Cá Entre Nós

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Bernardina imigrou para os Estados Unidos em busca de conforto e estabilidade. Ela começa sua trajetória trabalhando como faxineira e apoiada no senso de humor sarcástico, vai vencendo a barreira do idioma e desbravando seu caminho.

É corajosa, fala o que pensa, mas mantém as amizades num nível superficial. Faz do cigarro e da bebida companheiros inseparáveis.

As colegas de apartamento, Arlete e Helena, recebem estudo bíblico em casa, ministrado por Simone.

Arlete tenta promover um encontro entre Bernardina e Simone, mas Bernardina não quer saber de intimidades com os crentes, gente por quem não tem a menor simpatia. Helena, por sua vez, se empenha em falar de Bernardina para Jesus, sempre intercedendo por ela.

Alheia ao que acontece no mundo espiritual, Bernardina se torna vulnerável e o envolvimento indireto às visitas de Simone é inevitável. O encontro entre as duas acontece naturalmente. Logo em seguida Bernardina recebe um telefonema do Brasil que a deixa aturdida. A noite, sozinha em casa, ela se rende e abre o coração para Jesus.

A comédia propõe mostrar a ligação entre o mundo espiritual e o mundo material e as influências que recebemos quando fazemos essa conexão. Durante os ensaios alguns dos personagens ganharam as características dos atores (foram personificados) e o texto foi re-editado com essas características. Cá Entre Nós foi apresentada pela primeira vez pelo grupo de teatro Monte Sião, em Orlando FL. em 07/07/07.

NOTA

Comentários e sugestões são bem-vindos. Em caso de adaptações, montagens e apresentações, entre em contacto com a autora. Maria White

Personagens

Bernardina

Kristin

Arlete

Helena

Simone

Anjos

Demônios

O Mestre Jesus

Satanás

 

 

Ato l

 

Durante todo o decorrer da peça, Bernardina tosse muito, sugerindo uma doença pulmonar em fase de desenvolvimento. Ela é fumante e expõe a carteira de cigarro sempre que é possível. Também bebe bebida alcoólica disfarçada numa garrafinha de moca que ela carrega na pochete, bem como de uma garrafa que ela mantém escondida embaixo da mesa.

Cena 1

Casa da Ana Célia

(Dois demônios estarão em cena com Bernardina, instigando-a a beber e a fumar)

Bernardina–(Chegando para trabalhar) Ana Célia! Ana Célia! (para a plateia)Hoje ela não está em casa, ah que bom! (atraída por uma garrafa de bebida alcoólica deixada sobre a mesa). Isso não estava aqui na semana passada. Absinto! Veio do Brasil. Será que é bom? Vou experimentar, só assim eu fico sabendo. Muito bom. (largando a garrafa) Hoje vou poder trabalhar sossegada…(para, pensa e completa) depois que o telefone tocar. Sim, porque dentro de dois minutos no máximo ela vai ligar prá saber se eu cheguei na hora certa. (imitando a patroa) Oi Bernardina, sou eu, Ana Célia, tudo bem com você? (o telefone toca) Não falei? Aposto como é ela. Alô… tudo bem e você? Você vai chegar tarde… Pode deixar que eu faço um sanduíche de atum prá mim… Claro que eu não vou esquecer de trancar a porta quando eu sair… (fazendo caras e bocas) ahã… ahã… tchau… Capivara fedorenta! (Capivara é um mamífero roedor de grande porte. Fedorenta: que exala fedor)(para a plateia) Daqui a duas horas ela vai ligar outra vez prá saber se está tudo bem. Fica me vigiando mesmo de longe. Acha que porque ela não está em casa eu vou me deitar, dormir e deixar o serviço por fazer. Como é ingenua! E quando está em casa não me deixa trabalhar, me pega de conversa e se esquece da vida. No começo eu era bobinha, ficava até mais tarde e terminava todo o meu trabalho antes de sair, mas depois fiquei sabida. O que deu prá fazer foi feito, o resto fica prá próxima. É claro! Ela me paga prá ficar aqui por cinco horas. Sete dólares por hora. Trinta e cinco dólares por dia. E acha que está pagando super bem. (imitando a patroa) Ah, porque lá no Brasil empregada doméstica… (respondendo) Filha eu não sou empregada doméstica e já deixei o Brasil prá trás faz meia década. (para a plateia) Que mania essa gente tem de ficar comparando lá e cá. Ela queria que eu usasse uniforme e tudo. Me veio com aquele vestido horroroso, amarelo cor de gema de ovo de avestruz. (como se fosse a patroa) Olha que lindo, comprei prá você. (respondendo) Ana Célia, uso não, me desculpe mas não vou me enfiar nisso aí é nunca. (na pele da patroa outra vez) Mas porque Bernardina, é tão bonito!? (explicando para a plateia) Porque eu não sou empregada doméstica, ora bolas! Eu só estou fazendo esse tipo de trabalho porque eu estou ilegal no país e também porque eu não sei falar inglês, mas isso é temporário, não vai durar prá sempre. Eu não vim para essa terra cheia de oportunidades prá fazer carreira de housekeeper (housekeeper: faxineira). Eu me recuso a andar na contra-mão. Será que é assim tão difícil de entender? (como se estivesse diante da patroa) Ana Celia, é amarelo demais para o meu gosto. (como se fosse a patroa) Ah, eu pensei nisso, que você podia não gostar da cor, daí eu comprei esse azul, assim você pode escolher. (impaciente, como se estivesse falando com a patroa) Ana Célia eu não vou usar uniforme prá trabalhar na sua casa. (a patroa ainda insiste) Bem, eu vou deixar aqui. Experimente-os pelo menos, caso você mudar de ideia… (cortando-a) Eu mudar de ideia? É mais fácil cachorro falar.

Demônio–Berna, esquece essa mulher. Não acha que um cigarrinho pega bem agora?

Bernardina–Essa mulher me deixa pinel, troncha das pernas viu?(troncho: mutilado, torto) Eu vou é lá fora fazer uma fumacinha.

Bernardina sai de cena enquanto uma música enche o espaço vazio. O palco fica na penumbra para a troca de cenário.

 

 

Cena 2

Casa da Kristin

Manhã de inverno

Bernardina e Kristin

Dois demônios estarão em cena instigando as duas a brigar

 

Bernardina entra demonstrando desconforto por causa do frio que faz lá fora. A patroa vem recebê-la. Durante a cena, Kristin está mais interessada em falar do que ouvir, por isso movimenta-se de um lado para outro sem dar muita importância aos ‘à parte’ de Bernardina.

Kristin–Good morning, Bernardina!

Bernardina–Good morning, (à parte) chata de galocha.

Kristin–How are you doing today?

Bernardina–Goooood. How are you?

Kristin–I’m great! You know, last week you did such a good job cleaning my garage. It looks nice and neat now.

Bernardina–Eu estava de muito bom humor, foi isso.

Kristin–I appreciate it, thank you very much. So, for your hard work, I’m going to give this little gift. (Kristin handed her an old picture frame)

Bernardina–Thank you!

Kristin–You are very welcome.

Bernardina–Fala sério, você está me dando esse peça rara só porque eu limpei bem a garagem na semana passada? (à parte) Eu mereço!

Kristin–Did you like it? I thought you would so. From now on, every time you do a good job, I’ll give you some little gifts like this. How does that sounds?

Bernardina–(riso amarelo) Se é que eu entendi direito você tá me perguntando se eu gostei dessa peça típica de brechó (Brechó: Comércio de roupas e artigos usados, de segunda mão)e o que eu acho de iniciar uma coleção dessas raridades que você planeja me dar doravante. Fala sério! Seguinte: Esse tipo de comércio não é meu forte, mas eu tenho uma amiga, a Filomena, que adora entulhar velharia (Velharia:traste ou objeto antigo) na garagem. Isso aqui vai ser muito útil prá ela, pode crer.

Kristin–Speak in English Bernardina, the more you practice, the more you learn.

Bernardina–É até bom eu não falar, porque senão eu vou começar a dizer coisas que você não vai gostar de ouvir. Bruaca. (Bruaca é uma bolsa de couro para transportar mercadorias)

Kristin–I like that name, it sounds so sweet. If I get pregnant with another girl, I will name her Bruaca. Bruaca! What a wonderful name!

Bernardina–Será que eu entendi bem? Você não existe, te inventaram. (à parte) Cala-te boca.

Kristin–Today I need you to clean the windows outside.

Bernardina – No, me no work outside. Very cold! Very cold!

Kristin–Well, It is going to warm up.

Bernardina–Neh neh, no today. Very, very cold!

Kristin–Okay, we can put it aside for now. Let me think about something else for you do do, because I need this house shinning before mom’s arrival.

Bernardina–Aquela pangaré do Michigan outra vez aqui? Eu devo estar sonhando, me acorda gente. (Pangaré é um cavalo ou mula muito ordinário, cuja cor do pelo é de um tom amarelado)

Kristin–My kitchen cabinet’s door! Yes, you can polish them today. They need to be done anyway, (saindo) how come I didn’t think about that? Thank you!

Bernardina–(imitando a patroa) As portas dos armários da cozinha! Você pode polí-los hoje. Isso precisa ser feito de qualquer modo. Como é que eu não pensei nisso antes? E essa espevitada (Petulante)quer que eu faça todo o meu trabalho, mais o extra, sim porque lustrar porta de armário é extra, em quatro horas. (para a plateia) Ela exige que eu faça o meu trabalho em quatro horas. Essa mulher não tem noção de tempo, nem de tamanho, nem de quantidade, nem de nada. Se pelo menos essa casa fosse mais organizada, mas com toda essa bagunça milagre é impossível de acontecer. Olha ai, nem sei por onde começar.

Kristin–(voltando de mau-humor) Bernardina, listen to me, last week you didn’t clean underneath my daughter’s bed, so today I need you to move all her toys and vacuum every corner of her bedroom.

Bernardina–(repetindo o que a patroa falou) Bernardina, semana passada você não limpou embaixo da cama da minha filha… (perdendo a paciência e usando as próprias palavras) hoje arreda tudo que é cacareco (Cacareco:trastes e utensílios velhos) embaixo da cama, e limpa cada esquina do quarto daquela menina... traquina. (pensa) Rimou!

Demônio–Você não vai engolir os desaforos dessa tonta, vai? Fala prá ela tudo que está atravessado na sua garganta, vai cospe fora de uma vez.

Bernardina–(retomando a ira)Não, essa não desce pela minha goela nem forçando a barra. Escuta aqui madame de meia tigela, o meu sangue esquentou, já está subindo e fazendo coágulos aqui na minha artéria, a carótida. Mas eu não vou deixar você me provocar um enfarto agudo do miocárdio e muito menos um derrame cerebral só porque eu não sei falar inglês. Isso é sério, você está me entendendo? Não? Não tem problema, porque eu vou falar de qualquer jeito. Você é muito bagunceira. Eu sei trabalhar ouviu, não gosto de limpar casa mas eu limpo, prá defender o meu dim-dim. Agora, nenhuma empregada é boa quando a patroa não presta.

Demônio–Fala mais, fala mais.

Bernardina–E digo mais: Quando eu me espalho, ninguém me junta. Prá mim chega. Eu não trabalho mais prá você. Meus lindos pezinhos não pisam mais nesse carpete horroroso e fedorento. Arranje outra trouxa prá te aguentar porque eu estou caindo fora. E tenho dito.

Kristin–I don’t understand Spanish.

Bernardina–Nem eu. Isso é português. Passe bem.

Kristin–Why she was so mad?

Cena 3

Logo depois em casa com Arlete, a roommate

Dois anjos estarão presentes nessa cena, um com Arlete e outro com Simone

Um demônio acompanha Bernardina

 

Arlete–(ajeitando a Bíblia na mesinha) A Simone já deve estar chegando. Deixa eu ver se está tudo certo. Ah, está faltando água. A Simone bebe muita água. (Sai e volta em seguida com uma jarra de água e copos).

Bernardina–(entrando) Cara de coruja seca! Surucucu de canoa! (Surucucu é uma cobra venenosíssima)

Arlete–Bernardina! Você em casa assim tão cedo? Algo errado?

Bernardina–Não, imagina, tudo certo. Simplesmente mandei aquele americana metida a madame procurar a turma dela.

Arlete–É mesmo? Mas porquê?

Bernardina–Aquela mulher não existe, foi inventada. E quem inventou, colocou parafuso demais no crânio dela. Sabe o que ela queria que eu fizesse hoje? Primeiro queria que eu limpasse as janelas lá do lado de fora nesse frio doido. Eu ainda estou no meu juizo perfeito, boneca. 38 graus Fahrenheit, de jeito nenhum. Imagina, eu acostumada com aquele solão bonito, quentinho lá de Goiânia… (pausa breve) você é goiana que nem eu, não é?

Arlete–Sou sim.

Bernardina–Então, você sabe do que eu estou falando. Ela queria que eu ficasse exposta nesse frio cortante limpando janela. Tá maluca santa? Depois enfezou e veio com uma de que eu não limpei direito o quarto da filha… Meu sangue ferveu e eu supitei. Ah, me deu essa tralha (tralha:cacareco) aqui (mostrando o porta-retrato) porque eu fiz um bom trabalho na garagem dela semana passada. Olha bem, não parece coisa de brechó? Agora olha pra mim. Eu lá tenho cara de brecholina? Eu me chamo Brecholina? Não. Meu nome é Bernardina C. Tibúrcio.

Arlete–Bernadina de quê?

Bernardina–Tibúrcio.

Arlete–E o ‘C’?

Bernardina–O ‘C’ você esquece. Mas voltando cá para o nosso assunto, eu trouxe essa tralha aqui porque vou dar prá Filomena. Sabe aquela minha amiga que adora fazer garage sale (Garage sale: bazar na garagem. Costume típico do americano para se desfazer de objetos usados.) prá levantar uma graninha quando fica atolada em dívidas? Aliás quando não, ela está sempre atolada.

Arlete–Sei, sei.

Bernardina–Então. Nem vem que não tem, rodei a baiana mesmo.

Arlete–Essa eu queria ter visto.

Bernardina–Queria não, a coisa foi feia. Eu cuspi marimbondo.

Demônio–Com o meu empurrão a Berna deu um show.

Arlete–Você está muito nervosa, vou pegar um copo de água prá você se acalmar.

Bernardina–Trás com adoçante, viu?

Arlete–(sem entender) Água com adoçante?

Bernardina–Você não disse que vai pegar água prá me acalmar? Você não vai me enfiar água com açúcar de jeito nenhum, minha querida, olha só os pneus aqui, (mostrando as gordurinhas abdominais) estou de regime. Só bebo se for com adoçante.

Arlete–Já entendi, vai água pura então, que é melhor ainda. Mas heim, nada acontece mesmo por acaso. Sabe quem está vindo ai?

Bernardina–Nicolas Cage?

Arlete–(rindo)Não Bernardina, a Simone.

Demônio– Que fora! Por essa eu não esperava.

Bernardina–Não me diga!Que bacana!Então você é amiga da Simone? Minha cantora favorita. (cantando) Só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz, só o que me cega, o que me faz infeliz é o brilho do olhar que eu não sofri…

Arlete –Ai Bernardina, essa confusão toda com a sua patroa não fez bem à você.

Bernardina–Fez sim, eu precisava me descarregar. Desobstruir a carótida.

Arlete–A Simone que eu falo é a moça que está me dando o estudo bíblico. Eu falei de você para ela e é claro ela quer muito te conhecer.

Bernardina–Hoje não Arlete, depois que rodei a baiana com aquela Americana… Ih, não sou poeta mas sei fazer rima… eu quero mais é ficar sozinha.

Demônio–Assim é que se fala Berna. Eu sabia que você não ia me decepcionar.

Arlete–Mas vai te fazer um bem enorme cinco minutos com ela, especialmente depois de ter se descarregado com essa sua patroa.

Demônio–Você não vai deixar essa aí te engrupir, (enganar, enrolar) vai Berna?

Bernardina–Não! Eu não quero Arlete, eu realmente não gosto de crente. Ih, rimei de novo. Será que eu devo começar a fazer poesia em vez de escrever peça de teatro? Vou pensar seriamente no assunto.

Batem à porta.

Arlete–Deve de ser a Simone.

Bernardina–(saindo) Pode ficar à vontade com ela porque eu vou fazer minhas rimas lá no quarto.

Arlete–Espere aí, Bernardina!

Demônio–Que espera que nada, sai fora.

Bernardina–Neh, neh.

Arlete vai receber a visitante.

Arlete–Simone, entre. Tudo bem?

Simone–Tudo ótimo. E você, como passou a semana?

Arlete–Bem. Ah falei com Helena e já acertamos tudo.

Simone–Ótimo. Quando ela se muda?

Arlete–No final da semana que vem.

Simone–Fico contente de saber. E Bernardina?

Arlete–A Bernardina está em casa, mas acho que ainda não vai ser hoje que vocês vão se conhecer. Ela está muito agitada. Pelo que entendi, brigou com uma das patroas.

Simone–Temos que ter paciência. O Senhor vai preparar o momento certo para nós nos conhecermos, eu tenho certeza. Vamos então começar o nosso estudo de hoje?

Arlete–Claro. Quando você quiser.

Simone–Então vamos orar. Senhor, obrigado…(Oração espontânea)

Simone e Arlete iniciam o estudo bíblico. Bernardina volta à sala pé ante pé para buscar a blusa de frio que deixou na cadeira, cuidando para não ser vista por nenhuma das duas. Depois que ela consegue pegar a blusa fica ao fundo ouvindo o estudo com ar de interesse e curiosidade. As falas estarão encobertas por uma música significativa. Os anjos estarão em destaque nessa cena, a qual deverá ser apagada sutilmente com o cessar gradativo da musica.

Cena 4

Bernardina ao telefone e depois Helena

Um anjo acompanha Helena

Dois demônios estarão com Bernardina

Bernardina–Filomena menina, por onde você andava que não me telefonou mais?

Demônio 2–(para demônio 1) Lá vem fofoca quentinha.

Bernardina–Você e seus garage sale. Então conseguiu finalmente vender aquele porta-retrato lindo? Eu sabia, você tem boa lábia, nada fica encalhado (encalhado:preso, parado) nas tuas mãos. Tô prá ver vendedora de cacarecos melhor que você... (cacarecos: trastes e utensílios velhos) Tá vendendo peruca também? Eu não te aguento, você é super!... Eu até me interesso sim. Cá entre nós, não espalha heim, eu resolvi assumir minha cabeleira branca, mas até crescer prá me livrar da tintura que ficou, adotei o uso do boné, de repente uma peruquinha cai melhor... Pois é… mas escuta, eu estava doida prá falar com você, tenho um montão de coisas prá te contar... Ah, você mudou de emprego também? Está fazendo o quê agora?... Você é o quê?... Segurança!? Fala sério! Não acredito. Você é mesmo tresloucada (Doida) heim?... Daqui à pouco vai estar trabalhando para o CIA, e se brincar para o FBI. Filomena, não é à toa que eu sou sua amiga... Pois então, você precisa aparecer por aqui. Eu estou morando na Conroy, no mesmo lugar... Não Filomena, não é no Caribean Key, é em frente... Isso, com a Arlete e… (Helena entra segurando alguns CDs) Só um instantinho, Filomena. De onde saiu essa figura ai? (para Helena) Quem é você?

Demônio 2–(para demônio 1) Chegou a desmancha prazer.

Helena–(muito solicita e sorridente) Oi, eu sou Helena, a nova roommate e você deve ser a Bernardina. (estendendo a mão para Bernardina) Muito Prazer.

Bernardina propositalmente estende-lhe a mesma mão que com a qual segura uma garrafinha de moca, sem nada dizer.

Helena–Eu gosto de moca, viu temos algo em comum, mas agora não, obrigado.

Bernardina–…Helena, a nova roommate... Você conhece a Helena? Conhece nada Filomena, larga de ser mentirosa menina... Se ela é de Blumenau? Isso eu não sei deixa eu perguntar, (para Helena) iurruuu, de onde você é mesmo?

Helena–Eu? Eu sou de Belzonte.

Bernardina–Belzonte... Foi o que ela disse. Você entendeu... Ta bom: Belorizonte.

Enquanto Bernardina está no telefone, Helena se movimenta de um lado para outro lidando com os CDs.

Bernardina–Você não imagina o que me aconteceu essa semana. Nem te conto.

Demônio 1–Conta, conta essa é boa.

Helena coloca um CD para tocar e a música soa em volume alto. Bernardina dá um pulo da cadeira e automaticamente começa dançar no ritmo do pagode cristão.

Helena–Desculpa Bernardina, eu não quis interromper.

Bernardina–Mas já interrompeu. Filomena, posso te ligar depois? Agora ficou complicado aqui. Tchau.

Demônio 2–Eu não te falei que ela é desmancha prazer?

Helena–Você conhece Jesus?

Bernardina–como?

Helena–Você conhece Jesus?

Bernardina–Conheço. Ou seja, sei que Ele foi crucificado, todo mundo sabe disso.

Helena–Você precisa conhecê-lo e aceitá-lo como seu Salvador, sabe porque?

Bernardina–Porquê?

Helena–Porque a vida de uma pessoa sem Jesus é vazia.

Bernardina–Escuta aqui, há quanto tempo nos conhecemos, heim?

Helena–Há cinco minutos. E porquê?

Bernardina–Mera curiosidade. Por um momento pensei que fosse cinco anos.

Helena–E então você quer aceitar Jesus como seu Salvador?

Bernardina–Desculpe, mas tenho coisas prá fazer lá dentro, com licença. (Sai)

Helena–Não vou desistir. Esta vida já é tua Senhor. (para o interior da casa) Bernardina, pode me dar um cotonete? (Bernardina aparece de cara feia com o cotonete). Agradecida. Em troca leva este CD para você ouvir, é muito bom, mas me devolve logo, viu?

Bernardina–É o Tcham?

Helena–Não, é muito melhor.

Bernardina–Paralamas do sucesso?

Helena–Bernardina, como você parou no tempo, esse pessoal ai já caiu no esquecimento. Tem safra nova no mercado. Quer ver?

Bernardina–Ué mas quando eu saí do Brasil eles ainda faziam sucesso, daí pra cá não sei mais nada… mas eu continuo gostando deles, o que é que tem?

Helena põe uma música (Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus, pois ela, ela te sustentará. Não tema segue adiante e não olhe para trás. Segura na mão de Deus e vai) em ritmo de pagode. Bernardina dança animadamente e Helena a acompanha.

Bernardina–Essa eu gosto. Eu não sabia que crente ouvia esse tipo de música.

Helena–Presta atenção na letra.

Bernardina–Mas essa está parecendo música de crente, só que em ritmo diferente. Ih, rimou.

Helena–Mas é música de crente. E então? O que você achou?

Bernardina–Dessa aí eu agradei. Eu vou escutar as outras, prometo, se eu gostar vou pedir prá Filomena queimar uma cópia prá mim lá no computador dela. Helena, você é muito bacana, estou começando a gostar de você.

Bernardina sai e Helena sorri satisfeita enquanto uma música finaliza a cena.

 

 

 

Ato 2

Cena 1

Bernardina e Helena

Anjo com Helena

Demônio com Bernardina

 

Bernardina está aspirando a casa quando Helena chega do supermercado.

Helena–Oi Bernardina.

Com o barulho do aspirador, Bernardina não nota e nem escuta Helena. Helena põe as compras no chão e puxa o fio do aspirador fora da tomada.

Helena–Oi Bernardina.

Bernardina–(cruzando os braços e com ar de pouca paciência responde) Oi Helena. (sarcástica)Mas que prazer revê-la!

Helena–Pode me ajudar com estas sacolas?

Bernardina–Foi no Wal-mart é?

Helena–Fui. Comprei tudo que faltava.

Bernardina–Comprou cotonete?

Helena–E porque deveria comprar?

Bernardina–Você é mesmo folgada heim? Faz três meses que você mudou para essa casa, ou seja: faz três meses que você me pede cotonete todo dia, e eu não tenho que comprar cotonete prá você.

Helena–Não fica brava comigo. Olha o que eu comprei prá você tomar banho de banheira, eu sei que você gosta. (entregando o bath set conjunto de sabonete, loção e perfume à ela) Uma delicia! Sente só a Fragrância. Lavanda. Boa, não é?

Bernardina–(fingindo não dar importância ao agrado de Helena)Você não vai me engrupir não, cai fora, anda (empurrando-a) e me deixa terminar a limpeza porque daqui a pouco a Simone… Simone não, essa mulher não sai da minha cabeça, que coisa… Arlete está chegando.

Helena–Já vou, já vou. Você está um docinho hoje, heim. (pega as sacolas e dá um beijinho no rosto de Bernadina que desprevenida, se desconcerta. Fora de cena Pergunta) Bernardina, você falou com Jesus hoje?

Bernardina–Não. (fica pensativa por um momento) Mas vou falar agora. (Bernardina anda para a boca de cena, olha timidamente para o alto e fala) Jesus, sabe qual é o meu maior sonho? É deixar de ser housekeeper e arranjar um emprego de cashier (Caixa) lá no Wal-mart. É, mas prá que isso acontece eu preciso arranjar um casamento prá pegar o meu green card (cartão permanente de residente). Manda prá mim aquele americano alto, costa larga, cabelo comprido, gordo, barrigudo… ai, ai. (se recompondo) Sonhar não paga imposto, né?

Ainda suspirando, religa o aspirador para desligar em seguida com a chegada de Arlete.

Arlete–Oi Bernardina.

Bernardina–Oi Arlete. Só falta esse pedacinho aqui. Já estou liberando o espaço.

Arlete–Fica sossegada, ainda vou tomar banho. Me faz um favor?

Bernardina–Faço.

Arlete–A Simone está chegando ai, faz companhia prá ela enquanto eu me arrumo? (Sai sem esperar reposta)

Bernardina–Isso é complô. (ela fecha os olhos e aperta as mãos sentindo-se pouco à vontade. Religa o aspirador, mas batem a porta e ela vai atender).

Simone–Oi, eu a sou Simone. Você é a Bernardina, não é?

Bernardina–Sou eu mesma. Entra, a Arlete está no banho. (recolhendo o fio do aspirador) Senta, ela não vai demorar.

Simone–Não quero te atrapalhar. Posso esperar lá fora.

Bernardina–Eu já terminei, fique à vontade. Eu vou lá dentro guarder o aspirador.

Helena–(entrando) Oi, Simone. Aonde você vai Bernardina? Fica aqui.

Bernardina–Eu volto, deixa eu guardar essa geringonça aqui… desculpa…esse aspirador, pelo menos. (Geringonça: coisa desconjuntada, malfeita)

Helena–Está bem, mas volta prá cá.

Helena e Simone se sentam. (falas livres).

Arlete–(retorna à sala) Olá meninas, (o telefone toca e ela atende) Alô… Está sim, um momento por favor. Bernardina chamada do Brasil prá você.

Bernardina entra em cena e as três se acomodam para dar inicio ao estudo bíblico. Durante o estudo Bernardina estará no telefone. A voz dela não será ouvida pelo Público. Ela se mostrará agitada, reação de quem recebe más notícias. De vez em quando ela prestará atenção no que é falado pelas moças. Numa determinada altura começa a chorar.

Falas livres entre as três. Simone faz uma oração.

Helena–(complementando as palavras de Simone) Senhor, obrigado por estar sempre cuidando de nós e especialmente de Bernardina, (reação de Bernardina) ela é uma boa moça. Envia um de seus anjos para junto dela Pai, eu te peço em nome de Jesus, amém.

Simone–Vamos então falar um pouco da nossa vida espiritual. Semana passada falamos… (Nessa parte as falas são livres, porém enfatizar o que Jesus falou sobre: Vinde à mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e Eu vos aliviareis, fazendo conexão com o estudo do dia) Deus irá realmente condenar as pessoas que não aceitarem a Cristo como seu Salvador? Lá em Romanos 10: 9 diz : “Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos será salvo.” E complementando, o versículo 13 diz: “Porque todo aquele que invoca o nome do Senhor será salvo.” Desde o princípio Deus tem incansavelmente buscado alcançar as pessoas. Ele usa as maravilhas de sua criação, as leis, os profetas, seu filho imaculado Jesus Cristo e a Bíblia para expressar seu grande amor e seu desejo de relacionar-se com todos os homens. A fé em Jesus é o único caminho para a salvação, porque ele é o redentor que morreu por nossos pecados. Jesus é a comunicação máxima entre Deus e os homens. Deus tornou-se uma pessoa para que nós pudéssemos conhecê-lo face a face e entendê-lo de forma pessoal. Quando rejeitamos Jesus estamos rejeitando a Deus. A busca pela fé é a descoberta da verdade de um Deus muito real, sempre presente, que trabalha em todos os instantes para revelar-se a cada pessoa. Algumas pessoas se aproximam primeiro de Deus e depois conhecem a Jesus. Outras conhecem a Jesus e então entendem a Deus. Mas em ambos os casos, como diz aqui no versiculo 8 “A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração.” Deus não castiga as pessoas por aquilo que elas não tem conhecimento. Ele continua a procurar formas de revelar-se a elas, mas Ele jamais forçará uma resposta. Se as pessoas escolherem rejeitá-lo, Ele permite, reconhecendo de uma forma clara que amor forçado não é amor.

Música suave invade a cena. Bernardina desliga o telefone e cai em prantos. Simone, Arlete e Helena se voltam para Bernardina. Helena faz menção de ir até ela mas Simone a retém.

Bernardina–Ele morreu!Eu amava o meu pai... de verdade... e ele morreu sem ouvir isso de mim... agora tem um buraco enorme aqui dentro do meu peito...

Bernardina sai devagar, as três se entreolham. Apagam-se as luzes. Música.

Cena 2

Simone, Arlete e Helena

Três Anjos

Nesta cena o palco estará escuro. As personagens estarão em cena em posições estratégicas. Uma lanterna será usada para iluminar o rosto de cada uma no momento em que elas estiverem orando e intercedendo pelas pessoas. (atender aos pedidos de oração de pessoas presentes na plateia, os quais devem ser coletados antes da apresentação)

Simone–(Oração)

Arlete–(Oração)

Helena–Senhor, a Bernardina precisa de Ti. Venha sobre ela com seu grande amor e poder para protegê-la. Cubra essa moça Senhor com o sangue do Cordeiro. Eu Te peço em nome de Jesus.

O palco será então iluminado. Bernardina estará em cena.

 

Cena 3

Bernardina

Um Anjo

Dois Demônios

 

Bernardina está angustiada. É tarde e ela não consegue dormir. Anda de um lado para outro. Dois demônios conversam à um canto.

Demônio 1–O que você acha que ela está pensando?

Demônio 2–Ah, se eu pudesse entrar na mente dela seria fácil, mas não posso, como você quer que eu saiba?

Demônio 1–Mas temos que descobrir.

Demônio 2–Coloca uma dor no peito dela, isso não vai custar nada, porque ela já tem os pulmões negros como breu.

Demônio 1–Já pensei nisso, mas antes vamos torturá-la bastante.

Os demônios vão para perto dela, mas um anjo surge e com autoridade os distanciam.

Anjo–Não. As orações de Helena foram ouvidas pelo meu Deus, o Todo Poderoso e o destino de Bernardina está agora em sua própria decisão. Vocês já não podem interferir.

Enquanto o Anjo peleja com os demônios Bernardina chora e clama por Jesus

Bernardina–Senhor, ouvi a Simone dizer que Jesus falou: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei.” Aqui estou Senhor, prostrada a teus pés, tem misericórdia de mim. Já não posso mais andar sozinha. Guia-me pelos teus caminhos, alivia a minha alma, sara o meu corpo de toda a dor, liberta a minha mente de toda opressão e proteja-me contra as setas do inimigo. Encha o meu coração com o teu amor. Eu não sou perfeita, mas perdoa os meus pecados. Eu Te agradeço por ter morrido na cruz por mim e confesso a Ti Senhor Jesus e creio de todo o meu coração que Deus o ressuscitou de dentre os mortos para a minha salvação. Eis me aqui, “instrua-me, ensina-me o caminho que devo seguir, guia-me com os teus olhos” (Salmo 32:8).

O Mestre Jesus aparece em todo o seu explendor para a plateia.

 

Jesus–(ll Crônicas 7:14) “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e buscar a minha face e converter-se dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei o seus pecados e sararei a sua terra

Música de adoração ao fundo para encerrar a cena.

 

Cena 4

Bernardina

Três Anjos

 

Palco vazio. Bernardina em cena. Ela veste calça e camiseta branca, e usa a veste (uniforme) do wal-mart. Caminha até o centro do palco apreciando a aliança de casamento na mão esquerda. Olha para o alto.

Bernardina–Obrigado, Senhor!

Os anjos entram em cena ao mesmo tempo em que Bernardina tira a veste e começa a louvar a Deus cantando e dançando a música Eis me aqui a qual deve preencher o ambiente e motivar a plateia a cantar e louvar com Bernardina. (Arlete, Helena, Simone e Kristin se juntarão à plateia para cantar com Bernardina, dando a entender que é o final da peça).

Antes da música acabar Bernardina sofre um ataque do coração e morre subitamente. (silencio, palco escuro, tempo)

Cena 5

O Mestre Jesus e os Anjos

Satanás e os Demônios

Bernardina no mundo espiritual

 

Bernardina acorda muito zonza e depois fica assustada.

Bernardina–Ai minha cabeça. Que aconteceu? Que lugar esquisito é esse? Onde estou? Porque está escuro? Tem alguém ai?

Satanás–(Satanás gargalhando surge de uma fumaça, acompanhado de seus demonios) Eu estou aqui, Bernardina. Vim te buscar.

Bernardina–NNNNNNNNÃÃÃÃÃOOOOOO!

Satanás–Você é minha, vou te levar comigo.

Bernardina–Eu não vou, eu não quero ir.

Satanás–Não me reconhece Berna? Agora é tarde demais.

Bernardina–Boi zebu (quer dizer Belzebu) afasta-te de mim, eu sou pecadora arrependida, entreguei minha vida a Jesus.

Satanás e seus demônios riem escandalosamente.

Satanás–Onde está Ele? não deveria estar aqui agora?

Bernardina–Jesus virá me buscar.

Satanás–Engana-te. Eu vou te levar comigo.

Bernardina–Ele está a caminho, eu sei que está, Ele não tarda a chegar. Jesssuuuuussssss! Eu não disse?

O Mestre Jesus–(Surge no explendor de sua Glória acompanhado de anjos) Estou aqui, Bernardina, vamos para casa.

Satanás–Que está fazendo aqui? Ela é minha.

O Mestre Jesus–Eu a comprei com o meu sangue, o sangue que foi derramando na cruz. Bernardina é minha.

Satanás–Eu trabalhei duro por esta alma, enviei meus demonios para escravizá-la com o cigarro e a bebida todos os dias.

O Mestre Jesus–Está escrito: conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Ela se arrependeu de todos os seus pecados e entregou sua vida a mim, agora ela é minha e você já não tem nenhum direito sobre ela.

Satanás–Ela se prostituiu deliberadamente ao longo dos anos, acusou e difamou aqueles que a tinham por amiga.

O Mestre Jesus–Do que você está falando? Está escrito: Se alguém está em Cristo nova criatura é, as coisas velhas já passaram e eis que tudo se fez novo. Também está escrito: Se confessarmos os nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a injustiça. Eu a perdoei e a lavei com o meu sangue. Ela já não tem nenhuma mancha, se tornou branca com a neve.

Bernardina–Eu te amo Jesus

O Mestre Jesus–Eu também te amo Bernardina.

Jesus se afasta com Bernardina.

Satanás Grita enfurecido e sai correndo, derrotado, com seus demônios

Cena final

 

Jesus caminha para a frente enquanto Bernardina e os anjos tomam posição de reverencia.

 

(João 14:6)

Jesus–(Fala para a plateia) “Eu sou o caminho, Eu sou a verdade, Eu sou a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”

 

 

 

Diversos: