A ILHA DA PERDIÇÃO

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Uma Ilha

Por uma atitude de um casal no passado, uma parte do continente se desprende e se afasta do litoral, se tornando uma ilha, e passando a se chamar a ilha do dragão.
Anos e anos depois, vieram a tona rumores de que a ilha irá afundar, desaparecer, e as reações dos personagens são as mais variadas.
Uns não creem na possibilidade, outros buscam escapar da ilha pelos seus próprios meios, e outros ainda querem tomar proveito da situação.
E qual será o final dessa surpreendente história?

História: Através de uma leitura do livro "O mestre inesquecível" uma análise da inteligência de Cristo - do autor Augusto Cury, numa pequena frase em que Cury explicava metaforicamente a separação do HOMEM, de DEUS. Ilustrava como um oceano entre um e outro. O Espírito Santo trouxe a minha mente praticamente toda a história da "Ilha da perdição".
Mas precisava saber sobre alguns detalhes, por exemplo: a respeito do comportamento psicológico de um suicida, também a respeito de algumas práticas religiosas, etc. E também me inspirei um pouco no estilo do teatro do absurdo.
E também surgiu a ideia de colocar um artista, ou... melhor, um menestrel em meio a um ato e outro. Ele está como um contador de história, ou seja, participando paralelamente a história desenvolvida na ilha.
Ao final da peça várias surpresas acontecem.
Objetivo: Mostrar a separação do HOMEM, de DEUS e as tentativas frustradas do Homem voltar a Deus.
Mostrar também a corrupção da raça humana e a tentativa de alcançar o poder e ao lucro a qualquer custo.
Resumo Realese da peça "A ilha da perdição": Por uma atitude de um casal no passado, uma parte do continente se desprende e se afasta do litoral, se tornando uma ilha, e passando a se chamar a ilha do dragão.
Anos e anos depois, vieram a tona rumores de que a ilha irá afundar, desaparecer, e as reações dos personagens são as mais variadas.
Uns não creem na possibilidade, outros buscam escapar da ilha pelos seus próprios meios, e outros ainda querem tomar proveito da situação.
E qual será o final dessa surpreendente história?
 
Dados da peça
- 9 Atos
- 10 personagens (podendo ser 8 atores)  
- Um homem naufrago (representando Adão)
- Uma mulher naufraga (representando Eva)
- Artista (Menestrel)
- Dundum (Representa alguém que quer se libertar)
- Arauê (Representa alguém que quer só aproveitar a vida)
- Paizim do Dragão (Pai de santo)
- Zulum (Católico Apostólico Romano)
- Sarumbirumbá (representa a mídia e também o espírita)
- Jamal Khan (Representa o poder governamental)
- Maimorã (Representa o missionário)

 
ATO 1
Cena 1 - (O HOMEM: e a mulher)
Local: uma ilha. Um homem com uma boia em cada braço, e uma mulher com uma boia de cavalinho, chegam exaustos a nado a ilha.
O HOMEM: Chegamos... chegamos... (Chega muito cansado, engatinhando e por fim, se larga deitando na areia da praia) ... ai... que... cansaço...
A MULHER: Estou morta... ufa... (também se atira ao chão) nem sinto... mais... meu... corpo...
O HOMEM: Que... corpo?...
A MULHER: Nadamos... muito... muito...
O HOMEM: Muito... muito...
A MULHER: Muito... muito...
O HOMEM: Muito... muito... mesmo...
A MULHER: Ô!...
O HOMEM: Ainda bem... que ganhamos... essas boias..
A MULHER: Ainda bem...
O HOMEM: Ainda bem mesmo... pois... não sabemos... nadar...
A MULHER: Só cachorrinho... mas mesmo com boia.. cansa ein?!...
O HOMEM: Cansa mesmo...
A MULHER: Cansa sim... mas chegamos...
O HOMEM: Chegamos sim...
A MULHER: Ô!...
O HOMEM: (Senta-se) Mas você, hein?!...
A MULHER: Que é que tem eu?...
O HOMEM: Foi fazer... logo aquilo, pô... (Aponta para o mar de onde vieram)
A MULHER: (Memorizou) Ah, mas você também fez...
O HOMEM: Sim. Mas... você quem começou.
A MULHER: E daí? Mas você... bem que gostou da ideia
O HOMEM: Foi. Mas a ideia foi sua.
A MULHER: E daí? Você me ajudou a cavar, não foi?
O HOMEM: Foi. Mas se você não tivesse a ideia de cavar um poço, isso não teria acontecido.
A MULHER: Eu só queria descobrir água...
O HOMEM: E nem precisávamos...
A MULHER: E só tinha lama, lama, lama...
O HOMEM: E quase que a gente afunda no lamaçal.
A MULHER: É.
O HOMEM: É mesmo.
A MULHER: Estava tão fundo, que não dava nem pra ver mais a luz do sol.
O HOMEM: É verdade. Eu acho que fomos tão fundo que...
A MULHER: Que?...
O HOMEM: ... que rachou o chão todo!
A MULHER: Há, sim. Rachou tudo!
O HOMEM: E separou esse pedaço de terra do continente, em que estávamos.
A MULHER: Que barulhão fez!
O HOMEM: Fez mesmo! Foi como um terremoto! Separou esse pedaço de terra do continente. A gente estava no meio, e... Pruft!! Da lama, fomos direto para o mar!
A MULHER: Eu jamais esperava isso... que essa ilha... agora ilha, né?! Fosse se separar do continente, por causa de... um buraquinho.
O HOMEM: Ainda bem que as boias, que ganhamos, nos salvaram!
A MULHER: Ainda bem... se não fossem elas, jamais chegaríamos até aqui!
O HOMEM: Quanto mais a gente nadava, mais essa ilha se afastava.
A MULHER: Ô! E olhando daqui, só dá pra ver... lááááá longe, a terra firme.
O HOMEM: É mesmo... dá pra ver até o buraco que foi feito. Está vendo?
A MULHER: Sim! Ali em direção do morro mais alto!
O HOMEM: Não!! Que morro mais alto o que?! Está doida? É ali perto do Rio.
A MULHER: Ah, é. É mesmo! Nossa! Nós fizemos aquilo tudo?
O HOMEM: Fizemos! Impressionante, não é?
A MULHER: É.
O HOMEM: Que marca nós deixamos...
A MULHER: Pior que é.
O HOMEM: Bom, teremos que nos virar por aqui mesmo.
A MULHER: Você já conhecia este pedaço de terra?
O HOMEM: Não! Mas vamos ter que explorar agora.
A MULHER: Me parece que aqui tem de tudo.
O HOMEM: Tomara! Tomara!
A MULHER: O que é aquilo ali em cima da montanha?
O HOMEM: Aquilo?!
A MULHER: Sim...
O HOMEM: e A MULHER: (se entreolham) É o Dragão!
 
As cortinas se fecham.
 
Cena 2 - (Artista)
 
(e se abrem logo a seguir. Entra o Artista, vestido de menestrel, tocando e cantarolando.)
ARTISTA:
Oh! Que grande vento é este?
Me assopra e me joga pro lado
Hora me afaga, hora me bate.
Num dia herói, no outro carrasco.
 
As vezes... até penso: - irá parar!
Mas ele sempre vem!
Trazendo consigo, novidades pelo ar
Para saciar a fome do homem
 
Hoje o homem se sacia
Amanhã já estará de barriga vazia.
Hoje o homem sonha, como se estivesse nos céus
Amanhã, pesadelo. Estará no banco dos réus!
 
A peça mal começou
E vocês só viram esses dois
Daí, acredite, uma nação se formou
Muitos anos e anos depois
 
Ih! Olha quem vem aí.
Mais uma vez o vento!
Que vento é este que venta aqui?
Será o mesmo que ventou lá? Ai! Ai!
 
Oh! Mais um grande vento
Será que me ignora, ou que encontrou?
Será um beijo, ou um soco?
Eu já nem sei mais para onde eu vou
(Artista sai)
 
ATO 2
Cena 1 - (Arauê e Dundum)
 
(No mesmo local! Entra Dundum e Arauê.)
 
ARAUÊ: Olha só como tudo aqui é lindo. Olha a natureza, sinta o clima, curta os raios solares, ah... deixe-o entra pelos seus poros, e penetrar até a sua corrente sanguínea, e escorrer ao teu coração, e ir bombeando até a sua mente... Não tem coisa melhor.
DUMDUM: Não sei não... não sei não...
ARAUÊ: Como não sabe?! Aqui é muito bom. Temos de tudo aqui!
DUMDUM: Principalmente água. Tô vendo. Água por todos os lados.
ARAUÊ: (sorri) Ah. E o que você quer? Aqui é uma ilha, lembra? O que você gostaria que tivesse em volta? Um chão todo de ouro puro como vidro transparente e com portais adornados com pedras preciosas? Cai na real.
DUMDUM: Arauê, não é isso. Você fala de curtir a vida, a liberdade, mas, a bem da verdade, estamos é presos aqui.
ARAUÊ: Que presos aqui, o quê ?! Você está viajando! Sabe o que acontece? Você se preocupa muito e acaba esquecendo de viver. E quer saber? Você, Dundum, é o próprio cárcere de você mesmo. Quando é que
você vai finalmente abrir as portas desta prisão? É tão fácil, é só viver e aproveitar a vida!
DUMDUM: É só viver? Como você pode ser tão ingênuo, Arauê?! E ignorar que Estamos a mercê do Dragão? Vivemos segundo a vontade do Dragão. Ele é quem reina aqui!
ARAUÊ: E daí? Disso eu já sei a muito tempo. Pelo menos pra mim nunca fez mal algum.
DUMDUM: Isso é o que você pensa. Ele já te enredou sutilmente, sem você perceber. Por isso é que você acha que é tudo normal. Arauê, só basta você ir contra o seu querer...
ARAUÊ: Assim como você fez, né?!
DUMDUM: Exatamente! Aí você tenta fugir e não tem para aonde ir. Porque senão ele vai acabar contigo.
ARAUÊ: E você quer ir para onde, Dundum?
DUMDUM: Fugir! Fugir daqui!
ARAUÊ: Como?
DUMDUM: Ainda não sei. Mas tenho que arrumar uma maneira.
ARAUÊ: Dundum, relaxa! Ele não vai fazer nada contigo. Se fosse para fazer alguma coisa ele já teria feito. E outra: você não tem para onde ir mesmo.
DUMDUM: A terra firme!
ARAUÊ: Aonde? A terra firme?! (Sorri) Você ficou doidão?!
DUMDUM: Ora, você nunca ouviu dizer que esta ilha será destruída?
ARAUÊ: Falam disso a muito, muito, muito tempo antes de nascermos. Dundum, isso é tudo historinha, lenda. E você vai acreditar nisso? E tem mais. Se acabar? E daí? O que você vai poder fazer? Acabou, já era! Não aproveitou nada da vida. Ficou de bobera o tempo todo, e ainda irá morrer preocupado.
DUMDUM: Eu tenho que dar um jeito na minha vida! (olha para todos os lados) Eu tenho que dar um jeito...
ARAUÊ: Ei, olha quem está vindo aí, Paizim do Dragão. Vamos falar com ele.
DUMDUM: Não!!
ARAUÊ: Porque não?
DUMDUM: Porque não! Ele vai fazer o ziriguidum! Vamos ficar quietos até a sua ordem.

Cena 2 - (Arauê, Dundum e Paizim do Dragão)
 
Entra o Feiticeiro, Paizim do Dragão para preparar um ritual. Entra com um chocalho, palhas, gravetos, um frango e uma bolsa no ombro. Canta, dança e finalmente se senta. Fala um portunhol bem forçado e ameaçador.
PAIZIM DO DRAGÃO: (olhando para os dois) Ustes! Los dós! Vengam acá!
(Dundum e Arauê se entreolham.)
ARAUÊ: Vamos lá, meu camarada.
DUMDUM: Por que?
ARAUÊ: Ué? Porque ele nos chamou. (Observa Dundum meio amedrontado) Vamos lá! Ele não é o Dragão, não. Ele é só o Paizim do Dragão. (E o puxa pelo braço)
PAIZIM DO DRAGÃO: (Para Dundum) Estai com medo de min, hombre? (Sorri) Yo non muerdo, non.
ARAUÊ: Paizim do Dragão é gente boa... ou melhor, Paizim do Dragão é giente buena. (sorri)
PAIZIM DO DRAGÃO: (Se balançando todo. Fala com Arauê) Usted, hombre, queres de la vida o miel. Terá! Terá el miel que procuras.
ARAUÊ: Mel? Mel? Que mel que eu procuro, Paizim do Dragão?
PAIZIM DO DRAGÃO: Venga acá. Ajoelha-te. (Pega o frango e põe na cabeça do Arauê, e dança) Miel, és el pracer. Compreendes o que hablo? Terás más pracer en la vida.
ARAUÊ: Ah, sim. Mel, prazer. Sim. Que bom. Isso é show!
PAIZIM DO DRAGÃO: Espere um poquito, mi hijo. Puedes levantar-te. Ahora quiero hablar con este otro acá. (Dá três rodadas e três pulos doidos).
DUMDUM: Eu não quero ouvir nada. Vou embora daqui!
PAIZIM DO DRAGÃO: (Grita) Espere aí, hombre!!! Se non la cassa cairá para tu lado!!! Espere aí!!
DUMDUM: (Fica parado) Ai, e agora? O que ele vai querer de mim?
PAIZIM DO DRAGÃO: Tu entristeceste el coraçón del Dragón. Esqueceste? Tu vais querer deixá-lo furioso?
ARAUÊ: O que você fez além de não dar o pulinho sagrado?
PAIZIM DO DRAGÃO: Ele sabe. Ele sabe mutcho bien! (imita um robô, e depois pula estranhamente para frente de Dundum e cacareja) Tu queres fugir? Tu irás solamente para onde el Dragon quicer!! (gargalha, volta e pega o frango da cabeça do Arauê e se senta).
ARAUÊ: E aonde é, Paizim do Dragão?
PAIZIM DO DRAGÃO: Solamente el Dragon sabe! (para Dundum) Tu fizeste o que és mal. Se tu fizeres mas alguna coisita más, ele irá a tu encuentro e te lançará una cociera!
ARAUÊ: Caramba!! Coceira de Dragão é sinistro!! Que mais você fez?? Além, é claro, de ficar falando mal o tempo todo do Dragão!
DUMDUM: (Repreendendo) Arauê?!
PAIZIM DO DRAGÃO: (tira da sacola uma bola de futebol com uma corrente e fala para Arauê) Hombre, mira acá. El Dragon te envio esto. Dê-me tu pé. (Prende no pé do Arauê) Pronto, éres realmente um hijo del Dragon!
ARAUÊ: Uma bola?! Puxa... aí, era tudo o que eu queria! Valeu Paizim do Dragão, muito obrigado. Ah, que maneiro! Uma bola! (Começa a brincar com a bola)
PAIZIM DO DRAGÃO: Ahora, tengo que ir! (arruma suas coisas e sai) Asta lá vista, baby!
Paizim do Dragão sai.
 
Cena 3 - (Arauê, Dundum e Zulum)
 
entra o Zulum.
 
DUMDUM: Ai, o que será de mim agora? Bem que eu não queria ficar. Eu não gosto do Paizim do Dragão. Não gosto! Não gosto! E agora, o que farei? Para aonde vou? Eu sou um miserável mesmo! Um Zé! O que eu faço agora, se vivo a plena morte? Esse tormento eterno! Que essa ilha se destrua logo! Que tudo vá para o ...
ZULUM: Opa! Opa! O que isso Meu caro? Por que tanto desgosto assim?
DUMDUM: Estou preso nesta ilha. Estou preso ao Dragão. Se eu correr o bicho pega, se eu ficar o bicho come. E o que eu faço da minha vida? Eu queria ser um avestruz e enfiar minha cabeça no chão, a ver minha ruína! Eu estou em um labirinto sem saída.
ZULUM: Calma, calma rapaz. Não fique desesperado. Muita calma nessa hora! Estamos todos aqui na ilha, mas estou já construindo um barco.
ARAUÊ: Um barco?
DUMDUM: Um barco?
ZULUM: Um barco! Aí, quando este barco ficar pronto, sairemos daqui.
DUMDUM: E quando ficará pronto?
ZULUM: (pensa rápido) Não demora muito. Nem pouco.
DUMDUM: Aaahhh... eu não tenho muito tempo. Não posso esperar tanto tempo. (põe a mão na cabeça) Ai, minha cabeça!
ZULUM: O que houve?
DUMDUM: Uma coisa estranha, é como se algo entrasse na minha cabeça.
ARAUÊ: É juízo! Está entrando juízo na sua cabeça, isso sim!
DUMDUM: (chorando) Eu não tenho mais saída! Não tenho saída! Não tenho mais! Não tenho! Não!
ARAUÊ: Você é muito problemático, Dundum. Muito estressado! Ao invés de curtir o momento... e aproveitar.
ZULUM: E você?
ARAUÊ: Eu o que?
ZULUM: Jogando bola.
ARAUÊ: E o que é que tem?
ZULUM: Ora meu rapaz, não faça isso...
ARAUÊ: E por que não?
ZULUM: Isso vai lhe fazer mal.
ARAUÊ: Que fazer mal o que?! Se liga!! E quer saber? Isso é muito bom!
ZULUM: Você vai arruinar a sua vida com isso.
ARAUÊ: (Sorri) Hã... jogando bola? Vou nada! Não vai me dizer que você nunca jogou uma bolinha?
ZULUM: Claro que não!
ARAUÊ: Então não sabe o que está perdendo. Venha, venha dar um chutinho só.
ZULUM: Você está doido meu rapaz? Se eu sei que isso faz mal, por que eu iria fazer?
ARAUÊ: Se fizesse mal, eu estaria assim, numa boa? Alegre, me divertindo?
ZULUM: Isso agora. Depois piora. Você nunca ouviu o mal que isso já fez as outras pessoas?
ARAUÊ: (Sorri) São cabeças de bagres, perebas, não tem domínio da pelota. Quanto a mim, sou muito diferente, não acha? Olha só!!
ZULUM: Todos que se deram mal, falaram a mesma coisa. Pense no manhã.
ARAUÊ: O bom é curtir o momento, morou? Não sei nem se estarei vivo amanhã.
DUMDUM: Vivo amanhã? Vivo amanhã? Vivo amanhã? (Desesperado)
 
Cena 4 - (Arauê, Dundum, Zulum e Sarumbirumbá)
 
Entra o Sarumbirumbá.
 
ZULUM: Ai, ai, ai, calma meu rapaz. É só esperar o meu barco ficar pronto, e aí iremos para a terra firme. Tenha um pouquinho de paciência também. A vida não foi feita em um dia somente.
SARUMBIRUMBÁ: Você está construindo um barco, para ir a terra - firme, Zulum?!
ZULUM: Estou!
SARUMBIRUMBÁ: (Sorri desdenhando) Pois eu vou a nado!
TODOS: A... nado?
SARUMBIRUMBÁ: Sim, a nado! Estou me preparando para isso! Me exercitando todos os dias, religiosamente. Quando finalmente chegar o dia, eu iniciarei o meu destino certo.
ARAUÊ: Por que é que vocês tanto querem sair da ilha?
ZULUM: A questão não é: querer sair da ilha. Mas sim: conseguir alcançar a terra firme.
DUMDUM: Eu quero sair da ilha!! Eu quero! Eu quero!
 
Cena 5 - (Arauê, Dundum, Zulum, Sarumbirumbá e Jamal Khan)
 
Entra o governador da ilha, Jamal Khan.
 
JAMAL KHAN: Ula ula, para vossas senhorias!
TODOS: (menos Sarumbirumbá) Ula ula, vossa excelência.
SARUMBIRUMBÁ: Ulalá, Senhor Governador.
ZULUM: O que faz aqui, Senhor governador Jamal Khan? Vistoriando a Ilha?
ARAUÊ: Dando uma sacada para idealizar novos projetos?
JAMAL KHAN: Nada disso! Hoje resolvi me dialongar pela ilha e aproveitar esse maestral dia de sol! É sempre muito exonerador poder caminhar por essa nossa terra adorada!
ARAUÊ: Isso é uma grande verdade! Isso é o que devemos fazer sempre.
(Sarumbirumbá pega um nariz de palhaço e põe no próprio nariz. Todos o observam.)
SARUMBIRUMBÁ: Bom, infelizmente não posso ficar e aproveitar. Tenho alguns assuntos à resolver.
JAMAL KHAN: Que nariz interessante! Mas... me diga, você vai para lá?
SARUMBIRUMBÁ: Sim, vou.
JAMAL KHAN: Então eu vou com você, assim aproveito para expectorar palavras contigo pelo caminho.
SARUMBIRUMBÁ: Tudo bem. Ulalá para todos!
TODOS: Ula ula!
(Sarumbirumbá e Jamal Khan saem)
ARAUÊ: Vocês viram? Se ligaram?
ZULUM: O nariz?! Aonde será que ele conseguiu?
ARAUÊ: Sei lá. Mas vamos procurar.
ZULUM: Vamos!
ARAUÊ: Peraí! Me diga uma coisa, Zulum.
ZULUM: O que é?
ARAUÊ: Por que o Sarumbirumbá cumprimenta diferente de todos nós? Ao invés de Ula ula, ele diz, Ulalááá.
ZULUM: (reflete por um breve instante) Sei lá! Deve ser para se mostrar diferente de todos nós. Mas vamos atrás do nosso nariz?
ARAUÊ: Aí, mandou bem! Vamos lá!
(Zulum e Arauê saem.)
DUMDUM: Que nariz o que? (grita de dor) Ai! Não suportarei esperar tanto tempo esse barco! (Olha para o mar) E ir a nado nem pensar! Não sei nem nadar. Que faço eu? Ainda mais sabendo que: Se fico, a ilha é destruída, se saio, o Dragão me pega! E agora, jacaré? Eu tenho que arrumar uma solução. Eu não estou aguentando mais! (Grita de agonia)
(Dundum sai)
 
Cena 6 - (Sarumbirumbá e Jamal Khan)
 
Volta Jamal Khan e Sarumbirumbá.
 
JAMAL KHAN: Muito bom! Muito bom, meu ilustrado sócio! O nosso plano começa aqui!
SARUMBIRUMBÁ: E já começou a dar resultados. Viu como quase todos estão indo comprar o nariz nos quatro cantos da ilha?
JAMAL KHAN: Você na área do martiking, sendo o homem propaganda, e eu na criação de toda a estratística, iremos atingir o cume dos lucros superlativos e inimaginários. (sorri)
SARUMBIRUMBÁ: Como?
JAMAL KHAN: Bom, vamos perpeturar o nosso planalto. Plano mas alto do que a águia pode vigiar.
SARUMBIRUMBÁ: Como?
Os dois saem.

Cena 7 - (Artista)
 
Entra o artista que nem um palhaço.
 
ARTISTA:
Respeitável público, tenho a honra de apresentar...
Nesta noite espetacular,
Os mais normais, os mais comuns,
Os mais iguais, os mais semelhantes personagens dessa ilha.
Pessoas como você, como eu, o teu vizinho, a tua sogra, o teu genro,
pessoas como todos nós.
 
Arauê, jovem belo e formoso
Pensa que é Pelé, mas tem que tomar muito café.
 
Dundum, Doido bitolado, louco, coitado.
Monitorado e desamparado. Corre sem sair do lugar.
 
Zulum, Amigo de todos.
Como um enlatado, ele se conserva.
 
Sarumbirumbá, Mas bem vestido do que um gambá.
Mais sorridente do que uma hiena.
 
Paizim do Dragão, Pula, saculeja e faz careta
Mas está por cima da carne-seca.
 
E Jamal Khan, Cheio de boas intenções...
Mais um bom político... cheio de emoções.
Senhoras e senhores, criancinhas e crianções,
Fiquem firmes em suas cadeiras,
apertem os cintos... das calças se for preciso.
Que o melhor ainda está para começar.
Será uma noite memorável, ilustrada,
Divertida, e acima de tudo espetacular.
Algo que vocês nunca viram em toda a sua vida... ou não...
Fui!
 
ATO 3
Cena 1 - (Zulum, Arauê)
 
Entra Zulum, Arauê jogando bola e depois Jamal Khan. Todos com o nariz de palhaço.
 
ZULUM: Ula ula, Arauê!! Queria mesmo falar contigo! Olha só o que saiu na folha! (puxa uma folha grande escondida nas costas e lê como se fosse jornal) Políticos da ilha votam hoje a nova legislação do ficamento.
ARAUÊ: Opa! Isso muito me interessa! Acho que está na hora de trocar de ficante, afinal, a minha está enchendo a paciência por causa da bola...
ZULUM: Que é isso, rapaz! Não faz nem um mês que você tá com sua ficante e já quer trocar de novo? Olha o meu exemplo! Já estou com a minha há um ano e ainda não troquei!
ARAUÊ: Ora, Zulum, você é muito tradicional! Quanto tempo mais vai querer ficar com ela? Vai acreditar naquela velha história do até que a morte nos separe? Ah, dá um tempo! Pois eu acho que a lei tá é muito certa.
No mínimo um dia, no máximo um mês. Assim, ninguém fica estressado, não cai na monotonia...É o que eu chamo de qualidade de vida! Uma bolinha no pé e uma ficante nova todo dia!!! Aaaaah... moleque, isso que é bonito! Este lugar é um verdadeiro paraíso!!!
ZULUM: Pois eu não penso assim, não.... é tão bom ficar com uma só ficante, construir um vida juntos, ser fiel....
ARAUÊ: Zulum, tu é mesmo uma figuraça. Me vem com cada ideia!!! Imagine! Ficar com uma ficante só!!! Fala sério, isso não existe!!
 
Cena 2 - (Zulum, Arauê e Jamal Khan)
 
Entra Jamal Khan
 
JAMAL KHAN: Ula ula!! Meu caros eleitoreiros!!! Vejo que todos aderiram à moda do rubronasal.
ARAUÊ e ZULUM: (se entreolham) Rubro o que?
JAMAL KHAN: Oh... (comenta para si mesmo)Ai, ai.. Proletariados ignorânticos.... (Volta-se para os dois e aponta para o nariz) rubronasal!!!!Rubronasal!!!
ARAUÊ: e ZULUM: Ah!!! Claro!!! Rubronasal!!!
ZULUM: Mas excelência... estávamos comentando aqui a respeito da lei do ficamento... qual é a sua posição?
JAMAL KHAN: Bem... Como diria o filosófico Aristocrático, Cada indivíduo é um fim em si mesmo, um cataplasma sistêmico das erupções metalinguísticas gramaticais, que está acima da legislaturas hipotiroidais das placas metamórficas e escalafobéticas. Sendo assim, eu sou da opinião que a problemática só obliterará a sua resolvição se todos formos a favor de uma conjuntura pitoresca e arcadista, baseada numa ascensão cada vez maior da camada eletrostática .
ARAUÊ e ZULUM (entreolham-se)
JAMAL KHAN: Bem, esta é a minha modéstica opinião...
 
Cena 3 - (Zulum, Arauê, JAMAL KHAN: e Dundum)
 
Entra Dundum
 
DUMDUM: Oh! Dor! Não consigo mais viver assim! Quero acabar com isso!!! Se não tenho mais como viver, pelo menos saberei como morrer! Deixarei de respirar este ar imundo!! Taparei o meu nariz até que todo fôlego vá embora e enfim ficarei livre! Adeus mundo cruel!! (Tapa o nariz e vai caindo ao chão lentamente. Após alguns segundos de silêncio e imóvel, levanta-se, ofegante) Porcaria! Não deu certo!!! Nada do que eu faço dá certo!!! Droga!!! (Sai)
ZULUM: Pobre alma perturbada... mas assim que meu barco ficar pronto o ajudarei...
ARAUÊ: Mas é um doido varrido mesmo! Que mais ele vai inventar? Não entendi porque ele não vem jogar uma bolinha e aproveitar a vida! (Começa a chutar a bola e narrar) Arauê passa para Pelé, dribla um, dribla dois, pelo meio das pernas, passa para Rrrrrronaldinho, pedala!!!!...(continua a narração e vai saindo de cena).
JAMAL KHAN: Ora, mas o meu caro eleitoreiro está investindo nos transportes naváuticos?
ZULUM: Sim... pretendo ir para a terra firme...
JAMAL KHAN: Oh!!! A terra firme... é o sonho de muitos, inclusive o meu... mas tão poucos chegam lá... Diga-me caro marinhador, seu barco tem quais avanços tecnologísticos para atravessar esse mar tão... tão perigo?
ZULUM: Não se trata de tecnologia, mas de um segredo especial. Com ele sei que atravessarei o mar sem perigos. É garantido.
JAMAL KHAN: Hum!!!! Interessante, podemos fazer negócio... oferecer às pessoas este meio tranportológico de última regeneração, e em troca teremos lucros astrofísicos!!!
ZULUM: Desculpe, excelência, mas meu segredo é para ajudar as pessoas e não para ganhar milhões de mirrecas . Desculpe!
JAMAL KHAN: Pense bem. Posso ser seu sócio, seu patrocinante!! É uma oferta irrefrutável!!!
ZULUM: Não, não. Não é pelo dinheiro que se consegue chegar à ilha. Meu barco é bem simples... não precisarei de grandes investimentos. Como já falei, estou confiante no meu segredo.
JAMAL KHAN: Mas que segredo é este?
ZULUM: Na hora certa será revelado.
ARAUÊ: (Volta , narrando) Olha lá, entrou na grande área! Vai chutar!!! (Cai) Foi falta!!! Foi falta!!! Pênalti!!!! Penalidade máxima!!! (Vibra) Atenção!!! (Prepara a bola com carinho) Arauê prepara a bola com carinho. O goleiro está nervoso. Arauê espera o sinal do juíz. Apita o árbitro. Vai chutar!
 
Cena 4 - (Zulum, Arauê, Jamal Khan, Dundum e Sarumbirumbá)
 
(Arauê se prepara todo. Entra Sarumbirumbá, correndo como atleta, fazendo ginástica, etc. Arauê para o chute no meio do caminho e todos olham atentamente para Sarumbirumbá, que agora entra sem o nariz vermelho mas com grandes orelhas de burro.)
JAMAL KHAN: Mas, olhem só!!! A figura mais ilustrada de toda nossa ilha!!!
ZULUM: Sarumbirumbá? Cadê o ... rubronasal?
SARUMBIRUMBÁ: O que?
ZULUM: (aponta para o nariz) Isso aqui...
SARUMBIRUMBÁ: Ih... que coisa mais ultrapassada! Esta moda já passou. Agora o top do momento é isto aqui, ó!!!(pisca o olho e faz pose, com se estivesse fazendo um comercial) As sensacionais Orelhongs!!! À venda na Jamal Magazine!!!
ARAUÊ: Uau!!!
JAMAL KHAN: Este é um momento orgulhosístico para nossa Patriótica ilha!!! As Orelhongs são o símbolo metafísico da inteligência populesca!!!
ARAUÊ e ZULUM: Hein?
JAMAL KHAN: Eu, como governador, adoto as Orelhongs como símbolo máximo, e declaro Sarumbirumbá como atleta, artista, modelo, manequim, ator e cantor mais talentosístico de toda nossa ilha!!! Aplausos, senhores, para esta exemplificar personalidade!!!!
Todos aplaudem.
ARAUÊ: (Puxa o Zulum para um canto) Vamos vazar, Zulum, precisamos comprar as nossas ore... ore... longos para não ficar de fora da moda.
ZULUM: Sim. Mas antes vou me livrar deste rubro não sei o que. (Joga o nariz fora)
ARAUÊ: É mesmo . Que breguice! Demorou! (Também joga o nariz fora)
ZULUM: Temos que ir, Excelentíssimo. Nos vemos depois. Ula ula.
ARAUÊ: Até mais Senhores. Passar bem. Ula ula.
(Saem Arauê e Zulum . Jamal Khan dá um saco de dinheiro para Sarumbirumbá, e lhe faz sinal de positivo e saem. Entra o artista como um pintor plástico. Põe a tela de costa para o público e começa a pintar)
 
Cena 5 - (Artista)
 
ARTISTA:
O que irei pintar hoje? Hum... hum... deixe-me ver... deixe-me ver...
O mal gosto, a falta de bom senso e o desequilíbrio, fazem parte de nossas mentes brilhantes.
É! Isso é um fato!
Por isso que a arte não tem limite.
Qualquer coisa pode ser digna de receber o nome de arte.
Flores, pessoas, tintas jogadas a esmo nas telas, um mictório, ou qualquer coisas que venha a existir, ou não.
Quanto a mim, de certo não tenho nenhum traço específico identificando a minha obra.
Não me prendo a isto! Sou criativo e eclético. Hoje, posso fazer uma pintura grego romana do homem e da mulher náufragos, mostrando suas proporções harmoniosas e o equilíbrio de seus corpos. Ou posso não só pintar, mas fazer mosaicos ou vitrais com imagens da terra firme.
Ou não.
Uma arte renascentista, posso fazer também! Ao invés de fazer o Leão, eu faria os homens da ilha, por que não?
Ressaltaria bem a sua anatomia. Também posso fazer uma pintura barroca, retratando o Dundum e o Dragão, procurando causar assim um impacto emocional, com bastante dramaticidade.
Mas sabem?
O sentimento é tudo! A emoção tem que constar. Não posso deixar de lado esse ingrediente importante.
Posso florear mais esses acontecimentos da ilha, numa narrativa heroica.... seria uma obra romântica... colocando suas paixões acima de tudo.
Hum... Hum... não sei bem o que fazer, são tantas opções.
Parece que quanto mais opções eu tenho, mais difícil é a escolha. Toda vez é isto.
Se só existisse a pintura nas cavernas, seria tudo tão mais fácil, muito mais fácil.
Pensando bem, posso partir para o Impressionismo, e pintar esse local, aproveitando a luz do momento, o clima sobre a superfície dos objetos, as sensações visuais imediatas que se apresentam... agora!!
Agora não... posso fazer depois, vou ter muito tempo para isto. Eu tenho é que mostrar a minha visão subjetiva, isso sim! Eu não quero simplesmente imitar a realidade nua e crua, mas eu quero fazê-la sob a óptica dos meus sentimentos.
Ao invés do impressionismo, faço o expressionismo
...ou cubismo?
O abstratismo seria uma boa opção. Afinal, é como uma música, cada um gosta da sua (pensativo).
Surrealismo? Dadaísmo? Pop art, utilizando imagens da sociedade de consumo e na cultura popular?
Um pós-modernismo iria cair muito bem.
Tudo misturado!
Cultura, crença, raças... uma bagunça só, alheio ao tempo e ao espaço!
Mas não posso me esquecer do futurismo.
Retratando os clones, cibernéticos, robôs, androides e seres espaciais, que... quem sabe, já vivem entre nós (fala sussurrando).

Querem saber? Falando... falando... e pintando... e pintando... terminei!
Foi uma das obras mais difíceis que já fiz em toda a minha vida.
Acabei fazendo um retrato, inspirado na população da ilha. Uma pintura realista, uma tanto surreal se optarem.
Mas o fato é que os acontecimentos não negam.
Mostra a tela que está pintado um burro de forma bem infantil. A vida na ilha é engraçada... Muito engraçada. (risos) Eu sou demais! Eu me mereço!
 
O Artista sai.
 
ATO 4
Cena 1 - (Jamal Khan e Zulum)
 
Entram o governador Jamal Khan e Zulum. Ambos com orelhas de burro.

JAMAL KHAN: Isto aqui é uma ilha livre. Todos podem ir e vir quando quiserem. Todos tem direitos as suas opiniões. Aqui, tudo o que se planta dá.. Tudo o que precisamos temos aqui na ilha. Não nos falta nada. Está tudo em plena paz.
ZULUM: Paz? Como paz? E em relação a natureza? E os vendavais que não tem mais dia certo para acontecer, e ainda provocam os maremotos matando muitas pessoas na ilha? E os furacões que passam a ser constantes? E sem contar com esse clima louco: um dia faz muito calor, no outro já esfria demais.
JAMAL KHAN: Meu caro e muito caro amigo, como você mesmo acabou de monologar, isso é coisa da natureza. Eu não posso ter controle da natureza... infelizmente.
ZULUM: Mas e o que estamos fazendo aqui na ilha? Estamos alterando a natureza, devastando tudo, acabando até com algumas nascentes. Excelentíssimo, e o problema da água potável? Os gafanhotos que estão destruindo parte das plantações? O gado e as aves com doenças? E a fome que aumenta em nossa ilha?
JAMAL KHAN: Calma meu rapaz! Calma meu rapaz!! Está tudo sobre controle. É claro que em relação a água, haverá um racionamento. Quanto aos animais doentios, serão dados extremunção. Nas plantações... agrotóxico. Acabo com todos eles! E aí, não haverá mais fome. Simples, não é?!
ZULUM: E o que o senhor me fala dessa violência banal que nos ronda? Dos traficantes tomando conta da ilha... Eu vejo sempre próximo dos coqueiros crianças jogando bola. São crianças! E nunca vejo um guarda por perto. E por falar em crianças, e a educação? Os hospitais sem condições...
JAMAL KHAN: Espere um pouco Zulum. Você é meu amigo ou o amigo da onça? Você está procurando chifre em cabeça de macaco! Infelizmente essa mídia é muito sensacionalista. Como aumentam tudo, impressionante! Está certo de que nem tudo está cem por cento, temos que melhorificar uma coisinha aqui, outra ali. Sempre aparece alguma imprevisão, e sempre corremos para cortar o mal pela raiz. Mas todo o governo é assim mesmo, meu querido.
ZULUM: E quanto a corrupção no próprio governo? Todo mundo sabe que tem, todo mundo vê. E nada acontece!...
JAMAL KHAN: Opa! Opa! Opa! Muito cuidado com o que você diz! Não entendo o por que desse seu agressivismo. É como eu fosse o culpado de tudo isto. Mas eu lhe retroco: Havendo algum... colega... que se aproveitou da sua posição para... vamos dizer assim, evocadamente se beneficiar. Havendo, esse será devidamente punido...
ZULUM: È Claro! Sempre roubam fortunas pertencentes ao povo da ilha...
JAMAL KHAN: ... esse não participará da festa do Dragão!
ZULUM: Só isso? E o dinheiro todo que pegou, não devolverá? E a sua imunidade, não perderá? Não será preso?
JAMAL KHAN: Entenda bem, meu inteligentíssimo Zulum. As normas da lei não nos permitem fazer isso. Mas trataremos de resolver isso e mudá-la de uma vez por todas, eu te dou as minhas palavras!
ZULUM: Excelentíssimo senhor Jamal Khan, me desculpe mas... só acredito vendo!
JAMAL KHAN: Você verá meu rapaz, você verá! Mas... vamos mudar de assunto, vamos? Ãh... mas me diga, aquele ali é o seu barco? O barco que você construiu?
ZULUM: É ele mesmo.
JAMAL KHAN: Muito bonito! E grande! Parece ser bem forte, seguro.
 
Cena 2 - (Jamal Khan, Zulum e Arauê)
 
Entra Arauê chutando a bola que está com uma coloração mais escura e mais pesada também.
 
ZULUM: É! Fiz o melhor que pude. Mas a minha garantia de chegar em terra firme não está no barco.
JAMAL KHAN: Não??
(Arauê para de jogar e fica observando a conversa.)
ZULUM: Não! A muito tempo atrás, houve um Homem que conseguiu chegar lá...
JAMAL KHAN: Já ouvi falar...
ZULUM: ...um Homem simples, assim como nós. O nome dele era Poôco. Ele construiu uma jangada. E não foi nem um barco, foi uma jangada! Mas Quando foi o tempo certo e soprou o vterra firme.i.
ARAUÊ: E chegou lá?
ZULUM: Claro que sim!
ARAUÊ: E como você sabe? (Desdenhando)
ZULUM: Porque depois ele voltou. Voltou mudado, diferente. Falava da importância de como chegar lá pegando a direção certa. E inclusive, ele levou outras pessoas daqui, para a terra-firme.
JAMAL KHAN: Mas, volta e meia, vem gente de lá para cá e...
ZULUM: Mas este era diferente, ele era especial!
JAMAL KHAN: E o que tem esse Homem especial a ver com o teu barco?
ZULUM: Pois, é. Este Homem, o Poôco, é um exemplo a ser seguido. É a minha referência. E é por isso que eu vou confiante. (procura algo ao redor) Espere só um pouquinho.
ZULUM: sai. Jamal Khan e Arauê se entreolham
ARAUÊ: Quer jogar uma bolinha enquanto isso?
JAMAL KHAN: Não, obrigado. Não gosto do esférico!
Entre Zulum com um toco de madeira na mão.
ZULUM: Agora estou pronto!
JAMAL KHAN e ARAUÊ: E o que é isso na sua mão?
ZULUM: É o tal Homem que eu acabei de falar para vocês!
ARAUÊ: Isso daí é ele??
ZULUM: Não! É uma representação dele por meio desse pedaço de pau.
ARAUÊ: Como assim?
ZULUM: Este aqui é a imagem de Poôco. A quem estive todas as noites ajoelhado diante dele, recitando, recitando, recitando, sempre a mesma coisa, até chegar este dia.
ARAUÊ: E o... Poôco... falou contigo?
ZULUM: ...Não... mas... mas também nem precisava. O meu Poôco sabe que sempre fui assíduo nas recitações. Por isso, através dele, no meu barco, hoje, irei chegar até a terra firme. O colocarei preso na parte da frente do barco, na proa, para me proteger dos dias de tormentas. (olha para cima, chupa o dedo e o coloca para cima, como que para sentir o vento) Essa é a hora! (Pega a fita vermelha que estava enrolado na parte debaixo do pedaço de pau. Põe o Poôco no chão, esfrega a fita vermelha em volta dele, depois a beija, esfrega de novo, e vai passando nos olhos, esfrega de novo e passa no pescoço, a beija e levanta aos céus. ao mesmo tempo que faz este ritual todo, ele repete sem cessar) Poôco que creio, que veio e que foi, beijo a fita pra não ficar.
 (E por fim pede para o Jamal Khan amarrar no seu pulso)
JAMAL KHAN: E pra que serve esta fita?
ZULUM: Na última vez que ele esteve aqui, veio com uma sacolinha, que era fechada... amarrada com uma fita vermelha.
JAMAL KHAN: E daí?
ZULUM: Não entendeu? Poôco protege o que ele amarra com a fita vermelha. Se estou amarrado com esta fita vermelha, logo ele estará me protegendo. Agora tenho que ir, Ula ula.
JAMAL KHAN e ARAUÊ: Ula ula...
ARAUÊ: Como ele vai chegar até o barco?
JAMAL KHAN: Deve ser nadando.
ARAUÊ: Cachorrinho?
JAMAL KHAN: É o que está parecendo.

Cena 3 - (Jamal Khan, Arauê e Sarumbirumbá)
 
Entra o Sarumbirumbá lambendo um pirulito e observa também.
 
SARUMBIRUMBÁ: Quem é?
JAMAL KHAN e ARAUÊ: Zulum!
SARUMBIRUMBÁ: É o barco que ele construiu?
JAMAL KHAN e ARAUÊ: É!
SARUMBIRUMBÁ: Ele está saindo agora?
JAMAL KHAN e ARAUÊ: Está!
SARUMBIRUMBÁ: Hum...
 
Cena 4 - (Jamal Khan, Arauê, Sarumbirumbá e Dundum)
 
Entra Dundum com uma pena na mão e observa também.
 
DUMDUM: Quem é?
 
JAMAL KHAN, ARAUÊ e SARUMBIRUMBÁ: Zulum.
DUMDUM: É o barco que ele construiu?
JAMAL KHAN, ARAUÊ e SARUMBIRUMBÁ: É!
DUMDUM: Ele está saindo agora?
JAMAL KHAN, ARAUÊ e SARUMBIRUMBÁ: Está!
DUMDUM: Hum...
ARAUÊ: Olha, já subiu no barco.
SARUMBIRUMBÁ: O que ele está prendendo ali na frente do barco?
JAMAL KHAN e ARAUÊ: Poôco!
SARUMBIRUMBÁ e DUMDUM: (se entreolham sem entenderem nada.) Poôco?
ARAUÊ: Olhem. Ele já está saindo... o vento está soprando bem... deve chegar lá rapidinho.
JAMAL KHAN: Nada impedirá esse barco de chegar lá. Nada!
TODOS: Hôôô...
ARAUÊ: O que está acontecendo? Que água toda é aquela subindo de dentro do barco?
JAMAL KHAN: Um chafariz! Que ótima ideia! Muito bom!! Excelente!!
SARUMBIRUMBÁ: Está afundando!
(Todos ficam de boca aberta e olhos esbugalhados.)
JAMAL KHAN: Ele pulou do barco e está voltando a nado...
DUMDUM: E de cachorrinho.
ARAUÊ: Pobre Homem... o Poôco. Afundou junto com o barco.
DUMDUM: Ninguém sai mais desta ilha! Ninguém! Estamos todos presos aqui, pra sempre! Estamos todos condenados a viver aqui, ilhados! Só me resta morrer, morrer. (pega uma pena de pombo e começa a fazer cócegas em si mesmo e a sorrir, cada vez mais alto) Eu vou morrer de tanto rir (risos)! Vou acabar comigo (risos)! Eu vou acabar com essa tortura (gargalhada)! Dar fim a essa tristeza (cai no chão de tanto rir)! Eu não aguento mais! Eu não aguento mais! Eu não aguento mais!
(Dundum sai engatinhado, e todos ficam observando sua saída. Depois Arauê começa a chutar bola com certa dificuldade.)
SARUMBIRUMBÁ: Pobre Homem...
JAMAL KHAN: Coitado...
ARAUÊ: E olha só quem está chegando...
 
Cena 5 - (Jamal Khan, Zulum, Arauê, Sarumbirumbá e Zulum)
 
Entra Zulum, molhado e cansado. Todos vão ajudá-lo.
 
JAMAL KHAN: Oh, rapaz, como você está?
SARUMBIRUMBÁ: Pra quem veio nadando cachorrinho, está bom até demais (Desdenhando).
ARAUÊ: Aí meu irmão, Cadê o Poôco? Cadê o Poôco? (sacode o Zulum, enfurecido) Você abandonou o Poôco!! Você é um assassino!! (quase chorando) O Poôco se afogou!...
ZULUM: Mas... mas... mas...
SARUMBIRUMBÁ: Descanse primeiro Zulum. Afinal de contas, você não tem o preparo que eu tenho em natação.
(Todos olham para Sarumbirumbá.)
SARUMBIRUMBÁ: O que foi?
ARAUÊ: Você não está mais usando as orelhas de burro.
SARUMBIRUMBÁ: Ultrapassado. Agora o lance é... o big pirulit's color espiral.
(Arauê e Zulum se entreolham.)
ARAUÊ: Opa! Tenho que sartar fora. Daqui a pouco a gente se vê. Ula ula. Puxa vida, esta bola está cada vez mais pesada. (Sai com uma certa dificuldade, carregando a bola)
ZULUM: (Ainda cansado) Espere! Vou com você. Me ajudem a levantar. Espere, Arauê...
(O Jamal Khan e o Sarumbirumbá, se entreolham e sorriem, e fazem um sinal de que tudo está ok e saem. Entra o artista com uma caveira na mão.)
 
Cena 6 - (Artista)
 
O Artista
Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos arremessados pelo
destino sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?
Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe fim aos sofrimentos do coração e aos golpes
infinitos que constituem a natural herança da carne, é a solução desejada. Morrer.., dormir... dormir...
Talvez sonhar... É aí que está a questão. Não sabemos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando
ao fim desenrolarmos toda o novelo da existência mortal, e isso nos põe suspensos. É essa idéia que torna
verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as
injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, a implicância dos
chefes e o desprezo da ignorância contra a sabedoria, se estivesse em suas mãos obter sossego com um
punhal? Que fardos levamos gemendo nesta vida cansada, se não por temer algo após a morte - terra
desconhecida de onde jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males
conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? A consciência nos torna covardes . Desta
forma, nossas resoluções mais audaciosas definham sob a máscara do pensamento, e projetos grandiosos
se desviam da meta diante dessas reflexões até ficarem totalmente sem ação. Oh, cruel decisão vivida por
Hamlet e enfrentada por todos os seres humanos! Shakespeare sabia das coisas! Ele mesmo dizia
Existem mais coisas entre os céus e a Terra do que supõe nossa vã filosofia!
 
ATO 5
Cena 1 - (Sarumbirumbá e Jamal Khan)

 
Entra Sarumbirumbá e Jamal Khan
 
JAMAL KHAN: Estamos indo bem até aqui, ilustroso Sarumbirumbá. Estamos conduzindo tudo para o grande desfechamento. Em meio as festividades, diversões, e farturas, será um Reveinhonk digno de fim de ano!
SARUMBIRUMBÁ: Porque, principalmente haverá muito consumo! Não é isso Excelentíssimo senhor Jamal Khan?
PAIZIM DO DRAGÃO: (Fala de fora da cena) Tão solamente el consumo!! Mutchas mirrecas! Mutchas mirrecas! Solo eston esqueciendo de um pequeno detalhe.
 
Cena 2 - (Sarumbirumbá, Jamal Khan e Paizim do Dragão)
 
(Entra Paizim do Dragão .)
PAIZIM DO DRAGÃO: big pirulit’s color espiral!
Jamal e Sabumbirumbá
Como?
PAIZIM DO DRAGÃO: big pirulit’s color espiral! E onde ustedes mencionaram el nombre del doño desta ilha?
(Jamal Khan e Sarumbirumbá se entreolham)
PAIZIM DO DRAGÃO: Que descasso con el Dragon! Como puderan cometer esse erro terrível? (dá quatro pulinhos balançando a cabeça e faz um barulho estranho, Jamal Khan e Sarumbirumbá se abraçam trêmulos).
PAIZIM DO DRAGÃO: Como usteds explicam esto? Estão dehando el dragon de fora?
JAMAL KHAN: (tomando iniciativa e indo a frente) Não senhor, Paizim do Dragão! Isso foi apenas uma estrategística! Uma estática! Um conduzimento para um desfechamento aonde terá o levantamento para o glóriamento do Dragão! (Para o Sarumbirumbá) Não foi?
SARUMBIRUMBÁ: Foi?
JAMAL KHAN: (para o Paizim do Dragão) Viu?! Desfelizmente não podemos sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, ir direto ao assunto. É muito Brutus demais! É um para... choque muito grande. E esse polvo não está preparado.
SARUMBIRUMBÁ: É?...
JAMAL KHAN: Claro!
SARUMBIRUMBÁ: É! É! É sim!!
PAIZIM DO DRAGÃO: Usteds por acasso temem el dragon?
JAMAL KHAN: (desencara o Paizim do Dragão e insensivelmente responde) Claro!
SARUMBIRUMBÁ: (Temeroso) Claro! Claro!
PAIZIM DO DRAGÃO: E o que usteds estão pensando em hacer para la festa del dragon?
JAMAL KHAN: É por isso que estamos aqui! Para discursarmos os preparativos da festa do Dragão no final de ano. Como é uma tradição anual, teremos fogos artifíciais, músicas de tudo o que é tipo, homenagens aos destaques do ano da ilha, e não poderá faltar o famoso pulinho. E mais, conjuntamente com isto, haverá o lançamento dá... dá... (pensativo)
PAIZIM DO DRAGÃO e SARUMBIRUMBÁ: Dá?...
JAMAL KHAN: Dá... dá... (pensativo e aflito)
PAIZIM DO DRAGÃO e SARUMBIRUMBÁ: Dá?...
JAMAL KHAN: Dá... do foguinho do Dragão! É, é isso! O foguinho do Dragão!
PAIZIM DO DRAGÃO e SARUMBIRUMBÁ: Foguinho do Dragão?
JAMAL KHAN: Sim! Foguinho do Dragão! É uma nova bebida, uma novidade, o polvo adora uma novidade. Basta falar que é novidade que os olhinhos já brilham! A boca fica cheia d’água e as mãos ficam trêmulas para agarrar na primeira oportunidade a novidade do momento.
SARUMBIRUMBÁ: É verdade! Foi o nariz vermelho, as orelhas grandes, o pirulito espiral...
JAMAL KHAN: E agora o foguinho do Dragão!. E não só isso! Terá também o Chocalho do Dragão. Pois uma coisa vai levando a outra. O Foguinho do Dragão deixa... vamos dizer assim: deixa mais alegre, mais aéreo, mais ativo. Aí então uma musiquinha... e vem o Chocalho do Dragão...
SARUMBIRUMBÁ: E também, bonés e camisetas promocionais com a marca do Dragão!
JAMAL KHAN: Sacolas, chinelas e cremes...
SARUMBIRUMBÁ: Guarda-sóis, esteiras, óleo de bronzear...
JAMAL KHAN e SARUMBIRUMBÁ: Tudo isso com a marca do Dragão!
JAMAL KHAN: E o grande desfecho do final de ano. Sarumbirumbá irá a nado até a terra-firme!!!
(Sarumbirumbá se gaba do seu preparo para esse fim.)
SARUMBIRUMBÁ: Estou treinando muito para isto!
PAIZIM DO DRAGÃO: (gargalha) ... tu vais a nado para la tierra-firme? Claro! Claro! Claro! Una coisa posso te dicer. El dragon já está adorando todo esto! Podem acreditar (da um grito e dois pulos e levanta seqüencialmente o pé direito e depois o esquerdo). Hombre de poder (para Jamal Khan) tu tens que reforçar el sacrifício, para se manter en su lugar!
JAMAL KHAN: (Pensa um segundo) Não, não! Acho que não precisarei mais!
PAIZIM DO DRAGÃO: Como, hombre?? Achas que o que tienes és pra siempre? Achas dispensável el sacrifício para el dragon? Pensas que una vez dentro não puedes sair? Em quem usted se protege? Só porque tiens el poder en la ilha, podes ir contra el dragon?? Non señior!! Non señior!! Penses bien no que haces, hombre! Penses bien!
(Paizim do Dragão sai. E Sarumbirumbá e Jamal Khan se entreolham sem expressão alguma.)
 
Cena 3 - (Sarumbirumbá, Jamal Khan e Dundum)
 
(Entra Dundum com um balde de água.)
DUMDUM: Eu vou me matar! Eu vou me matar! Eu vou me matar!
(Dundum sai. Sarumbirumbá e Jamal Khan se entreolham sem expressão alguma. Depois passam a olhar para o mar.)
 
Cena 4 - (Sarumbirumbá, Jamal Khan e Maimorã)
 
Entra Maimorã vindo do mar, dentro de um barco enorme de papel (feito de jornal).
MAIMORÃ: Ula ula para todos!
JAMAL KHAN: Ula ula!
SARUMBIRUMBÁ: Ulaláá!
JAMAL KHAN: O que você veio fazer por aqui de novo?
MAIMORÃ: Eu vim em missão de paz!
JAMAL KHAN: Sei bem que missão é essa... ! Veio falar aquele montão de baboseirísticas acerca da ilha, do Dragão, e tudo mais!
MAIMORÃ: Eu só vim para trazer as boas novas do Leão! Falar-lhes que ainda há uma chance para todos aqui da ilha...
JAMAL KHAN: Bah! A mesma ladainha de sempre! Você se acha o dono da razão. Você é muito inconveniente Maimorã, isso sim! Vai embora, vai!
MAIMORÃ: Me desculpe Excelentíssimo Jamal Khan. Não é a minha intenção incomodá-lo. Mas o fim está próximo, e é o meu dever vir avisá-lo dos sinais, e tentar ajudar a todos.
SARUMBIRUMBÁ: Sinais? Que sinais? Desde que eu me conheço por gente, sempre ouvi dizer desses sinais e desse fim próximo (desdenhando). E quantos anos já se passaram, hein?! E sempre o fim está próximo...
MAIMORÃ: Não precisa necessariamente o fim chegar. Bastar cada um morrer, para o seu fim ter chegado! Eu digo a vocês: essa ilha se separou da terra-firme, por causa de nossos ancestrais terem cavado um poço. Eles tinham toda a água que precisavam, pois o Leão supria todas as suas necessidades. Por uma conversa astuta do Dragão, eles tiveram curiosidade e desobedeceram as ordens do Leão. Foi por isso que nossos ancestrais vieram parar nessa ilha, e todos os seus descendentes passaram a viver afastados do Leão. Desde então, só vem piorando a cada dia a sua situação. A violência aumentando, os desastres naturais acontecendo, as pragas, as doenças incuráveis, a corrupção e as perseguições...
JAMAL KHAN: Perseguições? Que perseguições, pode me dizer?
MAIMORÃ: Ora Excelentíssimo Jamal Khan, sabemos muito bem que todos aqueles que não se curvaram ao Dragão, e resolveram falar sobre o Leão, foram discriminados pela liderança da ilha.
JAMAL KHAN: Que absurdo!! Agora eu tenho que ficar ouvindo isto (para o Sarumbirumbá)! Essa é uma ilha livre! Demográfica! Cada um faz o que quer, dentro da lei é claro. E vem você querendo criar tumulto por aqui? Ora rapaz, mida suas palavras!
SARUMBIRUMBÁ: Pra variar sempre que você vem aqui, é pra criticar tudo aqui na ilha. Porque não ficou lá junto com os leõezinhos na terra-firma?!
 MAIMORÃ: Porque eu não procuro a minha própria vontade, e sim, a daquele que me enviou. Vim alertar a todos, sobre a verdade. Quem quiser se salvar, deve vir comigo nesse barco, feito pelo próprio Leão. Essa é a única maneira de se chegar a terra firme.
SARUMBIRUMBÁ: Esse barquinho? (risos). Se algo acontecer, eu me garanto (mostra o muque). Um dia todos nós iremos para a terra firme. E eu vou a nado mesmo. Confio mais na força do meu braço!!
MAIMORÃ: Não é por nenhuma força humana, que se chegará na terra-firme. A riqueza que existe lá, ninguém pode comprar, nenhum dinheiro poderá pagar.
JAMAL KHAN: Dinheiro?? Riqueza??
MAIMORÃ: Sim! Uma riqueza que ladrão não rouba e nem a traça corrói, e nem o fogo consome.
JAMAL KHAN: Sim, hã... vamos conversar mais!! Hã... eu estava pensando meu ilustroso e simpático rapaz. Poderíamos fazer uma conjectura associativa entre mim, e vós. Podería alocar esse seu... meio transportístico nauti... nauti... bom, que anda pelo mar. Então você teria liberdade aqui junto com seus patrícios, e eu... teria a liberdade de conhecer melhor essa tão falada terra-firme e tudo o que lá há.
MAIMORÃ: Ora meu caro Jamal Khan. Não é assim que funciona. Você deve decidir de coração, deixar tudo o que se refere a esta ilha, e ao Dragão, entrar nesse barco comigo, confiando exclusivamente no leão, independente de qualquer coisa. E deve obedecer a vontade do Leão.
JAMAL KHAN: Ora, porque terei que abandonar as coisas da ilha? Não poderei usufruir dos benefícios tanto de lá como de cá?
MAIMORÃ: Não! O Leão requer exclusividade total. Não se pode servir a dois senhores. Pois estaria agradando a um e aborrecendo ao outro.
JAMAL KHAN: Ora eu não poderia nunca abandonar as coisas aqui da ilha, já que estou tão renvolvido. E ela me traz tantas alegrias, tantas coisas boas e prazerosas. Olha aqui meu rapaz, eu não preciso do seu barquinho não! Vou construir uma ponte superfaturada, ligando a ilha ao continente. Ou fazer um eurotúnel por debaixo da água. Poderei vim e im. Im e vim quantas vezes eu quiser!
SARUMBIRUMBÁ: É isso aí, Excelência!
JAMAL KHAN: E acho bom você sair daqui rapidinho. Se não quiser agüentar com as seqüências. Cadê o soldado? (Olha ao redor) Nunca tem um guarda quando se precisa nessa ilha! Vamos Sarumbirumbá! Vamos que vou chamar a guarda para expulsar esse subversivo, esse... esse...só pode ser comunista. Vamos, vamos.
MAIMORÃ: Uns confiam em barcos, outros em pontes; nós, da terra-firme, confiamos no poder do Leão.
(Sai Jamal Khan e Sarumbirumbá.)
MAIMORÃ: Como é difícil essas pessoas aceitarem as orientações do leão. Eles não enxergam um palmo a frente do nariz. Só a misericórdia do leão mesmo, pra mudar esses corações. Bem que o Leão falou que, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos.
 
Cena 5 - (Maimorã e Arauê)
(Entra Arauê arrastando com muita dificuldade a bola que já está bem pesada e bem escura.)
ARAUÊ: Nossa Senhora! Santo Dragão! Pelas botas do Paizim do Dragão! Eu já não agüento mais esta bola. E o pior é que eu não consigo mais me livrar dela.
MAIMORÃ: O que houve contigo, amado?
ARAUÊ: (Olha surpreso para o Maimorã) Hã...? Está falando comigo? (procura por outros ao redor).
MAIMORÃ: Sim! Como você foi parar nessa situação? Você não sabe que isso não leva a nada?!
ARAUÊ: Pois é. No começo era tão bom. Parecia ser tão inofensivo. Eu achava que poderia largar a hora que quisesse. Mas, quanto mais eu jogava, mais a bola ia ficando pesada, pesada, e agora eu não consigo mais me livrar disso. E eu já não agüento mais! Eu acho que não tenho mais jeito.
MAIMORÃ: Calma, meu rapaz. Eu sei de alguém que tem poder pra te livrar dessas correntes.
ARAUÊ: Mas... deve custar muito caro! Não tenho mais nada, me danei todo com essa droga aqui! Perdi a pouco a minha casa, estou vivendo de favor na casa dos outros. Minha ficante me abandonou e ninguém mais quer saber de mim. Fiquei desempregado, tive que vender até meu pangaré para pagar parte das dívidas.
MAIMORÃ: Calma, meu amado. Não vai custar nada!
ARAUÊ: Como não? Hoje em dia, ninguém faz mais nada de graça!
MAIMORÃ: Mas o Leão quer te dar esse presente. Ele já sofreu muito por você, justamente para que você não viva assim.
ARAUÊ: Sofre? Por mim?
MAIMORÃ: Exatamente. Sofreu por nós todos, e muita gente não se toca disso. Me diga uma coisa, meu amigo: Quem entregaria a sua própria vida por uma pessoa?
ARAUÊ: Ninguém! (Chorando)
MAIMORÃ: Pois Ele fez isso por nós! Porque ele nos ama.
ARAUÊ: E o que eu preciso fazer?
MAIMORÃ: Você precisa somente confiar nEle. Entre nesse barco comigo, e iremos para a terra-firme, dando adeus a essa ilha. Você confia no leão?
ARAUÊ: (Entre choro) Eu sempre ouvia falar dele, mas nunca prestei muita atenção. Queria aproveitar a vida, mas agora percebo que a vida longe do leão não faz nenhum sentido. Quero ir para a terra-firme! Quero estar com ele!
MAIMORÃ: Bem-aventurado os que choram, porque serão consolados. Você Crê que o Leão pode te ajudar?
ARAUÊ: Creio sim, que só ele pode me libertar. Creio sim!
MAIMORÃ: Glórias ao leão!! (Jubilando) Venha então, rapaz. Vamos para a terra-firme.
(Maimorã sai do barco para ajudá-lo a carregar a bola pesada, afim de entrarem no barco.)
MAIMORÃ: Agora, em nome do Rei leão, você está livre!!!
ARAUÊ: (surpreso, abismado, e mui alegre, olha para os seus pés, e exclama) Veja! As correntes se romperam!! Estou livre! Livre! Livre! (Joga a bola para fora do barco. E saem para a terra-firme jubilosos cantando uma música para o Leão)
 
Cena 6 - (Artista)
 
Artista - Entra correndo.
 
Ai, já corri tanto que nem sei o quanto já me distanciei.
Vou parar um pouco para descansar
Eu já nem sei mais para onde vou
Porque toda vez, eu penso ter encontrado a saída
Aí, percebo logo que ela está atrás de mim mais uma vez.
Pensei que nunca mais seria submetido a ninguém
Que teria poder para fazer o que quiser
Mas vem ela e me põe limites injustos, desnecessário e absurdos.
Já fui por um caminho que ela aparecia linda
Aonde eu poderia ter decisão de escolher minha profissão,
Meu casamento, até o compromisso político.
Eu seria responsável quanto ao meu futuro.
Mas depois ela retirou a máscara, de novo.
E me limitava dizendo:
Se você for bem, terá integridade, dignidade e terá os seus direitos,
Mas se fugir as regras, será diminuído, castigado, não será digno do mérito.
Isso não é o que procuro!
Eu procuro aquela que me fará como um pássaro a voar pelos céus
Sem precisar semear, sem colher, nem ajuntar em celeiros
Eu procuro o que está acima disso tudo,
Eu procuro o que parece ilusório e inatingível.
Mas por enquanto só tenho fugido dos caminhos que pensei serem os certos
Eu vivia na ignorância, também não sabia as alternativas, pensei até em aceitar o meu estado.
Pois pensava nas desvantagens de tomar uma decisão,
E depois, as responsabilidades de se viver uma nova vida.
Mas aí fiz o meu primeiro esforço, tomar uma decisão criando coragem de lutar,
Lutar com todas as minhas forças, para alcançar o meu tão sonhado objetivo.
Não ir atras de simplesmente uma felicidade efêmera
O que me trás logo após, uma grande insatisfação, e depois revolta da vida.
Eu preciso conhecer esse caminho de repleta paz.
Aonde possa ser perdoado do passado e livre das minhas culpas
Aonde posso ter auto - domínio
Aonde posso ter a capacidade de perdoar e amar os outros
Aonde poderei ter uma visão mais ampla de tudo que nos cerca.
Aonde encontrarei o parâmetro, a bússola, e o mapa para se viver bem
E criar meus filhos.
Eu preciso conhecer esse caminho... eu preciso...
Espere! Uma vez ouvir dizer: Sim!!
conhecereis a verdade e a verdade vos libertará
Caramba! Então, antes de conhecer o caminho, eu tenho que conhecer a verdade...
E quem tem toda a verdade?
Terá que ser alguém inequívoco... e quem é inequívoco?...
Pois... nesta frase está dizendo que, a liberdade então pode ser alcançada e que é real!!
Eu não estava errado, existe esta possibilidade, não era coisa da minha cabeça. Mas...
Quem tem toda a verdade? Quem poderá ser?
Só pode ser...
ora., quem fez tudo isto! O autor da vida!
Vou procurá-lo.
(Artista sai.)
 
ATO 6
Cena 1 - (Jamal Khan e Sarumbirumbá)

 
Entra Jamal Khan.
 JAMAL KHAN: Meu inerente e supra-sumo Sarumbirumbá. Nos dois, ambíguos, funcionamos na mesma freqüência radiofônica. Sintonisticamente possuímos o mesmo foco. Esse ideal fechou a nossa seqüência triunfaulística de grandes empreendeduras.  
SARUMBIRUMBÁ: Eu me identifiquei muito com este novo lançamento. Essa nova tendência fashion!  
JAMAL KHAN: Será um final de ano com muita alegria. Totalmente euforístico, nesta ilha maravilhosa!!  
(Entra com o Sarumbirumbá com uma boca de palhaço.)
SARUMBIRUMBÁ: Esse sorriso reflete a essência de nosso povo!  
JAMAL KHAN: Meu suntuoso e circense pa... partidário. Estamos rumo a conclusão de nosso objetivo final. Está quase tudo pronto. Com a verba que desviei da minha campanha, comprei todas as fábricas de batom da ilha. Assim, tão somente assim, Todo aquele que não quiser ficar fora da festa, será obrigadoriamente a comprar o nosso batom do Dragão, e usar esse sorriso fabuloso como uma marca registrada!
SARUMBIRUMBÁ: E se alguém não quiser usar?
JAMAL KHAN: Ficará fora da festa. E além disso estará aborrecendo profundamente o Dragão (faz cara de que praticamente não precisaria dizer mais nada), que tomará medidas madrásticas. Você bem o conhece.
 
Cena 2 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá e Zulum)
Entra o Zulum
JAMAL KHAN: Ops! Aí vem incompetente do Zulum! Mudemos de assunto rápido! (Para o Zulum) Ula ula, meu digníssimo empreendedor Zulum. Como tá tu?
ZULUM: (cabisbaixo chupando pirulito)Ula ula, Excelentíssimo, vou navegando conforme os ventos.
SARUMBIRUMBÁ: (a parte) Navegando? Vai é afundar de novo! (sorri entre dentes).  
JAMAL KHAN: Ora meu amigo, esqueçam as coisas passadas que para trás ficaram... no fundo do mar (pigarreia), bom agora o tempo é de festas, de alegria. Por falar nisso... (perspicaz) você irá participar da festa deste ano?
ZULUM: Festa? Que festa?
JAMAL KHAN: Ora, a festa do Dragão no final do ano, esqueceu?
ZULUM: É mesmo! Com a construção do barco, e tudo o que ocorreu, tinha até me esquecido. Claro que participarei.
JAMAL KHAN: Já está sabendo da nova lei, não está?  
ZULUM: Que lei?  
SARUMBIRUMBÁ: Esta lei! (Mostrando a própria cara)
JAMAL KHAN: Só participará da festa, quem possuir o autentico e único e inigualável...
JAMAL e SARUMBIRUMBÁ: SORRISO DO DRAGÃO!
ZULUM: Ah... (apontando surpreso para o rosto de Sarumbirumbá) Eu vou participar também com o sorriso. Vou pedir um batom emprestado da minha ficante.
JAMAL e SARUMBIRUMBÁ: Não, não. Não Pode! (Apavorados)
JAMAL KHAN: Isso é pirataria! É ilegal!
SARUMBIRUMBÁ: O verdadeiro sorriso não pode ser feito com (desprezo) Qualquer batonzinho.
JAMAL KHAN: Isso mesmo! Só poderá ser feito com...
JAMAL e SARUMBIRUMBÁ: O BATOM DO DRAGÃO!
ZULUM: E aonde eu adquiro esse batom?
JAMAL KHAN: Por sorte, eu tenho uns aqui! E posso te vender um.
ZULUM: E quanto custa?
JAMAL KHAN: Quanto você tem aí?
ZULUM: Deixe-me ver... trinta e cinco mirrecas e quarenta... misérias.
JAMAL KHAN: Meu rapaz, você está com sorte hoje, ein? É exatamente por este valor que estou vendendo estes. (pega o dinheiro) Incrível. Incrível mesmo.
ZULUM: estranha o tamanho pequenino do batom
SARUMBIRUMBÁ: Como você pode ver, esse batom só é utilizado uma única vez. Por isso do seu tamanho.
JAMAL KHAN: Porque o sorriso do Dragão, não pode ficar passando de boca em boca. Está pensando o que? Pensa que isso aqui é o batom da sogra?
(Zulum balança a cabeça negativamente, concordando com o que Jamal Khan diz.)
SARUMBIRUMBÁ: Esta festa do Dragão será inesquecível! Haverá praticamente tudo o que as outras tiveram: Muita festa, será um carnaval, com muita bebida, fartura de comida, muita gente bem a vontade...
JAMAL KHAN: Eu estou pensando até em liberar a lei do ficante. Nesse dia, quem quiser, fica com quem quiser.
SARUMBIRUMBÁ: Ótima idéia! Haverão fogos de artifícios. Em volta da ilha toda. Músicos tocando rock na frente da ilha e atrás da ilha axé. Para todos os gostos!
JAMAL KHAN: Estou pensando até em liberar o Lança-perfume... (pensativo)
SARUMBIRUMBÁ: Mas nessa festa terá ainda mais.
ZULUM: Mais? O que?
JAMAL KHAN: o foguinho do Dragão!. E não é só isso! Terá também o Chocalho do Dragão.
SARUMBIRUMBÁ: E também, bonés e camisetas promocionais com a marca do Dragão!
JAMAL KHAN: Sacolas, chinelas e cremes...
SARUMBIRUMBÁ: Guarda-sóis, esteiras, óleo de bronzear...
JAMAL KHAN e SARUMBIRUMBÁ: Tudo isso com a marca do Dragão!
JAMAL KHAN: E o grande desfecho do final de ano. Sarumb...
SARUMBIRUMBÁ: Excelentíssimo, Aí já é segredo, não é?!
JAMAL KHAN: Ãh?! Sim!! É claro que é! É que vai ser tão... tão... tão... glorioso, que eu até me empulguei.
ZULUM: Caramba! Essa festa será do balacubaco. Será do barulho!!
SARUMBIRUMBÁ: Mas.... você não tinha falado que queria sair da ilha... ir para a terra-firme? E agora vai participar da festa de fim de ano do Dragão?
ZULUM: Ah, mas aí é diferente... A festa já uma tradição, faz parte da cultura do nosso povo. Mesmo não sendo muito chegado no Dragão, que mal pode fazer participar da festa e até dar uns pulinhos para ele? Se não der sorte, azar também não dá. O importante é respeitar a crença do povo, e viver em união, se divertindo com todos os amigos.
 
Cena 3 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum e Dundum)
 
(Entra Dundum com uma cadeira.)
DUMDUM: Agora. Definitivamente. Sem volta. Eu darei um fim em mim. (procura um lugar para colocar a cadeira, mexe nela para ver se estar firme. Para, olha ao redor rapidamente. Olha para a cadeira entristecido, lentamente sobe em cima dela e fica parado. Todos ficam observando.
 
Cena 4 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum, Dundum e Paizim do dragão)
Entra Paizim do Dragão pulando e dançando ao mesmo tempo. Para ao lado do Dundum e o observa. Dundum solta uma gargalhada) Agora não adianta, não. Não terá mais jeito. Você não mais me pegará, e nem terá mais como o Dragão me torturar. Não terão direito sobre mim. Não me manipularão mais. Não farão mais lavagem cerebral. Não Roubarão mais o meu sossego, a minha paz. Não destruirão mais a
minha mente. Pois o meu comércio, a minha casa, meu carro, todos os meus bens vocês já destruíram. Mas não me matarão, assim como fazem com muitos por aqui na surdina. Porque eu não darei este gostinho à vocês. Eu mesmo me matarei!!
(Depois de um instante curto de silêncio.)
PAIZIM DO DRAGÃO: Pula! Pula! Pula!...
(Sarumbirumbá se anima e também fala:)
SARUMBIRUMBÁ: Pula! Pula! Pula!...
(Jamal Khan, olha para o Sarumbirumbá, gosta e também, batendo palmas, fala:)
JAMAL KHAN: Pula! Pula! Pula!...
(Zulum também vai na onda.)
ZULUM: Pula! Pula! Pula!...
Todos já falando alto e batendo as palmas, rindo em meio a tudo isso. Dundum, imóvel em cima da cadeira, olhando para o chão fixamente.
 PAIZIM DO DRAGÃO: (para de bater palmas, dá alguns pulos e chacoalhos, e depois age que nem um Dragão. Tudo isto acontece bem rápido. Depois solta uma gargalhada) Usted, non irá pular nunca!! Pois usted és é um cobarde!! Um maricas!!
(Paizim do Dragão sai as gargalhadas. )
JAMAL KHAN: Meu traidor patriotístico e herege. Você é um bom exemplo de pobre e tolo! (e ri).
SARUMBIRUMBÁ: Cuidado para não estragar o chão. Não vai sujar de sangue. Sangue não. Cáca!! (mais risadas)
ZULUM: Isso é muito triste. (e todos caem na gargalhada)
(Dundum, ouviu tudo calado, e foi se deprimindo a cada instante. E depois, ele se abaixa sobre a cadeira, agachado, enquanto Jamal Khan, Sarumbirumbá e Zulum, já nem prestam mais atenção nele, começa a conversar entre si, mas gesticulando assuntos sobre Dundum.)
DUMDUM: Como posso ser tão covarde assim? Como posso ser tão inútil? Nem pra me matar eu presto? Ninguém me ama, ninguém me quer. As pessoas são tão egoístas, individualistas, interesseiras. Eles se vendem pelo seu bel prazer. Fazem pactos com o Dragão. Mas eu não aceito essa imposição! Não aceito! (se levanta) Eu sei que basta dar um único pulo dessa cadeira, bastar simplesmente eu me jogar pra...
 
Cena 5 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum, Dundum, Maimorã e Arauê)
Entra no mesmo barco feito de papel de jornal, Maimorã e Arauê, ambos com vestes brancas.
MAIMORÃ: (Grita para Dundum) Não faça isso!! Não pule dessa cadeira!!
JAMAL KHAN: Há... lá veio você outra vez, para se meter nos assuntos da ilha! Não é possível!!
SARUMBIRUMBÁ: Assuntos que não lhe dizem respeito! Vai embora!
MAIMORÃ: (Para Dundum) Não faça isso, meu amigo.
JAMAL KHAN: (Para Maimorã) Maimorã, se você não for embora, vou chamar a guarda para te prender, e você sabe bem como são as prisões daqui, e o que fazem com gente como você, não sabe?
MAIMORÃ: (Para Dundum) Eu não sei direito o que você está passando. Mas seja o que for, Tem alguém que te ama e quer te ajudar. Se interessa por você.
JAMAL KHAN: Lá vem ele com essa ladainha de novo!...
DUMDUM: E quem é?
MAIMORÃ: É o Leão. Venha para o Leão, ele te espera. Você só tem que querer, só isso!
JAMAL KHAN: Áh! Isso é demais! Já não basta atracar aqui, sem a devida permissão. Agora vai querer provocar o êxodo aqui na ilha?
ARAUÊ: Meu amigo, Dundum. Se liga. Olhe para mim.
DUMDUM: (Reconhecendo) Arauê, Você?!
ARAUÊ: Eu sou uma testemunha viva da obra que o Leão fez em minha vida, e em mim.
ZULUM: (intervindo) Vocês são piratas! São do mal!
ARAUÊ: Dundum, você lembra de como eu estava? Afundado naquela bola. Tinha perdido tudo, tudo. Tava todo lascado. Até a minha dignidade estava perdendo. Aí cumpadi, entrei nesse barco e logo de cara um milagre aconteceu. Minhas correntes foram quebradas. Com o Leão é uma outra vida. É muito melhor, podes crer, meu irmão.
DUMDUM: Mas e o Dragão? Se eu tentar sair, o Dragão... (abaixa a cabeça).
SARUMBIRUMBÁ: Você sabe muito bem como o Dragão é. Ele está ao derredor, prontinho para te avançar. Dá bobeira, dá!
JAMAL KHAN: Dundum, não vai!! Eu te darei uma nova casa, com várias ficantes e um novo estabelecimento comercial. Fique, e na grande festa do Dragão, e você será homenageado.
MAIMORÃ: Meu amigo... e isto serve para todos vocês. Essa poderá ser a última oportunidade de suas vidas. Por que o fim está próximo! Vocês só tem que abrir o coração, e entrar aqui neste barco, para chegarem a terra firme, terra do Leão! (para, estende a mão para Dundum) Basta você querer.
JAMAL KHAN: Não vai!! Te darei prestígio, será o meu braço direito aqui na ilha!
ZULUM: Não é este o caminho! Eles não são originais! São falsificados! Não são legítimos!
SARUMBIRUMBÁ: O Dragão vai acabar contigo pra sempre!
DUMDUM: Será que o Leão me receberá? Eu não tenho nada a oferecer....
MAIMORÃ: Venha como você está. O Leão quer te ajudar e te livrar das garras do Dragão. Simplesmente confie e entre no barco.
 
Cena 6 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum, Dundum, Maimorã, Arauê e Paisim do dragão)
(Paizim do Dragão entra de novo )
JAMAL KHAN: Não vai. Eu além de tudo que já falei, te darei ouro e prata em abundância. Não vai, fique!
DUMDUM: (Para Jamal Khan) Pra mim vale mais a lei que procede da boca do Leão, do que milhares de ouro ou de prata. (Para Maimorã) Sim, confiarei e não temerei! (Desce da cadeira com um certo cuidado e Entra no barco) Confio que neste barco chegarei à salvo até a terra firme. O Dragão não tem mais poder sobre mim!
ARAUÊ: Ah... moleque! Mandou bonito agora, ein?! Demorou. Esse é o meu brother!
MAIMORÃ: (Sorri) Essa é a nova canção! (Recebe Dundum no barco e o abraça) Viva o Leão! (Se dirige aos outros) E vocês? Não vão aproveitar a oportunidade que o Leão tão bondosamente está dando ? Procurai o Leão enquanto se pode achar. A ilha passará, bem como a seus interesses; aquele, porém, que faz a vontade do Leão permanecerá na terra-firme.
SARUMBIRUMBÁ: Sai fora! E perder a festa? Pirou na batatinha? Ficou panqueca?
ZULUM: Perdeu algum parafuso? Está desmiolado?
JAMAL KHAN: Perdeu o juízo, meu rapaz? Está perdendo a loção do perigo?
PAIZIM DO DRAGÃO: Lançarei sobre usteds um feitiço! La cociera del Dragón!!!! (Dá uma gargalhada maquiavélica) Há, há há!(Começa a pular e falar palavras mágicas) Pulga, carrapato, mosca varejeira! Pelo poder del Dragón, Usteds vão morrir de cociera!!!!!! (Estica as mãos para o barco - Dundum e Arauê se entreolham. Maimorã coloca as mão nos ombros dos dois.)
MAIMORÃ: Não temam. Se o Leão é por nós, quem será contra nós? O Dragão não pode mais fazer nenhum mal a quem entrou no barco do Leão.
PAIZIM DO DRAGÃO: Ai, ai, ai, caramba! Nunca funciona com este povinho de la tierra-firme!! Existe solamente un jeito, nesta hora, Jamal Khan! És dehar el feitiço e partir para el pau!! (ameaça agredi-lo, ma Jamal Khan o impede)
JAMAL KHAN: Liga não, Paizim do Dragão. Deixa os três irem embora. São três psicopáticos lunáuticos. Casos perdidos. Hoje é um dia de festa.
SARUMBIRUMBÁ: É. Vamos preparar a festança que a gente ganha mais.
ZULUM: É isso aí. Esses piratas não merecem nossa atenção. Onde já se viu... barco do Leão.
MAIMORÃ: Vocês fizeram sua escolha. O Leão é testemunha de que fiz a minha parte e transmiti a sua mensagem. Agora, vocês sofrerão as conseqüências de sua opção. Afinal, já ouviram a mensagem, e mesmo assim endureceram seus corações. Nós vamos partir para a terra firme. Adeus. (Vai saindo)
SARUMBIRUMBÁ: Já vão tarde! Vão com as pulgas e os carrapatos!!
JAMAL KHAN: Não voltem nunca mais! (para Zulum) Só aparecem aqui para atrapalhar nossa festa!!!!
(Ficam observando por tempo curto o barco sair da ilha e se distanciar.)
PAIZIM DO DRAGÃO: Já foram! Vamos volver a la fiesta. Porque hoje será um grande acontecimento acá! Ah! Usteds precisam oferecer parte del faturamiento de la vienda de los produtos para el Dragón, hein?
JAMAL KHAN: Hum... precisamos negociar isto...
Todos saem.
 
Cena 7 - (Artista)
 
Entra o artista dançando várias músicas com ritmos diversos)
Festa! (Dança um trecho de música de determinado ritmo)
Alegria! (Outro trecho de música e outra dança)
Animação! (Outro ritmo)
Bem vindos à Festa do dragão...onde tudo pode acontecer...ou não! (Sai dançando um samba enredo ou marchinha de carnaval que permanece até o começo da cena e vai diminuindo de volume.)
 
ATO 7
Cena 1 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum, Paizim do Dragão e alguns habitantes da ilha)

 
Cenário: Na ilha decorada com elementos de várias festas.: serpentina, máscaras, confete, bandeirolas, balões, fogueira, abóbora (halloween), velas coloridas, flores brancas, estandarte com a figura do Dragão, pirâmides, in & yang, Bandeira de arco-íris (gay) etc. No local, Sarumbirumbá está com uma banca onde vende-se o batom do Dragão, o foguinho do Dragão, colar, chinelos, chocalho, e tudo mais com a marca do Dragão. Estão presentes: Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum e Paizim do Dragão. Todos felizes, pulam e dançam com uma música tribal, bebendo o foguinho do Dragão com colares de havaiano, chapéu de aniversário, língua de sogra, boca de palhaço e instrumentos de percussão.
SARUMBIRUMBÁ: Atenção! Atenção! Vamos chegando aqui! Vamos chegando aqui minha gente! Chega aqui minha senhora! Chega aqui meu irmão! Venha aqui pra comprar os produtos do Dragão! (como se fosse um slogan)
JAMAL KHAN: (como se cantasse um rap) Eh! Eh! Rapaz... você está demais. Chegue aqui! Chegue aqui! Fale no momento, como está o nosso faturamento?
SARUMBIRUMBÁ: (como se cantasse um rap) Ãh... o Senhor já está no clima. E aqui já está tudo em cima. Aqui não tem lugar pra mágoa, estamos
ganhando dinheiro como água.
JAMAL KHAN: (Sorri) Como eu previzava, tudo matematicamente calculizado.
SARUMBIRUMBÁ: O que seria desta ilha se não fosse o senhor?!
PAIZIM DO DRAGÃO: (Inconformado) Opá! Esquecemos de una coisa. Nós começamos la fiesta sem la bençan del Dragón!
JAMAL KHAN: Ih, é mesmo! (Abre os braços, fazendo sinal para o povo fazer silêncio e prestar atenção) Um momento!
Um momento! Faremos agora a abertura oficial da festa do Dragão. Mas primeiramente eu gostaria de fazer um pequeno discurso. (um pequena pausa) Ilhéus e ilhéias. (todos festejam aplaudindo e gritando eeeeeh...) Estamos aqui... (O povo grita eeeeh..... novamente) para festejar (eeeeh!.....) a (
eeeeeeeeeeeeeh!...) Pô, (Jamal sorridente) Deixe-me falar só pouqui... (eeeeeeeeeeeeeh!...) Desisto, desisto... (Jamal fala isso bem sorridente, e todos festejam com muita risada. Paizim do Dragão então, sorridente também, pede com gestos, calma a todos. Então todos se silenciam. Paizim pega um frasco com um líquido dentro, levanta e mostra para o povão, dá um extremilique)
 PAIZIM DO DRAGÃO: Irá se oficializar ahora la abertura de la fiesta del Dragón. Esta ilha e todos desta terra, seran benzidos com el baño de cheiro (paizim do Dragão age como uma marionete e fala como um bobo da corte) Usteds - devem - repetir - todo - o - que yo - digo - que - és - para - el bien - de - todos - acá (interrompido como se a marionete tivesse sido relaxada) yo... - yo... - yo... (depois ele volta de novo como uma marionete manipulada) yo - e - usteds - servimos - ao - Dragón?.) Usteds - devem - repetir (Já voltando ao normal, levanta o frasco como se mostrando aos céus, mudando totalmente a voz, sendo uma voz tenebrosa)
PAIZIM DO DRAGÃO: Sol.
TODOS: Sol!
PAIZIM DO DRAGÃO: Chuva!
TODOS: Chuva!
PAIZIM DO DRAGÃO: Casamiento de viúva!
TODOS: Casamento de viúva!
PAIZIM DO DRAGÃO: Batatinha quando nasce!
TODOS: Batatinha quando nasce.
PAIZIM DO DRAGÃO: Se esparrama por el chón!
TODOS: Se esparrama pelo chão
PAIZIM DO DRAGÃO: Tenho Papai en el peitcho
TODOS: Tenho papai no peito
PAIZIM DO DRAGÃO: E mamãe en el coraçón
TODOS: E mamãe no coração
PAIZIM DO DRAGÃO: Éi, é!
TODOS: Éi, é! (paizim faz uma seqüência de É bem variado, como se fosse um festival de música, em que o cantor faz uma performance junto ao público, fazendo o povo repetir. No final em que todos falam juntos o ÉéééééŽ... com o Paizim dando um agudo de roqueiro e tudo mais. Então Paizim pergunta:
PAIZIM DO DRAGÃO: Estan com sede?
TODOS: Siiiiim!
PAIZIM DO DRAGÃO: Querem água?
TODOS: Siiiiim!
Paizim do Dragão com todos numa grande festa.
Água mineral! Água mineral! Água mineral pra ficar legal! Ao mesmo tempo que cantam, Paizim do
Dragão joga o líqüido em cima de todos.
PAIZIM DO DRAGÃO: Está oficializada la fiesta del Dragón!!
TODOS: (cantando) Dragão, Dragão, Dragão eu quero! Dragão eu quero! Dragão eu quero foguinho! Me dá foguinho! Me dá foguinho que eu quero me queimar!... (e a festa recomeça) O Paizim como vai você? Eu vou dançar o ei- ei- ei!... (entre outras)
(Zulum pega um papel, e começa a fazer uma avião de papel.)
JAMAL KHAN: O que está fazendo? Uma dragão voador de papel?
ZULUM: Sim. Faz parte da tradição, todo final de ano devemos jogar Dragões voadores feitos de papel.
JAMAL KHAN: Você não sabe?! Pela nova lei, só poderá jogar o Dragão voador se for o legítimo.
ZULUM: O legítimo?
SARUMBIRUMBÁ: Sim! E só vende aqui!
ZULUM: (joga o papel fora, e vai até a barraca). E quanto que é?
SARUMBIRUMBÁ: Vinte nove mirrecas e noventa e nove misérias.
ZULUM: Então me vê...seis.
(Jamal Khan também pega algumas, juntamente com o Paizim do Dragão e Sarumbirumbá. E todos começam a jogar aviões de papel por todos os cantos.)
PAIZIM DO DRAGÃO: Parem! Agora és la hora de colocarmos los barquitos en el mar.
(Todos pegam seus respectivos barcos com algum tipo de presente e lançam ao mar.)
SARUMBIRUMBÁ: Zulum, que presente você está mandando este ano?
ZULUM: Além, é claro, do Poôco que tive que refazê-lo, irá junto bóias de salva-vidas e um sinalizador. E você?
SARUMBIRUMBÁ: Áh, meu amigo, estou mandando (pega e coloca uma caixa embrulhada com papel de presente) um presente surpresa.
JAMAL KHAN: Estou mandando um cofrinho vazio, quem sabe volte cheio!
PAIZIM DO DRAGÃO: Que bueno esto! Mi barquito vai cheio de flores, comidas, um copito de bebida, e perfume.
(Todos se levantam e observam os barcos indo para mar adentro.)
ZULUM: Lá estão indo.
SARUMBIRUMBÁ: A maré está levando bem rapidinho.
JAMAL KHAN: E agora é o grande momento da festa do Dragão. Sarumbirumbá... venha cá mancebo! (Sarumbirumbá se aproxima) Ele, que se preparou por muito, muito e muito tempo, para esse grande dia. (Sarumbirumbá começa a se preparar, pega um pé de pato, uma máscara de mergulho com tubo de respiração, e faz exercícios de alongamento) Agora, em homenagem ao Dragão, com todos os seus produtos, aqui, disponíveis, produtos estes que só fazem bem pra saúde, e alegram o coração do Dragão, e garantem um futuro certo, indo para direita ou para a esquerda, tanto faz. É certo e é certo mesmo! Seja com porta larga espaçosa ou estreita e curta... (olha para Sarumbirumbá) Está pronto? (Sarumbirumbá acena positivamente) Então, chegou o grande momento, Sarumbirumbá entrará no mar, e irá a nado até a terra- firme! (todos festejam. Sarumbirumbá entre no mar e todos observam)
ZULUM: Será que ele irá conseguir?
JAMAL KHAN: Mas é claro! Ele se preparou tanto para esse momento.
ZULUM: Sei não, ein?!
PAIZIM DO DRAGÃO: Ele está indo muitcho bien! Apesar de las ondas.
ZULUM: Esse cara é doido. Nadar a noite!? Como ele vai saber a direção em que está indo?
JAMAL KHAN: Pelas estrelas!
ZULUM: Daqui a pouco nós não iremos mais enxergá-lo em meio a escuridão.
PAIZIM DO DRAGÃO: É!... mas la luna está cheia!
ZULUM: Parece que ele está mais devagar...
PAIZIM DO DRAGÃO: Parou!
JAMAL KHAN: Parou? Não! Como pode?
ZULUM: Sumiu!
JAMAL KHAN: Sumiu? Sumiu?? Eu estou precisando de um óculos!
PAIZIM DO DRAGÃO: Me parece que ele está...
JAMAL KHAN: Está?... está o que?? Fala!!
ZULUM: Eu acho...
JAMAL KHAN: O que você acha? O que você está vendo??
PAIZIM DO DRAGÃO e ZULUM: Está se afogando!
JAMAL KHAN: Se afogando?? Se afogando?? Não! Isso não pode acontecer! Só falta ele morrer agora...
ZULUM: Ele está se debatendo!
JAMAL KHAN: Aí! Aí! O que será de mim?...
ZULUM: Ih! Vocês viram? Caiu alguma coisa do céu... e está boiando. Eu acho que... sei lá. Será um madeira? Mas cair do céu?
(Jamal Khan e Zulum se entreolham, achando muito estranho.)
PAIZIM DO DRAGÃO: Yo já esperava po esto... (desanimado)
JAMAL KHAN: E aí? E aí?
ZULUM: Ele subiu em cima da coisa e está voltando para cá!
JAMAL KHAN: (Aliviado) Vai sobreviver... era o ponto mais alto da festa, e acontece isso. Por que será que ele não conseguiu?
ZULUM: De todos que tentaram assim, ainda não teve nenhum que tenha conseguido.
PAIZIM DO DRAGÃO: Bem de la verdade, el Dragón quer que todos fiquem acá. Pois quer a todos nós.
JAMAL KHAN: Foi o Dragão que não deixou Sarumbirumbá ir?
PAIZIM DO DRAGÃO: Não! El Dragón nem interferiu. O que el hombre faz, nem precisa de la acion del Dragón.
ZULUM: Olha, chegou! Vamos ajudá-lo!
 
Cena 2 - (Jamal Khan, Sarumbirumbá, Zulum, Paizim do Dragão e alguns habitantes da ilha)
 
Vão ajudá-lo, e o trazem para a ilha. Sarumbirumbá chega cambaleando, esgotado e totalmente molhado, segurando uma prancha de isopor.
JAMAL KHAN: Mas o que houve de errado? Você não treinou? Não se preparou?
SARUMBIRUMBÁ: Sim, mas... chegou uma hora... que... eu nadava... e não saia... do lugar...
PAIZIM DO DRAGÃO: És la correnteza, puxando contra.
JAMAL KHAN: Mas você falou que a correnteza estava a favor nessa hora?!
SARUMBIRUMBÁ: Sim... mas... ela virou... de repente... Puxa... quase que chegou o meu fim!...
ZULUM: (olha um tipo de relógio antigo) Gente, Já está quase na hora! Dez...
TODOS: Nove... oito... sete... seis... cinco... quatro.... três... dois... um... e... Feliz ano novo!!
(Todos se abraçam e brindam juntos, comemorando mais um ano novo.)
ZULUM: Agora eu vou dar o pulinho do dragão. Nas três primeiras ondas do ano.
Jamal Khan, paizim do Dragão o acompanham. Sarumbirumbá, mesmo sem forças, tenta dar o pulinho do Dragão e não consegue. A festa volta a todo o vapor. Cantam, dançam, pulam, bebem etc. Sarumbirumbá, apesar da decepção, fica na festa e os outros tentam animá-lo. E ele acaba voltando as brincadeiras da festa. De repente houve um som de trombeta e todos ficam estáticos.
JAMAL KHAN: Que barulho é este?!
(Todos se Entreolham. E depois passam a olhar o céu.)
ZULUM: O céu estava estrelado, olha como as nuvens estão cobrindo o céu todo.
SARUMBIRUMBÁ: E bem rápido
ZULUM: E como deve estar ventando lá em cima.
(Um grande barulho de trovão juntamente com um relâmpago surge.)
SARUMBIRUMBÁ: Ih... eu acho que vai começar a chover.
(Paizim do Dragão fica totalmente estático, como se em transe.)
JAMAL KHAN: Logo agora que vai chover? Logo agora que o faturamento iria aumentar.
Houve um rugido do Leão bem alto. E todos de novo param.
SARUMBIRUMBÁ: Outro rugido do Leão! Será que Ele está... aqui?
JAMAL KHAN: O Leão. Aqui?
PAIZIM DO DRAGÃO: El grande dia chegou!
TODOS: (temerosos) Que dia? (e começam a rir)
Surge um terremoto, juntamente com o trovões, relâmpagos, o rugido do Leão e o Grito do Dragão. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. Todos começam a gritar de pânico em meio aos acontecimentos.
ZULUM: É o fim do mundo!! Ooooh... Leão, Ooooh... Leão. Me poupe! Me poupe!
SARUMBIRUMBÁ: É o Leão! É o Leão! Clemência Leão! (se ajoelha) Imploro Oh, Leão. Não me exclua!
JAMAL KHAN: Isso não pode acontecer! Agora não!! E todo meu dinheiro? E todos os meus bens??
(Todos gritam juntos. A escuridão domina a ilha. E de repente, um total silêncio.)
 

ATO 9
Cena 1 - (Maimorã, Arauê, Dundum e o Artista)

 
A ilha afundou, somente o mar azul, calmo e sereno. Surge o barco feito de papel de jornal. Dentro dele estão na seqüência: o Maimorã com uma luneta a mão, Arauê tomando uma água de côco, Dundum prendendo do lado do barco uma bandeira com a cara do Leão, e o Artista tocando e cantando em prosas e versos. Todos usam vestes brancas, e bem alegres estão.
Maimorã, Arauê, Dundum glorificam ao Leão.

Artista
Estamos chegando no porto seguro
Atracaremos numa terra com orgulho
Não haverá mais sofrimento e solidão
Pra quem não sabe, é a terra do Leão.
 
Muita coisa já vi por aí, e até tremi
Demorei muito mas por fim, aprendi
Mas para quem pensava que eu era mais um bôbo...
Aqui estou eu, com um corpo todinho novo.
 
O Leão um dia foi cordeiro
É o único caminho verdadeiro
Já a muito tempo Ele vinha dizendo
E ninguém nunca tinha tempo
 
Mas por fim chegou esta simples peça.
Peça que retrata a sua grande volta
E aos que se converteram, assim o levará
Assim está escrito no livro da vida
 
Então confesse seu Salvador
O Leão da tribo de Judá!
O Rei dos reis, Cristo!
Que morreu, ressuscitou e hoje vivo está!
 
Levamos a todos vocês esta mensagem
Com muita alegria, e amor no coração
A cada um aqui, nossos aplausos
Pois sem vocês, tudo isto seria em vão
 
 Finito
 

Peça publicada originalmente aqui: A ILHA DA PERDIÇÃO
e-mail: mcs.braga@hotmail.com

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