EXISTÊNCIA PATÉTICA

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Atmosfera, órbita

Carlos e Marcos em uma festa. Um deles decide quebrar o gelo: “Você acredita em Deus ou em uma existência patética?”

Carlos é prolixo, um falador compulsivo. Ele não entende o conceito de realmente conversar com alguém. Esta não é uma peça de como se deve evangelizar, mas de descobrir a verdade por trás da franqueza dos argumentos de Carlos a respeito da vida sem Deus.

Marcos é um cara que está incomodado por estar em um lugar cheio de gente com quem não quer conversar. Na apresentação, Marcos pode estar olhando em volta enquanto Carlos fala, tentando encontrar uma desculpa para sair.

CARLOS: Então, Marcos, é isso? (Marcos concorda) Você acredita em Deus, Marcos, ou em uma existência patética?

MARCOS: (perguntando-se “quem é esse palhaço”) Do que você está falando?

CARLOS: Bem, parece-me que ou você acredita em Deus, que está próximo e criou você e te ama e quer que você volte para ele, ou você acredita em uma existência patética.

MARCOS: Não entendi.

CARLOS: É bem simples. Se você não acredita em Deus, então significa que você não é nada além de um conglomerado temporário de matéria, que, se você aceita a ciência moderna, é nada mais que um organismo mutante a partir de um ancestral que nada mais era do que uma larva de mosquito.

MARCOS: Espera um pouco...

CARLOS: (continuando) ...Sua esposa é uma mutação, seus filhos são acidentes, você mesmo não significa mais do que a sujeira do meu sapato. E sua mãe...

MARCOS: (nervoso) Não diga uma única palavra sobre a minha mãe!

CARLOS: ...é apenas o organismo de onde seu feto sem sentido se desenvolveu e então foi expelido para a existência quando ficou maduro.

MARCOS: (quase socando ele) Chega!

CARLOS: E assim você existe, e então morre, em qualquer caso você cessa a sua função, e essa carne que você usou de casca, vai virar apenas um monte de ossos. Então você entra no círculo mágico da vida, a cadeia alimentar, o sistema pelo qual a valor da sua existência é medido na quantidade de vermes que você alimenta assim que eles tiverem comido o seu caixão.

MARCOS: Mas...

CARLOS: ...ou talvez você acredite em um Deus impessoal, “A força Luke”. Esse mar de energia em que sua força-vital está simplesmente jogada e corre pelo oceano até você morrer.

MARCOS: É...

CARLOS: (interrompendo) a diluição de sua alma, o derretimento de sua personalidade, sua vida e tudo o mais que faz de você, você, ou seja lá o que for. Você passa a ser uma existência sem sentido, absorvido em si mesmo sendo essencialmente nada.

MARCOS: Bem...

CARLOS: ...ou você é alguém que acredita em um destacado criador, Aquele que fez você e então não dá a mínima para o quanto você vale e nem merece atenção? Então você passa a ser descartável, jogado no porão chamado Terra, esse depósito universal onde os rejeitos sem sentimentos são convenientemente jogados fora.

MARCOS: (Pausa, talvez ele tenha terminado) Bem, não é tão...

CARLOS: ...E então você passa o resto da sua vida tentando alcançar o Nirvana.

MARCOS: Isso.

CARLOS: Uma enorme falta de qualquer coisa, definida pela explosão do seu desejo, seus sonhos e sua esperança. Você passa a uma coisa sem sentimento, um ser morto-vivo em um universo paralelo, talvez um pouco mais do que um corpo morto aqui na Terra como discutimos antes.

MARCOS: (sem resposta) É realmente patético, não é? (Carlos vai embora)

MARCOS: (Pensa um pouco e vai atrás de Carlos) Qual é mesmo a outra opção?

CARLOS: Ou você acredita em Deus, mas não tem tempo para olhar para ele agora? Você sente que o que quer que aconteça vai acontecer mesmo. E sendo assim, você não é tão mau, você nunca matou ninguém, por que se preocupar? (Marcos mexe a boca para falar) É claro que você terá toda a eternidade para se arrepender das bobagens enquanto as chamas do inferno te envolvem, sem ter como escapar, sem silêncio, ouvindo gritos o tempo todo. O pior de todos os fins se você me perguntar. Então, o que você vai ser: Matéria em decomposição, uma alma dissolvida, um rejeitado eternamente em um estado sem esperança, ou uma vela eterna queimando no inferno? (Marcos está em silêncio, impressionado) É realmente patético, não é? (Carlos vai embora)

MARCOS: (Pensa um pouco e vai atrás de Carlos) Qual é mesmo a outra opção?

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