A MÁQUINA DE FAZER VERDADE

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Homem inventa a máquina do tempo, viaja por diversos lugares a procura de dinheiro, fama, mulheres e posição.
Viaja também para o tempo de Jesus onde ele está sendo crucificado e não faz nada, até que um dia tem tudo o que quer...
... e viaja para o futuro para desfrutar o que tinha conquistado...
... e não encontra nada!

Encontra apenas Jesus lhe dizendo: “Quando tive fome, não me deste de comer...” 

ATO ÚNICO
(Abre o pano - cenário)
Dois homens conversam. Um é o senhor, homem de aparência rude e cansado. O outro é um empregado seu, rapaz diligente e prestativo. Os dois estão trabalhando, enquanto falam, numa espécie de máquina gigantesca, de bojo grande. Tal máquina fora invenção do senhor, homem de conhecimento científico aprofundado. Eles estavam apenas ajustando os últimos detalhes no acabamento. Enquanto o seu ajudante permanece calado, o inventor fala de sua vida passada com amargura. Segundo ele, não houve homem mais frustrado em suas tentativas e mais debochado por causa delas do que ele próprio. “O mundo só soube rir de mim e meus trabalhos”, diz ele, “Eu sou um fracassado”.
Enquanto a máquina é preparada ouve-se uma música ao fundo. Trata-se de um som metálico, quase mecanizado.
De repente, o inventor muda o tom de sua voz e passa a dizer que ainda há uma chance para ele, que ele ainda irá vencer e daí então ele é que vai rir do mundo. “Sim”, explica ele, “ainda há uma chance para mim, porque na vida SEMPRE HÁ A SEGUNDA VEZ, SEMPRE EXISTE A SEGUNDA OPORTUNIDADE . E eu conto com um grande aliado, o meu último invento A MÁQUINA DO TEMPO” .
Ao pronunciar estas palavras, apontando para a máquina que está perto de si, soa uma música delirante, quase fúnebre. A máquina é colocada como uma heroína de batalha, como uma tábua de salvação.
Obedecendo à ordem do seu senhor, o ajudante lhe traz uma lista com dizeres grandes. Nesta lista estão escritas as coisas mais importantes nas quais o inventor havia falhado na vida, segundo o que ele acreditava. A lista é breve e objetiva:
DINHEIRO
FAMA
MULHERES
POSIÇÃO
Em todas estas coisas ele havia falhado. Não conseguiu dinheiro, nem fama, as mulheres nunca tinham nem olhado para ele e nem nunca usufruiu de uma posição que ele achasse digna.
Mas agora tudo iria mudar, pensava ele. Com sua última invenção, nada poderia fazer com que ele não se tornasse rico, famoso, cobiçado pelas mulheres e merecedor de uma posição de respeito e honra dentro da sociedade.
O plano do inventor não era complexo, apesar da complexidade da sua invenção. Era seu invento visitar o passado primeiramente, em sua máquina e aproveitar o seu conhecimento sobre este passado para fazer negócios que lhe pudessem render bastante. Por exemplo, se pudesse voltar há uns 20, 30 ou mesmo 50 anos atrás poderia comprar terra que naquele tempo não tinham validade, mas que ele sabia teriam, depois de um certo tempo. Poderia, pensava ele, comprar as ações das companhias que só ele sabia iriam se tornar importantes; poderia investir em shows, poderia tornar-se amigo de pessoas do passado que só ele sabia se tornariam importantes.
Com este pensamento em mente, ele decidiu partir: “Primeiro visitarei o passado para me tornar um super-homem” - dizia ele - “E depois irei ao futuro para ver o quanto eu estarei famoso, rico e benquisto nos anos vindouros”.
E assim sucedeu. Doze horas por dia ele passa a sair em suas viagens pelo passado. Os controles da poderosa máquina lhe permitem chegar ao ano que ele quer e mesmo à hora exata no passado. A máquina é agora idolatrada por ele. Para ele, só existem ele e a máquina.
Ele pode ir e voltar do passado no instante que quiser. Os controles da máquina o permitem. Por vezes, quando os negócios rendem, ele fica 5 ou 6 horas num mesmo lugar. Outras vezes, ele volta logo, dizendo que nada deu certo. Mas através de suas especulações, ele realmente consegue coisas importantes. Compra ações, terras onde o petróleo irá brotar, inventa instrumentos que só daí a vinte anos seriam inventados, visita pessoas futuramente importantes, até na loteria, em corridas e sorteios ele joga e com seu conhecimento, não deixa de ganhar.
“A fortuna que estou amealhando é incalculável” - diz ele ao seu ajudante, quando retorna das viagens. “Por vezes não dá certo os meus negócios, mas SEMPRE HÁ UMA SEGUNDA CHANCE, SEMPRE HAVERÁ UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE . Eu falhei no princípio, mas na minha segunda vez eu não vou falhar”.
O tempo passa, e com ele vai-se firmando a alegria incontida do inventor. Ele agora não só faz especulações. Visita lugares distantes, há duzentos, trezentos, às vezes mil anos atrás para presenciar a história e para “aprender com os grandes homens do passado o garbo, os modos, a atração de um grande homem, como eu serei”, segundo seu ponto de vista egoísta.
Às vezes, até brincadeiras faz. Por exemplo, certa vez ele mandou que o seu ajudante ligasse a máquina para qualquer lugar do passado, ou seja, ao acaso, para que ele não soubesse pra onde estava indo. E assim sucedeu. Ele, ao acaso foi lançado no passado, há 1973 anos atrás. E o que viu lá? Nada mais, nada menos do que Jesus Cristo sendo espancado e obrigado a carregar a cruz nas costas, em direção ao local de sua morte. O inventor se surpreende, mas em seguida, faz com que seja trazido de volta ao presente.
Quando ele retorna o seu ajudante, surpreendido lhe indaga o porquê da sua volta repentina.
“Voltei a uma época, na qual eu não poderia ganhar ou aprender nada. Imagine, fui lançado ao local onde este tal de Jesus Cristo que a história fala estava sendo levado para ser crucificado”.
O ajudante fica estarrecido de surpresa. “Mas e porque o senhor não disse aos que os estavam levando que aquele realmente é o filho de Deus, como ficou conhecido depois da sua crucificação?” – pergunta ele ao inventor. “O senhor sabia que o mundo inteiro descobriu depois que eles estavam matando um inocente, que eles estavam matando o filho de Deus! Por que não os impediu? Por quê?”.
“Ora”, responde o inventor,“não há tempo para estas coisas. Eu preciso de tempo para mim, entendeu, para o meu futuro. Que é que eu ganharia com isto? Hein? O quê? Só complicação. E ademais eu sempre posso voltar lá assim que eu quiser. Eu posso voltar lá sempre que eu quiser, se for o caso, entendeu. SEMPRE EXISTE UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE, SEMPRE HÁ UMA SEGUNDA CHANCE.
O ajudante baixou a cabeça. Tudo ficou por isso mesmo. O incidente foi esquecido e o tempo passou depressa. As viagens ao passado continuaram como dantes e o inventor sempre retornava com uma expressão de contentamento.
Até que enfim chegou o dia supremo. Segundo o inventor, de acordo com as fortunas que ele havia conquistado no passado, o seu futuro seria grandioso. Ele estava pronto para, na sua idolatrada máquina do tempo, ir ao futuro para ver a si mesmo, para ver a sua fortuna, os seus bens, e depois, voltar ao presente e simplesmente esperar que os dias passassem para que o seu brilhante futuro chegasse.
O inventor mostra-se ansioso e seu semblante denota satisfação. Ele pede ao ajudante que lhe traga a lista das suas coisas mais importantes. A lista é trazida. Nela, ainda se podem ler as palavras:
DINHEIRO
FAMA
MULHERES
POSIÇÃO
“Sim”, diz o inventor, “agora eu vou ter tudo isto: mulheres, fama, fortuna e posição, tudo isto”. “Agora”, continua ele, “o mundo vai parar de rir dos meus fracassos e eu vou passar a rir do mundo. Eu provarei ao mundo que para tudo EXISTE UMA SEGUNDA CHANCE, QUE SEMPRE HÁ A SEGUNDA OPORTUNIDADE e que nesta segunda chance EU VENCI, EU VENCEREI!”.
Ele dá ordem ao seu ajudante que acione os controles da máquina em direção ao futuro.
O inventor leva consigo para esta primeira viagem ao futuro a sua lista sagrada: MULHERES, DINHEIRO, POSIÇÃO, FAMA. Ele está exultante.
“Ligue para 1985” - ele ordena - E a viagem começa. Mas daí há instantes ele é trazido de volta. “É estranho” - diz ele - “mas não havia nada lá”. “Vamos tentar novamente, ligue para 1980”.
Mas desta vez também nada havia. O inventor surpreende-se. “É estranho”, diz ele, “Muito estranho”. “Vamos tentar ainda uma vez mais. Ligue para daqui a dois anos, ligue para 1975”.
Uma música lírica violenta cai sobre o palco. É o clímax da história. O inventor é lançado ao ano de 1975 e ele se encontra frente a frente com o mestre Jesus. Este está em meio à declinação destas palavras:
“... Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedaste; estava nu e me vestistes; era enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me...”.
E o inventor, com a sua lista apertada entre os braços é empurrado e arrastado para a esquerda de Jesus, enquanto o pano desce e as palavras célebres, são ouvidas:
Porque neste mundo o homem poderá
Tentar muitas em muitas vezes;
Porque neste mundo o homem poderá
Falhar e recomeçar.
E ele terá uma, duas, três chances.
Mas no reino de Deus, no juízo de Deus
O homem que foi julgado e colocado
À esquerda do Mestre, ao final da luta,
Este não vai recomeçar. Vai penar
Por não ter encontrado o caminho do céu
Ou por ter escolhido um caminho outro,
Mais tentador, mas errado e torto, para substituir
A verdade da vida.
 
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