A FORMANDA

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Raquel terminou de se formar pela Escola de Medicina e anuncia a seus pais que ela pretende usar seus conhecimentos médicos em um campo de missões.


PERSONAGENS
Raquel – médica recém formada

Davi – pai de Raquel, empresário de sucesso, esnobe.

Maria – mãe de Raquel, não gosta de conflitos.

CENÁRIO

A sala de uma casa de família da classe média


SCRIPT
(os personagens entram pela porta da frente, tiram seus casacos. Raquel e a mãe se assentam no sofá, Davi abre uma garrafa de champanhe e coloca em 3 taças. Entrega às mulheres e propõe um brinde).


DAVI: Aqui está a nova médica da família. Parabéns, querida, sua mãe e eu estamos muito orgulhosos de você.

RAQUEL: (sorrindo e levantando sua taça) Obrigada papai.

MARIA: Cinco anos, querida. Cinco anos e chegou ao fim todo o trabalho difícil. (Maria olha para Davi e sorri) Acho que chegou a hora de você tirar umas boas férias.

DAVI: Oh, sim.  (ele tira um envelope de dentro do bolso do paletó) Nós achamos que umas semanas em Fiji seria bom para você... (mostra o bilhete da passagem para Raquel)

RAQUEL: (um pouco tímida) Oh, papai, isto é ótimo vindo de vocês, mas eu não tenho certeza...

DAVI: (interrompendo)... E quando você voltar... eu conversei com João Carlos, dono da clínica médica, e o convenci de que ele precisa de uma boa ajudante. Assim, você começa a trabalhar lá dentro de um mês, e com um bom salário.

(Raquel parece não gostar da notícia)

MARIA: Raquel, o que está acontecendo? Nós pensamos que você gostaria da notícia.

RAQUEL: Mamãe, papai. Eu já tenho um trabalho esperando por mim.

MARIA: Oh, querida isto é maravilhoso. Onde é? Espero que seja aqui na cidade. (vira-se para Davi) Veja só, Davi, eu disse para você não intervir. Nossa garotinha já tem o seu próprio trabalho. (vira-se para Raquel) Então, querida, conte-nos tudo sobre isto...

RAQUEL: (mostrando-se um pouco apreensiva) Mamãe, papai, acho melhor vocês assentarem.

(Maria e Davi se assentam, Maria ao lado de Raquel e Davi em frente a elas).

RAQUEL: Mamãe, papai, eu realmente aprecio toda a sua ajuda, especialmente o dinheiro que me deram durante os meus estudos. Papai foi muito bom da sua parte, ter procurado um trabalho para mim, e ter me oferecido uma viagem para Fiji, mas...

MARIA: Sim, querida, continue...

DAVI: Sim, continue... mas, o quê?

RAQUEL: (timidamente)... mas eu decidi aceitar uma oferta de trabalho no SRI LANKA com a Visão Mundial

(Davi e Maria olham para Raquel, de boca aberta, depois olham um para o outro).

DAVI: (reage com raiva) O quê!!! Você não pode!  Nenhuma filha minha vai trabalhar em qualquer buraco asiático, especialmente no Sri Lanka. O país está praticamente em guerra. (levanta os braços em sinal de desespero)

MARIA: (tentando mediar) O que seu pai está querendo dizer querida, é que você não deve ir para lá, é perigoso, você pode se ferir.

RAQUEL: Lá não é um buraco qualquer. Veja, eu sei que pode haver algum perigo, mas existe muita gente passando necessidade lá. Pessoas que eu acho que posso ajudar.

DAVI: (ficando mais agitado) Escute aqui mocinha. Eu não paguei uma fortuna para que você fosse educada na melhor escola de medicina do país para ver você perder sua vida trabalhando no Sri Lanka

MARIA: Sim querida isto parece ser uma terrível perda de tempo e dos seus talentos.

RAQUEL: Mãe, ajudar outros que não têm a chance de conseguir socorro médico decente, não é perda de tempo.

MARIA: Eu entendo como você se sente, querida, mas você não acha que seria melhor ter um pouco de experiência aqui primeiro, aproveitar a oportunidade de adquirir mais habilidades e depois pensar em outra coisa quando estiver mais bem preparada?

DAVI: (levantando-se e apontando um dedo) Ela já está suficientemente preparada - mas não para o Sri Lanka – ela está preparada para uma vida de boa prática médica aqui na cidade – não em qualquer canto perdido do mundo. Eu já tomei minha decisão – você não vai!

RAQUEL: Papai, eu não quero discutir com você, mas eu estarei indo dentro de 4 semanas.

(Davi anda pela sala, depois fala, mudando o tom da voz).

DAVI: Escute, se o que você quer é trabalhar em outro país, porque não procura trabalho em um hospital decente que tenha instalações adequadas. Londres, ou até mesmo na África do Sul. Olhe, eu tenho um amigo que poderia conseguir um lugar em um dos melhores hospitais de lá. Porque você não liga para ele?

MARIA: É mesmo, querida. Isto seria bom.

RAQUEL: Vejam, o caso não é que eu queira trabalhar em outro país. Eu quero ir para algum lugar onde eu possa praticar algum bem para pessoas que não possam pagar.

DAVI: Ora, então é aquele assunto novamente, de salvar o mundo. (olhando para Maria) Veja, eu lhe falei sobre aquele pessoal com quem ela fez amizade. Um bando de liberais que não reconhecem a realidade se a virem diante de seus narizes.

MARIA: Você está sendo radical, querido. Eu conheci alguns deles e eles são boas pessoas.

DAVI: Quando é que pessoas como eles irão crescer e começar a ter responsabilidade pelas suas vidas? (Vira-se para Raquel) E quanto é que este maravilhoso trabalho lhe pagará? É bom que seja um bom valor para valer este sacrifício.

RAQUEL: Nada. É voluntário.

DAVI: (Olha para cima frustrado e com raiva. E fica sarcástico) E isso não é ótimo? Você me faz gastar com cinco anos de contas da faculdade, tem uma educação de primeira linha, em uma profissão que te deixará financeiramente segura para o resto da vida, e agora vai trabalhar de graça. Isso me soa irresponsável. Onde está a sua cabeça?

MARIA: Sim querida, parece um pouco estranho trabalhar... bem... de graça.

RAQUEL: (Ignorando seu pai) Mãe, eu sei que parece loucura, mas eu realmente quero fazer algo que valha a pena. Essas pessoas não têm absolutamente nada. Elas estão morrendo por coisas que nós podemos comprar na esquina. Não é justo. Alguém tem que fazer alguma coisa.

DAVI: (Ainda sarcástico) E esse alguém tem que ser você. Olha, tem um monte de gente nesse país, nessa cidade, que precisa de ajuda. Por que você não vai satisfazer seu coração mole e sua consciência com eles?

RAQUEL: Eu sei que tem gente doente aqui, mas se você comparar o que temos aqui com o que eles têm, simplesmente não tem comparação. Somos tão ricos, vivemos em mundos diferentes.

DAVI: Então, todas essas pessoas que vivem nas ruas, ou que sofrem de AIDS, ou as drogadas são ricas e bem de saúde?

RAQUEL: (Levanta-se, soluça, e começa a chorar) É claro que não. Mas pelo menos nós temos um sistema de saúde pública que pode tomar conta deles. As pessoas do Sri Lanka não têm nada. Absolutamente nada. Elas estão morrendo de fome enquanto nós temos três refeições por dia. Não é justo, não é justo! (Corre para o quarto)

(Davi serve-se de outro drink. Uma longa pausa enquanto ele e Maria se recompõem)

MARIA: Você sabe que ela vai não importa o que falemos.

DAVI: (Cansado e resignado com a situação) É, eu sei. Essa tonta. Acho que teremos simplesmente que recolher seus pedaços depois que ela cair na realidade.

MARIA: Talvez esse não seja o caso. Sabe, eu estava pensando no que ela está fazendo... eu tenho um certo orgulho dela.

DAVI: (Surpreso) O QUÊ???

MARIA: (Mais determinada) Sim, ela obviamente pensou muito tempo sobre isso – não é uma decisão impensada. Eu acho que ela está fazendo algo realmente especial. Ela precisa da nossa ajuda, não nossa reprovação. E o que ela mais precisa agora é que ajudemos em tudo o que ela precisar.

DAVI: (Muito surpreso) Nós vamos?

MARIA: Na verdade, nós vamos pagar sua passagem!

DAVI: (Mais surpreso) Nós vamos????

MARIA: E vamos mandar um sustento mensal.

DAVI: Ah não! Você entendeu errado, ela já teve tudo o que poderia ter de mim!

MARIA: Bem, se você não vai, eu vou. Eu ainda tenho algum dinheiro em uma poupança de quando eu dava aulas, eu vou ajudá-la. Ela é minha filha, e eu confio no julgamento dela.

DAVI: Você está falando sério, não? Você está mesmo do lado dela? Como você pode depois de termos investido tanto nela, e agora ela... ela está simplesmente jogando tudo fora!

MARIA: Ajudando pessoas que não podem se ajudar não é jogar tudo fora. Usar todas as habilidades e conhecimentos que ela levou cinco anos para desenvolver não é jogar tudo fora. Eu te digo o que é jogar tudo fora: É ter um sonho de fazer algo que valha realmente a pena, e a oportunidade e a habilidade para fazer algo, E NÃO FAZER NADA! Isso é jogar tudo fora. (Sai do palco)

DAVI: (Surpreso) Maria, você vai...

MARIA: Nossa filha precisa da nossa ajuda, eu vou ajudá-la a fazer as malas. Você pode vir também se quiser – e traga o talão de cheques! (Sai)

(Davi fica parado, olhando para o nada. Pega o talão de cheques do bolso, sacode-o um pouco, balança a cabeça, pensa um pouco, e sai).

 

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