AGNUS DEI

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AGNUS DEISofrimento de Jesus representado em um sonho de um homem influenciado por dúvidas existenciais.

Trata-se de uma encenação em licença poética para mostrar que somos nós os culpados pela morte de Jesus, ainda que o castigo não recaia sobre nós, devido à misericórdia de Deus.

No sonho, o diabo se deleita com o sofrimento de Jesus (influenciando um rei déspota fictício a aplicar o castigo em Jesus para que este venha pagar pela a culpa de outros prisioneiros verdadeiramente culpados com todos os requintes de crueldade, propondo ainda ironicamente se algum daqueles prisioneiros se disporiam a pagar da mesma forma).

No final, Jesus se aproxima do protagonista (que é o narrador) para que não se sinta culpado nem que sinta compaixão pela morte de Jesus, mas que obedeça aos seus mandamentos. Quando o protagonista acorda, aceita a existência de Deus e se conscientiza da obra vicária de Jesus.

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Personagens:
Jesus
Germano (Narrador)

Carlos

Hélio

Solange

Luciano

Ana

Natália

Rei

Chefe-da-guarda

Soldados

Diabo

Capetas

Época: Aproximadamente 30 A.D. (Jesus, rei e cenário).
Atual (os demais prisioneiros).

Peculiaridade dos Personagens

Jesus : vestimenta característica.
Germano : nenhuma característica em especial.
Carlos : alcoólatra; traz consigo uma garrafa de uísque.
Rei : vestimenta característica da época de Jesus.
Chefe-da-guarda: atlético.
Hélio : mendigo, paralítico e fumante. Vestes rotas.
Solange : liberal; seria interessante que ela usasse uma peruca rosa.
Luciano : drogado; traz uma seringa amarrada ao pescoço.
Ana : prostituta; caracterizada pelo excesso de maquiagem (pó-de-arroz e batom em cor forte); traz consigo uma bolsinha.
Natália : homicida; sem nenhuma característica em especial.
Soldados : seria interessante se eles trajassem roupas militares de nossos dias.
Diabo : vestido todo em traje preto.
Capetas : de ambos os sexos; vestimenta preta.

As músicas poderão ser encontradas em:

João Alexandre (Simplesmente João): Olhos no espelho; Santo, Santo, Santo.
Classicmania (Os Sucessos dos Últimos Séculos): Concerto para Piano e Orquestra No 1, Em Si Bemol Menor, Op. 23, 1o Movimento (Abertura) (Peter Ilich Tchaikowski); O Fortuna (Carl Orff); Concerto para Piano e Orquestra No 21, em Dó Maior, K 467, 2o Movimento (Andante) (Wolfgang Amadeus Mozart); Adágio para Cordas em Sol Menor (Abertura) (Tomaso Albinoni); Aleluia (George Friedrich Haendel).
Nelson Ned (Jesus Está Vivo): Pão da Vida.
Michael Jackson (Thriller): Thriller (apenas a gargalhada final).
Richard Clayderman (América Latina Mon Amour): La Incondicional.
Koinonia, Adoração VIII (Maravilhoso És): Pai eu te louvo.

Obs: as músicas acima relacionadas são apenas sugestões. Caberá à equipe de produção substituir por outras que melhor convier.
ATO ÚNICO

Cena I

Cenário: Uma cadeira (simbolizando o trono do rei) situada ao lado esquerdo do palco. Na outra extremidade, uma cruz.

Sonoplastia: Olhos no espelho (João Alexandre).

Narrador - Meu passado não consigo lembrar... Parece que meu ontem jamais existiu. Tudo se fez novo.
Nasci! Acabei de nascer depois de um sonho que tive há algumas noites e principalmente da decisão que tomei. (noutro tom) Foi uma resposta. Tenho certeza de que foi. Eu olhava para o céu e dizia: "Deus, meus problemas são tantos. E parece não haver solução para nenhum deles. Muitos dizem que a solução pode ser encontrada no dinheiro. Quem dera! Eu tenho dinheiro. Tenho dinheiro para comprar tudo o que imaginar. Mas sinto-me oco por dentro. Nada me preenche. Nenhum prato delicioso; nenhuma aventura amorosa; nenhuma viagem ao exterior. Nada preenche este vazio! E eu te confesso: sou infeliz! Deus, acho que você não passa de uma invenção. E que Jesus não passa de uma grande farsa. (sorri) O homem em sua ingenuidade, frente às suas barreiras intransponíveis, se refugiou numa lenda. (sério) Senhor, se eu estiver errado, dê-me um sinal, ainda que seja um sinal minúsculo. Minha vida,ou melhor, minha existência depende disso (sorri novamente). Sei que não receberei. Eu devo estar perdendo meu tempo. Deus não existe, e o céu é habitado somente por estrelas. (pequena pausa).
Oh, quão tolo eu fui! Eu não passava de um homem de barro, vulnerável a todas as ciladas do Diabo. Eu precisava do sopro da vida, que só Jesus tinha para me dar. (Pausa) Mas, naquela noite fui dormir e, para minha surpresa, tive este sonho:

Sonoplastia: Concerto para piano e orquestra nº. 1. Em Si Bemol Menor, Op. 23, 1º. movimento (Peter Ilich Tchaikovisky).

(Entram em cena vários soldados com os seguintes prisioneiros: Jesus, Germano, Carlos, Solange, Luciano, Ana, Natália e Hélio (o último carregado por dois companheiros)).

Narrador - Lá estava eu em meio a outros prisioneiros. O rei, sujeito respeitado e temido por todos os moradores daquele reinado, teria mandado trazer todos aqueles que seriam, metaforicamente falando, os elementos indesejáveis de uma sociedade hipócrita. Os rostos alegres e espíritos tristes.
O que estávamos fazendo ali? Parecia uma pergunta sem resposta. Mas ninguém entre nós esperava que fosse boa coisa. O ar estava carregado. Alguns, que estavam entre nós, faziam comentários. Muitos temerosos sem saber o que seria o nosso "daqui a pouco".

(Os soldados levam os prisioneiros para o meio do palco).
(Os prisioneiros conversam entre si. A suposta conversa precisa parecer sobre o lado pecaminoso de cada um. Jesus fica isolado. Alguns capetas passeiam pelo palco sempre observando os prisioneiros e fazendo comentários entre si).

Narrador - Eu fui ladrão. Afanava, enquanto Satanás roubava minha alma. Eu não sabia que, quando eu praticava aquilo, alguém no inferno me aplaudia, assobiava e pedia "bis".
Ali onde eu me encontrava, o pecado estava registrado em cada rosto. A droga na veia, a fumaça no pulmão, a mancha na alma. Mas...

(Germano percebe a presença de Jesus).
(Estuda-o dos pés à cabeça).

Narrador -... existia alguém entre nós que parecia ter sido pego por engano. Em seu olhar resplandecia uma luz. "O que poderia haver de errado num homem destes?" - pensei. "Talvez fora confundido com outro malfeitor".

(Germano aproxima-se de Jesus).

Narrador - Tentei fazer amizade, aproximando-me um pouco dele. Pela enorme curiosidade que ele me causava, fui logo perguntando o que ele tinha feito.

(Os demais percebem a tentativa de conversa de Germano, comentam entre si e se aproximam).

Narrador - Não me respondeu diretamente. Mas o que deu a entender era o que eu suspeitava: ele estava ali pagando pelos crimes cometidos por outro alguém.
Pela forma que ele falava, palavras bonitas e ao mesmo tempo inteligentes e profundas, veio à minha lembrança alguém sobre quem todos comentavam.

(Germano observa Jesus, o último conversa com Ana. Ele deve dar a impressão de estar lhe aconselhando. A moça não dá muita atenção).

Narrador - Era um homem chamado Jesus. Falavam tantas coisas dele... Vinham-me à lembrança os inúmeros folhetos que recebi falando deste tal Jesus, muitos trazendo dizeres mostrando que ele me amava a ponto de morrer por mim. Eu pensava: "Como pode alguém me amar de tal forma sem ao menos me conhecer?"

(Ana vira as costas para Jesus. Jesus continua a falar).

Narrador - Diziam que ele era o Cordeiro mudo, que veio morrer por todos os pecadores. E diziam mais: que ele era o próprio Filho de Deus. (Pausa).

(Hélio se arrasta e chega até Jesus. Este fala com aquele. Hélio aponta para as suas pernas, como se implorasse a cura).

- Diziam que ele curava os doentes... (pausa) e que advertia severamente aos que faziam coisas erradas.

(Jesus aponta para o cigarro que Hélio está nas mãos, como se perguntasse: "o que é isso?" Hélio disfarça tentando esconder a carteira de cigarro).

Narrador - Ele era um homem cheio de amor e compaixão. Tentava fazer com que o homem reconhecesse o seu erro e que não errasse mais.

(Jesus pede-lhe o cigarro. Hélio hesita e depois acaba entregando. OBS: APENAS UM CIGARRO, O MAÇO CONTINUA ESCONDIDO).

Narrador - - E assim, para que ele pudesse viver feliz no caminho reto.

(Jesus pega nas mão de Hélio e levanta-o).

Narrador - - Ele podia mandar os paralíticos andarem e eles saiam andando, de tão grande era o poder de suas palavras. E eu pensava: "Como pode alguém dar uma ordem aos músculos e aos nervos? Como pode alguém mandar a coluna se endireitar?"

(Hélio dá alguns passos. De felicidade, abraça Jesus e lhe entrega a carteira de cigarros que, até então, trazia escondida no bolso). (Germano se aproxima um pouco mais de Jesus).

Narrador - Perguntei-lhe como eu faria para chegar ao reino dos céus. Ao que Jesus me pergunta: "Sabes os mandamentos: não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra o teu pai e tua mãe?"

(Natália toma a frente de Germano).

Narrador - Uma mulher puxou conversa com Jesus, interessada no assunto debatido. Ela explicou que havia cometido... (Narrador dá ênfase dando um tom confidencial ao término da fala) um assassinato. Havia matado uma mulher que era acusada de ser amante de seu marido. Ainda ela tentava se justificar dizendo (com ironia): "Matei por amor". Mas, Jesus foi logo lhe respondendo: "Não se mata por amor, mas sim, se morre por ele".

(Natália, num ato de arrependimento, abaixa a cabeça).

Narrador - Percebi que aquelas palavras mexeram no seu íntimo. Tudo que aquele homem falava tocava no profundo d'alma.

(Natália levanta a cabeça e continua a falar com Jesus).

Narrador - Arrependida, pergunta a Jesus se para o que ela tinha feito havia perdão. Jesus foi logo lhe respondendo, num tom mais doce que já vi, que se ela estava arrependida do que tinha feito, ele lhe daria o perdão.

(Natália ajoelha-se e beija os pés de Jesus).

Narrador - Eu pensava lá no fundo, comigo mesmo (rindo): "Já que ele disse que matar alguém tem perdão, o meu pecado, ou melhor, pecadinho, é claro que terá perdão".

(Germano que, com o decorrer da cena, fica um pouco afastado, aproxima-se um pouco mais, indagando-o).

- Perguntei a Jesus se roubar também tinha perdão. Antes mesmo que ele me desse qualquer resposta, fui logo lhe explicando que eu era uma espécie de ladrão que roubava ladrão. Roubava os ricos, aqueles que subiam na vida por meio de trapaças e desvios de dinheiro. Uma espécie de Robin Hood egoísta. Afinal, roubava de quem não iria fazer falta. Jesus me respondeu que isto tinha perdão, desde que eu vendesse tudo o que tinha e desse tudo aos pobres. Fiquei irritado e perguntei: "Então Deus não gosta de gente rica?" E ele calmamente me respondeu: "O próprio Deus é dono do ouro e da prata. Mas a riqueza que você tem não foi Ele quem te deu".

(Um soldado, à porta, anuncia a chegada do rei).

Narrador - Mas nossa conversa foi interrompida. Um soldado anunciava a chegada do rei déspota.

(Entram em cena o rei, o diabo, o chefe-da-guarda e mais dois soldados que acompanhavam o rei).
(Todos, exceto Jesus, curvam-se em reverência ao rei. Este percebe a atitude de Jesus, conversa com o chefe-da-guarda, dando-lhe algumas instruções).

Narrador - Jesus não reverenciou o rei. Talvez não o fez por ele mesmo ser o Rei dos reis. (pausa).

(O chefe-da-guarda vai até Jesus com um cacetete na mão).

Sonoplastia: Adágio para cordas em Sol Menor (Tomaso Albinoni).

(Acerta-lhe no estômago, fazendo-o cair de joelhos no chão. O rei e o diabo dão gargalhadas, embora estas sejam inaudíveis à platéia ).

Narrador - Uma atitude muito covarde foi o que fizeram com ele. Acertaram-lhe com toda força, fazendo-o cair ao chão. Um rei apanhando como um escravo.

(Germano e Hélio ajudam Jesus a se levantar).
(O rei senta-se no trono. O diabo fica atrás dele, de braços cruzados. O rei dá a impressão de começar a fazer um discurso).

Narrador - O rei nos revelou que havia perdido uma grande soma em dinheiro num jogo, e isso tinha lhe deixado muito nervoso. Havia nos chamado de “o bando de desordeiros”, como ele mesmo nos rotulou, com intuito de distraí-lo. Ele iria se divertir vendo-nos apanhar pelos nossos próprios atos.

(O chefe da guarda se aproxima um pouco mais do rei e segreda algo em seu ouvido. Eles devem demonstrar que o assunto gira em torno de Jesus).

Narrador - O chefe da guarda foi logo revelando ao rei que ele, chefe, trouxera um prisioneiro especial. Alguém que o povo dizia que era um homem sem pecado e incapaz de fazer maldade a quem quer que fosse.

(O rei faz gesto para que tragam Jesus na sua presença).

Narrador - O rei, demonstrando interesse pelo prisioneiro especial, ordenou que trouxessem Jesus a ele.

(Dois soldados buscam Jesus).

Narrador - Ele queria provar que Jesus não era um homem tão puro assim. Que diante do sofrimento qualquer um volta atrás em seus ideais.

(Ao chegarem os soldados com Jesus, o rei se levanta do trono e vai até ele. Pega-o violentamente pelos cabelos, para que esse olhe em seus olhos. Em seguida dá-lhe um tapa no rosto).

Narrador - Agredia Jesus, tentando, num ato inútil, provocar-lhe algum ódio, e ao mesmo tempo lhe ordenando que este retribuísse com outro tapa. Nada!

(Jesus vira-lhe o rosto. O rei fica furioso e acerta-lhe outro tapa).

Narrador - Jesus simplesmente vira o rosto. Gesto ao qual dava a entender: "Se alguém bater na tua face direita, ofereça-lhe também a esquerda".

(O chefe-da-guarda dirige-se ao rei).

Narrador - O chefe da guarda volta a prestar novos relatórios ao rei, dizendo: "Falam que este homem veio a este mundo para sofrer e morrer por todos os pecadores".

(O rei, pensativo, dá alguns passos. O diabo anda junto ao rei e sopra algo em seu ouvido. O rei volta-se e faz um pronunciamento).

Narrador - (Num tom pejorativo) Vossa Majestade faz uma breve reflexão. Depois nos revela que ninguém mais seria castigado por crime algum. Estávamos todos absolvidos.

(Os prisioneiros, desconfiados, comentam entre si. Um deles conduz aos demais para festejarem).

Narrador - (Radiante) Ficamos alegres, nem acreditávamos no que estava acontecendo. Poderíamos voltar às nossas vidas rotineiras. Vossa Majestade no fim das contas era um sujeito "boa pinta". Isso se aqui fosse o desfecho desta história (Noutro tom) Primeiramente, o rei ordenou que todos ficassem quietos.

(Todos param).

Narrador - Ele anuncia que foi achado alguém que iria pagar o preço da nossa liberdade. Nossos delitos seriam expiados. Eu já imaginei que seria eu, pois a esta altura eu me sentia o maior dos criminosos. Parecia que minha podridão saia lá do interior. E cheirava mal. Quase fui me entregando, mas...

(O rei aponta para Jesus).

Narrador - O rei revela-nos que é Jesus quem iria pagar o alto preço do perdão de nossos atos. Foi aí que não agüentei, fiquei indignado.

(Germano tenta aproximar-se do rei para agredí-lo, mas é impedido pelos soldados).

Narrador - A minha vontade era de pegar o rei para lhe dar um murro na cara.

(Os soldados seguram Germano. O rei se aproxima).

Narrador - O rei chega até mim e pergunta se eu gostaria de substituir Jesus. Fiquei calado, mesmo sabendo que o Rei dos reis frente a uma proposta dessas destemidamente teria aceitado.

(Germano abaixa a cabeça. O rei dá uma gargalhada, zombando de sua covardia).
(Os soldados levam Germano para um dos lados do palco).

Narrador - Não tive palavras. Senti um calafrio no corpo todo só em imaginar aquele chicote cortando minhas costas.

(O rei senta-se no trono. Após uma ordem sua, um soldado traz Carlos na sua presença).

Narrador - Todos estavam absolvidos, mas nem por isso o rei-juiz deixou de lado saborear um julgamento. Ele iria chamar, um por um, todos aqueles pobres miseráveis.

(O chefe-da-guarda pega uma folha de papel e faz como se estivesse lendo um relatório da vida de Carlos).

Narrador - Antes da execução da pena era feita a leitura do relatório dos maus atos de cada um.

(Após o término da leitura, o rei se levanta e vai até Carlos. O diabo cochicha no ouvido do rei).

Narrador - Depois era perguntado ao prisioneiro se ele queria que seus maus atos fossem transferidos para Jesus.

(O rei faz a pergunta a Carlos, apontando para Jesus. Carlos, hesita, mas acaba cedendo, balançando lentamente a cabeça).

Narrador - Logo o rei se enfada com aquilo tudo, manda chamar todos os prisioneiros de uma só vez.

(O rei faz sinal para que trouxessem os demais. Os soldados trazem os prisioneiros, que ficam de frente para o rei, a uma distância de quatro metros. O chefe da guarda fica na metade desta distância. Dois soldados empurram Luciano, que cai no chão. O chefe da guarda faz a leitura do relatório).

Narrador - O rei se sentia como um juiz, que podia absolver ou condenar alguém. Nossos atos seriam justificados pelo derramamento de sangue inocente.

(Após a leitura do relatório de Luciano, o rei lhe faz uma pergunta. Luciano olha para Jesus, muito triste abaixa a cabeça).
(É empurrado outro prisioneiro. O chefe da guarda inicia nova leitura do relatório. O rei manda que parem e que levem os relatórios a ele).

Narrador - O rei estava ansioso pelo término daquilo tudo. Resolveu ele mesmo ler os relatórios.

(O rei passa os olhos rapidamente em cada uma das folhas. Ao término da leitura, joga-as para o ar, guardando somente a última).
(O diabo fala algo no ouvido do rei). (Após uma ordem do rei, os soldados conduzem os prisioneiros para fazerem um círculo em volta de Jesus).
(Os soldados que seguravam Jesus soltam-no e saem do círculo. O diabo e o rei dão voltas ao redor do círculo, como se o segundo estivesse dando ordens aos prisioneiros).

Narrador - Fizeram um roda em volta daquele que seria o meu Salvador. E o rei falava algo aos prisioneiros, ordenando que eles batessem em Jesus. Pois ele estava ali para sofrer por cada um. Eu não podia deixar isto acontecer...

(Germano consegue livrar-se dos soldados).

Narrador - Consigo me livrar dos soldados.

(Chega até aos outros prisioneiros. Agressivo, tenta desfazer o círculo).

Narrador - Tento inutilmente fazer com que os prisioneiros não dessem ouvidos ao rei. Se havia alguém ali que não merecia sofrer, este alguém era Jesus.

(Dois soldados seguram Germano).

Narrador - Mas logo eles conseguem me capturar.

(O rei chega até Germano. Encara-o).

Narrador - As coisas pioraram. O rei se aproximou de mim. Pude perceber que não gostou nada da minha rebeldia.

(O diabo fala algo no ouvido do rei). (O rei fita os olhos no chefe da guarda e afirma balançando a cabeça, numa linguagem de gestos compreendida somente pelos dois. Recebida a ordem, chefe da guarda, que estava com um cacetete, acerta na coluna de Germano).

- "Aaaaiiiii!!!!" - gritei. Quebraram minha espinha... Cai no chão.

(Os soldados deixam Germano caído).

Narrador - Eu sentia tanta dor. Por mais esforço que fizesse, não conseguia ficar em pé. Minhas pernas não me obedeciam.

(Jesus sai da roda e aproxima-se de Germano).

Narrador - Jesus veio até mim.

(Jesus pega nas mãos de Germano).

Narrador - Ele tenta me levantar. Já fui falando que não adiantava, porque na certa eu cairia. Minha espinha estava quebrada. "Nunca mais voltarei andar" - pensei.

(Germano olha para Hélio).

Narrador - Meu coração começa a encher-se de fé, após lembrar-me de um paralítico que Jesus tinha feito andar, minutos antes.

(Jesus levanta-o. Ele consegue ficar em pé).

Narrador - Ele me levantou. Meio desconfiado, fico olhando para o chão. Quase não acreditei. (num grito de euforia) O chão havia voltado aos meus pés!

(Germano dá lentamente alguns passos).

Narrador - Eu parecia um bebê dando os meus primeiros passos.

(Dois soldados pegam Germano e levam-no de volta ao lugar anterior. Germano esperneia.
Outros soldados empurram Jesus para dentro da roda. Os soldados arrumam os prisioneiros, para que estes refaçam o círculo).

Narrador - O rei, mesmo depois de ver o milagre que Jesus tinha acabado de fazer, como prova de que Ele era Deus encarnado, continuava com o coração duro.

(O rei continua a andar ao redor da roda, como se estivesse passando suas ordens aos prisioneiros. Demonstra impaciência).

Narrador - O rei ordenava para que meus colegas batessem em Jesus. Com a seguinte ameaça: Quem não estivesse disposto a agredir o Senhor, também entraria na roda.

(Furioso, o rei ordena que comecem a bater).

Narrador - O rei começou a ficar impaciente, dá ordens expressas de que tivesse início o linchamento, caso contrário voltaria atrás em sua decisão. Todos iriam pagar caro por seus delitos.

(No começo nenhum prisioneiro cede à ordem do rei).

Narrador - No princípio ninguém ousou encostar um dedo em Jesus. Mas... (Pausa).

(O chefe-da-guarda, com o cacetete, rodeia o círculo e começa a agredir os prisioneiros).
(O diabo fala algo aos ouvidos dos prisioneiros).

Narrador - O rei colocou-os contra a parede. Ou eles batiam em Jesus, ou eles apanhavam. Meu coração encheu-se de raiva.

(Um prisioneiro dá um soco em Jesus).

Sonoplastia: O fortuna (Carl Orff).

(Germano tenta livrar-se dos soldados, mas não consegue).
(Os que não aderem continuam apanhando. O objetivo é que todos adiram gradativamente, culminando pouco antes a segunda parte da música. O diabo continua a dar voltas na roda, sempre soprando algo em seus ouvidos. E aplaudindo o ato desses). (O diabo levanta as duas mãos, como se tivesse conquistado a vitória).
(Jesus cai). (O rei ordena que todos parem).

Sonoplastia: Concerto para piano e orquestra n.º 21, em Dó Maior, K467, 2.º Movimento (Andante) (Wolfgang Amadeus Mozart).

Narrador - Que sofrimento, meu Deus! O que havia acontecido com aquelas pessoas que, de repente, pareciam ter tanta raiva?

(Após uma ordem, todos os prisioneiros saem de cena. O rei e o diabo dão voltas em Jesus, sempre rindo dele).

Narrador - Perguntei ao rei porque eu e Jesus ainda não tínhamos sido soltos.

(O rei aproxima-se de Germano. Dá uma gargalhada).

Narrador - Não entendi o motivo de sua gargalhada. Mas confesso que isto me deixou um pouco amedrontado, pois do jeito que as coisas andavam, tão cedo não seríamos soltos.

(O rei pega uma das folhas que sobrou dos relatórios).

Narrador - O rei ainda não havia lido o meu relatório. Leu-o em voz alta. Disse-me que eu era um mentiroso, cobiçoso, ladrão, e outras coisas mais.

(O rei guarda o relatório).

Narrador - Ele, sendo muito apegado ao dinheiro, diz-me que o que eu tinha feito era muito grave. E precisava pagar com a morte.

(O rei dá um sinal aos soldados, para que esses levem Germano para a outra extremidade do palco, onde está a cruz).

Narrador - Levam-me até a cruz. Eu seria crucificado. Nunca imaginei para mim a morte vergonhosa da cruz. Um arrepio me tomou o corpo todo. Preferi fechar os olhos para não ver os pregos rasgarem minha carne.

(Jesus, que estava caído, levanta-se. Dá alguns passos, muito ferido, quase não conseguindo manter-se em pé, tenta chegar até Germano).
(Dois soldados seguram os braços de Germano e colocam-no na cruz. O chefe-da-guarda pega o martelo e algo que lembre um prego. Levanta o martelo).
(Jesus chega e segura no ombro do chefe da guarda. O rei ordena que o chefe da guarda pare).

Narrador - Sem entender nada, abro meus olhos. Jesus havia chegado até nós. Ele olhou fundo nos meus olhos e me diz: "Sai dessa cruz. Eu morro por você". Eu disse ao Senhor que isso não era justo. Era eu que deveria morrer, porque o único pecador era eu. Mas Jesus me diz docemente: "Eu morro a morte que era para você" .

(Germano abraça Jesus. Os soldados, agressivamente, separam-nos).
(Outros soldados pegam Jesus e colocam-no por sobre a cruz).

Narrador - Eu o vi naquela cruz, prestes a sofrer, não somente por mim, mas por toda uma humanidade. Só que havia mais um outro problema: eu teria que crucificá-lo.

(O rei tenta entregar o martelo a Germano).

Narrador - Disse ao rei que não poderia fazer aquilo. Recusei o quanto pude. Coisa que não o agradou muito.

(O rei pega um chicote e manda os soldados segurarem Germano. Aplicam-lhe três chibatadas, fazendo Germano cair ao chão. O rei vai à sua frente e mostra-lhe o martelo. Germano fecha os olhos e pega-o , lentamente, dirige-se a Jesus).

Narrador - Pego o martelo. Nunca vi em toda a minha vida um martelo tão pesado... (emocionado) Já não conseguia mais olhar para meu Senhor.

(Germano demonstra um extremo estado de nervosismo).

Narrador - Minhas pernas quase não sustentavam o peso do meu corpo. Entregaram-me enormes pregos, e fazê-los passar pela carne de suas mãos. E eu pensava lá no fundo: "Se eu soubesse que por meus pecados sua carne seria rasgada, jamais teria pecado."
Jesus me diz: "É necessário que eu morra, para que a humanidade possa viver". Pego o martelo e preparo o prego.

(Germano ergue o martelo. Olha para o céu, como se pedisse perdão a Deus).

Narrador - Jesus continua a me dizer: "É necessário". Eu grito, desesperado, para que isso diminuísse minha dor.

(O diabo rodeia Germano, falando-lhe algo).
(Germano acerta a primeira martelada).

Sonoplastia: Pão da vida (Nelson Ned).

(Germano olha para o céu. Fecha os olhos, como para chorar. Acerta a segunda e a terceira martelada. Cai no chão, exausto. Os soldados levantam-no e seguram em seus braços. Num deles com o martelo e no outro com o prego. Fazem com que Germano acerte outras marteladas na outra mão de Jesus).

Narrador - Eu nunca tive tanta raiva de mim mesmo e de meus pecados. Raiva daquela mentira esquecida e escondida que ninguém viu; de quando não pedi perdão ao meu irmão; de quando preferi o mundo ao invés dos braços de Cristo...

(Os soldados largam Germano e continuam a crucificar Jesus).
(Germano, rastejando, afasta-se de Jesus, ficando ajoelhado e de rosto em terra).

Narrador - Naquele momento o meu único desejo era que todas as pessoas do mundo lembrassem que alguém havia sofrido e morrido no lugar delas. "Certamente Ele levou sobre si as nossas dores e as nossas transgressões tomou sobre si." Sua carne estava sendo rasgada, não por pregos, mas sim por nossos pecados. Todo pecado cometido estava lá, registrado e anulado naquelas gotas de sangue.

(Terminam de crucificar Jesus).

Narrador - Jesus, alguém que tinha tanto amor, que mesmo vendo a morte se aproximar, implora a Deus, dizendo: "Pai, perdoa-os. Eles não sabem o que fazem".

(Germano continua curvado perante Jesus).

Narrador - Eu conseguia ver a humanidade toda passar por debaixo daquelas gotas de sangue que vertia de suas mãos e dos seus pés. Podia ver todos aqueles homens, mulheres e crianças imundas, lavando suas vestes naquele sangue vertido por amor à humanidade.

(Jesus olha para o céu. Baixa a cabeça como se tivesse entregado o espírito).
(O diabo dá uma gargalhada).

Sonoplastia: Gargalhada da música "Thriller" (Michael Jackson).

(Os capetas erguem um dos braços do diabo, como se ele fosse o vitorioso).
(O rei olha Jesus, dá uma gargalhada e sai com todos os soldados).

Sonoplastia: La Incondicional (Richard Clayderman).

(O diabo chama os demais capetas. Que logo em seguida entram em cena).
(Germano continua curvado).
(Os capetas olham Jesus. Comentam entre si. Festejam: pulam, dançam, fazem roda).
(Entram em cena quatro soldados. Tiram Jesus da cruz e envolvem-no num pano branco e levam-no para fora de cena).
(O diabo e seus capetas seguem-nos até a porta de saída. Eles continuam festejando após os guardas terem saído).

Narrador - Meu coração estava triste. Parecia que tinha sido traspassado por espinhos. Estava lá, de joelhos. Eu iria ficar naquela posição até a morte chegar. Mesmo que eu quisesse me levantar não conseguiria, pois a minha cabeça estava tão pesada. O Salvador da humanidade veio ao mundo e estava morto. Meus pecados o haviam matado.

(O diabo aproxima-se de Germano e fala com ele).

Narrador - "Assassino! Assassino!" Eu ouvia isto lá no fundo da alma.

(Jesus volta em cena).

Sonoplastia: Aleluia (George Friedrich Haendel).

(Os capetas percebem a presença de Jesus. Escondem-se atrás do diabo. Jesus estende a mão em direção a eles. Todos caem. Tentam fugir. Jesus se aproxima de Germano e toca-o).

Narrador - Alguém me tocou. Quem poderia ser? Seria alguém que vinha me acusar de ter matado o Salvador, aumentando ainda mais o meu sofrimento? "Não! Por favor vá embora
Foi aí que eu reconheci aquela voz suave do meu Senhor.

Sonoplastia: Pai, Eu Te Louvo (Banda Koynonia).

Narrador - (num grito de euforia) Era Jesus! Ele havia ressuscitado. A morte não pode detê-lo.

(Germano abraça Jesus).

Narrador - Jesus fala em meu ouvido: "Morri por ti e o que fazes tu por mim?"

(Os dois caminham em direção à saída).

Sonoplastia: Santo, Santo, Santo (João Alexandre).

Narrador - No momento não entendi o que, na minha pequenez, poderia fazer por alguém milhões de vezes maior que eu. Acordei. Refleti. Primeiro, quanto à existência de Deus. Aprendi a olhar as estrelas do céu, as aves que voam, as ondas que se desmancham na praia, os animais que correm pelas florestas. Tudo com uma marca em comum deixada pelo Grande Criador: a perfeição e a beleza. Descobri também que era meu dever levar as Boas Novas para todos os seres racionais. Falar do amor de Jesus, que por muitos ainda desconhecido. Levar ao conhecimento de todos os seres que a morte não é mais necessária. O homem, que antes era escravo, foi comprado por um alto preço. O sangue de Jesus é a nova aliança entre Deus e o homem. E agora, todos poderiam ter vida, e vida em abundância.

Fim 

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