LUTERO E PAULO

Lutero e as teses, Paulo no caminho de Damasco

Martinho Lutero começa uma palestra e é interrompido pelo apóstolo Paulo.

Numa conversa ora totalmente amigável, ora provocativa, ambos contam as suas experiências.

Falam da Graça de Deus, do imerecimento do homem, da incapacidade de salvarmos a nós mesmos…

Personagens
Lutero
Paulo

LUTERO:       Bom dia amigos e companheiros cristãos.
Eu sou Martinho Lutero, ex-padre da Santa Igreja Católica e Monge da Ordem Agostiniana.
Fui convidado pelo pastor para apresentar esta palestra sobre o meu papel naquilo que vocês chamam de Reforma.
Certamente não pretendo entediá-los com a história de toda a minha vida.
Desde o início de meu ministério, tive profundas dificuldades com algumas das práticas da Igreja e com meu próprio relacionamento com Deus.
Eu via Deus como uma figura temível e crítica, cuja ira ninguém poderia escapar.
O peso dos meus pecados me pressionou com muita força a cada dia da minha vida.
Sinto muito admitir isso, mas eu realmente passei a ter sentimentos de ódio contra Deus.
Então, durante meus estudos das Escrituras, tive uma surpreendente e maravilhosa revelação.
Eu estava lendo a carta de São Paulo à Igreja em Roma, estas palavras simplesmente saltaram da página para mim: "O justo viverá pela fé".
Eu tinha lido essas palavras centenas de vezes antes, "O justo viverá pela fé".
Mas, de repente, elas adquiriram um novo significado para mim.
PAULO:    Elas realmente?
LUTERO:    Quem é você? E o que lhe dá o direito de interromper minha palestra? Você sabe quem eu sou?
PAULO:    Ah, sei muito bem quem é você, Martin. Olha só, essas palavras que você acabou de citar são minhas.
LUTERO:    Você é o apóstolo Paulo?
PAULO:    Sim. Você vê, o pastor também me convidou para estar presente esta manhã.
LUTERO:    Você sabe. Você conhece meu trabalho?
PAULO:    De fato, eu conheço. Na verdade, sei bem de toda a sua carreira.
Fico lisonjeado por você me citar tantas vezes em seus escritos e sermões.
Mas às vezes me pergunto se algumas ações suas, na época da Reforma, foram talvez precipitada e insensatas.  
LUTERO:    Eu reconheço e peço o seu perdão.
PAULO:    É… Você realmente foi muito perturbador para a igreja naquela época.
Lembra? Como um pastor, você foi chamado para apascentar o seu povo.
No entanto, seu comportamento mais se assemelha ao de um touro em uma loja de porcelana.
Os líderes da igreja da sua época consideraram você como um criador de problemas, um rebelde, até mesmo um revolucionário!
LUTERO:    Agora espere só um minuto!
Com todo o respeito a você como um apóstolo, deixe-me lembrá-lo de que você também não pegou leve com os outros líderes na sua era.
Eu realmente interrompi a vida serena da igreja, mas achei que isso foi necessário pelo rumo que ela estava.
Eu procurei restaurar uma verdadeira compreensão do evangelho.
Você, por outro lado, consciente e deliberadamente se opôs ao trabalho de nosso Senhor.
De fato, me disseram que você realmente ajudou com o assassinato de Estevam, o primeiro mártir cristão.
Não foi você quem segurou os casacos daqueles que o apedrejaram até a morte?
PAULO:    Bem, sim. Devo admitir que há muita coisa na minha vida da qual estou profundamente envergonhado.
Mas esse incidente ocorreu antes da experiência, na qual, o nosso Salvador se revelou pra mim.
Você deve estar ciente de que minha vida antes da estrada de Damasco era muito diferente do que se tornou depois.
Você também teve um evento de mudança de vida semelhante em uma estrada em uma tempestade, não foi?
LUTERO:    Isso é verdade.
Eu mudei minha vida inteira depois que fui salvo daquela tempestade.
Mas mesmo depois de você se tornar um cristão, havia muitas pessoas que achavam que você não passava de um encrenqueiro.
Seus próprios escritos nos falam das surras e até da prisão que você sofreu!
PAULO:    Nem me lembre destas coisas.
Fui expulso de mais de uma cidade por autoridades religiosas ou autoridades do governo.
Passei meses na prisão só porque desafiei as crenças religiosas entrincheiradas das pessoas.
LUTERO:    Então você certamente deveria entender o tipo de pressão que foi colocada em mim.
As pessoas gostam de se estabelecer em zonas de conforto.
E não parece importar em que século ou milênio você vive - se você se atreve a questionar alguma coisa destas “zonas de conforto”, você está em apuros.
 Eu também tive muitos problemas;
Fui excomungado da minha igreja, declarado fugitivo e herege pelo imperador.
Ainda assim, quando você sabe que está lutando numa causa justa e tentando defender a verdade, Deus lhe dá coragem e fé para seguir em frente, apesar da oposição.
Paulo, eu realmente tenho que admitir que foram suas palavras que mudaram minha vida. "O justo viverá pela fé!"
É uma verdade profunda que os cristãos precisam entender.
PAULO:    Não, não fui eu que mudou sua vida.
Foi Cristo que mudou sua vida.
Fico lisonjeado com o que você disse.
É por isso que que eu fui repetitivo nas minhas cartas para as igrejas novas.
Eu venho de uma formação profundamente legalista.
Não só estudei a lei durante anos, como dediquei minha vida a manter cada jota e til de seus regulamentos.
Eu era fariseu e tinha orgulho disso.
Quando ouvi pela primeira vez a respeito de Jesus e, ao meu ver, ele frequentemente fazia pouco de nossas leis judaicas, fiquei enfurecido.
Me levantei em oposição a ele e seus seguidores, pensei que estava sendo fiel a Deus.
Então veio aquele acontecimento quase inacreditável na estrada para Damasco.
Fiquei totalmente cego…
Mas através dessa cegueira, a verdadeira luz sobre Jesus finalmente me alcançou.
Eu acho que nada menos do que isso poderia ter me mudado. E nada menos que isso mudou você.
LUTERO:    Paulo, acho que entendo. Eu também, primeiramente me tornei advogado.
Talvez seja por isso que demorei tanto para entender o Evangelho.
Eu também estava tentando ganhar o favor de Deus, obedecendo a todas as leis da igreja, mantendo regras e regulamentos religiosos.
Como monge, levava uma vida irrepreensível.
Eu até mesmo comecei a me bater fisicamente na esperança de me fazer agradável a Deus.
Meu confessor uma vez me perguntou por que fazia tudo isso, disse que minhas confissões eram vazias e enfadonhas.
No entanto, com tudo isso, não tive paz.
Eu ainda sabia que era um pecador que merecia o julgamento de Deus.
PAULO:    Você foi um idiota, Martin, como eu fui.
A salvação é um dom gracioso de Deus para nós.
Esse foi todo o propósito da vinda de Cristo a este mundo; para viver e morrer e ressuscitar.
Quando a verdade da GRAÇA DE DEUS em Cristo, finalmente rompe nossa resistência teimosa, a diferença surge.
LUTERO:    Você não escreveu algo assim em uma de suas cartas? Algo sobre uma pessoa ser uma nova criação quando eles receberam a graça de Deus?
PAULO: Eu disse aos Coríntios: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.
E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo” (2 Coríntios 5:17,18)
LUTERO:    O que você quis dizer com isso?
PAULO:    Eu acredito que é como se uma pessoa tivesse sido criada pelas mãos de Deus através de Cristo. E este é o dom gratuito da graça de Deus para nós.
LUTERO:    Meu amigo, você sabe;
Parece que muitos cristãos ainda não entendem esta verdade?
Há dificuldade em aceitar esse Dom Gratuito da Graça, dado por Deus.
Nós queremos fazer isso por nós mesmos.
Queremos ganhar o favor de Deus através de nossas próprias boas ações e obras piedosas.
Na verdade, sentimos que temos que conquistar o favor de Deus.
PAULO:    Meu velho amigo Tito já teve esse problema.
Talvez você se lembre da minha carta para ele quando eu disse: "Deus nos salvou, não por causa de ações feitas por nós em retidão, mas em virtude de Sua própria misericórdia, pela lavagem da regeneração".
LUTERO:    A lavagem da regeneração!
Isso deve lembrar a todos os cristãos que um exemplo perfeito da graça de Deus temos no Santo Batismo, mesmo que no batismo de um bebê ou uma criancinha.
PAULO:    O que você quer dizer?
LUTERO:    Eu sempre pensei: Quando uma família na minha paróquia traz uma criança para ser batizada, esta pequena não traz nada a Deus para tentar ganhar o favor de Deus ou ganhar o amor de Deus.
Apenas uma criança gritando, egocêntrica, que não tem noção da  existência de um Deus.
No entanto, naquele momento, e apesar do que a criança é, Deus está recebendo-o no Seu Reino, plantando dentro deles a semente da fé, concedendo-lhes perdão e a promessa de salvação, marcando-os com a cruz de Cristo...
E a criança não fez absolutamente nada para que isso acontecesse.
Assim que é o incrível Dom Gratuito da Graça de Deus!
PAULO: É de fato uma bela e válida imagem da Graça de Deus em ação.
Assim que o pensamento de que trabalhamos para nossa própria salvação morre lentamente.
Nós simplesmente não podemos pensar que este presente de Deus é dado sem compromisso.
LUTERO:    Isto mostra como esta graça nos liberta totalmente de uma fé que é construída sobre o medo.
Embora eu continue sendo um pecador durante toda a minha vida, sei que Deus não conta isso contra mim.
Através da oração de confissão e arrependimento temos a certeza de que Deus nunca nos deixará, nem abandonará.
PAULO:    Meu amigo, permita-me mudar de assunto. Tenho uma última pergunta para você.
Porque o termo "protestante"?
É muito falado sobre a Reforma Protestante, e o crédito pelo inicio é seu.
E o que dizer dessa palavra "luterana"?
Eu não conheço nenhum nome, exceto o de Jesus Cristo.
Eu não me chamo nada além de "cristão".
LUTERO:    Eu também, serei sempre um cristão.
Na verdade, nunca tentei começar uma nova igreja, nem jamais desejei que qualquer parte da igreja tivesse meu nome.
Mas quando eu e outros protestamos contra alguns dos abusos na igreja em nossos dias, nos tornamos rotulados de "protestantes".
Era usado como um nome depreciativo.
Mas foi um termo que “pegou”, e permanece até hoje.
Eu nunca gostei muito dessa palavra.
PAULO:    Nem eu!
LUTERO:    Quanto a se chamar a si mesmo de "luterano", eu disse às pessoas do meu tempo que eles não deveriam me adorar, mas adorar a Deus.
O nome que eles sempre devem ter é o de Cristo, não de Lutero.
Quando se trata de fé, todos devemos evidenciar o cristianismo, não o luteranismo.
PAULO:    Eu me deparei com o mesmo problema no meu tempo.
As pessoas diriam que eram de Paulo ou eram de Pedro ou de Apolo.
E eu disse a mesma coisa que você.
Vocês não pertencem a mim, vocês pertencem a Cristo.
É o nome de Cristo que você devem carregar, não o de qualquer outra pessoa.
LUTERO:    Mas a palavra protestante também tem outro significado. Se você dividir em partes, o "Pro" significa "para" e o "testador" significa "aquele que testifica".
Assim, um cristão protestante é aquele que testifica por Jesus Cristo.
Nisso, sempre estarei firme.
PAULO:    Martin, nós pensamos da mesma forma.
E nossas vidas e experiências tiveram muitas semelhanças.
LUTERO:    Eu devo muito a você, como são todos cristãos em todas as épocas.
Foram suas palavras que abriram meus olhos e ajudaram a restaurar o Evangelho em minha vida.
PAULO:    Mas foi sua coragem e busca sem medo da verdade que fez com que essas palavras ganhassem vida e renascessem em sua vida.
LUTERO:    Alguns dizem que a igreja tem necessidade constante de uma nova reforma.
Que os cristãos precisam ser constantemente despertados e redirecionados para Cristo.
Você acredita nisso?
PAULO:    Enquanto nossa natureza pecaminosa se afirmar, temo que isso seja verdade.
Mas eu não perco as esperanças, Martin.
O Espírito Santo de Deus ainda está no mundo e ativo na igreja.
Todas as coisas estão, de verdade, nas mãos de Deus.
E estou confiante de que Deus pode e continuará a criar servos fiéis para fazer o trabalho do Reino em todas as gerações.
E sou grato a Deus por isso!
LUTERO:    Amém.


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Fonte WEB - LUTHER AND PAUL

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