E SE NIETZSCHE SE ENCONTRASSE COM JESUS?

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E SE NIETZSCHE SE ENCONTRASSE COM JESUS?E SE NIETZSCHE SE ENCONTRASSE COM JESUS?

Nietzsche; Autor da "Lei contra o cristianismo", do livro "O Anticristo", ateu, achava necessário formar uma nova elite - não contaminada pelo cristianismo...
Nesta obra de ficção teve um encontro com Jesus, e começa ouvindo do Senhor, o mesmo que Saulo ouvira no caminho para...

Jesus; "Autor da Salvação", disse "deixai vir a mim os pequeninos...", livrou do apedrejamento a mulher pega em adultério... Morreu crucificado e ressuscitou...

 

CENA I

Sonho de Nietzsche
(Vozes)
 
Sobe o pano. Cenário infestado de fumaça. Balões de gás, estampados com as faces de Friedrich Nietzsche e de Jesus Cristo são lançados aleatoriamente em meio a nebulosa imagem cênica.
 
JESUS CRISTO (Voz em off): (exorta) Nietzsche, Nietzsche! Por que me persegues?!
FRIEDRICH NIETZSCHE(Voz em off) :Por preconizar a cultura de rebanho! Agente castrador do homem!
JESUS CRISTO(Voz em off) : (indaga mansamente) Nietzsche, Nietzsche! Por que me persegues?
FRIEDRICH NIETZSCHE(Voz em off) : (murmura) Defino essas homilias como tautologias imbecis que afeminam a nossa existência!
JESUS CRISTO(Voz em off) : Nietzsche, Nietzsche, por que...
FRIEDRICH NIETZSCHE(Voz em off) : Refuto! Refuto e até o fim refutarei! Quero me diferenciar dos covardes que não ousam a questionar essa moral cristã!
JESUS CRISTO(Voz em off) : Nietzsche, Nietzsche...
FRIEDRICH NIETZSCHE(Voz em off) : És mesmo o judeu da antiguidade que se faz de manso e compassivo para implorar a adesão de mais um, ó voz que invade os meus devaneios? Oponho-me a ti, cristianismo, falso e casto dogma!
JESUS CRISTO(Voz em off) : (sussurra) Nietzsche...
 
 
O INÍCIO DO SILÊNCIO ABSORTO
Quarto de Nietzsche

 

CENA II
 
Friedrich Nietzsche aparece em cena deitado em seu leito, mantendo firme a expressão de inexorável, mas exprimindo um semblante agonizante. Friedrich Nietzsche só tem os movimentos da parte de cima do corpo, a partir de seu tronco.
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Perseverei até este que presumo ser meu fim. Apeguei-me à trans valoração dos conceitos moralistas, feitores do cárcere subjetivo. Concluo que injetei asas na compleição humana, putrefata pela eticidade, pela falsa filosofia romântica, pela religiosidade. Agradeço e louvo aos espíritos livres de Schiller, Hoderlin e Byron . E tu, ó Wagner, quase chegou lá. Contudo, não é para qualquer um. Optar por um pensador ou esteta privado é não se conformar com a unanimidade burra e pusilânime da aclamação pública! Em paz, como nos campos de Haute-Engadine, vejo que o estado de enfermidade não é tão niilista assim. Assombro-me com a profunda nitidez que uma doença pode ceder à alma. Se estivesse são, estaria eu movido pela riqueza e pelo prazer, e assim, filosofando. Mas mesmo em silêncio, minha existência prossegue contribuindo para as futuras andorinhas, como sugeriu Epicuro, ao tratar de discípulos de nós cisnes. (murmura) Epicuro, ah! Foi um covarde ao associar a serenidade com o hedonismo, um estoico hipócrita, deturpando o conceito "filosofia". Contudo, porque sou tão sábio, por que sou tão esperto e por que escrevo livros tão bons, não me comparo com algum filósofo que opta por ignorar a trágica visão. Aprecio a filosofia intuitiva, colocando-me diante da experiência e da vida. Não sou homem, sou dinamite. Acendo hoje o estopim da reflexão. E é por renegar os dogmas e religiões, deixando de olhar para o que foi, mas antevendo o que será, que me apresento: Friedrich Nietzsche, o anticristo! O anticristo!
JESUS CRISTO (Voz em off): Um!
FRIEDRICH NIETZSCHE: (reclama) Ai, de novo não...(tom) Ora, quem ousa invadir com vozes a minha reflexão?! Sou o anticristo!
JESUS CRISTO: Um dos uns! Apenas mais um!
FRIEDRICH NIETZSCHE: Oooooooooooo!!!!!!!!
 
ACAREAÇÃO
Quarto de Nietzsche
 

CENA III

 
A cama em que Friedrich Nietzsche está deitado gira. Em um momento, para subitamente, com iluminação focal em baixo do estrado do colchão. Local este de onde sai a voz de Jesus Cristo.
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: (brada) Alucinação covarde! Aproveita de minha situação debilitada para me aprisionar, ou tentar me aprisionar, como fez com o desangelista Paulo!
JESUS CRISTO (voz em off): Não vim para sãos, mas para pecadores ao arrependimento.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Alucinação que se apodera de trechos insanos, ditos sagrados de um Deus imaginário de Israel tornado coisa em si, jamais me acometerão! Não sou o alucinado Paulo! Já falei!
 
Jesus Cristo aparece deitado, debaixo da cama.
 
JESUS CRISTO: Duro é recalcitrar contra os aguilhões! Ages de forma semelhante ao que tu mais criticas.
FRIEDRICH NIETZSCHE: (tapando os olhos) Já que me compara com esse vil difusor da castidade cristã, me faça cego com ele!
JESUS CRISTO: Não o fiz cego. O Pai o tornou momentaneamente. E tu só estás em silêncio, para ser, finalmente, luz.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Atribui o meu momento de elevação, redenção e alheamento em mim ao fato de querer me contaminar com essa luz que tenta ofuscar a autoestima!
 
Jesus sai de baixo da cama e se levanta.
 
JESUS CRISTO: Sei que relutarás contra o sal da terra...
FRIEDRICH NIETZSCHE: O qual amarga o sabor sempiterno insosso, par excellence, do paladar humano, demasiado humano!
JESUS CRISTO: Pensas que o nosso Pai é mau por tu teres perdido os teus movimentos. Contudo, sabes que Ele é bom.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Sei apenas para concluir que tudo isso não é para se saber! Como dizia o meu Zaratustra, primeiro sou camelo, depois, leão. Enfim, sou criança, o triunfo de uma nova concepção!
JESUS CRISTO: Para antes, como camelo, sobrecarregar-te do aprendizado para depois, como leão, reteres todo conhecimento para se achar o maior dos animais. Finalmente, seres criança para purificar-te de todo o conhecimento errôneo. Gosto de saber que possui o mesmo gosto por parábolas e apólogos como eu. Proponho que também gostes de ser criança na malícia!
FRIEDRICH NIETZSCHE: Como poderia algo nascer do seu oposto? Ser criança, para mim, é ser supostamente o mau, tão renegado e estereotipado por seu metafisicismo extramundano!
JESUS CRISTO: Já percebi que tua astúcia é usufruir das expressões vocabulares de efeito para se fazer dono da razão. É de se esperar, tratando-se de um filólogo. Aceito o combate! Todavia, me apodero da seguinte arma: a simplicidade do amor. Lembra-te que Deus apanha o sábio em sua própria astúcia.
FRIEDRICH NIETZSCHE: O que não se tem não apanha ninguém.
JESUS CRISTO: Não digas isso. Trará a lume uma contradição. Muitos de seus ressentimentos são objetos de algo que tu não tens! E te apanhou em cheio!
FRIEDRICH NIETZSCHE: Não obscureça meu entendimento. (à parte) Isso é tipo da mesquinharia cristã. Deixar vago um ensinamento para parecer inteligível aos que possuem discernimento espiritual. (escarnece) "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça..."
JESUS CRISTO: Se preferes ver, como Tomé, não seja por isso! Deixar-te-ei sozinho, com seus pensamentos.
 
Jesus Cristo sai de cena.
 
 
FINALMENTE, LÁGRIMAS
(Pensamento de Nietzsche)

 

CENA IV
 
O palco, que esteve na cena 3 iluminado, escurece. Nietzsche adormece, mas contorce a expressão a cada fala dos personagens Lou Andreas Salomé , Cosima Wagner e o barão Heinrich von Stein, que entrarão em cena. Focos luminosos móveis acompanharão somente o semblante dos personagens. A cama de Nietzsche está no centro do palco. A primeira, posiciona-se ao lado da cama de Nietzsche, enquanto que os outros, na extremidade do palco. O jovem barão, cabisbaixo, enquanto Lou Andreas Salomé o acusa. Cosima Wagner o defende.
 
LOU ANDREAS SALOMÉ: Barão covarde!
COSIMA WAGNER: Não sabe o que dizes! O barão Heinrich von Stein é um exemplo de imparcialidade! Seguiu como fiel exemplo de meu marido Wagner e fora um sincero discípulo de Nietzsche, completamente à parte da divergência dos dois! Fora intitulado pelo próprio Nietzsche de perfeito capacitado à interpretação do Zaratustra, obra tão polêmica.
LOU ANDREAS SALOMÉ: Acuso-o de covarde por precocemente falecer! Como se estivesse afetado pelos escritos penetrantes de Nietzsche.
HEINRICH VON STEIN: Ora... Que culpa eu tenho de ter morrido? É óbvio que não foi a desistência do desafio! Quem és tu para acusar-me de fuga, Lou Andreas Salomé? Forjou uma aproximação compadecida para massagear o ego deprimido de Nietzsche, por ter este demostrado sofreguidão ao se entregar à profunda depressão por não ter tido uma desilusão amorosa por sua causa!
 
Lou Andreas Salomé se enerva. Logo após, reconhece que está acusando o barão injustamente.
 
LOU ANDREAS SALOMÉ: (suspira) Perdoe-me, Von Stein. Estou culpando a todos pelo motivo do estado deplorável d Nietzsche, querendo eximir-me da culpa. Eu não deveria ter sido tão cruel ao desprezá-lo. Entretanto, a aspereza dele contra a moral e meus planos para me tornar uma psicanalista não demonstravam compatibilidade.
COSIMA WAGNER: É melhor mesmo você reconhecer a culpa! Não despeje essa tua acusação injusta no barão Heinrich von Stein, uma das poucas esperanças de Nietzsche de ser compreendido em vida.
 
Lou Andreas Salomé olha com desdém para Cosima.
 
LOU ANDREAS SALOMÉ: Que ímpeto convicto racional é esse, Cosima Wagner. Achas livre da causa da situação agonizante de Nietzsche?
COSIMA : O que insinuas, Salomé?
LOU ANDREAS SALOMÉ: Não te faças de desentendida. Todos sabem que és tu o resquício de romantismo platônico contido em sua individualidade de Nietzsche, impedindo-o, pioneiramente, de deixá-lo continuar dele, mas fazendo-o propriedade de suas desilusões! Ou você acha que constantemente ele gritava "quero continuar meu" apenas em contraposição ao cristianismo ou à filosofia de Sócrates? É do conhecimento de todos que és tu a tão misteriosa Ariane, teu pseudônimo, que denuncia a verdadeira causa da crise existencial de Friedrich Nietzsche!
COSIMA WAGNER: Ora, não aceitarei a falsa etiologia de uma aduladora de Freud jamais!
 
Cosima Wagner e Lou Andreas Salomé se engalfinham, sendo detidas por Heinrich von Stein. Os três caem no leito de Nietzsche, sufocando-o. Um grande pano preto cai sobre os quatro, cobrindo, por completo, a cama. Cosima Wagner, Lou Andreas Salomé e o barão Heinrich von Stein saem de cena, por baixo do grande pano preto, levando-o para fora. Nietzsche se incomoda com seus próprios "pensamentos", indo, em silêncio, às lágrimas.
 
 
ACAREAÇÃO II
Quarto de Nietzsche

 

CENA V
 
As luzes, novamente, focalizam a imagem de Jesus em baixo do leito de Nietzsche. Este, ainda deitado, contorce o semblante, não permitindo que suas lágrimas fiquem à mostra.
 
JESUS CRISTO: Ainda queres negar que esse é o fardo que sempre carregaste?
FRIEDRICH NIETZSCHE: Por que se coloca a baixo do meus pés? Quer impelir-me a sentir comiseração por você, da mesma forma que fez ao lavar os pés dos apóstolos?
JESUS CRISTO: Sei que, para ti, humildade é a arma dos fracos. (suspira) Sempre fui contra a comiseração por mim. Até mesmo atribuir o fato de Pedro não concordar com a minha aceitação pela morte. Não fui um estoico Fui consciente e conformado com os desígnios de meu Pai.
FRIEDRICH NIETZSCHE: E chama Pedro de Satanás! É, Satanás! Esse mau místico inventado por vocês, para que se apropriem de pessoas sedentas de esclarecimento sobre os mistérios da vida.
JESUS CRISTO: E ainda duvidas, mesmo com minha presença?
FRIEDRICH NIETZSCHE: Torno a repetir. Estou debilitado. E como humano, demasiado humano, sou passível de alucinações! Se não posso livrar-me de você, aproveito meu momento de acareação maniqueísta: não tão maniqueísta, já que me situo além desse bem e mal proposto pelo mundo: para esclarecer questões!
JESUS CRISTO: Então confessas que as terá dirimida a partir de uma conversa comigo?
FRIEDRICH NIETZSCHE: Não é com maiêutica que irá me dissuadir! Acha capacitado para responder, porta-voz da teleologia imaginária, ou não?
JESUS CRISTO: O que for proposto, eu aceitarei. Até mesmo andar duas milhas, se me convidar para andar uma milha.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Pois bem... Por que, se és mesmo o Cristo niilista, ó imagem pseudo-cândida, pediu para que o seu Pai afastasse de você o cálice? Não afirmou juntos aos apóstolos que estava confiante da morte?
JESUS CRISTO: Quando terminamos as orações respondendo da seguinte forma, "mas que seja feita a tua vontade , não a minha", anulamos tudo aquilo dito anteriormente.
FRIEDRICH NIETZSCHE: (resmunga) Resposta vaga e previsível.
JESUS CRISTO: Mas não calei nem consenti.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Então responda esta: que Jesus bom é este que expulsa vendilhões com chicotadas?
JESUS CRISTO: Empunhar um azorrague não quer dizer que os agredi.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Evasiva pura.
JESUS CRISTO: Nietzsche, Nietzsche... Sei que a raiva, geralmente, serve para camuflar a aceitação.
FRIEDRICH NIETSCHE: Está bem. Não quero perder tempo em deixar você pensar para preparar as respostas. Lá vai outra, judeu eterno par excellence: por que mentiu ao dizer que não iria na festa dos tabernáculos?
JESUS CRISTO: Disse o seguinte: "por enquanto, eu não subo". Ou essa locução conjuntiva não tem valor?
FRIEDRICH NIETZSCHE: (à parte) Só restava agora um filólogo receber aula de gramática de um carpinteiro.
JESUS CRISTO: Alguma outra questão a ser esclarecida?
FRIEDRICH NIETZSCHE: Bem... Tenho a última cartada...É meu trunfo para presenciar o silêncio mais el shadai, mais adonai presenciado pelo povo alemão, o povo mais privilegiado, por possuir a maior quantidade de ateus, segundo Shopenhauer. (pausa) Por que se desiludiu com seu Pai ex-machina, judeu crucificado?
JESUS CRISTO: Nunca isso ocorreu. Eternamente sou grato por ter ressuscitado, por ter aberto o livro, por ter sentado a destra de seu trono...
FRIEDRICH NIETZSCHE: Então o que me diz dessa expressão: "Eloí, Eloí, lamá sabactâni"?

 

Nietzsche fica alguns momentos em silêncio, rodeando Jesus Cristo.
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Você sabe muito bem o que quer dizer! (sussurra) "Deus meu, deus meu... por que... me desamparaste? "
JESUS CRISTO: Entoava o salmo de Davi, que os homens hoje encontram nas escrituras Sagradas. É o vigésimo segundo salmo. Assim como a gíria evita um palavrão, um trecho da Bíblia se torna uma reclamação, um clamor bisado, e não um murmúrio ou uma blasfêmia. E a minha angústia veio à tona para corroborar o meu caráter humano, com emoções iguais a homens iguais a ti, mas com o poder de controlar ao máximo o ato de proferir impropérios contra Deus.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Resposta vaga, previsível, evasiva...
JESUS CRISTO: (voz branda) Friedrich Nietzsche...
FRIEDRICH NIETZSCHE: Não me importune! Selecionarei mais perguntas! Quero consultar meus livros: Aurora, O Crepúsculo dos Ídolos, O Anticristo...
JESUS CRISTO: (voz exortativa) Friedrich Nietzsche, já sentiste o amor verdadeiro?
FRIEDRICH NIETZSCHE: (ironiza) Ora, é essa a sua pergunta? Acha mesmo que as paixões personificadas em reminiscências de vida é sinônimo de vida em si? Não me foi dado o prazer de reciprocidade carnal com Cosima e Lou Andreas Salomé, mas o destino me deu o privilégio de conservar a mais maravilhosa limpidez dialética em meio aos sofrimentos produzidos pela cefalalgia. Meus vômitos são espasmos, mais naturais do que gargalhadas falsas, do que fingir um orgasmo...
 
Jesus Cristo sai de cena, olhando para Nietzsche. Ao fundo, começa a tocar o tema 1-A da ópera "Tristão e Isolda" (por exprimir "dor e aflição") de Richard Wagner. Friedrich Nietzsche se cobre, até a cabeça com seu lençol. Permanecerá assim durante toda a cena 6.
 
JESUS CRISTO (Voz em off): Já citaste trechos dos evangelhos. Citarei um trecho de um livro seu: *"Desde o momento em que tive em mãos uma partitura de piano do Tristão,... tronei-me wagneriano. As obras anteriores de Wagner pareciam-me insignificantes, vulgares, demasiado alemãs... Ainda hoje eu procuro uma ópera duma fascinação tão perigosa, tão infinitamente terrível e doce como o Tristão." Nietzsche, Nietzsche... sabes, lá no teu interior, que Richard Wagner, ou aquilo que tu, inexoravelmente, chama de "infinitamente terrível e doce", é o amor verdadeiro por um amigo. E este amor, vem de Deus!
 
 
ZARATUSTRA versus PAULO
Quarto de Nietzsche .( Sonho )

 

CENA VI
 
Friedrich Nietzsche continua deitado em sua cama, mas se movimenta com mais profusão.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Cristo, Cristo. Porque me persegue? Nem tente entrar em meu sonho. Nele eu posso recuperar o vigor. Você me esmorecerá ao adentrar nele!
JESUS CRISTO (Voz em off)– Contudo, estás me chamando. Eis que estou à porta e bato! É só me convidar para entrar.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Não o convidaria para entrar nunca, pois já entrou na Alemanha sem ser convidado, devido a esse permissivo povo alemão, que não dera cabo do malogrado padre Lutero que passou a vitorioso em Roma, crescendo em cima de seu ódio pelo Renascimento e pelo Clero.
JESUS CRISTO (Voz em off)– Não quero perseguir-te nem que persigas mais ninguém. Quero que perenemente me sigas.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Jamais serei engrenagem do niilismo. Sou forte o bastante para poder envergonhar-me de uma crença. Nunca permitirei aos meus ouvidos o vilipêndio submisso ao "tu deves". Eu posso! Eu quero continuar sendo meu!
JESUS CRISTO (Voz em off)– Já que podes tanto, será que podes...pedir?
 
Friedrich Nietzsche fica uns instantes em silêncio. Logo após, dialoga com a voz de Jesus Cristo.
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Pode ser que algo, ó voz escravista, eu peça, já que pediria a qualquer um que vence uma batalha devido a dogmas castradores, martírios persuasivos, citações sofismáveis e artimanhas desleais num confronto de idéias.
JESUS CRISTO (Voz em off)– Então peça...
FRIEDRICH NIETZSCHE: Revanche! Quero uma revanche!
JESUS CRISTO (Voz em off): Não quero entrar em embates, quero...
FRIEDRICH NIETZSCHE: Que se cumpra a promessa! Não se intitula ser a própria verdade personificada. Isso é o que afirma a "boa notícia". Não vá se equiparar à virtude animalesca de Sócrates, que ensina que os impulsos é a eterna procura de alimentos e a covarde fuga dos inimigos.
JESUS CRISTO (Voz em off): Em verdade te digo que procuro alimento para ti, mas não o tenho como inimigo. É certo que Sócrates foi falho, mas deveria imitar sua humildade...
FRIEDRICH NIETZSCHE: Como, se a única coisa que sei é que tudo sei?
JESUS CRISTO (Voz em off): Nietzsche, Nietzsche...Que tipo de revanche queres tu?
FRIEDRICH NIETSCHE: (suspira) Uma personificação do meu Zaratustra! Meu alter ego. Com os mesmos poderes de persuasão que Paulo consegui fazer você.
JESUS CRISTO (Voz em off): Achas que o apóstolo Paulo difundira, com êxito, uma falsa imagem minha, Nietzsche? Mesmo com essa tua falsa impressão, por enquanto, não o farei.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Como não? Dá-me, para ser equânime, o meu Zaratustra! Transformaste pão em vinho quando quis! Ou só se faz de prestidigitador para animar as festas?
JESUS CRISTO (Voz em off): Por enquanto, não...
FRIEDRICH NIETZSCHE: Traga junto um adversário à altura. Gostou da proposta.
JESUS CRISTO (Voz em off): Quando sabes pedir, o Pai dá! Já que soubeste pedir, tomai o que é teu!
FRIEDRICH NIETZSCHE: (à parte) Ai, as eternas tautologias... (evoca) Venha! Venha, meu Zaratustra! O juízo final ocorrerá em vida!! E agora!!
 
Zaratustra, com ar de arrogante, entra em cena vindo de cima, por meio de cordas amarradas em seus membros. Quando chega ao palco, um crucifixo de madeira: que, para o público, aparenta ser a guia de uma marionete, amarrado à corda que sustentava Zaratustra: cai nas mãos de Nietzsche. Este, ao desatar as cordas que ligavam a cruzeta aos membros de Zaratustra, a despreza. Da própria cama, arremessa a cruzeta para fora de cena. Zaratustra permanece estático.
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Quem precisa dessa cruz é o Deus que mantém o seu sempiterno títere Jesus ao seu domínio. (entusiasma-se) Agora que meu Zaratustra ganhou vida, posso me preparar para o descanso merecido. (anuncia, apontando para Zaratustra) Zaratustra, aquele que veio de cima, sem necessariamente ter vindo dos céus! E agora, judeu da antiguidade? Quem trará para a batalha? O Pai, o Espírito Santo, ou o fará pessoalmente?
 
Jesus Cristo entra em cena, olhando para o público.
 
JESUS CRISTO: Não. Opto por trazer à memória simplesmente os escritos de um vaso escolhido. Escritos de um homem que assolou a Igreja, mas que se redimiu. Saulo, Saulo! Vem como epístolas de Paulo de Tarso. Um vaso usado por Deus para compor a espinha dorsal do Novo Testamento.
 
Jesus bate com as palmas das mãos e posiciona-se atrás do leito de Friedrich Nietzsche. Ambos permanecerão estáticos durante o restante da cena. Jesus Cristo de pé. Nietzsche, porém, caído e adormecido. Paulo, que estava situado entre o público, caminha em direção ao palco. Zaratustra e Paulo se posicionam de frente para o público. Paulo, ao se posicionar ao lado de Zaratustra, permanece estático como ele durante alguns instantes. Soa um gongo, para o início da declamação responsiva de ambos.
 
VOZ FEMININA EM OFF: Primeiro Round! Defensiva ostensiva de si próprio!
ZARATUSTRA: (olhando para o público) * "Ó, homens superiores, que vos parece? Sou um adivinho? Um sonhador? Bêbado? Um decifrador de sonho? Um sino de meia noite?
Uma gota de orvalho? Um vapor e perfume de eternidade? Não ouvis? Não sentis o aroma? Meu mundo acaba de se consumar, meia noite é também meio dia: a dor é também prazer, a maldição é também uma bênção, a noite é também um sol: ide embora ou aprendei: um sábio é também um parvo. Disseste alguma vez sim a um prazer? Oh, meus amigos, então disseste sim a toda dor. Todas as coisas estão encadeadas, enoveladas, enamoradas, - quisestes alguma vez uma vez duas vezes, falastes alguma vez "tu me agradas, felicidade! Vem! Instante!", então quiseste tudo de volta! Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, enovelado, enamorado, oh, então amaste o mundo: vós, eternos, o amais eternamente e todo o tempo: e também à dor vós falais: possa, mas retorna! Pois todo prazer quer: eternidade!"
PAULO DE TARSO: (olhando para o público) ** "Eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto que a lei é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não , porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante a o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus ombros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira nenhuma que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado."
VOZ EM OFF MASCULINA– Segundo round. Ofensiva incisiva na filosofia alheia.
ZARATUSTRA: (encara Paulo) * "Ó, sentimentais hipócritas, ó mentirosos! Falta-vos a inocência do desejo, e agora caluniais por isso o desejar! Em verdade, não é como os que criam, os que geram, os que têm prazer no vir-a-ser que amais a terra! Onde há inocência? Onde há vontade de gerar. E quem quer criar para além de si, este tem para mim a mais pura das vontades. (...) Vontade de amor: isto é, estar disposto também para a morte. Assim eu falo aos covardes que sois!"
PAULO DE TARSO: (olhando para o público, ignora Zaratustra) ** "Não ousamos classificar-nos ou comparar-nos com alguns que se louvam a si mesmos; (aponta para Zaratustra) mas eles, medindo-se consigo mesmos, revelam insensatez."
VOZ EM OFF FEMININA: Terceiro round. Dicotomia convidativa à sabedoria.
ZARATUSTRA: (olhando, entusiasmado, para o público) * "Vontade de Verdade" é como se chama para vós, ó mais sábios, o que vos impele e vos torna fervorosos? Vontade de que seja pensável tudo o que é: assim chamo eu vossa vontade! Quereis antes tornar pensável tudo o que é: pois duvidais, com justa desconfiança, de que seja pensável. Mas deve adaptar-se e curvar-se a vós! Assim quer vossa vontade! Liso deve ele tornar-se, e submisso ao espírito, como seu espelho reflexo. Essa é toda a vossa vontade, ó mais sábio dos sábios, como uma vontade de potência; e mesmo quando falais do bem e mal e das estimativas de valores."
PAULO DE TARSO: (senta e fecha os olhos, suspirando) ** "A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos. Portanto, ninguém se glorie nos homens..."
ZARATUSTRA: (interrompe-o com arrogância) * Pois bem! Esta é minha prédica para os seus ouvidos: eu sou Zaratustra, o sem-Deus, que fala: "Quem é mais sem Deus do que eu, para que eu me alegre com o seu ensinamento?" Eu sou Zaratustra, o sem-Deus: onde encontro meu semelhante? E são meus semelhantes todos aqueles que dão a si próprios sua vontade e se desfazem de toda a resignação. Eu sou Zaratustra, o sem-Deus: e ainda me cozinho todo acaso em minha panela. E somente quando ele está bem cozido eu lhes dou boas vindas, como minha comida." (abaixa e ri, sarcasticamente)
PAULO DE TARSO: (levanta e olha para o público) ** Embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando nós, sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completada a vossa submissão."
VOZ EM OFF MASCULINA: Entre nós não há favoritos, mas escolhidos!
VOZ EM OFF FEMININA: E nossa vida é o round final!
ZARATUSTRA: (sorri) * "Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade
- assim Zaratustra a ensina a vós. Não-mais-querer e não-mais-estimar e não-mais-criar! Ai, que esse grande cansaço fique sempre longe de mim! Também no conhecer sinto somente o prazer de gerar e de vir-a-ser de minha vontade; se há inocência em meu conhecimento, isso acontece porque há nele vontade de gerar. Para longe de Deus e deuses me atraiu essa vontade; o que haveria para criar, se deuses: existissem! Mas ao homem ela me impele sempre de novo, minha fervorosa vontade de criar; assim o martelo é impelido para a pedra. Ai, vós humanos, na pedra dorme para mim uma imagem, a imagem de minhas imagens! Ai, que ela tem de dormir na mais dura, na mais feia das pedras! E meu martelo se enfurece cruelmente contra essa prisão. Pedaços da pedra pulverizam-se; o que me importa isso? Consumar é o que quero: pois uma sombra veio a mim: de todas as coisas o mais silencioso e o mais leve veio um dia a mim! A beleza do além-do-homem veio a mim como sombra. Ai, meus irmãos! Que me importam ainda: os deuses! Assim falou Zaratustra!"
PAULO DE TARSO: Não pretendo aqui dizer-lhes sobre as minha experiências em prisões, pois não almejo dissuadi-lhes pela dor. Quero dizer apenas que também **"expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; mas, como está escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam."
 
Soa o gongo. Paulo de Tarso e Zaratustra caem. Uma intensa luz, proveniente do palco, ofuscará a visão do espectador. Enquanto isso, Paulo de Tarso e Zaratustra saem se arrastando do palco.
 
 
RESISTÊNCIA NIETZSCHIANA
Quarto de Nietzsche

 

CENA VII
 
O soar dos gongos fazem com que Nietzsche desperte. Jesus, que estava estático, volta a se movimentar.
FRIEDRICH NIETZSCHE: (curioso) O que houve? Estava vendo com nitidez o meu sonho, mas uma névoa impediu que eu continuasse divisá-lo. Como foi o embate?! Meus Zaratustra superou o ódio de chandala ou se contagiou pelo inventor do cristianismo?
JESUS CRISTO: Insistes em interpretar o início de minha era como a difusão das supostas "fábulas paulinas", denominação esta segundo a tua concepção.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Fábulas paulinas sim! Óbvio e notório! Somente com interpretações e avaliações além-humanas , surgirão novas posições hierárquicas. Somente com o "voo da águia", ou seja, uma visão mais intuitiva e panorâmica. Não sou como Sócrates, que teve ojeriza pelo trágico. Sou capaz de entender o lógico-racional do trágico. Não sou como você, Jesus Nihilist, que apregoa a vida terrestre como algo provisório. Se me apego as inversões, é porque troco de superfícies para angariar novas estruturas, que não sejam místicas e platonistas.
JESUS CRISTO: Uma razão para cada um? Isso não dá certo. O conflito de Paulo de Tarso e Zaratustra não foi visto pelos seus correligionários, e sim por indivíduos imparciais. Aqueles que analisaram os escritos de ambos e tomaram suas conclusões através de avaliações prudentes.
FRIEDRICH NIETZSCHE: A prudência é a capacidade de cada um distinguir o que convém. Para mim, o que convém é a vontade de potência de Dioniso.
JESUS CRISTO: Mas há o que pode. Para que adicionar ao que pode o que não se pode.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Para tudo poder e tudo criar, ora. Sem isso, os homens se tornam castrados e pusilânimes.
JESUS CRISTO: A separação de um pai torna o homem pusilânime.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Não sou fraco pela perda do meu pai!
JESUS CRISTO: Teu pai foi pastor. Teu pai está na glória. Ele gostaria tanto que tu completasses os estudos de teologia para que tu fosses livre.
FRIEDRICH NIETZSCHE: E o que isso me libertaria? Apenas me encarceraria à inveja de homens que podem desfrutar da alegria terrestre sem culpa.
JESUS CRISTO: Paulo disse que quem crê em mim terá salvo a sua casa. Não será diferente com a casa de teu pai. Você é a casa de teu pai.
FRIEDRICH NIETZSCHE: Fui um tijolo que se desarraigou dessa edificação decadente. Meu pai era bom, mas era mórbido.
JESUS CRISTO: E tu o estás. A doença incomoda sim, mas eu levei sobre mim a tua enfermidade.
FRIEDRICH NIETZSCHE: E por causa disso, eu tenho que ver virtude em resignação. Senhor Jesus Cristo! Atenção! Não uso a forma de tratamento "senhor" por reverenciar-lhe, mais para demonstrar totalmente falta de interesse em ter intimidade com o senhor! Não abri a porta para que o senhor ceasse comigo. Saia de minha consciência, pois não a tenho para dar ouvidos a proposta de mitos que prometem a salvação de alma. A força está nos homens que repudiam a arbitrariedade do cristianismo em alterar o significado de determinadas palavras. A palavra bom, em latim, significa bônus, É "guerreiro"! A vida é uma guerra! Estamos fartos de terras prometidas que não vemos!
JESUS CRISTO: (animado e sorridente) Chamaste a mim de senhor. Já é um começo.
FRIEDRICH NIETZSCHE: (furioso) Saia! Saia! Saia! Saia!
Jesus Cristo sai de cena, enquanto Nietzsche rasga seu lençol.
 
IMAGENS
(Quarto de Nietzsche)
 

CENA VIII

 
É executada ao fundo o tema nº 1-B da ópera "Tristão e Isolda" (por designar "desejo"), de Richard Wagner. Nietzsche está sentado na cama, com o olhar ao relento. Atrás, um quadro seu, ilustrando sua posição cênica (um quadro de Bettman Arckive). Por meio de uma corda, o quadro se eleva, sendo que atrás dele está um espelho, ficando este exibido para o público. De mesma maneira, o espelho é elevado. Seguindo a sequência, fica à mostra uma minitela cinematográfica, onde são exibidas cenas de, respectivamente, um camelo, um leão e uma criança. Essa criança, bem vestida e de pele clara, retrata a infância de Friedrich Nietzsche, sendo transmitida concomitante à narração de uma voz em off masculina.
 
VOZ EM OFF MASCULINA: Friedrich Nietzsche nasceu em Rocken, na Prússia. Era um menino amado. Agora, não é mais amado, e sim idolatrado. Escolheu um patamar elevado e se afastou do sentimentalismo afeminado. Uns não se incomodam e assumem a dependência de surtos emocionais; outros, como Nietzsche, demonstram execração a eles, em defesa de sua força.
 
 
PRÉ-MORTE NIETZSCHIANA
(Quarto de Nietzsche)
 

CENA FINAL

 
Elisabeth, irmã de Friedrich Nietzsche, entra no quarto de Nietzsche, trazendo uns livros na mão. Ele continua deitado, mais paralisado e com o semblante mais sisudo.
ELIASABETH: (à parte) Enfermeiro Lothar! Enfermeiro Lothar! Ai, onde está esse jovem enfermeiro de Leipzig que não aparece. Só está aqui mesmo por ser de família conhecida da de meu pai. Meu irmão está aí, entrevado numa cama devido a essa paralisia progressiva que o acometeu. Sei que ele não gosta do meu marido, mas seus escritos combinam tão bem com o antissemitismo do meu amor... Lothar! Onde está você, Lothar?
 
O jovem enfermeiro Lothar entra em cena.
 
ENFERMEIRO LOTHAR: Chamou-me, senhora Elisabeth?!
ELISABETH: Sim, Lothar. Cuide de Nietzsche enquanto vou encontrar-me com meu marido Herr Forster. Mostrarei alguns escritos de meu irmão para ele.
 
Elisabeth sai de cena. Lothar coloca sobre a fronte de Friedrich Nietzsche um pano úmido, já que o filólogo sua em demasia.
 
ENFERMEIRO LOTHAR: Como está passando, senhor Nietzsche? (não obtém resposta) Sei muito bem como está passando. Revoltado com sua irmã, que quer transformá-lo num difusor de idéias antissemitas É, senhor Nietzsche. Seus livros foram bastante deturpados. E eu queria dizer-lhe que seria melhor que o senhor seguisse os conselhos de seu pai, o Pastor Karl Ludwig. Meu pai dizia que ele pregava com tanto fervor que chegava a vir às lágrimas. Gostaria de conhecê-lo. Contudo, não só conheci o gênio filho dele como estou tendo a oportunidade de despertar o arrependimento nesse momento que é o mais reflexivo da vida de um homem: o da morte. Escute, senhor, pois sei que está escutando, já que a audição é último órgão sensorial a ser perdido. O senhor que me ensinou isso, quando eu era ainda um menino e ficava perturbando o senhor e meu pai, quando vocês serviam de enfermeiro na guerra contra a França. Pois bem (olha ao redor, verificando se há alguém na casa) Escute... O pastor de minha igreja disse-me que eu tenho o dom da profecia. Pois profetizo que suas obras, senhor Nietzsche, servirão de pretexto para fortalecer ainda mais o sentimento antissemita do povo alemão, sentimento este tão odiado pelo senhor! O terceiro Reich será comandado por um desvairado que assolará o mundo, e terá como base ideológica muitos de seus escritos. Ele, como senhor, será conhecido como o anticristo, apesar de não ser o, mas apenas um anticristo. Deturpará sua obra e assombrará o mundo. (sussurra) Senhor Nietzsche... aceite a Jesus... aceite a Jesus...aceite a Jesus...
Lothar sai de cena. Friedrich Nietzsche com muita dificuldade, e se debatendo na cama, brada, agora articulando as palavras.
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Já não quero mais ser dinamite!
 
Barulho de bombas explodindo
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Já não quero mais ser dinamite!
 
Barulho de bombas explodindo
 
FRIEDRICH NIETZSCHE: Já não quero mais ser dinamite!
 
Friedrich Nietzsche, ao gritar, sai de cena, e os barulhos de bombas prosseguem. Livros de Nietzsche são jogados no palco, simultaneamente aos estrondos das bombas. Cessam os estrondos. Jovens entram no palco, se apoderando dos livros e examinando-os, com diversificadas expressões faciais.
 
Fim
 
Glória a Deus!

 

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