BRASILEIROS

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Proposta: Com uma dramaturgia e encenação que ressalta a velocidade urbana com que vivemos hoje em dia, este peça pretende trazer à tona questões que permeiam a realidade brasileira: violência, medo, descrédito, apatia, conformismo.
Temos quatro personagens que representam diversas facetas de nós mesmos: aqueles que preferem pensar a agir, os que agem sem pensar, aqueles que pensam que os outros devem agir e aqueles que já agiram e vivem sem esperança de mudar.
Num universo dramático onde uma ação de uma personagem interfere de modo drástico na vida de outro, mesmo que ambos não se conheçam ou percebam a proximidade com que todos nós vivemos.
Somos uma nação, um povo de brasileiros, onde todos precisamos ter consciência do papel que podemos exercer me nossa sociedade, para podermos fazer a diferença, pois Deus nos convida para a interceder e agir em prol do bem coletivo.

O vídeo da peça está aqui

Personagens
MILENA:
SÔNIA:
JORGE:
VALTER:
JORCELY:
ALEXANDRE:
CÂMERA:
ATENDENTE:
PRISIONEIRO 1:
PRISIONEIRO 2:

Sônia e Milena estão esperando ônibus no piso superior, impacientes. Elas não se conhecem, apenas permanecem ansiosas pelo ônibus que não chega, olhando para o relógio.
Trilha Sonora 01 - Agitada
Jorcely anda e se arruma no meio do público, andando junto com o Câmera, que ajusta o foco da câmera.
JORCELY: Peraí, peraí que eu tô me ajeitando! Te acalma, criatura! Daqui a pouco eu tô pronta!
CÂMERA: Vai, Jorcely. Só faltam dez segundos pra começar.
JORCELY: É essa escova malfeita. Não acredito que gastei quinze ‘conto’ nessa porcaria!
CÂMERA: Vamo logo, Jorcely. É agora! 5, 4, 3, 2 1. Vai.
JORCELY: (atrapalhada) Pode ir? Ah, tá. (impostada) Boa noite, aqui é Jorcely Malta e você está assistindo ao nosso Jornal Brasil. Hoje, damos início a uma busca interessante. Procuramos algo raro hoje em dia: um revolucionário para o nosso país. Estamos à procura de um homem – ou mulher, é claro! – que possa enfrentar a violência, a corrupção a favor da ética. É isso mesmo! Você ouviu bem! Vamos mudar esse país de verdade! (a Sônia) Ei, você!
SÔNIA: (estranhando) Quem? Eu? (olhando para Milena)
JORCELY: Sim, você.
SÔNIA: (olhando para os lados) O que a sra quer?
JORCELY: Bom, é que a gente tá precisando de alguém que faça o Brasil mudar.
SÔNIA: Mudar? Pra onde?
JORCELY: Para uma vida melhor. Cheia de esperança e prosperidade. E precisamos de alguém que tenha coragem pra fazer isso.
SÔNIA: Hum, o povo tá colhendo o que plantou! Até mais! (sai, impaciente, fazendo sinal para o ônibus)
JORCELY: Pois é, nem todos querem ver que esse país pode mudar de verdade. Mas a nossa busca não acabou. Nós vamos encontrar a mudança que o Brasil precisa. (sai)
Jorge entra no piso superior e entrega o dinheiro pra Milena, depois de mostrar as notas por trás.
MILENA: (desconfiada) Jorge? Onde foi que tu arrumou esse dinheiro todo?
JORGE: Com meu trabalho.
MILENA: Olha, Jorge, deixa essa tua vida de malandro pra trás. Tu sabe que isso não dá futuro.
JORGE: É só por enquanto, Milena. Até comprar a nossa casinha.
MILENA: É numa dessas que tu termina indo pra cadeia de vez.
JORGE: Depois do último assalto eu vou mudar. Você vai ver, Milena.
MILENA: Tá. Me engana que eu gosto. Olha, eu não sei o que deu em mim de namorar contigo. Tanto menino decente na igreja e eu só encontro os errados nesse mundão. Eu preciso me consertar.
JORGE: Tem mesmo!
MILENA: (fazendo sinal para o ônibus) Vem, a gente termina essa conversa no ônibus!
Milena tenta dar as mãos a Jorge, mas ele puxa sua mão e sai andando à sua frente. Milena segue-o, desanimada.
JORCELY: (entrando pelo piso superior) A nossa busca pela mudança para o Brasil continua com o sociólogo Valter Santana. Ele vai nos falar do que a nossa nação precisa.
VALTER: Precisamos nos conformar.
JORCELY: Nos conformar? Como assim?
VALTER: Isto mesmo, Jorcely. As pessoas têm feito muito alarde sobre o futuro do país. Mas deixem a vida seguir em frente. Felicidade é isso.
JORCELY: Mas a vida é algo difícil, dr. Para muitos, não é possível ser tão feliz assim.
Sônia entra e posiciona a mesa no piso inferior e senta numa cadeira. Ela trabalha como caixa em um supermercado. Está contando o dinheiro no final do expediente, aparentando cansaço do que faz.
VALTER: A gente se decepciona porque cria muita expectativa, acha que a nossa vida será espetacular, quando a verdade não é bem essa.
JORCELY: Como assim, dr?
VALTER: Quando somos jovens, achamos que vamos mudar a vida do povo, vamos ser presidentes ou qualquer coisa parecida, mas, quando a idade chega, passamos a enxergar o país sob um novo olhar: o de que nunca conseguiremos mudar a vida de todo mundo.
Entra Jorge no piso inferior, olhando nervoso para Sônia e mexendo na mochila. Pega sua carteira, mexendo na faca em sua cintura, disfarçando enquanto olha para outros itens na loja.
JORCELY: (ironicamente) Ehhh...Sábias palavras (a Valter), mas continuaremos à procura. Aqui é Jorcely Malta para o Jornal Brasil. (sai com Valter)
JORGE: Eu queria não precisar fazer mais isso. Mas todo mundo rouba, seja um pão, seja um carro. Todo mundo tem seus problemas. E a gente tem de sobreviver, nem que seja pelo jeitinho. Porque, nesse país, só existe a lei do mais forte. (voltando-se para o balcão, apontando a faca sob a camisa. Sônia fica estática, mas treme de medo) Bora, minha irmã. É um assalto! Passa logo a grana! (pausa. Sônia começa a colocar o dinheiro na mochila) Não olha pra mim, não. Pega logo o dinheiro! Vai logo! Me dá esse negócio! (puxa a sacola com violência e sai correndo)
SÔNIA: (estática, levanta-se devagar, ainda em estado de choque) O dono do mercado colocou as grades, mas elas não adiantam de nada. O seu condomínio lhe prende, o jornal todo dia só mostra morte, trazendo medo ao povo. Quem é que pensa em sair de casa? (saindo e tirando o celular do bolso) Vou ligar pra polícia é agora!
Entra Milena com duas cadeiras e coloca na parte inferior – uma de frente para outra - e começa a andar pelo público, como se procurasse alguém. Milena traz uma pessoa da plateia para a cadeira e começa a lixar suas unhas, com bastante naturalidade.
MILENA: Boa noite, Sr(a). Vem sempre aqui? Eu nunca vi o(a) sr(a) aqui no salão antes. Já sei! Vem pela noite, né? Deus me livre sair daqui à noite. Depois que o dono resolveu levar a minha bolsa com uma arma (demonstrando o tamanho da arma com as mãos) DESTE TAMANHO, nunca mais. Mas se bem que não adianta nada, porque ladrão não tem hora pra trabalhar.
Entra Sônia e começa a varrer o piso superior.
MILENA: Mas, se brincar, o crime tá tão organizado que já deve ter aposentadoria e FGTS. Sei não, às vezes eu pergunto a Deus se a gente merece essa desgraça toda. (deixa de lixar as unhas da pessoa e começa a lixar as suas próprias) E o pior é que a gente merece mesmo. A gente faz tanta coisa ruim sem necessidade. A gente devia fazer uma corrente de clamor a Deus por essa nação, sabia? Mas ninguém quer fazer nada lá na minha igreja. O povo só faz falar e num faz nada. Por isso que eu não faço nada. Pra mim, eu tô bestando de fazer as coisas sozinha. (vibra o celular) Eita, vibrou. Só um instantinho. Alô, Jorge? Que foi dessa vez? Ai, não acredito! Tá! Aguenta aí que eu tô chegando! Tchau! (desliga. Conduz a pessoa ao seu lugar) Olha, eu vou ter de resolver umas coisas e depois a gente acerta. (saindo) Agora, nem pense em me dar um xêxo, senão eu rodo a baiana! (sai)
Valter entra em seguida no piso superior e começa a observar Sônia. Parece nervoso, mas decide conversar com ela.
VALTER: Amor, como foi seu dia hoje?
SÔNIA: Por que você quer saber? Você nem me ouve.
VALTER: Me interessa saber o que você está fazendo.
SÔNIA: (ironicamente) Hum, hum. (Valter olha para ela, sabendo que ela vai falar) Bom, não foi nada de mais: eu acordei, falei ‘bom dia’ ao vizinho, fui assaltada no mercado, peguei o metrô e tô viva. O de sempre.
VALTER: Ah, tá. (tosse, sorri, incomodado, sai e ela fica)
Trilha Sonora 02 - Agitada
Sônia, ansiosa e triste, olha para os lados, pega seu celular e pensa em ligar. Sônia começa a discar. Atendente entra e senta numa cadeira no piso superior, de frente para o público, digitando no teclado que está sobre a mesa.
ATENDENTE: (de frente para o público, sempre sorrindo) Boa noite, você ligou para o Disk Amizade. Para jogar conversa fora, disque 1. Se está sentindo uma leve carência, disque 2. Se está chorando desesperadamente, disque 3. Ou, pensando em suicídio, disque 4. (Sônia aperta um botão. Atendente dá um bip) Você escolheu suicídio. Aguarde alguns instantes enquanto sua ligação é transferida para um de nossos atendentes. Não desligue, sua ligação é muito importante para nós. (começa a cantarolar música de transferência. Dá um bip)
ATENDENTE: Luis(a) Almeida, boa noite, com quem estou falando?
SÔNIA: Olha, eu queria conversar com alguém. Tô me sentindo muito sozinha.
ATENDENTE: Pois não, sra. Em que posso ajudar?
SÔNIA: Eu só queria que você me ouvisse.
ATENDENTE: Estou ouvindo, sra. Pode falar.
Jorge entra no piso inferior e senta numa cadeira.
SÔNIA: (nervosa) É que eu tava pensando...
ATENDENTE: (tentando ajudar, falando com naturalidade) Em morrer, sra?
SÔNIA: Acho que sim. Talvez.
ATENDENTE: (digitando) Desde quando, sra?
SÔNIA: Ah, não sei. Acho que foi agora. Sei lá.
ATENDENTE: (com uma naturalidade cômica) E a sra já pensou na forma?
SÔNIA: (estranhando) Como?
ATENDENTE: Vai ser por arma, comprimido, assassino de aluguel ou similares?
Sônia, nervosa, desliga e sai.
ATENDENTE: Sra? Sra? (olha para o público) Caiu. (sai)
Entra Milena no piso inferior. Jorge levanta-se para falar com ela.
MILENA: Cala a boca, Jorge! Não fala nada! (pausa) O que aconteceu dessa vez, hein?
JORGE: (pausa) É que dessa vez a polícia chegou rápido, Milena. Não tive pra onde correr. Foi home pra tudo o que é lado.
MILENA: Tu só me dá trabalho, né? (senta-se na cadeira) Eu te falei não sei quantas vezes que você tinha de arrumar um emprego. Minha mãe sempre falou que não ia dar certo. Eu tô cansada.
JORGE: (senta na cadeira) Isso não ajuda em nada, Milena. Eu não fiz isso de propósito.
MILENA: Mas bem que podia ter evitado tudo isso. Te conserta, Jorge! (pausa) E a fiança, hein? Quanto é que é?
Entram Sônia e Valter no piso superior, como se olhassem uma vitrine de loja, fazendo comentário sobre os artigos da mesma.
JORGE: É muito dinheiro, Milena. Não vai dar pra você arrumar o suficiente pra me tirar daqui.
MILENA: Eu vou dar um jeito, Jorge. Nem que eu tenha de fazer unha de madrugada, mas eu vou te tirar daqui. (sai. Jorge olha pra ela e fica sentado).
VALTER: Você tem certeza, Sônia?
SÔNIA: Tenho.
VALTER: Mas a gente vai ter tempo pra comprar isso depois.
SÔNIA: Mas eu quero resolver logo. Não tô a fim de dar trabalho pra ninguém. Ainda mais...(sussurrando) Ainda mais depois de morrer.
VALTER: Mas, Soninha, o normal é escolher o caixão depois que a pessoa morre. Não antes.
SÔNIA: (ignorando-o) Você gostou desse? É de carvalho.
VALTER: (pensando no dinheiro) Não tem de compensado, não?
SÔNIA: Deixa de ser pirangueiro, Valter.
VALTER: Mas ele vai pra debaixo da terra de qualquer jeito, Soninha.
SÔNIA: Foi melhor eu ter vindo mesmo. Se eu deixasse, tu ia me jogar no lixão de Muribeca, que era mais lucro. (sai, seguida por Valter)
Alexandre acorda e, sentado no chão, olha pra Jorge.
ALEXANDRE: Sem sono, amigo?
JORGE: Pois é. Primeira noite aqui na cela. Não vou conseguir de jeito nenhum.
ALEXANDRE: É até melhor do que dormir, às vezes.
JORGE: (pausa) Há quanto tempo você tá aqui?
ALEXANDRE: (levanta-se e senta com ele) Digamos que ainda não me redimi de todos os meus pecados perante os homens. Mas Deus já me perdoou.
JORGE: Por que você diz isso?
ALEXANDRE: Por que Deus me deu uma razão para continuar vivo aqui.
JORGE: Quem é você?
ALEXANDRE: Alexandre. E você?
JORGE: Jorge.
Valter e Sônia sentam à uma mesa e duas cadeiras no piso superior.
ALEXANDRE: Bom te conhecer, Jorge.
JORGE: Tu acha?
ALEXANDRE: Tenho que te dizer umas coisas.
SÔNIA: (jogada para trás na cadeira, com os braços cruzados. Valter rói as unhas) Morrer demora, né?
VALTER: (irônico) Pois é, né?
Alexandre e Jorge apertam as mãos como se tivessem se apresentado.
SÔNIA: (depois de um leve silêncio) Quer jogar baralho? (Valter olha pra ela e sai)
ALEXANDRE: Olha, eu soube que os outros vão fazer uma rebelião amanhã, Jorge.
JORGE: Sério?
ALEXANDRE: Mas tô te dizendo isso pra tu não te envolver com esses caras, que vão só trazer problema.
JORGE: Amanhã, é?
ALEXANDRE: É, parece que vem uma mulher, aquela do Jornal Brasil, fazer uma reportagem por aqui e eles vão aproveitar.
Milena bate à porta. Sônia vai atender.
SÔNIA: Sim?
MILENA: Boa noite. Eu vim lhe oferecer os meus serviços de manicure.
SÔNIA: (olhando para o relógio) A essa hora, minha filha?
MILENA: (envergonhada pelo que vai dizer) Nunca é tarde para cuidar da beleza, sra.
SÔNIA: (fechando a porta) Não, obrigada. Estou ocupada.
MILENA: Eu tomo pouco tempo.
SÔNIA: (impaciente) Você não entendeu, senhorita. Eu não quero seu serviço.
MILENA: (nervosa) Mas eu preciso que sra queira.
SÔNIA: Por quê?
MILENA: Eu passei por tantas casas e todo mundo bateu a porta na minha cara. Sabe, eu tô precisando muito. Meu namorado tá preso e eu preciso pagar a fiança dele.
SÔNIA: (irritada) Eu não quero saber do que você precisa.
MILENA: (desesperada) Por favor. Eu...não aguento mais. Olhe, se a sra fechar a porta, eu durmo aqui na rua! A sra vai me atender de qualquer jeito!
Sônia olha para ela, estática, dando espaço para espaço para ela entrar.
MILENA: Sério?
Sônia concorda com a cabeça.
SÔNIA: (séria e ainda surpresa) Você foi muito... corajosa. Qual o seu nome?
MILENA: Milena.
MILENA: (puxando a cadeira) Eu sou Sônia. Quanto é que você cobra, Milena?
MILENA: Quinze reais.
SÔNIA: Só um instante. (sai para o outro lado do ambiente)
Milena aguarda, olhando o ambiente.
SÔNIA: (voltando) Tome.
MILENA: (guardando no bolso) Obrigada.
SÔNIA: (nervosa) Eu nem sei como dizer... Eu não quero que você faça minhas unhas, Milena.
MILENA: Não?
SÔNIA: Eu estou pagando pra você falar comigo.

Trilha Sonora 03 - Dramática
MILENA: Está certo. A sra é quem sabe. (ficam sentadas mais para o lado direito do palco)
SÔNIA: (pausa) Sabe, eu sei que isso não é do seu interesse, mas... você se incomodaria de me ouvir?
Milena nega com a cabeça.
JORGE: Tu vai participar da rebelião, Alexandre? Eu tô pensando em ir.
ALEXANDRE: Por que, Jorge? Não é esse tipo de rebelião que vai fazer a tua vida mudar.
SÔNIA: (nervosa, formulando o pensamento ainda na sua mente) Sabe, Milena, eu preciso de alguma coragem na minha vida, como a que você tem. Quero algo novo pra mim. Eu não sei bem o que eu quero, mas sei que não estou satisfeita na minha vida com o meu marido e com a minha casa.
MILENA: (olhando pro ambiente) Mas por que a sra não tá satisfeita? Olha só pra isso.
SÔNIA: Eu quero ter uma vida de verdade, eu queria me apaixonar pelo que eu faço. Mudar as coisas, sabe? E quando penso que minha vida vai terminar aqui, me sinto cada vez mais... só.
ALEXANDRE: Não pense que estar aqui, nessa cela, será o fim, Jorge. É apenas o começo.
MILENA: Sônia, a sua vida muda quando você acredita em algo novo pra você.
SÔNIA: Em que eu posso acreditar, Milena? Apenas me diga isso.
MILENA: Talvez eu não seja a melhor pessoa pra dizer isso, Sônia. Também tenho passado por problemas, como você pôde notar.
SÔNIA: Pensei que você pudesse me ajudar, Milena.
MILENA: Eu não posso ajudar ninguém, Sônia. Quando você me disse tudo isso, sabe... eu não soube como reagir. Talvez eu tenha esquecido como é ouvir uma outra pessoa.
SÔNIA: E o que você tem a me dizer, Milena?
MILENA: Que existe um Deus que vai fazer a sua e a minha vida mudarem de verdade. Que existe um Deus que se importa com você o tempo todo, que quer ver você feliz na sua vida com seu marido, com sua casa, com a família que você decidiu construir. Você pode mudar até um país inteiro se acreditar em Deus.
JORGE: Peraí, você acha que Deus tem um propósito pra mim, Alexandre?
ALEXANDRE: Claro. Ele tem pra vida de todo mundo, Jorge. Ele quer te ver fazendo a diferença no lugar onde você está. Quer te fazer uma pessoa para trazer vida, e não morte.
MILENA: Eita, olha a hora, Sônia. Eu preciso ir agora. Mas a gente pode conversar outro dia um pouco melhor
SÔNIA: (contente com a visita de Milena, mas triste pelas horas que virão depois) Claro, Milena. Olha, eu agradeço muito pelo que você me disse sobre encontrar a Deus. Acho que a minha hora ainda não chegou, mas eu vou pensar.
MILENA: Tudo bem, Sônia. Sem problema.
SÔNIA: Eu preciso de um momento certo. Preciso conversar com Valter. Sim, falando nele, ele me chamou pra ver uma entrevista que ele vai dar. (pensando alto) Ele acha que mudando minha rotina me faz mais feliz. Agora, eu só não sei onde é. É num presídio. Parece que se chama João Abílio.
MILENA: João Abílio? (pausa) Olha, eu não sei, Sônia. Não tô a fim de encontrar minhas dores.
SÔNIA: Por quê, Milena?
MILENA: É lá que meu namorado tá, entende? A gente vai terminar brigando. Eu preciso encontrar logo a fiança pra ele sair daquele lugar. Ele é muito impulsivo. Não imagino o que ele vai fazer pra sair de lá o mais rápido possível. Eu não quero viver com a pressão dele na minha cabeça.
SÔNIA: Você precisa enfrentar essa situação, Milena. Fale com ele aquilo que você está querendo.
MILENA: É mais difícil do que parece, Sônia.
SÔNIA: Mas você consegue, Milena. Você quase invadiu a minha casa (sorri), você pode falar com Jorge. (pausa).
MILENA: A gente deve começar deve começar a agir agora, não é?
SÔNIA: Pois é, Milena. Às vezes, nem só as discussões bastam.
MILENA: (pausa) Sabe, isso é tão difícil pra mim. Acho que me acostumei a pensar que o erro estava sempre nos outros e esqueci de ver que também existe erro em mim.
SÔNIA: É assim mesmo, Milena.
MILENA: Sabe, eu sei que Deus tem uma razão muito forte pra eu estar aqui, agora e pro meu futuro. E ele só quer que eu me liberte das minhas correntes.
SÔNIA: Correntes?
MILENA: As coisas que me aprisionam e me impedem de agir do jeito que Ele quer. É como se eu vivesse...
SÔNIA: Presa?
MILENA: É. (pausa, sorri tristemente) Obrigado, Sônia. Vou pensar no que vou dizer a Jorge. Até amanhã (saindo)
SÔNIA: Até, Milena.
JORGE: Eu vou participar da rebelião, Alexandre. Você indo ou não.
ALEXANDRE: Deus tem um propósito pra você, Jorge, mas não é matando ou morrendo amanhã.
JORGE: Eu preciso disso, Alexandre. Aqui só existe a lei do mais forte.
ALEXANDRE: E quem é o mais forte, Jorge? Quem é o mais forte? Com certeza não é você.(afasta-se e vai dormir em um canto)
Trilha Sonora 04 - Dramática
JORGE: Será que eu preciso fazer isso pra conseguir o que eu quero? Milena não quer me ver aqui. Ninguém quer me ver aqui. O problema é que eu preciso ter atitude pra sobreviver, seja aqui, seja lá fora. (pausa) Acho que eu não penso muito nos outros, nas consequências do que eu faço. Mas é o jeito. No Brasil, só dá pra gente agir assim, sem pensar nos outros. É o que eu preciso fazer. Mas que não gostaria nenhum pouco de precisar.
Sônia senta no chão da cozinha e começa a olhar para os lados, nas posses que a aprisionam. Começa a sentir falta de uma vida que nunca teve.
SÔNIA: Há muito tempo, morrer era um pensamento constante pra mim. Talvez eu até já tenha morrido... Sufocada por essas grades, por essa rotina. Não sei mais o que é felicidade. (pausa) Ainda lembro de um dia ter acordado de manhã e pensado em todas as possibilidades que a vida me oferecia, em tudo o que eu poderia ser... como eu poderia mudar meu mundo... (pensa e fala chorosamente) Eu nunca mais me senti assim. Nunca mais me senti viva de novo. (pausa) Talvez Deus esteja me ouvindo. Talvez ele entenda o que eu estou sentindo. Acho que amanhã pode ser um dia diferente pra mim. Mas preciso falar com Valter... Nunca é tarde pra mudar.
Entra Valter e ela enxuga as lágrimas, disfarçando. Ela tenta falar com ele algumas vezes, levantando o rosto em sua direção, mas decide sair. Ele, de algum modo, percebe o desejo de Sônia, mas não consegue estar disponível para ela. Fica sozinho.
VALTER: Eu já conheci esse espírito de mudança, de revolução que Jorcely tanto procura em mim. Eu vivia buscando a igualdade, a justiça ideal... Mas agora... Eu estou preso a uma família, um emprego, uma segurança que eu sempre quis. (sorri, tristemente) Acho que me conformei com tudo isso que o país se tornou. Quando consegui o que queria, deixei que a revolução que existia em mim esfriar. Queria muito saber o que Sônia quer de mim, queria conhecê-la de verdade. Me sinto infeliz. Não foi essa a vida que eu escolhi. Eu queria que a revolução renascesse em mim, sabe, mas de um jeito diferente. Quero que ela seja eterna.
Milena entra e começa a contar o dinheiro que recebeu.
MILENA: Não sei o que Jorge vai pensar. Não tem o suficiente pra fiança. Mas eu tô me esforçando... Eu preciso falar com ele. Não consigo mais viver com alguém que possa morrer na próxima esquina. Não quero viver com alguém sentindo sempre o medo de que ele nunca vá encontrar o propósito de Deus pra vida Dele. (olhando para cima) Deus, eu quero tanto Te agradar de novo, mas eu não sei como começar, onde começar. Queria que Jorge acreditasse em Ti também. Mas ele não vai conseguir sozinho: eu preciso fazer com que ele Te ouça. (pausa) Acho... Acho que amanhã vai ser um novo dia.
Trilha Sonora 05 - Agitada
Jorcely e Câmera entram por entre a plateia Alexandre e Jorge ficam no canto esquerdo conversando. Valter, Milena e Sônia chegam depois e ficam do lado direito.
JORCELY: Boa tarde, telespectadores. Continuamos com a procura pelo revolucionário brasileiro e agora no lugar mais improvável: o presídio João Abílio. Estamos aqui novamente com o sociólogo Valter Santana, que vai poder nos dar o seu parecer a respeito da nossa procura. Dr Valter, o sr acha que podemos encontrar aqui na prisão o guerreiro que esse país precisa para tirar os corruptos do poder?
VALTER: O poder pertence àqueles que sabem domá-lo. Será que eles podem controlar sua própria violência? Aqueles que se revoltam contra as regras não vão muito longe. Terminam por cavar sua própria cova.
JORCELY: É isso que ouviremos de alguns deles daqui a instantes. Até daqui a pouco.
CÂMERA: Corta.
JORCELY: Ótimo. A gente vai ter de escolher algum desses pra falar. Ei, você. (para Alexandre) Quer dar uma entrevista?
ALEXANDRE: Claro. Sobre o que é?
JORCELY: É sobre revolução para o país. Precisamos de alguém que mude o Brasil.
ALEXANDRE: Certo. Meu nome é Alexandre.
Jorcely continua conversando com Alexandre, mas sem som.
MILENA: (aproximando-se dele) Jorge?
JORGE: Milena, o que você tá fazendo aqui?
MILENA: Eu vim com uma amiga ver a entrevista.
JORGE: Conseguiu a fiança pra mim?
MILENA: Ainda não. Trabalhei o dia inteiro ontem, mas não consegui muita coisa.
JORGE: Por que você não está se esforçando.
MILENA: Eu estou agindo, Jorge. Não é minha culpa você estar aqui. E você, o que está fazendo pra ir embora desse lugar?
JORGE: Você vai ver. Vai ser tudo do meu jeito.
MILENA: A gente precisa conversar, Jorge. (pausa) Sobre nós dois.
JORCELY: Bom, vamos voltar à entrevista. (para a câmera) Bom, telespectadores, estamos de volta com o nosso amigo Alexandre, que vai nos falar um pouco sobre como o Brasil pode mudar.
ALEXANDRE: Bom, Jorcely, a mudança não está em destruir o outro para conseguir o que se quer. Está em respeitar os direitos de todos. Onde está a nossa capacidade de agir para o bem coletivo? Nós somos iguais, minha gente. Pra que destruir a pessoa que está ao seu lado para conseguir o que se quer? De que você precisa? De que esse país precisa?
SÔNIA: Precisa de Deus.
JORCELY: Como? (a câmera se volta para ela)
SÔNIA: (nervosamente, está completando seu pensamento naquele instante) O que esse país precisa é de um mover de Deus.
VALTER: (querendo que ela se cale) Sônia!
MILENA: É isso mesmo! Só Deus pode ajudar a gente! Só Deus pode ajudar você, Jorge!
SÔNIA: (nervosa) Ontem, eu não tinha uma ideia muito clara do que eu poderia fazer para mudar a minha vida. E acho que até agora eu não tenho, mas sei que só Deus é capaz de mudar esse lugar. De mudar esse país em que a gente vive. Sabe por quê? Por que é ele quem coloca esperança de que cada dia é uma vitória, ele traz atitude pra nossa vida. Se dependesse do homem, o Brasil talvez nem existisse mais, talvez nem eu...Talvez o pior pra gente não seja a desigualdade, a miséria ou a violência. O pior é a naturalidade com que a gente convive com tudo isso. Precisamos aprender a mudar.
Trilha Sonora 06 – Explosão + Tiros + Gritos
Bomba caseira explode. Apagam-se as luzes. Prisioneiros começam a se espalhar pelos corredores entre os bancos - eles usam roupas rasgadas comuns e camisas ou gorros que descubram seus olhos – andando como animais. Jorge puxa Jorcely e coloca a faca no seu pescoço. Acende-se a luz da câmera, que ilumina nervosamente quem está falando.
JORGE: Continua filmando! Olha só! A gente não quer machucar ninguém, mas se for preciso eu vou fazer sem dó nem piedade! Eu sou o mais forte!
VALTER: Calma, rapaz!
JORGE: Cala a boca!
MILENA: Jorge!
JORGE: Eu preciso disso, Milena! Se eu não fizer isso, eu vou morrer aqui dentro!
Sônia ajoelha-se e começa a chorar.
MILENA: Por favor, Jorge. Não faça isso.
PRISIONEIRO 1: É roubar!
PRISIONEIRO 2: É matar!
PRISIONEIRO 1: Sabe por que a gente faz isso?
PRISIONEIRO 2: Porque, se a gente não fizer com alguém, alguém faz com a gente!
PRISIONEIRO 1: Você não vive na rua, você não sabe!
PRISIONEIRO 2: Toda noite você dorme tranquilo, mas tem gente que dorme na rua!
PRISIONEIRO 1: Sem saber se vai estar vivo no dia seguinte!
PRISIONEIRO 2: OLHE pra mim!
PRISIONEIRO 1: Há tanta gente nesse mundo morrendo de fome!
PRISIONEIRO 2: Morrendo!
PRISIONEIRO 1: E o que é que você faz?
PRISIONEIRO 2: Nada! Escreve um livro! Dá entrevistas!
PRISIONEIRO 1: Mas eu mato minha fome!
PRISIONEIRO 2: Se eu não roubo, me roubam!
PRISIONEIRO 1: Se eu não mato, me matam!
PRISIONEIRO 2: Somos todos brasileiros!
PRISIONEIRO 1: Somos todos prisioneiros!
PRISIONEIRO 2: Prisioneiros da nossa casa!
PRISIONEIRO 1: Das nossas posses!
PRISIONEIRO 2: Da nossa rotina!
PRISIONEIRO 1: Como é que a gente vai se libertar, então?
PRISIONEIRO 2: Você não vê que EU também sofro?
PRISIONEIRO 1: Eu sofro porque VOCÊ não está aqui!
PRISIONEIRO 2: Essa é a lei do mais forte!
Trilha Sonora 07 - Dramática
SÔNIA: (Acende-se a luz. de joelhos, com os braços para cima) Não! “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”! “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”!
ALEXANDRE: Não precisamos nos entregar a apatia ou ao conformismo! Podemos reagir! Viver algo novo em nossas vidas!
MILENA: Deus não acredita em armas, mas na revolução através do Espírito Santo! Mudando o homem, podemos mudar o mundo!
VALTER: Mas como vamos reconstruir este país? Será que a gente tem força pra isso?
SÔNIA: Precisamos nascer de novo para Deus nos transformar a cada dia, Valter! Precisamos reconstruir o nosso lar! (chora) Sabe, há muito tempo eu já andava infeliz, como se cada dia fosse uma obrigação pra mim! Eu queria ter o Valter de antigamente comigo! O Valter que tinha uma vida comigo!
VALTER: Eu esqueci de quem eu era, Sônia!
SÔNIA: É pra isso que estamos aqui, Valter! Pra lembrar de quem somos!
ALEXANDRE: Jorge, creia que as armas, a corrupção, a fome, a miséria serão derrubados pelo Espírito Santo de Deus neste dia! Creia, meu irmão! Hoje, todos nós estamos tirando nossas máscaras, as correntes que nos prendiam a uma vida sem Deus, cheia de tristeza, de rotina, de tudo aquilo que não deixa que nós façamos o mundo melhor! Assim como nós mudamos, você também precisa mudar, Jorge! Você é brasileiro! Todos nós somos brasileiros! E eu sei que não é assim que nós queremos ver o país mudar!
JORGE: (largando o faca e se ajoelhando) Sim, nós podemos mudar o Brasil! Nós podemos mudar o Brasil!
ALEXANDRE: Digam todos! Eu posso mudar o Brasil! Eu posso mudar o Brasil!
Aos poucos, os personagens vão aderindo ao coro, convencendo o público a também aderir ao coro: ‘Eu posso mudar o Brasil! Eu posso mudar o Brasil! Eu posso mudar o Brasil. Todos oram ao Senhor em espírito e em verdade, agradecendo e entregando a nação a Deus.
JORCELY: (apontando para o público) Sim. Você pode mudar o Brasil. Você pode criar essa nova história. Tudo começa em você, brasileiro!
MILENA: Sim, Senhor! Tu podes mudar o nosso Brasil! Só Tu podes mudar o nosso Brasil! Aleluia, ó Pai!
JORGE: A força para mudar está em Deus! Não está em homens, mas no Criador de toda a Terra!
ALEXANDRE: Vamos adorar ao Senhor Jesus Cristo, pois ele sabe o destino dessa nação! Sabe que somos uma nação eleita, o povo escolhido para entregar a ele nossos caminhos! Somos um povo de Deus!
Todos saem, exceto Jorcely e o Câmera.
JORCELY: Você, brasileiro, pode mudar o Brasil. Basta que deixe Deus agir através de você para dar vida àqueles que precisam. Aqui foi Jorcely Malta para o Jornal Brasil. Uma boa noite.
Apagam-se as luzes.

 

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