim.
MARTA:    Não adianta querer me bajular não, ô Maria. A luta de hoje não é só entre mim e você. As mulheres independentes representam os negros de outrora, que lutaram contra a escravidão. E pessoas como você são como os negros que ainda se contentam em continuar sendo escravos.
APRESENTADOR:     Bem, com licença. Deixem-me tocar o gongo, que o combate já começou.
(O apresentador sai de cena, enquanto que as duas caminham em direção ao córner. Maria se senta, choramingando e sendo consolada pelo “auxiliar”. Marta fica em pé mesmo. )
MARIA:   (soluçando) Viu o que aquela sirigaita falou para mim.
AUXILIAR DE MARIA:    Ai, querida! Não acredito que você vai chorar logo agora na hora da luta!
MARIA:    Ai... É que eu sou assim mesmo. Eu choro à toa. Você me conhece. E olha que quando eu começo a chorar, eu não paro mais.
AUXILIAR DE MARIA:    Ai, então eu tenho que usar a palavra mágica para você parar. Eu ia usar esse trunfo mais tarde, talvez nos últimos rounds, mas vou usar agora. Maria, se você não parar de chorar, vai borrar sua maquiagem.
(Inexplicavelmente, Maria engole o choro e se mantém séria. Soa o gongo. Maria levanta e caminha, desajeitada, em direção a Marta, que a olha com desdém.)
MARIA:    O que foi Marta.
MARTA:    Ai, não dá nem vontade de lutar com uma mulher assim. Olha só o seu jeito de andar.
MARIA:    Ué, eu sou desajeitada assim mesmo. Mas o que importa é andar, não importa como se anda.
MARTA:    Não, minha filha, presta atenção. Isso aqui é uma luta. Você tem que saber que é um ambiente de tensão. Muita atenção para os ambientes de tensão.
MARIA:    Mas isso é porque é a primeira vez que eu luto com uma campeã de modalidades esportivas masculinizadas. Os primeiros passos numa nova atividade são assim mesmo, desajeitados.
JANFREI:    Bem, de acordo com a minha livro “Porque que as mulheres são desajeitadas com tênis e habilidosas com Salto Alto”, no capítulo primeiro as leitores encontra a manual que ensina os mulheres sobre como agir em situações como essas, Maria.
AUXILIAR DE MARIA:    Ô seu juiz, você não pode intervir desse jeito na luta não.
JANFREI:    ‘Sorry’.
MARTA:    É, ele tem razão, Janfrei! Fica quieto por enquanto! Olha só, Marta. Você teve sorte em encontrar uma adversária como eu, que não se contenta em apenas ganhar, mas quer dar valor a disputa munindo a adversária com preparo. Talvez eu tenha essa consciência devido à minha formação. Bom. Senão vejamos: se você não é uma adversária à altura, posso crer que você pode recorrer ao senso de improviso, ao senso de humor, ou ao próprio censo do IBGE, que adora divulgar estatísticas mostrando que existem mulheres que conseguem sobressair com o senso de humor e senso de improviso.
MARIA:    Olha aqui, Marta. Da mesma forma que pensaram erroneamente que você é lésbica, você está cometendo o mesmo erro com impressões falsas a meu respeito. Não é só porque eu sou dona de casa que eu sou burra, você está me ouvindo!
MARTA:    (à parte) Ela enche a boca para dizer que é dona de casa. Talvez ela pense que eu também não faço os afazeres domésticos. Ela deveria dizer que é apenas, somente, exclusivamente dona de casa. (à Maria) Não é isso, querida? É que, perto de mim, você parece burra.
MARIA:    O quê?
MARTA:    Olha só, estou querendo te ajudar para que o embate seja no mínimo justo. Vai aceitar a ajuda ou não?
MARIA:    Está bem, eu aceito.
JANFREI:    Viram só, meus amigas? Até profeta eu sou! Na meu livro cujo o título é“Mulheres unidas, homens vencidas”, no capítulo IV na página 65 mostra exatamente issa: as mulheres ajudando umas às outras antes de um luta, mesmo que um dia elas venham a ser adversárias”.
MARTA:    Janfrei, para com esse sotaque! Você mora aqui no Brasil há vinte e cinco anos! Está querendo usar esse sotaque para fazer marketing?
AUXILIAR DE MARIA:    (incentivando) É isso aí, Marta!
MARIA:    Meu amor, você está torcendo para essa mocréia ou para mim?
AUXILIAR DE MARIA:    (à parte) Quando uma mulher não chama outra rival de sirigaita, chama de mocréia.
MARTA:    Maria, os homens tem visão a longo alcance. Nós, temos visões mais locais. Como eu já disse, se atuarmos como mulheres em determinadas situações, vamos ser ridicularizadas, humilhadas... Então, ao andar para enfrentar um adversário, além de andar com firmeza, temos que mirar ao longe, e é isso que faz com que não fiquemos desajeitadas. Vamos fazer um exercício.
MARIA:    (empolgada e sorridente) Vamos!
MARTA:    Então vamos. Pensa na Presidente da República Dilma Rousseff se preparando para um discurso contra o adversário dela nas eleições passadas.
MARIA:    Mas eu não me identifico com ela.
MARTA:    Olha só, Maria, ela pode ter um montão de defeitos. Mas sabe se impor.
MARIA:    Está bem. Deixa eu voltar para o córner. (ordena depois que voltou para o córner) Soa o gongo aí!
Maria entra em cena, imitando o caminhar de Dilma Rousseff. Chega no centro do palco e, ainda com os dentes para fora, olha o público e dá uma caricata rosnada.
MARTA:    Pronto...
MARIA:    Pronto o quê?
MARTA:    Ora, já pode começar o discurso.
MARIA:    (respira fundo e começa a discursar) Apesar da cara de Pateta do meu adversário, ele não era Pateta e eu não sou a Minie! E por eu ocupar essa função de presidente, digo que a resposta final é minha. Logo, eu tenho autoridade de ditar as normas da moda na hora que eu bem entender. Portanto, tratemos logo de trocar o figurino de todos os que estão presentes nesse auditório!
MARTA:    Minha filha, nós estamos no Brasil. Aqui não existe mais o sistema ditatorial! E não deixe o poder subir à cabeça. É preciso saber ter autoridade sem ser autoritária.
MARIA:    Como assim?
MARTA:    Ora, temos que ter JOGO de CINTURA!
(Marta joga Maria no chão com uma “cinturada”. Maria desanda a chorar. Vai para o córner consolada pelo “auxiliar”, enquanto Marta fica no canto, com um sorriso irônico nos lábios. Janfrei ao centro, ajeitando os suspensórios e exibindo ao público a capa do seu novo livro.)
AUXILIAR DE MARIA:   Não chora, Maria. Assim você vai borrar toda sua maquiagem!
MARIA:    (chorando) Ah, não quero saber! Não quero saber de maquiagem, de luta, de mais nada! Quero ir embora daqui! Quero ir para casa!
AUXILIAR DE MARIA:   Ah, não vou deixar você abandonar a luta pela metade nunca. Ainda mais agora que você se fundamentou.
MARIA:    Como assim?
AUXILIAR DE MARIA:   Você caiu. E só se aprende ficar de pé caindo. Essa adversária é um bom aprendizado para você. Se você não quer sair para o mercado de trabalho, tudo bem, é uma opção sua e eu respeito. Estou aqui justamente para exercer a função de provedor do lar, trabalhando. Mas quando uma mulher não encara o mercado de trabalho como evasiva, isto é, para não ter que encarar determinadas situações difíceis como esta, ela está agindo errado. Você pode impor respeito sendo uma mulher do lar, mas é preciso ser corajosa. Ambos os tipos de mulher tem seu valor, mas existem alguns formadores de opinião do Brasil que querem tirar o valor das mulheres do lar e louvam só as auto-suficientes. E nessa luta de hoje, você, Maria, está representando milhões de mulheres que confiam em você para desbancar os que querem transformar as donas de casa em espécie em extinção.
MARIA:    Amor, você mexeu com meus brios. Obrigada.
AUXILIAR DE MARIA:   De nada!
MARIA:    Ai, amor. Sabia que te amo muito, muito, muito...
Maria dá um abraço bem carinhoso em Auxiliar de Maria
MARTA:    Vamos parar com esse lenga-lenga! Essa luta não é o momento apropriado para isso!
AUXILIAR DE MARIA:   Ela tem razão, Maria. Vai lá e mostra para ela.
MARIA:    Soa o gongo aí.
(Soa o gongo.)
MARTA:    Olha só, já está andando bem. Só falta adquirir perspicácia,  argúcia, tenacidade...
MARIA:    Espírito vivo, tiradas inteligentes...
MARTA:    É, foi isso que eu quis dizer.
MARIA:    Não, você usou termos eruditos para impressionar e para se fazer entender apenas por quem tem domínio sobre essa forma de comunicação.
MARTA:    Ah, Maria. Hoje não é dia de Maria nem nada. Não vou passar a ser medíocre só por ter gente medíocre como espectador.
MARIA:    Está chamando o público de medíocre.
MARTA:    Maria, pára com isso...
MARIA:    O público que veio assistir à nossa luta você está chamando de medíocre.
MARTA:    Maria, você está sendo política. Política não, você está fazendo politicagem, e um tipo de politicagem bem populista, bem barata. Você está jogando o público contra mim.
MARIA:    Ora, Marta. Você acaba de confessar que é afeiçoada ao grande público somente quando pratica os esportes truculentos. Fora isso, ele, o público, não serve para você. Você não quer trazer o público para a sua intimidade, já que se acha superior. Talvez tenha essa mesma opinião em relação ao público masculino. Só quer tê-lo como referencial, mas mantendo a distância.
(Marta olha para o público um pouco assustada. Mantém-se parada, enquanto que Maria olha para o Auxiliar de Maria. Este faz um sinal positivo para Maria. Marta começa um novo discurso.)
MARTA:    Reconheço que errei. Dou, inclusive, minha pontuação para Maria nesse round. Ela, que como exclusivamente dona de casa, até que está se saindo bem contra uma mulher emancipada. Talvez, meu público querido, seja mesmo a hora de revermos os conceitos. Há um provérbio que diz para “não termos vergonha de mudar de opinião, pois não devemos ter vergonha de pensar”. Agora me deixe ir para o meu córner para que possa refletir sobre novas estratégias para tentar derrotar essa esclarecida e preparada adversária chamada Maria. Com licença, senhores.)
(Marta e Maria vão para o córner. Maria está radiante. Marta rejeita os livros oferecidos por Janfrei, pedindo a ele, por meio de gestos, que a deixe sozinha no córner.)
MARIA:    Amor,eu me saí bem?
AUXILIAR DE MARIA:   Eu até estava achando que você tinha se saído bem.
MARIA:    Como assim “Eu até estava achando que você tinha se saído bem”? Eu não gosto que você fale nesse tom de voz comigo. Você está me dizendo que eu estraguei tudo apesar de no início eu ter me saindo bem ou você está querendo dizer que apesar de eu ter me saído bem ela se saiu melhor?
AUXILIAR DE MARIA:   Querida, calma. Em primeiro lugar, eu não usei nenhum tom de voz diferente. Não tenho culpa se as mulheres têm tanta sensibilidade em relação a tons de voz, que vêem ironia onde não tem. Mas acredite em mim. Não falei por ironia. Em segundo lugar, tanto você se saiu bem como ela se saiu bem. Só tem um porém. O seu bom desempenho, muitos perceberam, talvez a maioria. E o bom desempenho dela, só alguns, talvez uma minoria. E creio que, dentre esses alguns, estão os juízes.
MARIA:    E o que essa masculinizada fez de bom nesse round para ter a aprovação dessa minoria?
AUXILIAR DE MARIA:   (à parte) Pelo menos Maria não xingou Marta nem de sirigaita nem de perua. (tom) O que ela fez de bom? Ora, ela simplesmente te elogiou em público.
MARIA:    E o que tem isso demais? É simplesmente uma forma de reconhecer que eu estava certa.
AUXILIAR DE MARIA:   Não, Maria. É simplesmente uma forma de estratégia de discursos, isso sim! Ela queria era despertar inveja em parte dos presentes. E você sabe que os juízes de mesa que vem para um combate como esse estão atentos para todos esses detalhes. E devem ter sido os primeiros a se sentirem incomodados depois da falsa defesa de Marta em relação a você. Devem ter se perguntado: “Quem é essa Maria para acionar o público desse jeito e jogar o público contra Marta?” ou então, devem ter dito assim um para o outro “Será que essa Maria quer transformar o resultado final em decisão popular?”.
(Foco no olhar ardiloso de Marta.)
MARIA:    Meu Deus! Então a Marta está mais bem preparada do que eu imaginava.
AUXILIAR DE MARIA:   Está, mas ainda não é motivo de desespero.
MARIA:    E o que você sugere?
AUXILIAR DE MARIA:   Bom, deixe-me pensar! Já sei. Apela para a vida pregressa da Marta. Se ela é assim, é porque deve ter tido um monte de traumas quando era jovem.
MARIA:    Você tem razão, meu amor. Quando eu estudei sobre essa minha adversária, eu vi que... Bom, deixa comigo. Deixa comigo, meu amor.
(Maria dá um beijo em A.M. e dá um gritinho. Soa o gongo. Marta caminha no sentido em que Marta está no ringue. Marta cruza os braços na frente de Maria.)
MARTA:    Ambientes de luta não são apropriados para gritinhos.
JANFREI:    E de acordo com minha penúltima livro, cujo título é “Quem está com mais meda? A baratinha acuada ou a mulher surtada?”, na página 34 do segundo capítulo, vemos que quando a mulher grita é porque não tem capacidade de agir, mas se agisse como homem ela...
MARTA e MARIA:    Fica quieto, Janfrei!
MARTA:    Obrigada, Maria.
MARIA:    Eu é que agradeço, Marta. Mas...voltando à nossa luta, gostaria de perguntar uma coisa.
MARTA:    Fique a vontade. Como dizem os gaúchos, um verdadeiro guerreiro nunca “foge a peleia”.
MARIA:    Onde está seu pai?
(O semblante de :Marta vai se transformando.)
MARIA:    Ele deve estar escondido no público, em algum lugar?
MARTA:    Não, meu pai não veio a essa luta. Há muito tempo que não vejo meu pai. Onde você quer chegar, lembrando-me de meu pai.
MARTA:    Ora, só queria saber se seu pai, aquele que você intitula de mau necessário, está presente aqui no ginásio. Só isso. Talvez nós perceberíamos que esse seu jeito de ser é pura defesa. Ou então, um trauma, sim, um trauma. Mas será que traumas podem ser uma justificativa para que a “evolução” das mulheres seja, necessariamente, a ocupação em massa no mercado de trabalho em funções semelhantes às dos homens? Sim estou querendo trabalhar, e não ser apenas dona de casa, mas não como fuga! Até que ponto traumas podem criar conceitos revolucionários, ou mudanças de condições sociais e biológicas, como por exemplo a mulher ser a provedora ou a defensora da prole, enfim... (ao público) Gostaram? Inspirei-me nos trejeitos em algumas mulheres brasileiras auto-suficientes da mídia. (à Marta). Enfim, até que ponto essa rebeldia pode ser o motivo para que as mulheres se desfeminilizem ou se masculinizem?
MARTA:    Dessa vez você me abateu. Tanto tentou que conseguiu.
MARIA:    E não venha com essa estratégia de me elogiar em público, porque...
MARTA:    (interrompendo-a) Não, dessa vez estou usando de sinceridade.
MARIA:    Sério?
MARTA:    Sério. Meu pai...Aquele traste. Tratava minha mãe como um capacho. Por ele trabalhar, ser o provedor, ele achava que era o nosso dono. Éramos suas mercadorias. Fiquei assim mesmo por causa dele.
Maria observa, atenciosa, o depoimento de Marta. Música lenta ao fundo.
MARTA:    Não tinha um dia que ele não batia na nossa mãe. Nos obrigava a lavar o pé dele! Aquele pé fedido... Lavávamos sempre quando ele chegava do trabalho. Não deixava a minha mãe trabalhar, nem ao menos ela se instruir. Quando ele a via lendo algo, pegava da mão dela o livro, ou revista, o que fosse, e queimava. Quanto mais a minha mãe dependia dele, mais ele ficava feliz. Por isso, ele limitou a minha mãe. Tentou fazer o mesmo com a gente, mas, como vocês dizem, o meu ardor emancipacionista não permitiu. É, sou sozinha, não me adapto a marido e a atividades que não requeiram habilidades masculinas. Mas eu sou assim. Não é agora, depois de velha, que eu vou mudar. Está satisfeita?
(Marta, abatida, vai para o seu córner, observada por Janfrei.)
MARIA:    (vibrante) Viu só, meu amor, consegui abater a durona da Marta! Viu só? Viu só?
(De súbito, Maria começa a chorar, mudando o seu semblante de satisfeita para outro, de compadecida.)
MARIA:    (em prantos) Ouviu só, meu amor, que história a triste a da Marta. Pobrezinha! (enxuga as lágrimas) Eu não sabia que o pai dela era tão perverso com ela. Coitadinha! (assoa o nariz no lenço que A.M. usou para enxugar o suor de Maria). Com toda a razão que ela é assim.
AUXILIAR DE MARIA:   É inacreditável como essa Marta veio mesmo preparada para essa luta.
MARIA:    Puxa, meu amor. Como você é insensível! Insensível e ingrato!
AUXILIAR DE MARIA:   O que tem a ver ingratidão com essa minha reação.
MARIA:    (ainda chorando) Ah, não sei. Só que eu gosto muito de falar essa palavra quando eu chamo algum homem de insensível.
(Auxiliar de Maria pára um pouco e reflete.)
AUXILIAR DE MARIA:    Hã. Esqueci que vocês, mulheres, nem sempre querem dar significado literal ao que falam. Sem contar que o mundo de vocês é extremamente sensível. Mas que a Marta conseguiu o que ela queria, ela conseguiu.
MARIA:    (ainda em pratos) O quê?
AUXILIAR DE MARIA:   Sensibilizar você.
MARIA:    (parando morosamente de chorar) Você acha?
AUXILIAR DE MARIA:   Claro! Olha a cara dela.
Foco em Marta, rindo para Janfrei, que folheia seu livro, mostrando-o para Marta.
AUXILIAR DE MARIA:   Quer saber de uma coisa? Desisto!
MARIA:    Não, meu amor! Não jogue a toalha não. Eu prometo que não choro mais. Até parei de chorar, olha!
Maria mostra um sorriso largo.
AUXILIAR DE MARIA:   Eu falei que eu desisti, mas não falei que você deve desistir.
MARIA:    Como assim?
AUXILIAR DE MARIA:   Maria, se você notar, desde o início, ainda que de forma camuflada, você agiu também como um homem.
MARIA:    Você acha?
AUXILIAR DE MARIA:   Claro! O fato de você, campeã de lavar boxe de banheiro, estar aqui num ringue em confronto com uma lutadora de Boxe de verdade, é uma forma de se masculinizar. Parece que você se empolgou vendo o filme “Menina de Ouro”, do Clint Eastwood, para querer desafiar uma mulher como a Marta. Você está usando a mesma arma do adversário, e essa é uma das formas de reconhecer que ele tem um pouco de razão.
MARIA:    E o que você sugere? Saiba você que a sua opinião é muito importante para mim.
AUXILIAR DE MARIA:   Ah, que lindo. (pausa) Olha, faz o seguinte. Pode parecer clichê ou jargão mas, na hora do desespero, não tem outro jeito. Vai lá e seja você mesma. Dá uma de mulher na frente dessa emancipada auto-suficiente.
MARIA:    Mas, meu amor... Como, numa luta como essa, eu vou agir como mulher. Eu tenho que me impor, manter um discurso como o dos homens, que vai direto ao ponto, sem rodeios, não dar uma entonação infantil à minha voz para não parecer mulher e...
(A.M. dá um empurrão em Maria que, trôpega, pára de frente a Marta.)
AUXILIAR DE MARIA:    Peça sabedoria ao Senhor que ele te dá. O Espírito Santo está contigo em qualquer que seja a luta. Beijos. Espero você lá em casa.
(Auxiliar (e marido) de Maria se afastam do ringue e fica à parte da luta..)
MARTA:    Eu pensei que você tinha desistido da luta.
MARIA:    Não, é que...é que...
Maria olha para A.M., que, de longe, faz um sinal de positivo para Maria.
MARIA:    Marta, não é melhor a gente aproveitar que o gongo não tocou e...Que tal se fôssemos ao banheiro juntas?
MARTA:   Ir ao banheiro juntas?
MARIA:    É, lá agente conversa melhor, vamos lá comigo...
Maria pega no braço de Marta e a arrasta para o banheiro, para fora de cena.
MARTA:    Espere! Acho que isso é contra as regras. A gente não pode sair assim no meio da luta.
Janfrei e A.M. ficam sós, em cena. A.M. se aproxima de Janfrei.
AUXILIAR DE MARIA:   E aí, Janfrei? Dando muitas palestras.
JANFREI:    Of course, minha rapaz. Of course. Dou palestras em faculdades, em colégios, em asilos, em igrejas. Vou a qualquer lugar que me chamarem. Sou um conferencista de renome. E se me pagam bem, eu falo até três dias seguidos, se deixarem.
AUXILIAR DE MARIA:   Sabe, Janfrei. Eu queria saber de onde vem tanta inspiração para escrever tanto livro.
JANFREI:    Não é muita difícil não, minha rapaz. Na verdade eu pega as histórias bizarras de gente do sociedade e transformo as exceções em regra. É uma técnica que funciona muito bem na mercado de venda de livros de auto-ajuda sensacionalista. Eu trouxe várias livros. Você quer ver?
Janfrei pega uma grande mala, que esteve o tempo toda escondida, repleta de livros.
AUXILIAR DE MARIA:   Meu Deus! Para quê tanto livro?
JANFREI:    É que eu vou vender depois do luta. Mas por favor, pegue uma!
AUXILIAR DE MARIA:   Não, obrigado...
JANFREI:    Mas eu faço questão. Olha só esse título: “O homem gordo que amamentava”.
B.O. para passagem de cena, dando a entender que se passou muito tempo, desde que Maria decidiu ir ao banheiro com Marta.

CENA 2
Janfrei e A.M. estão sentados no chão do ringue. A.M. está farto de ver os livros de Janfrei. Enfim, Marta e Maria aparecem em cena.
MARTA:    (às gargalhadas com Maria) Mas não é menina. E olha que eles acham que sabem tudo.
(Janfrei, estarrecido, olha para Marta.)
JANFREI:    Marta?!
MARTA:    (ajeitando o cabelo e se olhando no espelho) O que foi Janfrei?
JANFREI:    Você não está percebenda o que está acontecenda?
MARTA:    Não Janfrei. O que está acontecendo?
JANFREI:    Marta, você não lembra da página dez da minha última livro que diz que o mulher, quando é bem feminina, fica com outro mulher conversando mais de cinco minutos. E você está lá no banheiro papeando com o Maria há dez minutos. Sabe o que significa issa? Que você está se desmasculinizando, aliás, se feminilizando! Marta, você vai perder o luta, Marta!
Janfrei começa a sacudir Marta.
JANFREI:    Marta, você tem que recuperar as sentidas! Marta, você tem que recuperar as sentidas! Marta, você tem que recuperar as sentidas!
(Auxiliar de Maria  pega Janfrei pelo colarinho e faz com que ele pare de sacudir Marta.)
AUXILIAR DE MARIA:   Quem vai recuperar os sentidos da vida é você, seu lavador de cérebro.
JANFREI:    Opa, calma, minha rapaz. Calma!
(Auxiliar de Maria vai saindo com Jenfrei de cena, ainda segurando no colarinho dele.)
JANFREI:    Lembre-se de que o homem que se afemina aprende virtudes, como ser delicado, ser sensível, assim como está escrito no meu livro...
AUXILIAR DE MARIA:   Não quero saber de livro nenhum, ô gringo. E essa luta, é melhor deixar para um juiz de verdade julgar, e não você.
(Janfrei e A.M. saem de cena. Marta respira forte, como se tivesse recuperando os sentidos depois de um desmaio. Maria a observa, assustada. Enquanto isso, a luz vai se apagando morosamente.)

 


CENA FINAL

(Em blackout., vozes em off proferindo o diálogo entre Jesus Cristo e Marta, de acordo com a passagem Bíblica descrita no Evangelho segundo Lucas, no capítulo dez, do versículo trinta e oito ao versículo quarenta e dois.)
MARTA:   (voz em off) Senhor Jesus! Senhor Jesus! Não importa que minha irmã me deixe aqui sozinha fazendo vários serviços? Ordena à minha irmã Maria que venha me ajudar!
JESUS CRISTO:   (voz em off) Marta, Marta! Andas inquietas e te preocupas com várias coisas. Entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa: Maria optou por ficar ao meu lado. Escolheu a melhor parte. E esta não lhe será tirada.
A luz se acende. O apresentador está segurando pelos braços Marta, à sua esquerda, e Maria, à sua direita. Maria está feliz,e Marta, ofegante e apreensiva.
APRESENTADOR:    E o resultado dessa luta foi... Empate A mulher tanto é bem vinda ao mercado de trabalho como respeitada se ainda quiser continuar majestosamente senhora do lar. Além disso, a mulher pode exercer muito bem, se tiver condições emocionais, as duas funções, desde que não se prejudique ou queira tomar o lugar do homem por mero orgulho. Parabéns,Marta. Parabéns, Maria! Parabéns, mulher brasileira!
(Antes que o apresentador erga as mãos das duas, Marta se desvencilha e vocifera.)
MARTA:    Não aceito! Não aceito! A vitória é minha. A vitória é da mulher que enfrentou preconceitos, quebrou barreiras e teve a coragem de caminhar sozinha, sem ajuda dos homens que, no decorrer da história sempre nos humilharam. Não prefiro ficar sem o título a dividir com essa acomodada aí! Auto-suficientes nós somos mais fortes! Sozinhas nós somos mais fortes!
(O apresentador olha para Maria e ergue o braço dela em pose de vencedora do combate.)
APRESENTADOR:    Vitória de quem sabe que juntos nós somos mais fortes!

Fim
Glória a Deus

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